Sexta, 01 de maio de 2026

(At 13,26-33; Sl 02; Jo 14,1-6) 4ª Semana da Páscoa.

“Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou prepara um lugar para vós...” Jo 14,2.

Jesus já anunciou a seus apóstolos as diferentes etapas da Paixão e não lhes escondeu que inclusive um deles será instrumento da traição. Porém, a fim de que não se aflijam demasiadamente e se desorientem, afirma-lhes: ‘Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim’ (v. 1). Jamais teremos direito ao desânimo; a herança que nos deixou Jesus é o otimismo e a alegria; assim, nem o desânimo, nem a desconfiança, nem o pessimismo, nem a tristeza devem aninhar-se no seu coração, a ponto de impedir-lhe o trabalho na vida espiritual ou em sua atividade apostólica. Nosso apoio está em Cristo que é Deus; ele é nossa esperança dele receberemos a ajuda de que necessitamos. Não existem horas cinzentas com Cristo; tendo-o por amigo, tudo muda e os horizontes iluminam-se. Os amigos desejam estar sempre juntos e fazerem-se mutuamente felizes. Se Jesus é nosso amigo, também não quer ficar separado de nós por muito tempo; precisando voltar para o Pai, adverte-nos que não se separa de nós por muito tempo, mas que ele nos precede para ‘preparar-nos um lugar’. O pensamento do lugar que nos espera, gozando da companhia de Jesus, tem de dar forças e coragem, para suportar os contratempos da vida e aspirar às alegrias do céu” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Quinta, 30 de abril de 2026

(At 13,13-25; Sl 88[89]; Jo 13,16-20) 4ª Semana da Páscoa.

“Conforme prometera, da descendência de Davi Deus fez surgir para Israel um salvador, que é Jesus” At 13,23.

“A partir de agora, no Livro dos Atos dos Apóstolos, Lucas nomeia somente Paulo como protagonista da missão. Quando Barnabé entra em cena, assume sempre um lugar de segundo plano. Na dupla intervenção do Apóstolo na sinagoga de Antioquia da Pisídia (cf. At 13,13-41 e 46-47) encontramos um exemplo típico de sua estratégia missionária e do conteúdo da sua pregação aos judeus nas sinagogas (cf. At 9,20; 13,5). Destes dois discursos a leitura de hoje propõe a parte inicial do primeiro. Paulo dirige-nos não só aos ‘homens de Israel’, mas também a todos os que ‘temem a Deus’ (v. 16). [Compreender a Palavra:] Escutamos hoje a primeira parte do discurso inaugural do ministério de Paulo. Pronunciou-o na sinagoga de Antioquia da Pisídia (na Turquia atual), aonde tinha chegado vindo de Perge. Uma caminhada de cerca de quinhentos quilômetros através das zonas montanhosas do Tauro, enfrentando incômodos vários e perigos. Talvez por essa razão João Marcos não o acompanhou, bem como aos outros, e regressou a Jerusalém. Também Paulo, como Jesus (Lc 4,16-32), começa sua pregação no âmbito da liturgia da sinagoga de sábado. Será um hábito na atividade do Apóstolo o fato de anunciar, onde fosse possível, o anúncio de Jesus Cristo dirigindo-se à comunidade hebraica presente nos vários lugares. Com hábil retórica, Paulo avalia atentamente a sensibilidade dos seus ouvintes e começa com uma síntese da história da Salvação que narra todas as obras realizadas por Deus a favor de Israel, desde as origens até o rei Davi, a cuja descendência está ligada a promessa de um salvador. Esse salvador é Jesus de Nazaré, do qual deu testemunho João Batista, o precursor. O Nazareno é por isso apresentado como o vértice da longa história de Israel, como salvador enviado por Deus para cumprir as suas promessas. A lógica seguida por Paulo, e que culminará no anúncio do ‘Kerygma’ que escutaremos amanhã, é muito simples: aquele que Deus vos prometera como remate da Sua especial relação convosco, aquele que desde sempre esperais é Jesus de Nazaré, do qual vos estou falando. Deus vem ao nosso encontro e permite que O encontremos, não fora da nossa vida, da nossa história, das nossas aspirações e dos nossos desejos, mas precisamente neles e a partir deles. Paulo sabe-o bem e por isso, para anunciar Jesus enquanto Messias de modo a que isso possa ser acolhido, apela à sensibilidade e às expectativas dos seus ouvintes hebreus. É um anúncio inteligente que não é estratégia publicitária, mas capacidade de discernir a ação de Deus na História e de respeitar as pessoas às quais se dirige” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Quaresma - Páscoa] – Paulus).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Quarta, 29 de abril de 2026

(At 12,24—13,5; Sl 66[67]; Jo 12,44-50) 4ª Semana da Páscoa.

“Se alguém ouvir as minhas palavras e não as observar, eu não o julgo, porque não vim para julgar o mundo,

mas para salvá-lo” Jo 12,47.

“Ainda mais uma vez – e já são tantas – Jesus dá testemunho de que ele não fala por si, mas porque ‘o Pai que me enviou, ele mesmo prescreveu o que devo dizer e o que devo ensinar’ (. 49). Daí que ‘aquele que crê em mim, crê não em mim, mas naquele que me enviou, e aquele que me vê, vê aquele que me enviou’ (vv. 44-45). A estreita união de Jesus com o Pai se repete até a exaustão, mas isso nos deve colocar no mais profundo da alma que Jesus sempre corresponde ao Pai, à missão que lhe deu. Assim entendemos as afirmações de Jesus: ‘Aquele que crê em mim, crê não em mim, mas naquele que me enviou’ (v. 44); ‘Aquele que me vê, vê aquele que me enviou’ (v. 45); ‘Eu vim como luz ao mundo; assim, aquele que crê em mim não ficará nas trevas’ (v. 46). O homem rejeita institivamente as trevas e busca desesperadamente a luz; daí segue-se que deve ser verdadeiramente horrível a situação daquele que vive no erro e ao seu derredor não descobre nenhum clarão da luz da verdade. O cristão, ao invés, é filho da luz e nada na luz e com a segurança que a luz lhe dá. A afirmação que Jesus de que é a Luz que veio ao mundo, a fim de que não ande nas trevas, o cristão a aplica a si mesmo. Assim, o cristão não encontra questionamentos que o incomodem ou, se os encontra, tem ao seu alcance a luz, que é a palavra iluminadora de Jesus que se derrama sobre esses questionamentos. Por isso Jesus acrescenta: ‘Se alguém ouve as minhas palavras e não as guarda, eu não o condenarei (...), a palavra que anunciei julgá-lo-á no último dia’ (vv. 47.48). Porém Jesus adverte-nos: ‘não vim para condenar o mundo, mas para salvá-lo’ (v. 47). Já anteriormente o havia dito Nicodemos: ‘Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele’ (João 3,17)” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Terça, 28 de abril de 2026

(At 11,19-26; Sl 86[87]; Jo 10,22-30) 4ª Semana da Páscoa.

“Os judeus que rodeavam-no e disseram: ‘Até quando nos deixarás em dúvida?

Se tu és o Messias, dize-nos abertamente’” Jo 10,24.

