(Ex 19,2-6; Sl 99[100]; Rm 5,6-11; Mt 9,36—10,8) *
1.
Parafraseando uma frase célebre de Jesus e resumindo o nosso evangelho, podemos
afirmar: “A Igreja é para o homem, não o homem para a Igreja”. Nosso olhar
sobre as palavras e os gestos de Jesus neste texto nos ajudam a entender porque
existe a Igreja, os apóstolos com seus sucessores, e qual deve ser a alma de
todo apostolado.
2.
O texto inicia com esse olhar de Cristo sobre as multidões. Sua compaixão é o
coração profundo do Evangelho, a fonte escondida de onde flui a obra da
redenção, onde se revela o coração de nosso Deus em seu amor pela humanidade.
Ao longo dos evangelhos, só Ele expressa esse tipo de sentimento para as mais
diversas pessoas e situações.
3.
Ele não esconde sua comoção, não tem medo de deixar-se ver. E essa comoção é o
melhor dom que se pode oferecer a quem está à sua frente com sua dor e suas
penas: ela diz mais que palavras e discursos. Não é uma compaixão estéril, como
vemos a seguir. Não se limita ao plano dos sentimentos e das palavras.
4.
O cap. 9 termina com esse convite a rezar ao dono da messe, mas a liturgia
emenda logo no capítulo seguinte para nos traduzir na prática a compaixão de
Cristo diante da multidão. É aqui que vislumbramos o nascimento da Igreja. Do
chamado dos Doze e do consequente envio.
5.
Sabemos que doze é uma referência às tribos de Israel. Assim sua intenção e dar
início à Igreja, modelando o novo Israel sobre o antigo, a nova aliança sobre a
antiga, para dar pleno cumprimento. Ele impõe alguns limites momentâneos à
missão, mas sabemos de suas imersões nesses territórios pagãos e interações com
outras pessoas não judias.
6.
Sua missão primeira diz respeito ao povo escolhido e só depois estende-se aos
pagãos. E no mais, os apóstolos ainda não estavam preparados, Pentecostes ainda
não havia se dado para vencer neles todas as resistências. Que não eram poucas.
7.
Assim Jesus deixa claro que não veio ao mundo para fazer o bem àqueles que
encontrou em sua breve vida terrena, mas para fundar uma comunidade que
perpetuaria no tempo e dilataria no espaço a sua obra. A escolha de
colaboradores estáveis, oficialmente designados (este é o significado do termo
‘apóstolo’), aponta justamente para isto.
8.
Aqui se dá início a futura estrutura da sua Igreja. Por isso, rezaremos daqui a
pouco, ela é “una, santa, católica e apostólica”: porque fundada sobre os
apóstolos. Todo “privilégio” do clero e toda real discriminação em relação à
comunidade são excluídos logo ao início: “De graça recebestes, de graça deveis
dar!”, conclui o nosso texto. Condividir e servir.
9.
O texto deixa claro para o quê os envia, revelando assim a natureza da própria
Igreja. E assim podemos ver em sua raiz que a Igreja é para o homem, não o
homem para a Igreja. Ela existe para a salvação do ser humano como um todo,
alma e corpo. Se objetivamos o céu, a vida com Deus, não o podemos fazer sem
dar atenção às necessidades dessa vida.
10.
De tudo isso, deveríamos sentir a Igreja como “nossa”, como um dom de Cristo,
como a encarnação da sua compaixão pela humanidade, não como qualquer coisa de
estranha, uma “super estrutura” que preferiríamos, talvez, que não existisse. O
que mantém muitas pessoas distante da Igreja como instituição são, de modo
geral, os defeitos, as incoerências, os erros passados ou presentes dos que
estão à frente da mesma.
11.
Não preciso lembrar a humanidade dos mesmos, ou mesmo que o grupo dos doze não
era tão perfeito assim. As escolhas de Jesus não se baseiam naquilo que se é,
mas naquilo que se podem tornar com a sua graça, e em seu seguimento. A Jesus
não interessa tanto que seus colaboradores sejam perfeitos, mas que tenham um
coração capaz de se compadecer como o seu.
12.
E isto não diz respeito só aos que estão à frente da Igreja, mas a todos os
batizados. Quando essa compaixão, como aquela de Cristo, se traduz em gestos
concretos de solidariedade – e cada um naquilo que lhe é possível e que depende
dele –, está ali, hoje, um verdadeiro discípulo de Cristo. Ali se realiza,
mesmo em pequena parte, o fim para o qual Cristo quis a Igreja.
* com base em texto de Raniero
Cantalamessa
Pe.
João Bosco Vieira Leite