Terça, 03 de fevereiro de 2026

(2Sm 18,9-10.14.24-25.30—19,3; Sl 85[86]; Mc 5,21-43) 4ª Semana do Tempo Comum.

“... e pediu com insistência: ‘Minha filhinha está nas últimas. Vem e põe as mãos sobre ela, para que ela sare e viva!’” Mc 5,23.

“No evangelho de hoje damos um passo adiante: o poder de Jesus manifesta-se inclusive perante a morte, que se submete a sua palavra imperativa; a ressurreição da filha de Jairo significa o poder de Jesus sobre a vida humana. Por um lado, vemos Jairo orando com as devidas condições que a oração exige: - ora com humildade: o evangelho diz ‘lançou-se-lhe aos pés’ (v. 22), prostrando-se diante de Jesus; - ora com perseverança: o evangelho diz ‘rogando-lhe com insistência’ (v. 23); - ora com fé no poder de Jesus: ‘Vem, impõe-lhe as mãos para que se salve’ (v. 23). No entanto, a oração de Jairo não é de todo perfeita, pois sua fé não é total; pensa que Jesus não pode curar à distância, com a simples ordem de sua palavra, mas que necessita da presença e do contato físico; foi preciso que Jesus o auxiliasse e assim, quando deram a notícia a Jairo de que não precisava mais incomodar o Mestre, pois sua filha tinha morrido, Jesus disse-lhe: ‘Não temas; crê somente’ (v. 36). Às vezes pensamos que no mundo precisamos de muitas coisas, muitos bens, muitas comodidades, que julgamos serem verdadeiras necessidades, de muita preparação, muito cultura, muito dinheiro, muito trabalho. Na realidade diz-nos o Senhor que o que realmente necessitamos é de muita fé; estamos indigentes de fé, falta-nos a fé, despreocupamo-nos com a fé. Repita com frequência esta simples e breve oração: ‘Senhor, concede-me a fé e concede-me suficiente fé’” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

 

Segunda, 02 de fevereiro de 2026

(Ml 3,1-4; Sl 23[24]; Hb 2,14-18; Lc 2,22-40) Apresentação do Senhor.

“Quando se completaram os dias para a purificação da mãe do filho, conforme a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresenta-lo ao Senhor” Lc 2,22.

“Dentro do culto israelita, as noções de purificação e santificação são muito próximas e se completam. A purificação retira todo obstáculo que impede de aproximar-se de Deus; e a santificação é a preparação para esse encontro com Deus, ou o resultado desse encontro. Depois do nascimento de um filho homem, a mulher fica impura durante sete dias, devendo abster-se de relações sexuais por mais de trinta dias. Ao fim dos quarenta dias, há um rito de purificação, como nos relata o evangelista Lucas. O objetivo deste rito é remover a impureza para que seja possível que a mulher possa participar das atividades do culto. Observa-se que a pureza é conseguida através de um rito, e tem uma perspectiva muito mais material do que moral. No entanto, ao longo do tempo, os profetas e os salmistas vão acentuando que a purificação precisa incluir um aspecto moral. Esta verdade culmina em Jesus, Ele mesmo proclamando que a fonte da pureza está na coerência da palavra e das práticas, e não apenas no rigor em cumprir leis. A Sagrada Família observa as regras de pureza legal e Jesus, em seu ministério, não as destitui, mas aponta para o valor da pureza do coração. Esse é o aspecto principal, o de assemelhar-se a Deus. A caridade brota de um coração puro. Ser santo como Deus é santo. Atos concretos de misericórdia, humildade, compaixão, bondade, dignidade, deixam transparecer a santidade humana; um coração pronto para servir continuamente, através de uma disponibilidade que precisa ser trabalhada diariamente e contar, sem dúvida, com essa intimidade com o sagrado, por meio da oração. – Senhor, que eu encontre motivos para buscar todos os dias a santidade e a pureza de coração a fim de ser um sinal de sacralidade dentro dos apelos profanos do mundo ou o rigor de suas leis que nem sempre cuidam da alma, mas apenas das estruturas. Amém! (Patrícia de Morais Mendes de Sousa – Meditações para o dia a dia [2017] – Vozes).

