Terça, 14 de abril de 2026

(At 4,32-37; Sl 92[93]; Jo 3,7-15) 2ª Semana da Páscoa.

“O vento sopra onde quer, e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai.

Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito” Jo 3,8.

“Quem se faz discípulo do Ressuscitado deve dispor-se a viver a aventura do Espírito. Esta exigência está contida na afirmação enigmática de Jesus: ‘O vento sopra onde quer, você ouve o barulho, porém, não se sabe de onde vem nem para onde vai. A mesma coisa acontece com quem nasceu do Espírito’. Este alerta é fundamental para quem foi iniciado no processo de discipulado. Tornar-se discípulo de Jesus comporta colocar-se à inteira disposição do Espírito. Só assim, irá precaver contra a tentação de querer aprisionar o Espírito e colocar Deus dentro dos próprios limites humanos. Opção empobrecedora, pois impede o ser humano de deixar desabrochar toda a riqueza de dons que lhe foi confiada por Deus. Fechando-se dentro de seus próprios limites, o discípulo tende a acomodar-se, a não ser criativo, e a contentar-se com o pouco, a deixar-se abater pelas críticas, pelas incompreensões e pelos sucessos. Soprando onde e como quer, o Espírito proporciona ao discípulo o dinamismo incomum, a ponto de se admirar com os próprios feitos. Embora pequeno e frágil, não temerá realizar grandes empresas. Tornar-se-á forte diante das contrariedades da vida, o ponto de superá-las todas, e destemido em se tratando de dar testemunho do Ressuscitado. Mostrar-se-á, também, possuidor de uma sabedoria, antes desconhecida; e manterá viva a chama da fé e da esperança, quando o fracasso bater à sua porta. Basta deixar-se conduzir pelo Espírito! – Pai, lança-me, cada dia, na aventura do Espírito, que me tira do comodismo e do abatimento e me faz superar meus próprios limites (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 13 de abril de 2026

(At 4,23-31; Sl 02; Jo 3,1-8) 2ª Semana da Páscoa.

“Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade te digo, se alguém não nasce do alto, não pode ver o Reino de Deus’” Jo 3,3.

“Nascer de novo é nascer para a vida do Espírito. É este um nascimento muito novo e diferente; ininteligível para os critérios da ‘carne’. Por isso, não o entendia Nicodemos, que raciocinava só com sua mente e não com espírito. Jesus fala de uma vida nova que ele nos trouxe: a vida da graça, que se manifesta nas virtudes da fé, esperança e caridade. Nicodemos, de início, não entendeu o que ouvia; mas seu coração foi dispondo-se e, pouco a pouco, entendeu o que Jesus lhe ensinava. Jesus não desprezou Nicodemos, nem levou em conta sua timidez, seu respeito humano; acolheu-o com amabilidade e falou longamente com ele. Porém Jesus não desfigura a verdade e a sublimidade de seus ensinamentos perante Nicodemos, ainda que previsse que iria escandalizar-se. Em sua missão evangelizadora, você não deve desfigurar ou mutilar o ideal cristão, para que se assustem; ao invés disso, desde o primeiro instante, você tem de apresentar o evangelho em toda a sua pureza e integridade, ainda que algum fraco de espírito possa assustar-se. O evangelho sempre acaba entusiasmando” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

2º Domingo de Páscoa – Ano A

(At 2,42-47; Sl 117[118]; 1Pd 1,3-9; Jo 20,19-31)*

1. O nosso Evangelho traz duas aparições de Cristo aos discípulos no cenáculo. Na 1ª vez, Tomé não está presente, e que por sua vez não acolhe o testemunho dos demais. Chama-nos a atenção sua insistência no ver e tocar. Oito dias depois Cristo volta a aparecer e confronta, por assim dizer, o próprio Tomé.  

2. A figura de Tomé está para além do seu próprio tempo. O ser humano, cada vez mais tecnológico, não crê naquilo que não pode ser verificado. Por vezes, quando este percebe que alguém está se aproximando da fé, reage escandalizado, deixando claro que isso nunca acontecerá com ele.