“O modo de proceder de Jesus bem como os seus ensinamentos deixavam desconcertados os seus adversários. Embora realizasse gestos religiosos, suficientes para revelar sua plena comunhão com o Pai, e falasse de maneira até então desconhecida, permanecia uma incógnita a seu respeito. Os judeus que tinham tudo para reconhece-lo como o Messias, permaneciam na incerteza. Por isso, ficavam à espera de que Jesus lhes ‘dissesse abertamente’ que ele era. A postura assumida pelos adversários impedia-os de compreender a verdadeira identidade messiânica de Jesus. Movidos pela suspeita, pela malevolência e pela crítica mordaz, jamais conseguiriam chegar à resposta desejada. Daí a tendência a acusar Jesus de blasfemo e imputar-lhe toda sorte de desvios teológicos e políticos. Em contraste com os adversários estavam os discípulos. Estes, sim, colocavam-se numa atitude humilde de escuta, atentos às palavras do Mestre, buscando desvendar-lhes seu sentido mais profundo. Dispuseram-se a segui-lo, para serem instruídos não só por suas palavras, mas também por seus gestos concretos de misericórdia, para com os mais necessitados. A comunhão de vida com o Mestre permitia-lhes descobrir sua condição de Messias, o enviado do Pai. A incógnita sobre Jesus permanece para quem se posiciona diante dele como adversário. Quem se faz discípulo, não tem dificuldade de reconhece-lo como Messias. – Pai, dá-me um coração de discípulo que se deixa guiar docilmente pelo Mestre Jesus, tornando-se, assim, apto para reconhecer sua condição de Messias de Deus (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 27 de abril de 2026

(At 11,1-18; Sl 41[42]; Jo 10,11-18) 4ª Semana da Páscoa.

“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” Jo 10,11.

“A comparação do bom Pastor é muito apreciada pelos antigos profetas, inclusive porque alguns deles viviam em ambiente pastoril. Jesus também serviu-se da vida pastoril com frequência, mas propõe, aqui, com clareza e amplidão a parábola do bom pastor. Depois da afirmação solene de que ele é o bom Pastor, afirma Jesus que ‘o bom pastor expõe a sua vida pelas ovelhas’. Jesus deu a sua vida pelos seus, por amor aos seus, em obediência à missão que lhe atribuiu o Pai, para que se forme um só rebanho. Jesus Cristo é o bom Pastor de quem recebem a missão todos os que exercem um cargo pastoral na Igreja. É o bom Pastor que conhece suas ovelhas e as apascenta com a verdade de sua doutrina e de sua graça. Os primeiros cristãos gostavam de representar Jesus Cristo sob a figura do pastor, que leva nos ombros a ovelha que fora buscar longe do redil. Somente nas catacumbas aparece oitenta e oito vezes essa figura. ‘É – como escreve um autor – a figura mais popular e simpática e uma das mais antigas da arte primitiva cristã. Que paz serena deve apoderar-se de seu espírito ao saber que, quando você pecou, Jesus foi buscá-lo e o trouxe em seus ombros para que você continuasse pertencendo ao redil da Igreja!” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

4º Domingo da Páscoa – Ano A

(At 2,14.36-41; Sl 22[23]; 1Pd 2,20-25; Jo 10,1-10) *

1. O Evangelho do 4º Domingo do tempo pascal é a 1ª parte do capítulo 10 de João sobre o bom pastor. Daí o nome de “Domingo do Bom Pastor”. E nesse domingo a Igreja nos convida a fazer dele também um dia de oração pelas vocações sacerdotais e religiosas.

2. O nosso texto se apresenta em quatro tempos, e ao interno de cada um deles se nota uma contraposição entre dois personagens, um bom e um mal. Do personagem bom se diz que: é o pastor das ovelhas, entra no recinto pela porta, conhece as ovelhas, as ovelhas o seguem, ele dá a vida pelas ovelhas.

3. Do personagem negativo se diz que: é ladrão e assaltante, salta pelo muro, é para as ovelhas um estranho, as ovelhas fogem dele, rouba e mata as ovelhas.

4. Sabemos de quem se trata tais personagens: Jesus é o personagem positivo. O uso de tais imagens está relacionada às origens de Israel, um povo nômade de pastores. Isto plasmou sua mentalidade, seus costumes e sua língua. Assim, a relação pastor-ovelha serviu como imagem para exprimir as relações entre o povo e o seu rei, e entre o povo e Deus.

5. Jesus é a realização ideal do pastor perfeito, daquele que busca a ovelha extraviada e dá a vida por suas ovelhas, como profetizara Ezequiel: Deus mesmo cuidará do seu rebanho. Daí, por sua vez, Jesus escolher alguns discípulos para darem continuidade a sua missão. Estes recebem o nome de “Pastores”, os bispos e os sacerdotes, seus colaboradores.

6. Ao tratar do “ladrão” e “estranho”, Jesus pensa, em 1º lugar nos falsos profetas e aos pseudos-messias do seu tempo, que se passam por enviados por Deus, libertadores do povo, quando na realidade mandam as pessoas morrerem por eles. Algo que não é completamente estranho ao nosso tempo, com o fenômeno das seitas. 

7. Quando falamos de seitas, devemos estar atentos para não colocar a todos no mesmo plano. Temos grupos evangélicos e pentecostais protestantes com os quais a Igreja católica, há muito mantém um diálogo ecumênico em nível oficial, o que não é possível com as seitas. 

8. De modo geral, as seitas não partilham pontos essenciais da fé cristã, como a divindade de Cristo e da Trindade; às vezes misturam a doutrina cristã com elementos estranhos e incompatíveis com essa, como por exemplo a reencarnação. Não honram nem respeitam a Mãe de Jesus.

9. Literalmente se tornam “ladrões de ovelhas” quando tentam com todos os meios tirar os fiéis da sua Igreja de origem, muitas vezes com métodos agressivos e polêmicos, manipulando a própria Bíblia a seu favor. Polemizam tudo que diz respeito a Igreja católica, à Virgem Maria, indo na contra mão do próprio evangelho que é amor e respeito pela liberdade do outro.

10. Existem seitas que estão fora do mundo cristão, com novas formações religiosas, que não são agressivas, se apresentam com “vestes de cordeiro” pregam o amor para com todos, pela natureza, na busca do "eu profundo"... Aqui pode se perceber um certo sincretismo religioso, que recolhe elementos de várias religiões.

11. O dano espiritual gerado por elas é que a pessoa de Jesus quase desaparece e com ele a “Vida em abundância” que veio nos trazer. Além do perigo com relação a sanidade mental e à ordem pública. Sem entrarmos aqui em questões financeiras atreladas a certos grupos. Muitas delas acabaram com o fim de seus fundadores, mas não sem terem causado muitos estragos...

12. Talvez estejamos nos perguntando do porquê chegamos a esse assunto. Jesus era muito otimista, em achar que suas ovelhas não seguem estranhos... No entanto a realidade é bem outra. Talvez nós sacerdotes e bispos da Igreja deveríamos bater no peito e recitar um “mea culpa”. Nem sempre fomos capazes de dar continuidade a obra do Cristo Bom Pastor.

13. Muitos findam em seitas por não encontrarem o calor e o suporte humano de uma comunidade, não encontraram a sua paróquia. Assim como é verdade também que aqueles que findam em seitas, muitas vezes vivem à margem da vida da Igreja, sem preocupar-se de conhecer melhor e cultivar a sua fé cristã. Nem sempre a culpa é dos pastores...

14. Finalizo com alguns versos de Dante, bastante diretos e atuais: “Quais razões vos inspiram, cristãos? Não sede como plumas ao vento! Nem toda água é capaz de lavar. Tendes o Velho e o Novo Testamento, e da Igreja, o pastor que os guia. Que mais quereis para o vosso salvamento? Homens sede e não brutos animais” (cf. Paraíso, V,72-80).

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 25 de abril de 2026

(1Pd 5,5-14; Sl 88[89]; Mc 16,15-20) São Marcos Evangelista.

“Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi elevado ao céu e sentou-se à direita de Deus” Mc 16,19.

