Uma meditação: “Tempo de desolação”
“Então Jesus perguntou: ‘O que ides
conversando pelo caminho?’ Eles pararam com o rosto triste...” Lc 24,17.
“A
morte de cruz mergulhou os discípulos numa profunda desolação. Os ideais
cultivados na convivência com o Mestre esvaíram-se. Seu poder, sobejamente
demonstrado nos milagres que realizou, dilui-se na impotência a que fora
reduzido ao ser pregado na cruz, sem ter como se defender. Sua autoridade,
manifestada no modo de falar e ensinar, pareceu desacreditada, ao ser reduzido
à condição de maldito. Sua intimidade com o Pai pareceu ter sido de pouca
valia, pois não se observou, pois não se observou nenhuma manifestação divina a
seu favor, quando se viu entregue nas mãos de seus algozes. O projeto de Reino,
formidável na sua formulação, foi de água abaixo. Era insensato falar de
justiça, fraternidade, partilha, num mundo onde o pecado brutaliza o coração
humano, e a injustiça, a maldade, a prepotência pareciam ter a primazia. A
desolação impedia os discípulos de considerar com clareza a morte de Jesus e de
entende-la em conexão com a vida. O olhar obnubilado impedia-os de pensar
diversamente e de considerar a possibilidade da intervenção do Pai na vida de
Jesus. Afinal, não mostrara-se o Filho, de mil maneiras, absolutamente fiel a
ele? A ressurreição abriu os olhos dos discípulos, permitindo-lhes
reinterpretar a morte de Jesus sob nova luz. Então, o humanamente insensato
tomou sentido novo, na perspectiva de Deus. Por isso, urgia não se deixar
abater pela desolação, mas olhar para além da cruz. – Pai, que eu não
me deixe abater pela desolação provocada pela cruz, pois a vida do Filho Jesus
está colocada em tuas mãos. Creio que não o deixaste perder, mas a
ressuscitaste da morte” (Pe.
Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] -
Paulinas).
Pe. João Bosco Vieira Leite