Terça, 02 de junho de 2026

(2Pd 3,12-15.17-18; Sl 89[90]; Mc 12,13-17) 9ª Semana do Tempo Comum.

“As autoridades mandaram alguns fariseus e alguns partidários de Herodes

para apanharem Jesus em alguma palavra” Mc 12,13.

“A hostilidade contra Jesus uniu os seus adversários. Os enviados para armar-lhe ciladas são partidários da facção farisaica e do partido dos herodianos. Os fariseus eram bem conhecidos por seu apego às prescrições da Lei e por sua postura anti-romana. Embora resistissem aos opressores, de forma não-violenta, recusavam-se, decididamente, a conformar-se com a dominação estrangeira. Por sua vez, os herodianos estavam ligados à casa de Herodes cujos membros exerciam a autoridade em nome do imperador romano. Os fariseus buscaram a ajuda dos herodianos por saberem que estes, embora indiferentes quanto às questões religiosas, tinham interesse em abafar os movimentos populares de caráter messiânico, para evitar problemas com Roma. Por isso, fecharam os olhos às suas divergências ideológicas e optaram fazer um conluio com seus inimigos para garantir a eliminação de Jesus. A questão dirigida ao Mestre – ‘É lícito ou não pagar o tributo a César?’ – era de caráter eminentemente político. Respondendo sim, Jesus entraria no rol dos que se opunham à autoridade romana. Respondendo não, perderia a simpatia do povo, o qual, na certa, o consideraria um traidor, por reconhecer e justificar a opressão estrangeira. Jesus deu-lhes uma resposta admirável: nada impede de dar a César o que lhe pertence, desde que o absoluto de Deus seja respeitado. Deus é a medida de tudo! – Pai, tudo quanto existe no universo te pertence. Ensina-me a subordinar tudo ao teu querer e a considerar-te a medida de tudo” (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 01 de junho de 2026

(2Pd 1,2-7; Sl 90[91]; Mc 12,1-12) 9ª Semana do Tempo Comum.

“Jesus começou a falar aos sumos sacerdotes, mestres da Lei e anciãos, usando parábolas: ‘Um homem plantou uma vinha, cercou-a, fez um lagar e construiu uma torre de guarda. Depois arrendou a vinha a alguns agricultores e viajou para longe’” Mc 12,1.

“Depois da expulsão dos vendedores do Templo, Marcos conta o confronto entre Jesus e os sumos sacerdotes, os escribas e anciãos. E no meio desses debates Marcos insere a parábola dos vinhateiros homicidas. Essa história não é tão complexa quanto outras parábolas que podem receber interpretações em vários níveis. Aqui, Jesus está contando seu próprio destino, e os ouvintes sabem muito bem de que está falando: ‘Tinham compreendido que era para eles que ele dissera esta parábola’ (12,12). Jesus começa a parábola com uma descrição do cântico da vinha, do profeta Isaías: ‘Um homem plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou um lagar e construiu uma torre’ (12,1 = Isaías 5,1s). No Antigo Testamento, a vinha é um símbolo recorrente do povo de Israel. Deus mesmo plantou essa vinha. Arrendou-a a vinhateiros. Deve ser uma metáfora que designa os responsáveis pelo povo, os sumos sacerdotes e escribas. Por três vezes Deus manda um servo, para receber dos vinhateiros sua parte da produção da vinha. Os servos representam os profetas que Deus enviou vez por outra a seu povo. Mas, muitas vezes, o povo de Israel acabou matando os profetas. Chega a causar assombro a paciência de Deus para com seu povo. Ele reage de uma maneira bem diferente à infidelidade do que faríamos nós humanos. O próprio Jesus ilustra essa atitude: ‘Só lhe restava seu filho amado. Enviou-o por último, dizendo consigo mesmo: ‘Respeitarão meu filho’’ (12,6). Nessa passagem, Jesus quer mostrar claramente aos adversários a quem estão tentando matar: o filho bem-amado de Deus. Com esse versículo, Marcos interpreta o mistério da encarnação e da morte de Jesus. Deus nos mandou, em Jesus, seu Filho amado. A vinda de Jesus é expressão do amor paciente de Deus. Mas a consideração de Deus é anulada pelas maquinações contrárias dos vinhateiros: ‘Disseram uns aos outros: ‘É o herdeiro. Vinde! Matemo-lo e ficaremos com a herança’’ (12,7). Eles o agarram, o matam e lançam seu corpo fora da vinha, para que os animais o devorem. Segundo a lei judaica, isso é crime de injúria (Grundmann, 323). Com essa parábola, Jesus desvenda a tramoia de seus adversários. É a última tentativa que Jesus faz, ‘para abrir os olhos de seus inimigos: mostrando-lhes todo o alcance de seu intento de mata-lo, Jesus lhes dá a oportunidade de voltarem a si enquanto é tempo e de pararem de conspirar contra ele’ (Iersel, 193). Mas é em vão a tentativa de Jesus. O leitor sabe que hão de mata-lo – desta vez a vítima não é apenas um profeta, mas o filho amado de Deus” (Ansel Grün – Jesus, caminho para a liberdade – Vozes).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Santíssima Trindade – Ano A

