Ascenção do Senhor – Ano A

(At 1,1-11; Sl 46[47]; Ef 1,17-23; Mt 28,16-20)*

1. Iniciamos a nossa reflexão nesta festa com essa fala do anjo na 1ª leitura, dirigida aos discípulos: “Homens da Galileia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu? Esse Jesus, que vos foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu”.

2. O que entendemos por céu? Quase todos os povos identificam o céu como a morada da divindade. Também a Bíblia usa essa linguagem espacial. Diferentemente de Deus que está “nos céus”, o ser humano está sobre a terra e depois da morte, sob a terra, no reino dos mortos.

3. Com Jesus que ressurge dos mortos e sobe ao céu, essa rígida separação é rompida. Com ele, o 1º ser humano sobe ao céu e com ele nos é dada uma esperança e uma garantia a toda a humidade de subir ao céu.

4. Com a era científica, todos estes significados religiosos atribuídos a palavra céu entraram em crise. O céu é o espaço onde se movem os planetas e o inteiro sistema solar, e nada mais. Há uma antiga piada atribuída a um astronauta soviético, que no retorno de sua viagem do cosmo diz: “Rodei ao longo do espaço e em nenhum lugar encontrei Deus!”.

5. Quando rezamos o “Pai-Nosso” ou mesmo quando a Bíblia usa a palavra céu, trata-se de um adaptara-se ao linguajar popular, mas ao mesmo tempo sabemos que Deus está no céu, na terra, em todos os lugares. Ele que tudo criou, não está “preso” a nenhum desses espaços.

6. Mesmo usando a expressão de que os Santos habitam com Deus no céu, não se trata de um lugar, mas muito mais de um estado. Deus está fora do espaço e do tempo. Quando falamos dele, não faz sentido dizer sobre ou sob, em cima ou em baixo. Isso não significa dizer que Deus não existe, que o paraíso não existe; o que se constata é que nos faltam categorias para poder representa-lo.

7. Assim como não podemos pedir a alguém que nasceu cego que nos descreva que coisa são as cores: o vermelho, o verde, o azul... ele não teria a capacidade explicar nem nós de fazê-lo compreender, porque as cores se percebem com os olhos. Assim somos nós querendo descrever a eternidade que é fora do tempo e do espaço.

8. O que significa, então afirmar que Jesus “subiu aos céus e está sentado à direta do Pai”? Significa afirmar e crer que, também como homem, ele entrou no mundo de Deus; que foi constituído, como diz Paulo na 2ª leitura, Senhor e cabeça de todas as coisas.

9. As palavras do anjo aos apóstolos escondem uma certa reprovação: não é necessário ficar olhando o céu, como tentando descobrir onde Cristo estará, mas viver na espera do seu retorno, prosseguir sua missão, levar o Evangelho aos confins da terra, melhorar a vida aqui em baixo.

10. Ele sobe aos céus, mas sem deixar a terra. Apenas desaparece do nosso campo de visão. Como Ele mesmo nos assegura: “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”.

11. O céu, entendido como lugar de repouso, do prêmio eterno aos que fazem o bem, ganha forma no momento em que Cristo ressurge e sobe aos céus, não a um céu pré-existente que o esperava, mas vai formar e inaugurar o céu para nós, como nos disse dois domingos atrás (cf. Jo 14,2-3).

12. Que faremos no céu? Não será uma experiência monótona? Estar bem e com ótima saúde seria algo monótono? Estar ao lado de quem se ama seria algo monótono? Quando se experimenta um momento de intensa e pura alegria, não nasce em nós o desejo de que esse momento nunca se acabe?

13. Aqui, essas experiências não duram para sempre, porque não há nada que possa satisfazer indefinidamente. Com Deus é diferente. A nossa mente encontrará nele a Verdade e a Beleza que jamais deixaremos de contemplar e o nosso coração o Bem que não nos cansaremos de desfrutar. Eis o céu que desejo para mim e para vocês.

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa.

Pe. João Bosco Vieira Leite