“Não se pode descrever o céu, mas podemos antegozá-lo. Não podemos alcançá-lo com nossa mente, mas é difícil não desejá-lo. Se falamos do céu não é para satisfazer nossa curiosidade, mas para reavivar nosso desejo e nossa atração por Deus. Se o recordamos é para não esquecer o anseio último que trazemos no coração. Ir para o céu não é chegar a um lugar, mas entrar para sempre no mistério do amor de Deus. Por fim, Deus já não será alguém oculto e inacessível. Embora nos apareça inacreditável, podemos conhecer, tocar, provar e desfrutar seu ser mais íntimo, sua verdade mais profunda, sua bondade e beleza infinitas. Deus despertará em nós a paixão do amor para sempre. Esta comunhão com Deus não será uma experiência individual. Jesus ressuscitado nos acompanhará. Ninguém vai ao Pai se não for por meio de Cristo. ‘Nele habita toda a plenitude da divindade em forma corporal’ (Cl 2,9). Só conhecendo e desfrutando o mistério contido em Cristo penetraremos no mistério insondável de Deus. Cristo será o nosso ‘céu’. Vendo a ele, ‘veremos’ a Deus. Cristo não será único mediador de nossa felicidade eterna. Inflamados pelo amor de Deus, cada um de nós nos converteremos, à nossa maneira, em ‘céu’ para os outros. A partir de nossa limitação e finitude tocaremos o Mistério infinito de Deus, saboreando-o em suas criaturas. Gozaremos de seu amor insondável, saboreando-o no amor humano. O gozo de Deus nos será dado encarnado no prazer humano. O teólogo húngaro Ladislaus Boros procura sugerir esta experiência indescritível: ‘Sentiremos o calor, experimentaremos o esplendor, a vitalidade, a riqueza transbordante da pessoa que hoje amamos, com a qual desfrutamos e pela qual agradecemos a Deus. Todo o seu ser, a profundeza de sua alma, a grandeza de seu coração, a criatividade, a amplitude, a paixão de sua reação amorosa nos serão presenteados’. Que plenitude alcançará em Deus a ternura, a comunhão e o gozo do amor e da amizade que conhecemos aqui! Com que intensidade nos amaremos então, nós que já nos amamos tanto na terra! Poucas experiências nos permitem antegozar melhor o destino último ao qual somos atraídos por Deus” (José Antonio Pagola – “O Caminho Aberto por Jesus” – Marcos – Vozes)

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sexta, 24 de abril de 2026

(At 9,9,1-20; Sl 116[117]; Jo 6,52-59) 3ª Semana da Páscoa.

“Porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida” Jo 6,54.

“A última parte do discurso de Jesus sobre o ‘pão da vida’ constitui o seu momento mais intenso. Os judeus (que para João representam os guias espirituais de Israel), habituados a investigar sobre a interpretação da Lei e sobre os discursos de sabedoria, procuram compreender o sentido das palavras do Nazareno: palavras que se tornam cada vez mais nítidas e desconcertantes. Comer o pão que é Jesus, isto é, comer a carne do Filho do homem, une a nossa vida à Sua vida, que é a vida eterna. [Compreender a Palavra:] A identificação do pão como ‘carne’ de Jesus (v. 52), repugnante para os judeus enquanto violação de um dos mais sagrados preceitos da Lei, coloca os interlocutores perante a realidade física de uma morte sacrificial que ultrapassa as prescrições legais, e dá a vida. Os hebreus estavam proibidos de consumir sangue (mesmo o dos animais oferecidos em sacrifício) porque ele representava a vida, e ninguém podia apropriar-se dela a não ser Deus, único dono da vida. O homem tem o usufruto, não a propriedade, da Criação: isto significava abster-se do sangue. Mas em Jesus, Deus vai mais além: a própria vida do Filho, ou seja, o Seu sangue, é colocada nas mãos dos homens, consumada totalmente no dom do amor, que se fez ‘verdadeira comida e verdadeira bebida’ (v. 55). Pela primeira vez, através da linguagem eucarística, é expressa a presença de Jesus no crente, o qual é assim introduzido na dimensão trinitária (v. 56-58)” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Quaresma Páscoa] – Paulus).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Quinta, 23 de abril de 2026

(At 8,26-40; Sl 65[66]; Jo 6,44-51) 3ª Semana da Páscoa.

“Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o atrai. E eu o ressuscitarei no último dia” Jo 6,44.

“A acolhida de Jesus na fé é obra do Pai no coração do discípulo. Por isso, Jesus proclamava: ‘Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrai’. A salvação acontece neste processo de inter-relação que abrange o Pai, o Filho e o discípulo. É possível descrever esta dinâmica do discipulado. Quem se predispõe a ser discípulo deve ter suficiente boa vontade a ponto de fazer-se sensível à moção de Deus que o convoca a deixar de lado o egoísmo e abrir-se para o amor. O primeiro passo consistirá em escutar o apelo de Deus que o interpela a assumir um novo projeto de vida. O passo seguinte será a firme decisão de deixar-se mover e conduzir pela graça, dispondo-se a trilhar os caminhos que lhe serão apresentados, sem colocar dificuldades. Disto resultará o encontro com Jesus, encarnação do amor do Pai na história humana, a consequente transformação da própria vida. Assim, cabe ao discípulo cooperar com o Pai nesta obra de encontro com Jesus e não tomar iniciativa por conta própria. Esta é a forma pela qual a humanidade continua a ser instruída pelo Pai. Daí a necessidade de ouvir o Filho e tornar-se seu imitador. É a melhor forma de deixar-se interpelar pela Palavra de Deus e ser guiado por ela. Em suma, deixado à própria sorte, o discípulo jamais encontrará o caminho para Deus. A missão de Jesus é ajuda-lo nesta tarefa. – Pai, que eu seja movido por ti, no processo de encontro com Jesus, para que, tendo-o encontrado, ele me instrua sempre mais a respeito de ti (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Quarta, 22 de abril de 2026

(At 8,1-8; Sl 65[66]; Jo 6,35-40) 3ª Semana da Páscoa.

“Pois esta é a vontade do meu Pai: que toda pessoa que vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna.

E eu o ressuscitarei no último dia’” Jo 6,40.

“A vida de Jesus foi toda norteada pela vontade do Pai. Esta se resume em querer a salvação de todo ser humano, para o qual está reservada a vida eterna, na medida em que acolher a palavra de Jesus e se deixar guiar por ela. Por isso, o ministério do Mestre pode ser definido como serviço à salvação da humanidade. Isto explica por que buscava estar presente ali onde a morte se fazia sentir com mais intensidade, junto de quem se tornara escravo do pecado. Os pecadores foram alvo de sua constante solicitude. O desígnio do Pai era que não se perdesse ninguém dos que tinham sido entregue ao Filho. Evidentemente, a palavra de Jesus tem um sentido inclusivo: toda a humanidade foi-lhe entregue para ser salva, sem exclusão de ninguém. Sendo assim, o Filho devia empenhar-se para que a salvação – a vida eterna – atingisse cada criatura humana. O caminho da salvação exige fé sincera no Filho Jesus. Confessá-la significava aderir à dinâmica de vida assumida por ele, cujo centro era a vontade do Pai, e deixar a vida divina permear a existência humana, de forma a transformá-la pelo amor. Assim, o discípulo de Jesus tinha a chance de, já no curso de sua existência terrena, experimentar a vida eterna que lhe estava reservada. – Pai, transforma-me em discípulo autêntico de teu Filho Jesus, de modo que a tua vontade seja o centro de minha existência, e eu experimente, já na Terra, a vida eterna (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).   

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Terça, 21 de abril de 2026

(At 7,51—8,1; Sl 30[31]; Jo 6,30-35) 3ª Semana da Páscoa.

“Então pediram: ‘Senhor, dá-nos sempre desse pão’” Jo 6,34.

