22º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Jr 20,7-9; Sl 62[63]; Rm 12,1-2; Mt 16,21-27) *

1. Nossa Liturgia da Palavra se abre com esse trecho do profeta Jeremias. Ele faz um desabafo diante de Deus que o envia a anunciar e tempo de sofrimento para um povo que não o escuta, pois estão acostumados com as palavras dos profetas que acariciam e embalam o povo com previsões de paz e segurança.

2. Nestas condições, o profeta, que fala realmente em nome de Deus, se torna objeto de ironia, a chacota de todos. Falar em nome de Deus se torna uma tarefa desgastante. Ele tenta escapar de tal missão. Mas o profeta não vai desistir, não pode desertar: Deus o seduziu. A Palavra de Deus entrou nele qual fogo devorador que o profeta não pode abafar.

3. Na 2ª leitura, Paulo exorta os cristãos a oferecer-se “em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. E assim chegamos ao Evangelho, onde Jesus nos diz: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. Quem quiser conservar a sua vida vai perde-la... O que adianta alguém ganhar o mundo inteiro se depois vai perder a própria alma?

4. Essas palavras de Cristo, tão austera da cruz, faz tremer as veias e os pulsos de nossa pobre natureza humana. “Renunciar a si mesmo” não são palavras que o nosso tempo goste de ouvir. Talvez fosse melhor ouvir sobre como combater as injustiças do mundo, do que combater e vencer a nós mesmos.

5. Como Jeremias, também nós pregadores gostaríamos de fugir dessa ingrata missão, aparentemente inútil, anunciar ao nosso tempo as palavras que eles não gostam e não querem ouvir. Porque também somos filhos desse mesmo tempo que não quer ouvir falar em cruz.

6. Mas não se trata de simplesmente anunciar a cruz, mas também o de fazer compreender o significado daquele anúncio de Jesus, qual o sentido ela tem para nós, para nossa experiência humana e para o nosso destino.

7. Vivemos numa civilização que recusa e combate a alienação de si mesmo e que propõe, ao invés, o valor supremo da pessoa, a própria realização. O trabalho, o tempo livre, a cultura, toda promoção e emancipação social, tudo é visto em função de uma autorrealização do ser humano. Ele quer vencer, não perder, tanto menos perder sua vida.

8. Enfim, a que somos convidados a renunciar? Não às nossas autênticas possiblidades e aos valores humanos, mas à parte doentia de nós mesmos, o inimigo de Deus e nosso, inimigo que mora em nossa carne: o ser humano egoísta, dominado pela ganância e pela concupiscência, que não é capaz de amar ninguém a não ser a si mesmo e isto ademais, de modo equivocado. O ‘homem velho’, como chama a Bíblia.

9. Dando um passo mais adiante: renúncia por quem e por qual motivo? “Por causa de mim”, diz Jesus, por amor a Deus. Por causa, portanto, de uma escolha, a escolha de Deus em lugar do nosso eu; por causa da esperança que Deus nos oferece além da morte: “que adianta ganhar o mundo inteiro...”.

10. Este caminho estreito que o Evangelho nos traça tem, portanto, Deus como sua meta e prêmio. Mas tem Deus também em seu início. Jesus, com efeito, inaugurou e percorreu pessoalmente este caminho e por isso ‘tomar a cruz’ significa agora ‘ir após ele’, colocar os pés em suas pegadas, segui-lo. Jesus fala da cruz dos discípulos, depois de falar da sua.

11. Ao terceiro dia ressuscitará e também seus discípulos vão ressuscitar. É este evento da morte e ressurreição do Salvador a fonte e o modelo do nosso perder-nos para reencontrar-nos, do nosso morrer para viver.

12. Este evento se repete agora diante dos nossos olhos no sacrifício da missa. Procuremos haurir desse acontecimento a coragem para segui-lo e o propósito de oferecer de verdade a nós “mesmos em sacrifício vivo a Deus”. Senhor, ensina-nos a perder-nos para reencontrar em vós a vida eterna.    

* com base em texto de Raniero Cantalamessa.    

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 29 de agosto de 2026

(Jr 1,17-19; Sl 70[71]; Mc 6,17-29) Martírio de São João Batista.   

“Herodes tinha mandado prender João e coloca-lo acorrentado na prisão. Fez isso por causa de Herodíades, mulher do seu irmão Filipe, com quem se tinha casado” Mc 6,17.