(Ex 34,4-6.8-9; Sl Dn 3; 2Cor 13,11-13; Jo 3,16-18) *

1. Nessa “era do vazio” que nos atravessa, a Trindade pode parecer insignificante e ficar remetida apenas para velhos compêndios de teologia, de uma espécie de geometria religiosa. Precisamos recuperar esse desejo de mergulhar do mistério do próprio Deus para alimentar a nossa experiência cristã cotidiana, nos motiva a festa de hoje.

2. O Antigo Testamento nos veio preparando para a revelação que o Novo Testamento nos trouxe. Vou tentar uma síntese que nos ajude não a compreender, mas adentrar nesse mistério e perceber a relação de entrega e doação que se estabelece no interior do próprio Deus.

3. Deus, enquanto dádiva suprema fundante, é o Pai. Mas a dádiva suprema do Pai, infinita riqueza, constitui o Filho, infinita pobreza, que tudo recebe. Aquele que tudo recebe, o Filho, volta a dar tudo numa infinita doação e sem limites. Esta comunhão-comunicação que circula vertiginosa, tranquila e imperecível entre os dois constitui o Espírito Santo.

4. Por isso, atribuímos a 3ª Pessoa da Santíssima Trindade a qualidade de Dom. O Espírito, Pessoa-Dom incriado, é o protagonista da missão e de toda a vida eclesial. É, porém, um protagonista silencioso como o Dom é silencioso. Silencioso, mas eficaz.

5. A ação calorosa do Espírito-Dom não é limitada a certos países, línguas, povos, etnias, religiões. Ele está para além de todas essas barreiras, pois atua diretamente na inteligência e no coração de cada ser humano. E como vimos no domingo anterior, é Ele que nos ajuda na compreensão do mistério divino, porque Ele é Deus.

6. A Liturgia da Palavra apresenta Deus como mistério de amor. Um mistério que se vem revelando, atravessando toda a Sagrada Escritura. No centro deste Mistério do Amor de Deus em ação em nossa história está a missão do Filho de Deus com o Espírito Santo. Uma missão que constitui em elevar a nossa humanidade a viver, por graça, ao nível da sua divindade.

7. Para isso o Filho desce até nós, como diz são Paulo, sem apegar-se a sua condição divina. Em sua humanidade Crucificada, Ressuscitada e Glorificada, nos é revelado o Pai. Assim, passamos a compreender que tudo vem do Pai, mediante o Filho, no Espírito; tudo volta ao Pai, mediante o Filho, no Espírito.             

8. Por isso a Festa de Pentecostes está próxima dessa que hoje celebramos. O Espírito, como aos discípulos de ontem, dá-nos a inteligência da vida e da paixão de Jesus e de todo o Antigo Testamento.

9. Nessa ação de recordar, o passado é reclamado, para salientar o excesso de dom, deixando-nos em estado de excitação que quer provocar em nós a decisão de nos empenharmos no presente para respondermos agora ao dom que nos é oferecido: o desejo, de nos tornarmos, de fato, filhos de Deus.

10. Podemos concluir com as palavras de São Paulo, arrebatado por esse mistério: “Ó abismo de riqueza, de sabedoria e de ciência em Deus! Quão impenetráveis são os seus juízos e inexploráveis os seus caminhos! Quem pode compreender o pensamento do Senhor? Quem jamais foi o seu conselheiro? Quem lhe deu primeiro, para que lhe seja retribuído? Dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele a glória por toda a eternidade! Amém!” (Rm 11,33-36)

* Adaptado do texto de D. António Couto   

Pe. João Bosco Vieira Leite