“Jesus nos disse que ele é o pão da vida que baixou do céu para trazer a vida ao mundo; sem esse pão eucarístico, o mundo morreria de fome: fome da verdade, fome da bondade, fome da santidade que somente pode satisfazer-se com esse pão celestial, que é Jesus eucarístico. Jesus veio ao mundo, para trazer-lhe a vida divina, e nós participamos dessa vida, quando comungamos. Faça uma revisão de sua vida eucarística e examine se comunga com a devida frequência e se o faz com o devido espírito, e não rotineiramente e por costume. A vida deve ser vivida convenientemente, e a comunhão você deve recebe-la na plenitude de atenção espiritual. Sua vida eucarística deve ser vivida com projeção em todas as suas obras diárias, que de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, hão de manifestar a influência que nelas se recebe na comunhão” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 20 de abril de 2026

(At 6,8-15; Sl 118[119]; Jo 6,22-29) 3ª Semana da Páscoa.

“Então perguntaram: ‘Que devemos fazer para realizar as obras de Deus?’” Jo 6,28.

“É esta a pergunta mais desinteressada que devemos fazer-nos com frequência: que temos de fazer, para praticar as obras de Deus, para fazer nossas obras em conformidade com a vontade de Deus? Como devemos agir, para agradar ao Pai celestial em todas as nossas obras? Porém... quais são as obras de Deus? São aquelas nas quais se manifesta seu Espírito, que é espírito de justiça, de verdade, de amor e de paz. Tudo que contribua para instaurar no mundo a justiça, a verdade, o amor e a paz é obra de Deus, e todos os que trabalham para isso estão realizando obras de Deus. O salmista dirige-se a Javé e confessa-lhe: ‘Pois vós dais a cada um segundo suas obras’ (Salmos 61,13). É essa a justiça de Deus, que deve orientar nossa vida para a prática do bem” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

3º Domingo da Páscoa – Ano A

(At 2,14.22-33; Sl 15[16]; 1Pd 1,17-21; Lc 24,134-35) *

1. Esse episódio dos discípulos de Emaús é bastante rico nas reflexões que nos oferece. Gostaria de me deter nessa afirmação dos discípulos após reconhecem Jesus no partir do pão: “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”

2. Temos dois modos de aproximar-nos da Bíblia. O 1º é aquele de considera-la um livro antigo, pleno de sabedoria religiosa, de valores morais, e também de poesia. Deste ponto de vista, esse é o livro absolutamente mais importante para entender a nossa cultura ocidental e a religião hebraico-cristã.

3. É o livro mais impresso e mais lido de toda a humanidade. Ainda hoje, suas narrativas, seus personagens, suas histórias são capazes de atrair a atenção de muitos leitores ou mesmo quando encenadas seja no cinema ou na TV.

4. O outro modo, mais desafiador de se aproximar da Bíblia é aquele de crer que ela contém a palavra viva de Deus para nós. Que é um livro inspirado, ainda que escrito por autores humanos, com todos os seus limites, mas com a intervenção direta de Deus. Um livro humano e ao mesmo tempo divino. Que fala aos homens e mulheres de todos os tempos, lhes revela o sentido da vida e da morte. E, sobretudo, lhes revela o amor de Deus. 

5. Isto explica porque tantas pessoas se aproximam da Bíblia, mesmo sem grande cultura ou grandes estudos, mas com simplicidade, crendo que seja o Espírito Santo que fala nela e encontram respostas para seus problemas, luz, encorajamento, uma palavra de vida. “Não só de pão vive o homem...”.

6. A palavra de Deus é “viva e eficaz”, isto é, ela produz aquilo que significa, dá aquilo que promete. É também uma palavra “eterna”: “Céus e terra passarão...”. Esses dois mil anos de história confirmam essas palavras de Jesus: suas palavras, longe de passarem, são mais viva que nunca entre nós. Por vezes temos a impressão de que uma certa palavra foi escrita para nós, pelas circunstâncias que estamos vivendo. 

7. Os dois modos de aproximar-nos da Bíblia, o erudito e o da fé, não se excluem, e devem se manter unidos. É necessário estudar a Bíblia, nos modos como ela vai interpretada por aqueles que se debruçam sobre ela, para não cair num fundamentalismo, como fazem algumas linhas protestante ou evangélicas...

8. O fundamentalismo consiste no tomar um verso da Bíblia, assim como está escrito, e aplica-lo de modo direto a uma situação de hoje, sem levar em conta a diferença de cultura, tempo, e dos diversos gêneros literários da Bíblia. Por exemplo: há quem acredite que o mundo tem 4 mil anos, que seria, em tese a idade da Bíblia, mas sabemos que o mundo tem milhares e milhares...

9. A Bíblia não foi escrita para fazer ciência, mas para dar a salvação. Deus, na Bíblia, se adaptou ao linguajar humano, para que esse, em seu tempo, pudesse entender, mesmo o da era tecnológica.

10. A Bíblia não pode ser reduzida somente a um objeto de estudo e de erudição, sem levar em conta a sua mensagem. É como um sujeito que recebe uma carta de sua namorada e se coloca a examiná-la a partir de um dicionário, e do ponto de vista da gramatica e da sintaxe, e parasse nessas coisas, sem recolher o amor que está nela.

11. É preciso aproximar-se da Bíblia com fé e tendo como referência a pessoa de Jesus Cristo, recolhendo ali tudo que se refere a Ele, como Ele mesmo fez com os discípulos de Emaús.

12. Hoje, talvez mais que antes, nos aproximamos da Bíblia, mas precisamos reforçar esse hábito, particularmente na leitura dos Evangelhos, não basta só escutar o que dizem os comentaristas. É preciso ler, tomar nas mãos o texto. Ler um pouco a cada dia. É bom perceber quando a Bíblia tem um lugar de destaque numa casa, mas precisamos lê-la.

13. Jesus permanece conosco de dois modos: na Eucaristia e na sua Palavra. Nas duas, Ele está presente:  na Eucaristia, sob a forma de alimento, na Palavra sob a forma de luz, de verdade. Sendo que a Palavra tem uma grande vantagem sobre a Eucaristia, dela, todos podem se aproximar. Ninguém está totalmente indigno de recebe-la. É dela que nasce a fé.

14. Concluímos como a oração da aclamação ao Evangelho, que é um pedido: “Revelai-nos o sentido da Escritura; fazei o nosso coração arder quando falardes”. Amém. 

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa.

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 18 de abril de 2026

(At 6,1-7; Sl 32[33]; Jo 6,16-21) 2ª Semana da Páscoa.

“Irmãos, é melhor que escolhais entre vós sete homens de boa fama, repletos do Espírito e de sabedoria,

e nós os encarregaremos dessa tarefa” At 6,3.

“Uma viúva pode também hoje, em muitas ocasiões, viver uma situação existencial e dolorosa. Nos tempos antigos, como se sabe, sofrimentos e preocupações eram agudizados pela estrutura predominantemente masculina da sociedade: uma mulher sem o amparo do marido ficava à mercê de tudo e de todos. A comunidade cristã deve enfrentar o problema da ajuda às viúvas de língua grega. Um problema de tipo econômico, mas provavelmente também cultural e de integração entre as duas componentes da primeira comunidade: a judeu-palestina e a helenista. [Compreender a Palavra:] As tensões no interior da comunidade cristã de Jerusalém, causadas pela insuficiente atenção às necessidades das viúvas de língua grega, requerem uma intervenção resolutiva: daí a escolha de algumas pessoas capazes para atender às necessidades dessas pessoas que, como é fácil de compreender, vêm na sua maioria da mesma proveniência cultural de quem está em apuros. Entre essas pessoas é sublinhada a presença de Estevão e de Filipe (cf. At 8,5-8.26-40). As características interiores são julgadas pelos doze requisitos essenciais nestes colaboradores, em particular a plenitude do Espírito e a sabedoria ética (v. 3), características de resto muito superiores às necessárias para um puro serviço assistencial. A escolha dos diáconos acontece num quadro de grande sucesso de adesão à fé cristã que culmina em Jerusalém com a conversão em massa dos funcionários do culto judaico. Também este trecho sublinha uma das diretrizes caras em Lucas: a difusão da Palavra de Deus enquanto sinal da consolidação da comunidade cristã. Ela aparece como prossecução ideal e efetiva do Israel histórico sob o perfil da relação com Deus” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Quaresma Páscoa] – Paulus).

