18º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Is 55,1-3; Sl 144[145]; Rm 8,35.37-39; Mt 14,13-21) *

1. Aqueles que buscam aprofundar-se na leitura da Palavra de Deus, vez por outra encontram algum termo ou palavra que lhes soa estranho, como, por exemplo, evangelhos sinóticos. Que significa? Identificamos como evangelhos sinóticos os três primeiros evangelhos: Mateus, Marcos e Lucas.

2. Se os pudéssemos colocar lado a lado, os perceberíamos como muito semelhantes em seu conteúdo, ainda que não sejam iguais. E que é possível lê-los, olhá-los, paralelamente, ainda que tenham suas exclusividades e os fatos não sigam a mesma cronologia. O quarto Evangelho escapa dessa categoria.

3. Mas a narrativa da multiplicação dos pães pode ser encontrada nos quatro Evangelhos. O texto pontua para nós algumas atitudes de Jesus. Primeiro, que Ele se preocupa, enche-se “de compaixão” de todos eles, de corpo e alma. Para a alma a Palavra, para o corpo a cura e o alimento.

4. Quem dera, podem pensar alguns, pudesse Ele ainda fazer tal milagre em nosso tempo... O milagre segue acontecendo ao longo das estações nos processos internos da natureza, associados ao trabalho humano, que ao nosso olhar se tornou comum, que a ciência explica. Mas quem “ordena” a natureza para que tudo tenha essa regularidade incrível?

5. Certamente o que Jesus faz é uma outra coisa, mas um gesto confirma o outro. Para quem olha as coisas sobre o olhar da fé, Deus continua multiplicando os pães e os peixes como fez Jesus. Por quê, então, o pão continua a faltar na mesa de tantos? O Evangelho nos traz um pouco de luz.

6. Jesus não tem varinha de condão. Não se trata de mágica. Mas pergunta os que eles têm e os convida a repartir o pouco que têm. Sabemos que a produção, em escala mundial, é suficiente para alimentar os milhares de seres humanos existentes.

7. Como podemos acusar a Deus de não fornecer alimento suficiente para todos, quando a cada ano se destroem milhões de reservas alimentares, chamadas de excedentes, para que o preço não abaixe? Sei que as coisas não são tão simples assim. Tem outras questões a serem levadas em conta e além disso muitos governantes irresponsáveis contribuem para manter muitas populações famintas...

8. Parte da responsabilidade recai também sobre os países ricos, aqui representado pelo garoto anônimo, que em outro evangelista, tem os cinco pães e dois peixes. Longe de partilhá-los, são mantidos em seus alforges. É preciso que alguma desgraça aconteça para movê-los em algum gesto de solidariedade.

9. Mas tenhamos presente um outro gesto de Jesus, muito importante: o modo como se descreve a multiplicação dos pães e dos peixes: “ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães e os deu aos seus discípulos...”.

10. As palavras e gestos de Jesus nos remetem sempre a pensar numa outra multiplicação, que é o seu Corpo eucarístico. Nós vamos encontrar em algumas antigas representações da Eucaristia, em pinturas ou afrescos, uma vasilha contendo cinco pães e ao lado dois peixes.

11. Estamos aqui fazendo também essa multiplicação dos pães: o pão da Palavra de Deus. Um milagre que antigamente se dava só pelos livros, e hoje, com toda tecnologia, podemos partilhar, multiplicar. Recolhemos os “pedaços” para aqueles que não vieram participar desse banquete. Que eles possam ter algo para refletir, pensar. Amém.

* com base em texto de Raniero Cantalamessa.  

Sábado, 01 de agosto de 2026

(Jr 26,11-16.24; Sl 68[69]; Mt 14,1-12) 17ª Semana do Tempo Comum.

“E mandou cortar a cabeça de João no cárcere” Mt 14,10.