Pe. João Bosco Vieira Leite

4º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Sf 2,3; 3,12-13; Sl 145[146]; 1Cor 1,26-31; Mt 5,1-12) *

1. Neste domingo iniciamos o famoso Sermão da Montanha, com as chamadas bem-aventuranças. Elas começam com a célebre frase: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus”. Tal expressão de Jesus deve ser entendida em toda a sua extensão.

2. Pobreza é uma palavra ambivalente. Pode significar duas coisas diametralmente opostas: a pobreza como condição social imposta, que desumaniza, a qual devemos sempre combater; e a pobreza como escolha livre, como estilo de vida. Aqui vamos refletir sobre esse segundo aspecto, da pobreza positiva.

3. Na Bíblia, não se fala da pobreza material como uma escolha de vida antes da vinda de Cristo. Ao máximo se fala do dever de socorrer os pobres, nunca de fazer-se voluntariamente pobre. Por quê? Simples, poque ainda não tinha vindo o Reino do Céu!

4. Não existia ainda aquele motivo superior, aquele bem infinitamente maior, pelo qual seria racional renunciar, se necessário, a todos os outros bens, ou mesmo a um olho, uma mão e à vida mesmo. Jesus provoca essa inversão de todos os valores.

5. É a riqueza que não passa, que a traça não corrói, que não pode ser roubada; que não se deixa a outros, mas que se leva consigo; é o ‘tesouro escondido’, a ‘pérola preciosa’ pela qual vale a pena vender tudo para possuí-la. O Reino dos Céus, em outras palavras, é Deus mesmo.

6. Esse Reino do Céu provocou uma mudança radical e abriu novos horizontes, gerando um impacto parecido com a descoberta de um novo continente ao final do século XV. Os velhos valores do mundo – dinheiro, poder, prestígio – sofrem mudanças, relativizam-se, e são até renegados, por causa da chegada do Reino.

7. Nessa inversão de valores, os pobres saem em vantagem, pois não têm nada a perder e estão prontos a acolher a novidade sem temer as mudanças. Estão mais dispostos a acreditar naquilo que canta Maria em seu Magnificat: “Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes, sacia de bens os famintos, despede os ricos sem nada...”.

8. Maria canta como se tudo já tivesse acontecido. No entanto, ao longo da história não testemunhamos nenhuma mudança do tipo. Ao contrário, os poderosos seguem em seus tronos. Mas olhando as coisas com certa distância, sabemos que muito dessa prepotência de alguns, simplesmente foi esvaziada com o tempo. Algumas revoluções não são tão visíveis.

9. Há aspectos da realidade que não colhemos a olho nu, mas com a ajuda de uma luz especial. Ela nos é oferecida pelo Evangelho, particularmente pelas bem-aventuranças. Ela nos dá uma imagem diferente do mundo, convidando-nos a olhar o que está em baixo ou um pouco além da fachada. Distinguir o que fica do que passa.

10. Mas não se trata só de observar, mas de praticar. Para além dessa escolha livre que alguns ainda fazem de uma pobreza e simplicidade de vida, é possível sempre praticar a sobriedade, a moderação, dizer não ao desperdício, ao consumismo, ao luxo ostensivo que é um insulto a tanta gente pobre.

11. Não é a abundância de bens materiais que por si só exclui do Reino, mas o mau uso: quando não se pensa nos outros. Jesus fala da experiência da alegria do coração não só no outro mundo, mas neste em que vivemos. Francisco de Assis conjugou em sua vida essa perfeita alegria e fraternidade universal. Ter tudo sem nada possuir.

12. Coisas demais, necessidades inúteis e artificiais causam dependência e nos tornam incapazes de qualquer renúncia, e adaptação a mudanças. Sufocam os valores mais profundos e nos tornam escravos das necessidades. A felicidade não consiste em poder satisfazer todas as necessidades, mas de ter menos necessidades possíveis a satisfazer.

Pe. João Bosco Vieira Leite