  Pe. João Bosco Vieira Leite

Sexta, 17 de abril de 2026

(At 5,34-42; Sl 26[27]; Jo 6,1-15) 2ª Semana da Pascoa.

“Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus” Jo 6,4.

“O milagre da partilha do pão está inserido num contexto pascal. Seu simbolismo ajuda-nos a compreendê-lo. O Evangelho observa que ‘a páscoa, a festa dos judeus, estava perto’. A páscoa era a festa principal do calendário judaico. Recordava a libertação da escravidão egípcia e a entrada na Terra Prometida. Este episódio era considerado como a experiência fundante do povo de Israel, pois nele Deus se revelara como protetor e libertador do povo eleito. Outros elementos recordam a experiência do antigo Israel: o fato de Jesus se encontrar às margens do mar da Galileia e ter subido a uma alta montanha, onde se sentou com os discípulos. O Mar vermelho e o Monte Sinai são, aqui, evocados. O lugar deserto, onde se encontravam os ouvintes do Mestre, bem como a carência de alimentos e a posterior providência de Jesus para saciar a multidão também têm a ver com o fato de outrora. Tendo como pano de fundo esta ambientação pascal, a cena evangélica significa que é missão do Ressuscitado ser o guia da comunidade cristã a caminho da Terra Prometida – a casa do Pai. O povo congregado em torno de Jesus é chamado a ser um povo de irmãos e irmãs para as quais a partilha solidária é uma exigência irrenunciável. Mesmo sendo muitos, ninguém será vítima do abandono ou da fome. Aqui, o egoísmo não pode ter vez! A Páscoa de Jesus convida-nos, pois, a renovar nossa condição de povo de Deus. – Pai, que a Páscoa de Jesus renove em mim a consciência de pertencer a teu povo, cuja existência deve se pautar pela caridade e pela partilha solidária (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).    

Pe. João Bosco Vieira Leite

Quinta, 16 de abril de 2026

(At 5,27-33; Sl 33[34]; Jo 3,31-36) 2ª Semana da Páscoa.

“De fato, aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus, porque Deus dá o Espírito sem medida” Jo 3,34.

“Jesus afirmou que ‘a boca fala do que lhe transborda do coração’ (Mateus 12,34). Se se tem a Deus no coração, falar-se-á de Deus; se alguém se preocupa com as coisas do Senhor, falará das coisas do Senhor; ao invés, como adverte este evangelho, ‘Aquele que vem da terra (...) fala das coisas terrenas’ (v. 31). ‘Com efeito, aquele que Deus enviou fala a linguagem de Deus’ (v. 34). Deus enviou você como verdadeiro discípulo de Jesus; portanto, sua boca deve estar cheia da palavra do Senhor, e para que sua boca esteja cheia dessas palavras é preciso que você tenha o seu coração anteriormente cheio da palavra de Deus. Qual é o apreço que você tem pela palavra de Deus? Você se cansa de ouvir a palavra de Deus? Você se preparar para transmiti-la? Gostar das coisas de Deus deve levar você a gostar de falar das coisas de Deus. Frequentemente os cristãos descuidam desse ponto, e as conversas que se ouvem em suas reuniões nada têm de construtivo e evangelizador; inclusive, em não poucas ocasiões, as conversas dos cristãos pouco têm de edificante. No entanto, o apóstolo Tiago adverte-nos severamente que ‘se alguém pensa ser piedoso, mas não refreia a sua língua e engana o seu coração, então é vã a sua religião’ (Tiago 1,26). De modo muito particular, você deve cuidar de suas palavras, quando está transmitindo a mensagem da salvação, os ensinamentos do evangelho; o respeito que merece a palavra de Deus exige que se transmita com palavras respeitosas, dignas, educadas e cultas, cheias do Espírito de Deus, que não pode apreciar palavras incultas, mal soantes ou chulas. Não imite esses exemplos que, às vezes, você poderá receber inclusive de pessoas que parecem gozar de prestígio e serem cultas; não as imite nisso, pois nisso não são dignas de imitação, e sim de repreensão. E não diga isso já é costume em determinados ambientes, porque respondo a você que tal procedimento não deve ser permitido em nenhum ambiente cristão, como são os ambientes que você deve frequentar. Finalmente afirma o Senhor Jesus que ‘aquele que Deus enviou fala a linguagem de Deus’ (v. 34). Então se você não fala as palavras de Deus – e não me venha dizer que os palavrões e as anedotas atrevidas são palavras de Deus – você dá a entender com clareza que não é enviado por Deus e que não fala em nome de Deus, mas em seu próprio nome e, nesse caso, você não merece credibilidade nenhuma” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Quarta, 15 de abril de 2026

(At 5,17-26; Sl 33[34]; Jo 3,16-21) 2ª Semana da Páscoa.              

“De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo,

mas para que o mundo seja salvo por ele” Jo 3,17.

“Nos versículos que se seguem, João desenvolve com maior clareza ainda o mistério da vinda de Jesus. Jesus não vem para julgar o mundo, mas para salvá-lo. Em Jesus se manifestou a sua intenção de curar o homem, de tirá-lo de sua perdição, de salvá-lo, de libertá-lo da dependência, de reergue-lo e de restituir-lhe a sua forma original, aquela que, no ato da criação, estava no plano de Deus para cada um individualmente. Quem crê em Jesus já está vivendo a salvação, a sua vida está no caminho certo, as suas feridas perderam a força peçonhenta e mortífera. Deus não julga. Mas quem não crê em Jesus já está julgado; ele próprio se excluiu da vida verdadeira. Porque a vida verdadeira só pode ser encontrada em Jesus. Isso não quer dizer, naturalmente, que só se salva aquele que confessa Jesus em palavras e sinais externos, como afirmam equivocamente certos fundamentalistas. João está longe desse pensamento estreito. João quer nos dizer positivamente que essa vida verdadeira está à disposição em Jesus. Quem não crê em Jesus não entendeu o que significa viver verdadeiramente. Mas a fé é mais do que a confissão meramente exterior. Há mesmo pessoas que recusam Jesus externamente porque, para eles, o seu nome está ligado a todos aqueles preconceitos que foram se acumulando no decorrer da vida em seu interior. Outros não aceitam Jesus porque cresceram em outras religiões. Mas em seu íntimo talvez intuam mesmo assim que é esse Jesus que Deus doa a vida eterna. Os budistas também falam na verdadeira vida que se situa totalmente no presente momento. Em sua alma intuem algo daquilo que Jesus quis transmitir-nos: que devemos abrir os olhos para ver o essencial. Jesus quer mostrar-nos o mistério da vida. Ele nos revela Deus e, em Deus, a realidade autêntica que está por trás de o que é visível. Crer significa, sobretudo, ver o que é, ver sem preconceitos, ver o que há por trás das coisas, reconhecer em Deus o fundamento de todo o ser, ver Deus como o amor que se manifestou em Jesus” (Anselm Grun – Jesus, porta para a vida – Vozes).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Terça, 14 de abril de 2026

(At 4,32-37; Sl 92[93]; Jo 3,7-15) 2ª Semana da Páscoa.

“O vento sopra onde quer, e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai.

Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito” Jo 3,8.

