Segunda, 09 de março de 2026

(2Rs 5,1-15; Sl 41[42]; Lc 4,24-30) 3ª Semana da Quaresma.

“Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria” Lc 4,24.

“A hostilidade do povo de Nazaré, cidade onde fora criado, levou Jesus a redimensionar a sua missão, dando-lhe uma dimensão muito mais ampla do que inicialmente ele imaginava. No bojo da mentalidade judaica, Jesus sentiu-se responsável pelo anúncio da salvação, em primeiro lugar, aos judeus. Povo da Aliança, eleito para ser o povo predileto de Deus, os judeus sabiam-se privilegiados em termos messiânicos. O Messias seria enviado a eles, para proclamar-lhes libertação e salvação. Entretanto, Jesus experimentou hostilidade e rejeição ao exercer seu papel de Messias junto ao povo de sua cidade. Suas palavras e seus gestos poderosos foram alvo de críticas maledicentes, reveladoras de incredulidade. Os que o ouviam enceram-se de tamanha cólera, a ponto de querer jogá-lo a princípio, para eliminá-lo. Repensando a experiência de profeta do passado, como Elias e Eliseu, e a rejeição que sofreram, Jesus detectou um fato importante: a hostilidade do povo judeu levou povos estrangeiros a beneficiarem-se dos poderes taumatúrgicos dos profetas. Elias socorreu a pobre viúva da Fenícia, e Eliseu curou a lepra de Naaman, general da Síria. Se o povo de Nazaré recusava-se a acolher o Messias Jesus, este sentia-se impelido a tornar os não-judeus destinatários de seu ministério messiânico. – Pai, que eu saiba acolher Jesus e reconhece-lo como Filho de Deus, de modo a tornar-me beneficiário de seu ministério messiânico (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

III Domingo da Quaresma – Ano A

(Ex 17,3-7; Rm 94[95]; Rm 5,1-2.5-8; Jo 4,5-42)*

1. Esse episódio que acabamos de acompanhar gira em torno do simbolismo da água.  Um dos elementos do Batismo. Uma mulher da Samaria vem buscar água e Jesus, cansado, lhe pede de beber. Se instala um diálogo que começa pelo preconceito racial, enveredando para algo que transcende o simples elemento material.

2. Percebemos que dois tipos de água são colocados em contraste, indicando dois modos de conceber e de realizar a própria vida, dois objetivos, dois horizontes diversos. E assim podemos encaminhar nossa reflexão

3. A mulher tem buscado dar um sentido a sua vida e encher o vazio do seu coração com o amor de um homem. Mas inutilmente, faz notar Jesus. Até esse momento ela bebe de uma água que não é capaz de extinguir a sua sede, isto é, ela busca a felicidade onde ela não está, ou onde se dá de maneira breve.

4. À Samaritana, e a todos que se reconhecem nesse personagem, Jesus faz uma proposta radical: buscar uma outra ‘água’, dar um sentido e um horizonte novo à própria vida. Um horizonte eterno: “A água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna”.

5. A palavra “eternidade”, tempos atrás, catalisava os pensamentos de todos e ajudava a suportar com mais coragem as dificuldades da vida. Hoje ela se encontra um tanto em desuso. Quase uma espécie de tabu, como se ela tolhesse o esforço concreto e histórico de mudar esse mundo.

6. O resultado dessa mudança de cenário é que a vida, a dor humana, tudo se torna um grande absurdo. Se perdeu a medida, o equilíbrio, o peso, como numa antiga balança de dois pratos. Falta o contrapeso da eternidade. Assim todo sofrimento, todo sacrifício aparece como um absurdo, desproporcional. Puxa-nos pra baixo.  

7. Paulo lembrava aos seus leitores: “A nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, nos proporciona um peso eterno de glória incomensurável. Porque não miramos as coisas que se veem, mas sim as que não se veem” (2Cor 4,17-18).

8. Talvez alguém nos diga que é necessário viver, que é necessário contentar-se com essa vida. E quem não se contenta? Não é quem deseja a eternidade que demonstra não amar essa vida, mas quem não a deseja, resignando-se facilmente ao pensamento que é só isso e que terá um fim.

9. Na vida de cada um de nós tem um momento em que nos vem qualquer intuição sobre a eternidade, um lampejo, um sentimento, ainda que confuso, do infinito.

10. Como quem olha, calmamente para o céu ou o mar ou outro espetáculo da natureza que o atrai, esvaziando de tudo a mente, para sentir, por um instante, a emoção do eterno e do infinito. O sentido de eternidade dorme dentro de nós. Há quem busque essa sensação no naufrágio da mente, nas drogas e outras coisas que ao fim, só resta desilusão e morte.

11. Mas não basta saber que existe a eternidade, é necessário saber como se faz para atingi-la. Como pergunta aquele jovem rico do Evangelho: “Mestre, que devo fazer para ter a vida eterna?”. Comecemos por familiarizarmo-nos de novo com esta palavra. Isto já seria um grande ganho para a nossa sociedade, não só para Igreja.  

12. Nos ajudaria a reencontra o equilíbrio, a relativização das coisas, a não cair no desespero diante das injustiças e das dores do mundo. A viver menos freneticamente.

13. A nossa amiga Samaritana, no momento em que entendeu as palavras de Jesus, tornou-se também uma evangelizadora. Volta ao seu povoado e, sem constrangimento, partilha o que lhe disse Jesus. A coisa mais bonita e importante para um pregador é ouvir aquilo que disseram os compatriotas dela: “Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmo ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo”.

* com base em texto de Raniero Cantalamessa

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 7 de março de 2026

(Mq 7,14-15.18-20; Sl 102[103]; Lc 15,1-3.11-32) 2ª Semana da Quaresma.

“Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver;

estava perdido e foi encontrado” Lc 15,32.

“A exaltação da misericórdia e da benevolência divinas da primeira leitura está em sintonia com a página estupenda do Evangelho, autêntica proclamação da grandeza insondável do amor de Deus. Outra página justamente famosa redigida pelo ‘escritor da mansidão de Cristo’: o evangelista São Lucas, que aqui narra o coração do amor misericordioso de Deus por todos os homens. A guiar-nos na reflexão temos o pai, obstinado no perdão, que espera o regresso do filho mais novo, depois de ter experimentado a lonjura do pecado, a solidão completa e a esperança da liberdade. Mas este pai está obstinado também em procurar trazer para casa o filho mais velho e com isso a reconciliação deste com o irmão. O filho mais velho vive no desprezo do outro irmão e, talvez, do pai. Temos alguém que faliu longe de casa e alguém que ficou prisioneiro da sua mesquinhez e do juízo injusto para com o próprio pai: como é difícil o ‘papel’ desempenhado por Deus! Mas há necessidade deste pai que, como escreveu G. K. Chesterton: ‘ama tanto o seu filho que o apanha com um azol invisível e com uma linha de pesca invisível, que é suficientemente grande para o deixar vaguear até os confins do mundo e, no entanto, fazê-lo regressar com um só puxão da linha’” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Quaresma Páscoa] – Paulus).

Pe. João Bosco Vieira Leite