(Is 5,1-7; Sl 79[80]; Fl 4,6-9; Mt 21,33-43)*
1.
A Palavra de Deus se nos apresenta, nesta missa, sob a forma de uma grande
imagem: um parreiral. Na 1ª leitura, ouvimos o cântico da vinha de Isaías. No
salmo responsorial, ouvimos a oração da vinha. E o Evangelho nos fez ouvir a
parábola da vinha e dos vinhateiros.
2.
Há duas maneiras de ler esta parábola da vinha: uma leitura histórica ou
narrativa, e outra numa interpretação atual. É a segunda que nos interessa, mas
não podemos compreendê-la sem uma compreensão histórica.
3.
A 1ª leitura deixa claro para nós que se trata da história do povo hebreu.
Libertado do Egito e transplantado para a terra prometida, como se transplanta
uma parreira. Mas os frutos não vieram. O resumo dessa história está no salmo
que se segue. O abandono de Deus se manifestou na queda de Jerusalém e no
exílio.
4.
Na versão de Jesus são os vinhateiros que se rebelam, não a videira; isto é, os
homens, não a terra. Ele não fala de destruição da vinha, mas ela será dada a outro povo. Uma clara alusão ao destino do povo de Israel por recusar os
profetas e maltratar “o Filho”.
5.
O povo a quem foi confiado o Reino somos nós, cristãos, que formamos a Igreja.
Nós somos agora, em sentido especial, a vinha de Deus. E aqui começa a
atualização da parábola.
6.
O evangelista João explora essa imagem da videira aplicada a nossa própria
relação com Jesus: “Eu sou a videira; vós os ramos. Quem permanecer em mim e eu
nele, esse dá fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (cf. Jo 15,5-6). Deus
não rejeitará mais sua vinha porque esta vinha é Cristo, a Igreja é o corpo de
Cristo.
7.
Assim, não haverá um terceiro povo de Deus. Mas ainda que haja a promessa de
que a Igreja sobreviverá até o fim dos séculos, isso não quer dizer que
indivíduos ou grupos que não produzem frutos nela permaneça. Ao longo da
história, muitos se perderam no caminho.
8.
Assistimos certas mudanças nos povos cristãos do Ocidente, mas a Deus não
interessa que fique em pé uma cultura cristã somente pelo fato de ser
tradicionalmente cristã; interessa que permaneça a fé em Jesus Cristo, a
aceitação de sua Palavra. Se esta faltar como videira, somos já rejeitados,
somos galhos secos a serem cortados.
9.
E a Palavra de Deus fica ainda mais séria se aplicada a cada um de nós. Fomos
enxertados em Cristo no Batismo, ele nos podou e alimentou. Agora tem o direito
de vir pedir os frutos. E vem, com efeito, também se nós não percebemos suas
visitas. O que queremos ser? Um ramo unido a Cristo, à Sua Palavra, ou um ramo
estéril, coberto somente de folha, isto é, um cristão de palavras, não de
fatos?
10.
A palavra traz o apelo a não nos separarmos da videira. A Eucaristia nos
oferece a possibilidade de reativar em nós o nosso Batismo e a circulação
daquela linfa que vem da videira. Tomemos como nossa a oração fervorosa da
vinha abandonada expressada pelo salmo: “E nunca mais vos deixaremos, Senhor
Deus! Dai-nos vida, e louvaremos vosso nome!”
*
com base em texto de Raniero Cantalamessa.
Pe.
João Bosco Vieira Leite