“Quem se faz discípulo do Ressuscitado deve dispor-se a viver a aventura do Espírito. Esta exigência está contida na afirmação enigmática de Jesus: ‘O vento sopra onde quer, você ouve o barulho, porém, não se sabe de onde vem nem para onde vai. A mesma coisa acontece com quem nasceu do Espírito’. Este alerta é fundamental para quem foi iniciado no processo de discipulado. Tornar-se discípulo de Jesus comporta colocar-se à inteira disposição do Espírito. Só assim, irá precaver contra a tentação de querer aprisionar o Espírito e colocar Deus dentro dos próprios limites humanos. Opção empobrecedora, pois impede o ser humano de deixar desabrochar toda a riqueza de dons que lhe foi confiada por Deus. Fechando-se dentro de seus próprios limites, o discípulo tende a acomodar-se, a não ser criativo, e a contentar-se com o pouco, a deixar-se abater pelas críticas, pelas incompreensões e pelos sucessos. Soprando onde e como quer, o Espírito proporciona ao discípulo o dinamismo incomum, a ponto de se admirar com os próprios feitos. Embora pequeno e frágil, não temerá realizar grandes empresas. Tornar-se-á forte diante das contrariedades da vida, o ponto de superá-las todas, e destemido em se tratando de dar testemunho do Ressuscitado. Mostrar-se-á, também, possuidor de uma sabedoria, antes desconhecida; e manterá viva a chama da fé e da esperança, quando o fracasso bater à sua porta. Basta deixar-se conduzir pelo Espírito! – Pai, lança-me, cada dia, na aventura do Espírito, que me tira do comodismo e do abatimento e me faz superar meus próprios limites (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 13 de abril de 2026

(At 4,23-31; Sl 02; Jo 3,1-8) 2ª Semana da Páscoa.

“Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade te digo, se alguém não nasce do alto, não pode ver o Reino de Deus’” Jo 3,3.

“Nascer de novo é nascer para a vida do Espírito. É este um nascimento muito novo e diferente; ininteligível para os critérios da ‘carne’. Por isso, não o entendia Nicodemos, que raciocinava só com sua mente e não com espírito. Jesus fala de uma vida nova que ele nos trouxe: a vida da graça, que se manifesta nas virtudes da fé, esperança e caridade. Nicodemos, de início, não entendeu o que ouvia; mas seu coração foi dispondo-se e, pouco a pouco, entendeu o que Jesus lhe ensinava. Jesus não desprezou Nicodemos, nem levou em conta sua timidez, seu respeito humano; acolheu-o com amabilidade e falou longamente com ele. Porém Jesus não desfigura a verdade e a sublimidade de seus ensinamentos perante Nicodemos, ainda que previsse que iria escandalizar-se. Em sua missão evangelizadora, você não deve desfigurar ou mutilar o ideal cristão, para que se assustem; ao invés disso, desde o primeiro instante, você tem de apresentar o evangelho em toda a sua pureza e integridade, ainda que algum fraco de espírito possa assustar-se. O evangelho sempre acaba entusiasmando” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

2º Domingo de Páscoa – Ano A

(At 2,42-47; Sl 117[118]; 1Pd 1,3-9; Jo 20,19-31)*

1. O nosso Evangelho traz duas aparições de Cristo aos discípulos no cenáculo. Na 1ª vez, Tomé não está presente, e que por sua vez não acolhe o testemunho dos demais. Chama-nos a atenção sua insistência no ver e tocar. Oito dias depois Cristo volta a aparecer e confronta, por assim dizer, o próprio Tomé.  

2. A figura de Tomé está para além do seu próprio tempo. O ser humano, cada vez mais tecnológico, não crê naquilo que não pode ser verificado. Por vezes, quando este percebe que alguém está se aproximando da fé, reage escandalizado, deixando claro que isso nunca acontecerá com ele.

3. Esse caráter de Tomé foi se delineando ao longo desse mesmo Evangelho. No capítulo 11, quando Jesus resolve voltar a Judeia, para ver Lázaro, que está doente, mesmo com o risco de morrer, Tomé diz: “Vamos também nós, para morrer com ele!”. Esta não é a fala de alguém que crê, mas de um desesperado, que se resigna ao pior.

4. Isso é muito atual. Tantos estão dispostos a arriscar a própria vida, mas não a abandonar-se a alegria de crer. Arriscam a vida várias vezes ao dia: ao atravessar com pressa numa rua, ou numa ultrapassagem imprudente... mas não estão dispostos a correr o “risco da fé” que o salvaria da morte.

5. No capítulo 14, quando Jesus insinua que vai voltar ao Pai e diz aos seus discípulos que eles sabem o caminho para chegar também a esse destino, é Tomé quem pergunta: “Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos conhecer o caminho?”

6. É extraordinário como aqui também a dúvida de Tomé resulta numa bênção para nós. Jesus lhe responde algo importantíssimo da nossa fé: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. 

7. O que salvou Tomé foi o sofrimento que havia no seu não-crer. A dureza das condições que se impõe para crer (colocar a mão no seu lado aberto, tocar as marcas dos pregos) vem de um grande sofrimento. Ele traz o sofrimento de não ter sabido morrer com Ele, como havia desejado. Mas sofrer de não amar alguém, é um sinal de verdadeiro amor. Sofrer por não poder crer, é uma forma de fé incompleta, mas sincera!

8. Alguns carregam consigo o desejo de crer, sem ter a força suficiente de fazê-lo. Desejar sem crer, pode ser uma fé mais pura da que quem crê sem desejar.

9. Pode nos soar absurda a exigência de Tomé, em sua resistência a crer, mas Jesus a aceita. Se deixa vencer por Tomé. Só por ele muda todas as suas disposições e seu método. À Madalena, por exemplo, ele havia dito o contrário: “Não me toques!”. Jesus amava Tomé, sabia de suas resistências e infelicidade, e assim lhe falava ao coração.

10. Vendo Jesus à sua frente, Tomé se dá conta que deveria saber que Ele ressuscitaria, que deveria crer como os outros. Ao não crer estava infligindo-se uma punição, defender-se de algo que era muito vivo nele. Se dá conta que deveria ter acreditado. Se comportou como uma criança que busca impor exigências ao amor do pai e da mãe, mesmo sabendo que é amada.

11. Caravaggio retratou Tomé aproximando, temeroso, seu dedo da chaga de Jesus. Outros artistas, particularmente os orientais, o representam curvado em adoração diante de Jesus. Caberá a ele dirigir-se a Jesus como nenhum outro apóstolo o fez chamando-o: “Meu Deus”.  E assim ele é curado com tal delicadeza de sua culpa e humilhação; ela se transforma numa maravilhosa recordação.

12. Diante desse quadro, a Igreja reconhece também de ter aprendido muito com aqueles que combatem contra ela. A crítica e o diálogo com os não-crente, quando se desenvolve no respeito e na lealdade recíproca, são de grande utilidade. Antes de tudo a faz humilde. A fé não se impõe, se propõe e se mostra com a prática.

13. Que São Tomé encontre muitos imitadores de seu itinerário de fé; que não fechem a porta, que não se fixem em suas posições, mas busquem. A nós, que já cremos, Tomé convida a apreciar o dom e o privilégio que temos. Acreditamos sem forçar a Deus no ‘ver’ ou ‘tocar’. Um dia, transposto o “rio” que nos levará à outra margem, veremos suas feridas, seu lado aberto e exclamaremos, - e esperamos que seja para nossa felicidade e não para nossa condenação: “Meu Senhor e meu Deus!”

* com base em texto de Raniero Cantalamessa.

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 11 de abril de 2026

(At 4,13-21; Sl 117[118]; Mc 16,9-15) Oitava de Páscoa.      

“E disse-lhes: ‘Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!’” Mc 16,15.

