Quinta, 20 de agosto 2026

(Ez 36,23-28; Sl 50[51]; Mt 22,1-14) 20ª Semana do Tempo Comum.

“O Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho” Mt 22,2.

“A parábola pode ser interpretada também como o caminho da encarnação de cada um individualmente. Essa interpretação individual, que poderíamos chamar também de interpretação à luz da psicologia profunda, que interpreta tudo no nível do sujeito como caminho do indivíduo para Deus, remonta a Orígenes. Ele coloca essa interpretação individual ao lado da eclesial. Ambas têm a sua razão de ser. Orígenes interpreta a parábola como a ‘união do Logos, o noivo, com a alma, a noiva, que se realiza pelo casamento espiritual’ (Luz III, 247). Pelo encontro com o Logos, a alma recebe a imortalidade. O verdadeiro encontro e a união com o Logos acontece na contemplação, ou seja, na visão de Deus pelo Espírito. Interpretando a parábola dessa maneira, ela adquire um significado atual aplicável a cada um de nós, descrevendo o caminho interior da autorrealização e da unificação com Deus. Todos nós somos convidados para a festa nupcial. A nossa vocação cristã não quer dizer apenas que devemos cumprir os mandamentos de Deus, mas que somos convidados a ser um com Deus em Jesus Cristo. O objetivo de nossa vida é a autorrealização pela qual fundimos com o nosso núcleo divino. Quantas vezes passamos pelo convite sem lhe dar a devida atenção! Primeiro, desprezamos o convite que se manifesta em impulsos sutis de nosso coração. Intuímos que a nossa verdadeira vocação consiste em deixarmo-nos cair em Deus para nos tornar um com ele. Mas a voz convidativa de Deus é tão baixinha que não chega a alcançar a nossa consciência. Ou, como lembra a segunda chamada, temos coisas mais importantes a fazer: aumentar o nosso patrimônio, correr atrás do sucesso, cuidar dos negócios do dia-a-dia. Às vezes, sufocamos simplesmente os nossos impulsos internos porque nos desagradam. Eles não nos deixam em paz. Então preferimos anestesia-los pelo acúmulo de atividades ou os calamos, matando-os. É o ego que assassina os servos do rei. O ego não gosta de ser incomodado em suas aspirações egoístas. Mas o rei envia os seus servos outra vez. Tudo o que há em nós é convidado. Os que andam pelas estradas são os pobres. O nosso lado pobre se abre mais facilmente para Deus do que o nosso lado bem-sucedido. Os servos têm ordens de percorrer todo o reino até onde terminam as estradas. Todos os setores de nossa alma, toda a nossa história, até mesmo as zonas periféricas de nosso inconsciente, tudo é convidado a se unir a Deus. Nada fica excluído, nem mesmo o mal. É uma mensagem consoladora. A única condição da parte de Deus é que demos a devida atenção ao convite, que ponhamos tudo o que há em nós em relação com ele. Para mim, a veste nupcial significa que respeito o rei que me convida, que trato com cuidado tudo o que está em mim, por mais pobre e roto que seja, a fim de pô-lo em relação com o casamento. Isso requer atenção e cuidado. Não preciso percebê-lo e revesti-lo com a roupa do amor. Preciso olhar com carinho para tudo o que há em mim e apresenta-lo a Deus. Aí então posso participar do banquete nupcial. Todo o meu ser pode unir-se a Deus. Mas, se eu tratar com desleixo o que sou e tenho, serei expulso da mesa; então, perderei o meu centro de gravidade e meu interior se cobrirá de trevas. Aquilo que não recebeu a devida atenção transforma-se em escuridão que me devora e me dilacera por dentro. É esse o sentido das palavras ‘choro e ranger de dentes’. Se eu não estiver disposto a encarar a minha própria verdade e a oferece-la a Deus, esta me destruirá. A minha vida se transformará em choro e lamentações. O mal em mim se tornará uma fonte de tristeza e de pranto, de desespero e de absurdeza” (Anselm Grün – Jesus, Mestre da Salvação – Loyola).

  Pe. João Bosco Vieira Leite

Quarta, 19 de agosto de 2026

(Ez 34,1-11; Sl 22[23]; Mt 20,1-16) 20ª Semana do Tempo Comum.

“O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores

para a sua vinha” Mt 20,1.

“Houve Padres da Igreja que interpretassem essa parábola como uma imagem do curso de vida dos indivíduos. Algumas pessoas são cristãs desde o nascimento, outras se convertem logo na juventude, outros só na idade adulta ou provecta. Os Padres da Igreja admoestam, então, aos cristãos da primeira hora a não esmorecer em seu fervor, aos que receberam o batismo mais tarde, eles incutem ânimo e confiança. Cada um deve trilhar o seu próprio caminho e servir a Deus nesse seu caminho pessoal, sem comparar-se com os outros. Para todos, o prêmio será a moeda de prata. Essa moeda única não é só a diária habitual daquele tempo, ela é também o símbolo da unificação com Deus. Nada ultrapassa esse ato de tornar-se uno. É a meta da vida humana. O caminho para alcançar essa meta é mais longo para uns, mais curto para outros. Essa interpretação foi uma tentativa de inserir o sentido da parábola na respectiva época. E qual seria o seu sentido hoje? Vejo-me colocado diante da pergunta: como entendo a minha vida de cristão? É apenas um esforço, um trabalho fatigante, quando a verdadeira vida consiste em ficar parado sem fazer nada? Ou acredito que, pela união com Cristo, a minha vida ganha sentido e fica boa? O desafio que acompanha o trabalho pode ser uma fonte de paz interior para o ser humano, já que lhe dá a sensação de que sua vida tem sentido. Aquele que fica à toa na praça certamente não está feliz com essa situação. Ele se sente supérfluo. Sua vida lhe parece inútil. O ser humano se sente valorizado quando é chamado, convidado, aliciado. Quando me dedico ao trabalho que me é confiado, sem querer comparar-me com os outros, torno-me um comigo mesmo, com Deus e com os homens. Não preciso de mais nada para viver. Mas se eu desviar o olhar do meu trabalho para observar os outros e me comparar com eles, ficarei internamente dividido e descontente” (Anselm Grün – Jesus, Mestre da Salvação – Loyola).

  Pe. João Bosco Vieira Leite

Terça, 18 de agosto de 2026

(Ez 28,1-10; Sl Dt 32; Mt 19,23-30) 20ª Semana do Tempo Comum.

“Muitos que agora são os primeiros serão os últimos. E muitos que agora são os últimos serão os primeiros”

Mt 19,30.

“O que Jesus ensina é que pode acontecer que aqueles que receberam a graça e o chamado primeiramente não mereçam tanto como os chamados à última hora; não é uma época do chamado, mas a generosidade da resposta o que vai aproximar-nos de Deus, conseguindo-nos a salvação e a santificação; não basta, por outro lado, começar, se não se persevera na prática do bem e da virtude; não basta responder, mas é preciso responder com generosidade às graças recebidas. São Beda ilustra esta frase de Jesus Cristo dessa forma: ‘Presta atenção em Judas, que de apóstolo transformou-se em apóstata, e aprende que muitos que são os primeiros poderão ser os últimos. Presta atenção no bom ladrão que, embora tenha sido crucificado por causa de seus pecados, pela graça da fé, passou a gozar com Jesus Cristo o Paraíso; e aprende que também os últimos podem chegar a ser os primeiros” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

  Pe. João Bosco Vieira Leite