5º Domingo da Páscoa – Ano A

(At 6,1-7; Sl 32[33]; 1Pd 2,4-9; Jo 14,1-12) *

1. No Evangelho deste 5º domingo do tempo pascal encontramos uma das afirmações mais fortes e absolutas de todo o Novo Testamento. É a resposta que Jesus a dá a Tomé sobre o como chegar ao Pai: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim”.

2. Jesus se proclama a meta última de nossa existência e o caminho para atingi-la. Poderíamos desenvolver, sobre essa afirmação, infinitas considerações. Mas dando um pouco de continuidade ao que refletimos no domingo anterior, o que pensar das outras religiões, à luz dessa palavra de Jesus?

3. Poderíamos colocar três perguntas: O que pensa o cristianismo de si mesmo? O que pensa sobre as outras grandes religiões? É possível um diálogo e uma colaboração entre os cristãos e os pertencentes às outras religiões?

4. Antes de tudo, o que o cristianismo pensa de si mesmo. A diferença do judaísmo, de onde nasceu, o cristianismo se proclamou desde o início como religião universal, isto é, não ligada a um povo, uma raça, mas destinado a todas as pessoas, como o próprio Jesus determinou ao enviar seus discípulos por todo o mundo.

5. Não só uma religião aberta a todos, onde todos podem entrar, mas uma religião, que segundo a revelação cristã, todos devem entrar (no sentido de que são chamados), mas está escrito que fora de Jesus, nenhum outro nome pode nos salvar (At 4,12). Ele é apresentado nas Escrituras como “o mediador entre Deus e os homens” (1Tm 2,5).

6. Tal afirmação se baseia sobre o fato que Jesus é Deus, não um simples enviado ou profeta. Isto faz parte do núcleo essencial da fé cristã. Jesus reivindicou para si esta universalidade de modo absoluto, e ressuscitado dos mortos por Deus Pai, é confirmado nessa sua reinvindicação. Isso é algo que se confirma não de modo teórico, mas quem tem dentro de nós essa certeza, quem conhece a Jesus e entende que ele é verdadeiramente o caminho, a verdade e a vida.

7. Segundo passo: que pensar das outras religiões? O pensamento cristão passou por uma evolução, favorecida pela conquista moderna da tolerância e da liberdade religiosa. O Vaticano II tem um documento próprio (Nostra aetate) onde aprecia cada uma das grandes religiões a partir de sua maior ou menor relação com o cristianismo, naquilo que têm de positivo e sempre com grande respeito.

8. Certamente já ouvimos a afirmação de que “fora da Igreja não há salvação” e que só os que eram batizados podiam salvar-se. Já não somos tão assim categóricos. Reafirmamos tudo sobre Jesus como via ordinária da salvação, mas também somos convictos de que Cristo age também fora dos canais ordinários que são o batismo e a adesão a Igreja.  

9. Aqueles que, sem conhecer o Evangelho, vivem de acordo com os ditames da sua consciência e segundo os princípios da própria religião e ajudam o próximo, podem estar unidos a Cristo mais que tantos batizados que não vivem de fato as exigências do próprio batismo. Deus pode servir-se dessas “sementes da verdade” que se encontram em outras religiões para conduzi-los à salvação. Deus, que quer que todos os seres humanos sejam salvos, encontrará os seus meios...

10. Por fim, é possível o diálogo? Não se trata de cair na falácia de que todas as religiões são igualmente boas e verdadeiras, numa espécie de relativismo religioso que destrói a raiz de toda religião, mas reconhecer a cada uma o direito de ter como verdadeira e definitiva a própria religião.    

11. Há um vasto campo onde as religiões podem contribuir positivamente para o bem da humanidade. Antes de tudo, manter vivo o senso de Deus, da oração e do mistério, num mundo que tende a afundar-se sempre mais no materialismo num sério risco de asfixia espiritual; para resolver questões étnicas, trabalharem juntos pela paz, para salvaguardar a criação, e por uma justa distribuição das riquezas do mundo.

12. Quando se fala das várias religiões, é necessário insistir mais sobre o que une do que o que divide. São João Paulo II abriu um caminho significativo de diálogo entre as religiões em seu pontificado. Criar um espaço para conhecer melhor o outro. O confronto e o diálogo com membros de outras religiões podem ajudar a entender melhor as implicações da nossa própria fé, tanto quanto nossas incoerências.

13. Gandhi, com a sua vida e o ideal da não-violência, ensinou muitas coisas a nós cristãos, pois captou e valorizou um dos pontos mais importantes do Evangelho. Ele dizia que Jesus Cristo o fascinava, mas que os cristãos lhe davam medo. O confronto com outras religiões nos leva, por fim, a sermos mais humildes, não mais arrogantes. E podemos bendizer ao Senhor por viver num tempo onde tal confronto não só é possível, mas é necessário.

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa.

Pe. João Bosco Vieira Leite