3. Esse caráter de Tomé foi se delineando ao longo desse mesmo Evangelho. No capítulo 11, quando Jesus resolve voltar a Judeia, para ver Lázaro, que está doente, mesmo com o risco de morrer, Tomé diz: “Vamos também nós, para morrer com ele!”. Esta não é a fala de alguém que crê, mas de um desesperado, que se resigna ao pior.

4. Isso é muito atual. Tantos estão dispostos a arriscar a própria vida, mas não a abandonar-se a alegria de crer. Arriscam a vida várias vezes ao dia: ao atravessar com pressa numa rua, ou numa ultrapassagem imprudente... mas não estão dispostos a correr o “risco da fé” que o salvaria da morte.

5. No capítulo 14, quando Jesus insinua que vai voltar ao Pai e diz aos seus discípulos que eles sabem o caminho para chegar também a esse destino, é Tomé quem pergunta: “Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos conhecer o caminho?”

6. É extraordinário como aqui também a dúvida de Tomé resulta numa bênção para nós. Jesus lhe responde algo importantíssimo da nossa fé: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. 

7. O que salvou Tomé foi o sofrimento que havia no seu não-crer. A dureza das condições que se impõe para crer (colocar a mão no seu lado aberto, tocar as marcas dos pregos) vem de um grande sofrimento. Ele traz o sofrimento de não ter sabido morrer com Ele, como havia desejado. Mas sofrer de não amar alguém, é um sinal de verdadeiro amor. Sofrer por não poder crer, é uma forma de fé incompleta, mas sincera!

8. Alguns carregam consigo o desejo de crer, sem ter a força suficiente de fazê-lo. Desejar sem crer, pode ser uma fé mais pura da que quem crê sem desejar.

9. Pode nos soar absurda a exigência de Tomé, em sua resistência a crer, mas Jesus a aceita. Se deixa vencer por Tomé. Só por ele muda todas as suas disposições e seu método. À Madalena, por exemplo, ele havia dito o contrário: “Não me toques!”. Jesus amava Tomé, sabia de suas resistências e infelicidade, e assim lhe falava ao coração.

10. Vendo Jesus à sua frente, Tomé se dá conta que deveria saber que Ele ressuscitaria, que deveria crer como os outros. Ao não crer estava infligindo-se uma punição, defender-se de algo que era muito vivo nele. Se dá conta que deveria ter acreditado. Se comportou como uma criança que busca impor exigências ao amor do pai e da mãe, mesmo sabendo que é amada.

11. Caravaggio retratou Tomé aproximando, temeroso, seu dedo da chaga de Jesus. Outros artistas, particularmente os orientais, o representam curvado em adoração diante de Jesus. Caberá a ele dirigir-se a Jesus como nenhum outro apóstolo o fez chamando-o: “Meu Deus”.  E assim ele é curado com tal delicadeza de sua culpa e humilhação; ela se transforma numa maravilhosa recordação.

12. Diante desse quadro, a Igreja reconhece também de ter aprendido muito com aqueles que combatem contra ela. A crítica e o diálogo com os não-crente, quando se desenvolve no respeito e na lealdade recíproca, são de grande utilidade. Antes de tudo a faz humilde. A fé não se impõe, se propõe e se mostra com a prática.

13. Que São Tomé encontre muitos imitadores de seu itinerário de fé; que não fechem a porta, que não se fixem em suas posições, mas busquem. A nós, que já cremos, Tomé convida a apreciar o dom e o privilégio que temos. Acreditamos sem forçar a Deus no ‘ver’ ou ‘tocar’. Um dia, transposto o “rio” que nos levará à outra margem, veremos suas feridas, seu lado aberto e exclamaremos, - e esperamos que seja para nossa felicidade e não para nossa condenação: “Meu Senhor e meu Deus!”

* com base em texto de Raniero Cantalamessa.

Pe. João Bosco Vieira Leite