“’E falarei dos teus preceitos diante dos reis, sem me envergonhar. E deleitar-me-ei nos teus mandamentos, que amo’ (Sl 118,46-47). No dia 24 de junho, a Igreja celebrou o nascimento de São João Batista; hoje comemora o seu ‘dies natalis’, o dia da sua morte, ordenada por Herodes. Este rei, como o chama São Marcos, é um dos personagens mais tristes do Evangelho. Foi durante o seu governo que Cristo pregou e se manifestou como o Messias esperado. Também teve oportunidade de conhecer João, incumbido por Deus de mostrar o Messias, e chegou a ouvi-lo com gosto (Mc 6,17-20). Podia ter conhecido Jesus, a quem queria ver pessoalmente, mas cometeu a enorme injustiça de mandar decapitar aquele que poderia tê-lo levado até o Senhor. A imortalidade da sua vida, as suas más paixões, impediram-no de descobrir a Verdade e levaram-no a esse grande crime. Foi tal a cegueira da sua mente e do seu coração que, quando realmente se encontrou cara a cara com o Senhor do céu e da terra (Lc 23,6-9), pretendeu que o entretivesse, a ele e aos amigos, com algum dos seus prodígios. São João pregava a todos: à multidão do povo, aos publicanos, aos soldados (Lc 3,10-14); aos fariseus e saduceus (Mt 3,7-12), e ao próprio Herodes. Com seu exemplo humilde, íntegro e austero, avalizava o seu testemunho sobre o Messias, que já tinha chegado (Jo 1,29; 36-37). João dizia a Herodes: ‘Não te é lícito ter a mulher do teu irmão’ (Mc 6,18). Não temeu os grandes e poderosos, nem se importou com as consequências das suas palavras. Tinha presente na alma a advertência do Senhor ao profeta Jeremias, que a primeira leitura da Missa nos recorda hoje: “Tu, pois cinge os teus rins, levanta-te e diz-lhes tudo o que te mando. Não lhes tenha medo, porque eu farei que não temas a sua presença. Porque eu te converto hoje em cidade fortificada, em coluna de ferro e em muro de bronze sobre toda esta terra, diante dos reis de Judá, dos seus príncipes, dos seus sacerdotes e do seu povo. E pelejarão contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para te livrar” (1,17-19). O Senhor pede-nos também essa fortaleza e coerência, para que saibamos dar na vida diária um testemunho simples por meio do nosso exemplo e da nossa palavra, sem medo nem respeitos humanos” (Francisco Fernandez-Carvajal – Falar com Deus – Vol. 7 – Quadrante).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sexta, 28 de agosto de 2026

(1Cor 1,17-25; Sl 32[33]; Mt 25,1-13) 21ª Semana do Tempo Comum.     

“O Reino dos Céus é como a história das dez jovens que pegaram suas lâmpadas de óleo

e saíram ao encontro do noivo” Mt 25,1.

“Os exegetas sempre tentaram explicar o sentido do azeite. Muitos o interpretam como sendo as boas obras que devem juntar-se à fé (representada pelas tochas). Agostinho vê no azeite o símbolo da convicção que deve determinar a ação do cristão. Para ele, o azeite é imagem do amor. Não posso repartir a minha convicção com os outros. As moças prudentes não podem dividir o seu amor com as insensatas. Posso dividir com os outros o meu pão, o vinho, meus bens materiais e espirituais. Mas não posso impingir aos outros a minha convicção. Essa é uma tarefa individual. Por isso, Agostinho entende a parábola como uma advertência: devemos despertar em nós o amor que já está dentro de nós, mas do qual estamos muitas vezes isolados. Uma senhora que tinha refletido sobre o sentido do azeite em sua vida comentou depois num grupo: o azeite serve para requintar as comidas, e com azeite posso ungir o meu corpo. Ela viu nessa parábola a permissão de Jesus para permitir-se certos mimos, para tratar bem a si próprio, para não andar o tempo todo com a consciência pesada. Cada um quer interpretar o azeite à sua maneira, dependendo da própria experiência. E é legítimo que cada um medite sobre a parábola de Jesus, de acordo com o horizonte particular de sua experiência.” (Anselm Grün – Jesus, Mestre da Salvação – Loyola).

Pe. João Bosco Vieira Leite