“A voz austera do Batista ressoou no palácio de Herodes como se fosse uma chicotada que queria açoitar a imoralidade da conduta do rei e, ao condenar o procedimento do rei, dava a conhecer, bem às claras, que também deveriam sentir-se tocados por aquela voz que repreendia todas as situações injustas e imorais, que se alimentavam naquela corte. A fidelidade do profeta não considerou as categorias sociais, mais ainda, começou pelo chefe ou cabeça, pela autoridade, em uma corajosa demonstração de liberdade evangélica; nada pode calar aquela voz denunciante da imortalidade e da injustiça. João era profeta e falava como profeta e vivia como profeta e teve de morrer como profeta. Você não poderá afastar-se de sua missão profética por dificuldades de nenhuma espécie, nem por sofrimentos, humilhações e amarguras de qualquer espécie. Se você é profeta de Cristo, como Cristo é Profeta do Pai, à semelhança dele que chegou até a morte e morte de cruz, deverá estar disposto a chegar aos braços da cruz redentora, sabendo que nem tudo termina na cruz, mas sim na luz da ressurreição. Assim, você deverá denunciar profeticamente, com sua palavra e sobretudo com seu modo concreto de vida, qualquer injustiça e imoralidade. João Batista denunciou o adultério e o escândalo; muitas vezes você deverá denunciar a injustiça e a imoralidade. Sua presença no mundo, por ser a presença de um autêntico profeta, deve desacomodar o mundo não por agressividade, mas por seu exemplo, fazendo com que sua atitude seja uma contínua reprovação para o mundo e seus princípios. Herodes sentiu remorsos pelo crime que cometeu ao mandar decapitar o Batista; por isso, quando lhe chegou a notícia e a fama de Jesus, seu próprio remorso fê-lo crer que Deus tinha vigado seu crime, ressuscitando João Batista. O pecado carrega consigo o castigo do remorso, que força e dilacera a consciência pecadora; com o remorso desaparecem a tranquilidade e a paz. Procurar-se-á muitas vezes silenciar a voz da consciência, mas o aguilhão do remorso causará sempre indisposição e amargura” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

 Pe. João Bosco Vieira Leite  

Sexta, 31 de julho de 2026

(Jr 26,1-9; Sl 68[69]; Mt 13,54-58) 17ª Semana do Tempo Comum.

“Dirigindo-se para a sua terra, Jesus ensinava na sinagoga, de modo que ficavam admirados.

E diziam: ‘De onde lhe vem essa sabedoria e esses milagres?’” Mt 13,54.

“As interrogações levantadas pelo povo de Nazaré, a respeito de Jesus, já tinham, de antemão, uma resposta. Tendo Jesus saído do meio deles, era impossível que tivesse poderes divinos, como sua sabedoria e seus milagres deixavam transparecer. Não dava para combinar o fato de Jesus ser um nazareno e, ao mesmo tempo, ter sido autorizado a realizar as obras de Deus. Com isto os nazarenos não negavam que Deus pudesse intervir na história humana. Afinal, ele interviera continuamente na história de Israel, a partir da libertação do Egito por intermédio de Moisés. Os conterrâneos de Jesus estavam recusando-se a aceitar que Deus estivesse agindo a partir da família deste jovem de Nazaré. Isto não se enquadrava nos esquemas de esperança messiânica da época, segundo os quais, embora sendo homem, o Messias não assumira as condições que Jesus apresentava. Faltavam-lhe grandeza e dignidade! Sua condição de filho de carpinteiro e de homem do povo depunham contra ele. Em suma, não tinham gabarito nem credenciais para a missão que estavam realizando.  O pecado dos nazarenos consistiu em querer enquadrar Deus em seus curtos esquemas mentais. Como em Jesus Cristo Deus agiu à revelia das esperanças em voga, eles perderam a chance de acolher o Messias. Procuram longe, aquele que estava bem preso! – Pai, livra-me da tentação de querer enquadra-te em meus mesquinhos esquemas. Que eu saiba reconhecer e respeitar o teu modo de agir (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

 Pe. João Bosco Vieira Leite