“Este é o grande mandato, a grande missão de Jesus, à qual a Igreja deverá ser fiel até o final dos tempos. É esta ‘uma tarefa e missão, pelas quais as mudanças amplas e profundas da sociedade atual tornam-se cada dia mais urgentes. Evangelizar constitui, com efeito, a boa nova e vocação própria da Igreja, sua identidade mais profunda. Ela existe para evangelizar, isto é, para pregar e ensinar, ser canal do dom da graça, reconciliar os pecadores com Deus, perpetuar os sacrifícios de Cristo na Santa Missa, memorial de sua morte e ressurreição gloriosa’ (Paulo VI). A Igreja deve cumprir a missão de evangelizar os povos, porém cumpri-la-á por meio de todos nós, cristãos que formamos a Igreja. Tome, pois, consciência de que a Igreja evangelizará, conquanto que você faça o mesmo. Com certeza, na medida em que for possível, com os meios e no ambiente que lhe seja exequível, mas você deverá evangelizar, proclamando a mensagem de salvação. Não seja omisso, nem preguiçoso, nem tímido, nem excessivamente ‘prudente’; pregue o Evangelho. ‘Prega a palavra, insiste oportuna e inoportunamente’ (2Timóteo 4,2)” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).       

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sexta, 10 de abril de 2026

(At 4,1-12; Sl 117[118]; Jo 21,1-14) Oitava de Páscoa.

“Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades” Jo 21,1.

“Mais outra aparição de Jesus às margens do lago Tiberíades.  Não estavam todos os discípulos, mas sim um bom número deles e, sobretudo, encontrava-se presente Pedro, a quem todos acompanharam, ao manifestar ele a decisão de pôr-se ao mar para pescar. ‘Também nós vamos contigo’. É muito importante seguir sempre os passos de Pedro, chefe da Igreja de Jesus Cristo. Pedro segue à frente dessa Igreja, atravessando os séculos na pessoa de diversos homens e também com nomes diferentes, tais como Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I ou João Paulo II, o Pedro que está à frente da Igreja, governando-a e conduzindo-a conforme o Espírito de Jesus lhes dá a entender. A fidelidade à hierarquia da Igreja e a seu magistério é o sinal inequívoco de que estamos na verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Jesus Cristo aparece também hoje, muitas vezes, à sua Igreja, sempre presidida pelo Pedro que está de plantão cumprindo seu múnus, mas sempre indefectivelmente guiada por esse Pedro, que é o Cristo visível, que vela continuamente por sua Igreja” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Quinta, 9 de abril de 2026

(At 3,11-26; Sl 8; Lc 24,35-48) Oitava de Páscoa.

“Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede! Um fantasma não tem carne nem ossos, como estai vendo que eu tenho” Lc 24,39.

“Jesus diz aos discípulos que devem apalpá-lo. A palavra grega ‘pselaphao’, ‘pegar’, ‘apalpar’, ‘segurar’, é usada outra vez por Lucas no discurso de Paulo no Areópago, onde Paulo responde conscientemente à Filosofia estoica: os homens deveriam ‘procurar Deus; talvez pudessem encontra-lo e segurá-lo, pois não está longe de cada um de nós’ (At 17,27). Com a palavra de Jesus: ‘Apalpai-me’, Lucas sugere aos sequazes da filosofia estoica que nós, os humanos, podemos tocar em Deus na pessoa de Jesus Cristo. Nas suas mãos, nos seus pés, os discípulos tocam no próprio Deus. Assim cumpre-se o ardente desejo humano de um Deus que os nossos sentidos possam perceber. Em cada Eucaristia podemos tocar em Jesus, no pão que nos é colocado na mão. Na Igreja primitiva os cristãos tocavam nos seus próprios olhos e ouvidos com o corpo de Cristo, não apenas para poderem tocar no Cristo, mas para se deixarem tocar e apalpar carinhosamente por ele. Jesus pede ainda que lhe deem algo para comer, e ele come juntamente com os discípulos, participa da refeição com eles. A Ressurreição cria uma nova comunidade. Nas refeições dos discípulos entre si, o próprio ressuscitado está no meio deles. Para Lucas, a Eucaristia é sempre um encontro com o ressuscitado. A intimidade e a alegria de que fala a sua descrição da refeição pascal devem caracterizar também a celebração da Eucaristia. Jesus explica a Escritura aos seus discípulos e discípulas, e se mostra a eles como Deus e homem, como aquele que se tornou realmente ‘ele mesmo’, a fim de que nós ressuscitemos da alienação para ser ‘nós mesmos’, da rigidez para a vivacidade, do isolamento para uma convivência nova” (Anselm Grüm – Jesus, modelo do ser humano – Loyola).  

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Quarta, 8 de abril de 2026

(At 3,1-10; Sl 104[105]; Lc 24,13-35) Oitava de Páscoa.

“Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía” Lc 24,30.

“Hoje, quarta-feira entre a Oitava de Páscoa, a liturgia faz-nos meditar sobre outro encontro singular do Ressuscitado, o que teve com os dois discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13-35). Quando, desconfortados pela morte do seu Mestre, regressavam para casa, o Senhor fez-se seu companheiro de caminho sem que eles o reconhecessem. As suas palavras, a comentar as Escrituras que lhe dizem respeito, tornaram fervorosos os corações dos dois discípulos que, tendo chegado ao destino, lhe pediram para permanecer com eles. Quando, no final, Ele ‘tomou o pão, pronunciou a bênção, o partiu e lho deu’ (v. 30), os seus olhos abriram-se. Mas naquele mesmo momento Jesus subtraiu-se ao seu olhar. Portanto, reconheceram-no quando Ele despareceu. Ao comentar este episódio evangélico, Santo Agostinho observa: ‘Jesus parte o pão, reconhecem-no. Então nós já não dizemos que não conhecemos o Cristo! Se cremos, conhecemo-lo! Aliás, se cremos, temo-lo! Tinham Cristo à sua mesa, nós temo-lo na nossa alma!!’. E conclui: ‘Ter Cristo no próprio coração é muito mais que tê-lo na própria casa: de fato, o nosso coração é-nos mais íntimo do que a nossa casa’ (Discurso 232, VII,7). Procuremos realmente levar Jesus no coração” (Bento XVI – Um Caminho de Fé Antigo e sempre Novo – Vol. III – Mokai)

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Terça, 07 de abril de 2026

(At 2,35-41; Sl 32[33]; Jo 20,11-18) Oitava de Páscoa.

“Jesus perguntou-lhe: ‘Mulher, por que choras? A quem procuras?’” Jo 20,15a.

“Jesus ressuscitou, mas, antes de voltar definitivamente ao Pai, quis aparecer repetidas vezes entre os seus e conversar com eles, para confirma-los na certeza de sua ressurreição. E, por primeiro, quis aparecer a Maria Madalena, que tinha passado muito tempo ‘junto do sepulcro, e chorando’. É que, comumente, os consolos que Deus concede às pessoas que vivem sua espiritualidade não conseguem senão depois da própria purificação, chorando os próprios pecados ou submetendo-se voluntariamente aos dissabores do sofrimento por amor a Deus. Maria Madalena estava chorando junto ao sepulcro a morte de Jesus, por aquela separação do seu Senhor, que para ela parecia dever ser definitiva. Porém Maria estava enganada e, assim, em primeiro lugar são os anjos que lhe chamam a atenção sobre a razão de seu pranto: ‘Mulher, por que choras?’ Não existe razão para isso, pois aquele que fora sepultado aqui já não está no sepulcro, porque ressuscitou; não existe, portanto, motivo para choro, e sim para a alegria. Depois é o próprio Jesus que lhe aparece e lhe dirige a mesma pergunta: ‘Por que choras?’ Não me perdeste; eis-me aqui. Não é uma atitude má que você chore por seus pecados, porque por causa deles você perdeu Jesus. Mas, se você já se arrependeu sinceramente e os confessou com dor e penitência, já recuperou a graça, a amizade de Jesus; por que, então, continuar vertendo essas lágrimas?” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 06 de abril de 2026

(At 2,14.22-32; Sl 15[16]; Mt 28,8-15) Oitava de Páscoa.

“Dizei que os discípulos dele foram durante a noite e roubaram o corpo enquanto vós dormíeis” Mt 28,13.

“Os judeus adeptos da sinagoga divulgaram falsas explicações a respeito da ressurreição de Jesus no contexto da controvérsia com os cristãos. Foram tentativas de esvaziar o elemento central da fé cristã, reduzindo ao descrédito tudo quanto se dizia a respeito do Senhor. Com isto, buscava-se dar um xeque-mate no que se configurava como uma nova seita no interior do judaísmo. Uma falsa explicação consistiu em dizer que os discípulos haviam roubado o corpo de Jesus, num momento de descuido dos soldados romanos que vigiavam o sepulcro. O túmulo vazio, portanto, resultava de uma fraude grosseira. Os cristãos rebateram tal acusação. Os soldados prestaram-se para mentir, grosseiramente, por terem sido subornados. O dinheiro fê-los ocultar a verdade e propagar uma reconhecida mentira! Ao receber a falsa acusação, os cristãos tornavam seus acusadores testemunhas do evento maravilhoso acontecido com Jesus. Eles sabiam que o corpo do Mestre não se encontrava mais no sepulcro, embora desconhecessem como isto acontecera. Também desconheciam as reais dimensões do que se passara. Tinham apenas consciência de não terem tirado o corpo de Jesus do sepulcro. Faltava-lhes ainda saber que tinha sido o Pai quem o ressuscitara. – Pai, faze-me compreender que a ressurreição de Jesus é obra do teu amor por ele e por toda a humanidade” (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Domingo de Páscoa – Ano A

(At 10,34.37-43; Sl 117[118]; Cl 3,1-4; Jo 20,1-9)*

1. Algumas situações na vida podem nos levar a usar a palavra, ressurreição, renascimento. Quando alguém atravessa uma grave doença, e pode retomar as suas atividades, dizemos que ela renasceu! Um político, ou um atleta que sofre uma derrota, se supõe logo que é o seu fim. Mas se numa nova ocasião ele obtém sucesso: dizemos que ressuscitou!

2. Tolstói escreveu um romance intitulado Ressurreição. Por detrás da palavra Ressurreição do título, há uma história de redenção do mal. Um homem sacrifica a sua posição social e a carreira para reparar um erro cometido na juventude contra uma jovem.

3. Cada uma dessas situações nos ajuda a entender alguma coisa da ressurreição de Cristo. Ela é tudo isso – retorno à vida, vitória sobre os inimigos, triunfo do amor – e infinitamente mais que tudo isso. Se há tantas pequenas ressurreições na vida - também na nossa –, é porque antes houve a ressurreição de Cristo. Ela é a causa de todas as ressurreições: à vida, à esperança.

4. Com estas promessas, aproximamo-nos do Evangelho deste domingo de Páscoa. Esse brado de “Ressuscitou” ressoou pela 1ª vez no mundo àquelas mulheres que vão pela manhã ao sepulcro, entre elas, Madalena. E elas se precipitam pelos caminhos até chegarem ao cenáculo para darem a notícia aos discípulos.

5. Os discípulos logo percebem que algo de extraordinário havia acontecido e no meio de tamanho entusiasmo vem a notícia da ressurreição. E assim, o anúncio da Ressurreição de Cristo começava sua corrida através da história, como uma onda calma e majestosa que nada nem ninguém poderá fazer parar até o fim do mundo.

6. Este anúncio, passado vinte séculos, chega também a nós, hoje, límpido e fresco, como na primeira vez. Mas Jesus ressuscitou verdadeiramente? Que garantia temos de que se trata de um fato realmente acontecido e de que não é uma invenção ou uma ilusão?

7. Paulo, em 1Cor 15,8, há quase 25 nos de distância dos fatos, elenca todas as pessoas que viram a Cristo depois da ressurreição e a maioria era ainda viva. E acrescenta também a sua pessoa, em seu testemunho pessoal de encontro com o Ressuscitado.

8. Estes discípulos são os mesmos que se dispersaram com a sua morte; deram o caso por encerrado, como os discípulos de Emaús. Não esperavam nada. E eis que, de improviso, estes mesmos homens estão a proclamar que Jesus está vivo, e por esse testemunho, enfrentam processos, perseguições e ao fim, um após o outro, o martírio e a morte.

9. Sem o fato da ressurreição, o nascimento do cristianismo e da Igreja se torna um mistério ainda mais difícil de se explicar do que a própria ressurreição.

10. Estes são alguns argumentos históricos, objetivos, mas a prova mais forte que Cristo ressuscitou, que está vivo, não nos vem de o termos visto, mas de que Ele tem vida em nós, nos comunica o sentido da sua presença, nos faz ter esperança. “Toca em Cristo quem crê em Cristo”, dizia S. Agostinho e os verdadeiros crentes fazem a experiência da verdade desta afirmação.

11. Sem entrar aqui no que argumentam os que não creem, a força da ressurreição de Cristo, como diz São Paulo, é, para o universo espiritual, aquilo que foi para o universo físico, segundo a teoria moderna do Big Bang: uma explosão tal de energia que imprimiu no cosmo aquele movimento de expansão que dura ainda hoje, a distância de milhares de anos.

12. De São Serafim de Sarov, um monge que viveu na Rússia, se conta que quando as pessoas iam ao seu encontro no mosteiro para confessar-lhe seus pecados, ele ia ao encontro delas e, ainda longe, as saudava com grande entusiasmo, gritando, “Meu querido, Cristo ressuscitou!”.

13. Nos lábios desse santo aquelas palavras tinham uma força que, só ao ouvi-las, os visitantes sentiam cair os sofrimentos do coração e renascer a esperança. Façamos também nossa essa saudação nesse dia de Páscoa, ao menos com os olhos, se não é possível com a boca: “Meus queridos[as], Cristo Ressuscitou! Aleluia! Aleluia!”

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa.

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado Santo –

 Uma meditação: “Tempo de desolação”

“Então Jesus perguntou: ‘O que ides conversando pelo caminho?’ Eles pararam com o rosto triste...” Lc 24,17.

“A morte de cruz mergulhou os discípulos numa profunda desolação. Os ideais cultivados na convivência com o Mestre esvaíram-se. Seu poder, sobejamente demonstrado nos milagres que realizou, dilui-se na impotência a que fora reduzido ao ser pregado na cruz, sem ter como se defender. Sua autoridade, manifestada no modo de falar e ensinar, pareceu desacreditada, ao ser reduzido à condição de maldito. Sua intimidade com o Pai pareceu ter sido de pouca valia, pois não se observou nenhuma manifestação divina a seu favor, quando se viu entregue nas mãos de seus algozes. O projeto de Reino, formidável na sua formulação, foi de água abaixo. Era insensato falar de justiça, fraternidade, partilha, num mundo onde o pecado brutaliza o coração humano, e a injustiça, a maldade, a prepotência pareciam ter a primazia. A desolação impedia os discípulos de considerar com clareza a morte de Jesus e de entende-la em conexão com a vida. O olhar obnubilado impedia-os de pensar diversamente e de considerar a possibilidade da intervenção do Pai na vida de Jesus. Afinal, não mostrara-se o Filho, de mil maneiras, absolutamente fiel a ele? A ressurreição abriu os olhos dos discípulos, permitindo-lhes reinterpretar a morte de Jesus sob nova luz. Então, o humanamente insensato tomou sentido novo, na perspectiva de Deus. Por isso, urgia não se deixar abater pela desolação, mas olhar para além da cruz. – Pai, que eu não me deixe abater pela desolação provocada pela cruz, pois a vida do Filho Jesus está colocada em tuas mãos. Creio que não o deixaste perder, mas a ressuscitaste da morte” (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Sexta, 03 de abril de 2026

(Is 52,13—53,12; Sl 30[31]; Hb 4,14-16; 5,7-9; Jo 18,1—19,42) Paixão do Senhor.

“Então Pilatos entrou de novo no palácio, chamou Jesus e perguntou-lhe: ‘Tu és o rei dos judeus?’” