Sábado Santo –

 Uma meditação: “Tempo de desolação”

“Então Jesus perguntou: ‘O que ides conversando pelo caminho?’ Eles pararam com o rosto triste...” Lc 24,17.

“A morte de cruz mergulhou os discípulos numa profunda desolação. Os ideais cultivados na convivência com o Mestre esvaíram-se. Seu poder, sobejamente demonstrado nos milagres que realizou, dilui-se na impotência a que fora reduzido ao ser pregado na cruz, sem ter como se defender. Sua autoridade, manifestada no modo de falar e ensinar, pareceu desacreditada, ao ser reduzido à condição de maldito. Sua intimidade com o Pai pareceu ter sido de pouca valia, pois não se observou nenhuma manifestação divina a seu favor, quando se viu entregue nas mãos de seus algozes. O projeto de Reino, formidável na sua formulação, foi de água abaixo. Era insensato falar de justiça, fraternidade, partilha, num mundo onde o pecado brutaliza o coração humano, e a injustiça, a maldade, a prepotência pareciam ter a primazia. A desolação impedia os discípulos de considerar com clareza a morte de Jesus e de entende-la em conexão com a vida. O olhar obnubilado impedia-os de pensar diversamente e de considerar a possibilidade da intervenção do Pai na vida de Jesus. Afinal, não mostrara-se o Filho, de mil maneiras, absolutamente fiel a ele? A ressurreição abriu os olhos dos discípulos, permitindo-lhes reinterpretar a morte de Jesus sob nova luz. Então, o humanamente insensato tomou sentido novo, na perspectiva de Deus. Por isso, urgia não se deixar abater pela desolação, mas olhar para além da cruz. – Pai, que eu não me deixe abater pela desolação provocada pela cruz, pois a vida do Filho Jesus está colocada em tuas mãos. Creio que não o deixaste perder, mas a ressuscitaste da morte” (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Sexta, 03 de abril de 2026

(Is 52,13—53,12; Sl 30[31]; Hb 4,14-16; 5,7-9; Jo 18,1—19,42) Paixão do Senhor.

“Então Pilatos entrou de novo no palácio, chamou Jesus e perguntou-lhe: ‘Tu és o rei dos judeus?’” Jo 18,33.

“A paixão revelou a dignidade real de Jesus, embora, tenha havido uma radical contradição entre a interpretação de Jesus e a dos inimigos e algozes. Ao ser interrogado por Pilatos, Jesus respondeu: ‘Eu sou rei’, depois de fazer a autoridade romana concluir, por si mesma: ‘Tu o dizes!’.  A soldadesca insana ultrajou Jesus, servindo-se de mímicas burlescas próprias de uma investidura real: colocaram-lhe uma coroa de púrpura. A seguir, prostraram-se, ironicamente, diante dele, saudando-o como rei dos judeus. Por ordem de Pilatos, foi preparada uma inscrição, em três línguas, para ser afixada sobre a cabeça de Jesus, indicando a causa da condenação: ‘Jesus nazareno, rei dos judeus’. Alertado a mudar o teor da inscrição, Pilatos apelou para a sua autoridade: ‘O que escrevi, está escrito’. O evangelista observa que muitos judeus leram a inscrição, por ter sido crucificado perto da cidade. O Mestre, porém, tinha consciência de que seu Reino não era deste mundo, e estava estruturado de maneira diferente. Fundava-se na fraternidade, na justiça, na partilha, no perdão reconciliador. Os reinos deste mundo não serviam de modelo para Jesus fazer os discípulos entenderem o que se passava com o seu Reino. Por conseguinte, nem Pilatos nem os judeus tinham condições de compreender em que sentido Jesus era rei. – Pai, confirma minha condição de discípulo do Reino instaurado por Jesus na história humana, fazendo-me acreditar sempre mais na força da justiça e do amor (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).


Pe. João Bosco Vieira Leite

Quinta, 02 de abril de 2026

(Ex 12,1-8.11-14; Sl 115[116B]; 1Cor 11,23-26; Jo 13,1-15) Ceia do Senhor.

“Chegou a vez de Simão Pedro, Pedro disse: ‘Senhor, tu me lavas os pés?’” Jo 13,9.

“João tem duas interpretações para o lava-pés: numa ele o vê como símbolo e noutra como modelo. O conteúdo simbólico do lava-pés revela-se nas palavras: ‘Jesus (...) depõe o seu manto e toma um pano com o qual se cinge’ (13,4). Trata-se de uma metáfora da encarnação de Jesus. Ele depôs o manto de sua natureza divina e se apresenta com um pano, como escravo. O simbolismo do lava-pés aparece também no diálogo com Pedro. Este não quer permitir que Jesus lhe lave os pés. Pedro vê no gesto um serviço que cabe a um escravo.  Jesus respondeu-lhe: ‘O que eu faço, tu não és capaz de saber agora, mais tarde, porém, compreenderás’ (13,7). O lava-pés remete a um outro acontecimento, à morte de Jesus. É uma imagem do último serviço que Jesus prestará aos seus discípulos: sua morte por amizade na cruz. Quem recusa esse serviço não participa da salvação, da glória de Jesus: ‘Se eu não te lavar, não poderás ter parte comigo’ (13,8). Novamente, Pedro não entende o que Jesus gostaria de lhe dizer. Ele intui apenas que o lava-pés lhe dará parte com Cristo. Por isso pede que Jesus lhe dê logo um banho completo. Jesus lhe explica, então, o sentido de seu ato: ‘Aquele que tomou banho não tem nenhuma necessidade de ser lavado, pois está inteiramente puro’ (13,10). Os discípulos já se tornaram puros pelos atos e pelas palavras de Jesus. Bultman entende essa pureza como libertação do mundo. Quem crê em Jesus, livrou-se do poder do mundo e de seus padrões. Ele não se suja com os jogos de poder, com as intrigas e os vícios. Para Jesus, o lava-pés é um sinal daquele ato de amor que ainda falta: a sua morte de cruz. Nesse ato, o seu amor se completará. A fé não exige apenas que o discípulo creia nas palavras de Jesus, mas que creia sobretudo em sua morte. Assim se completa também a sua fé, pois ele vê na morte de cruz a maior prova do amor de Jesus” (Anselm Grun – Jesus, porta para a vida – Vozes).

Pe. João Bosco Vieira Leite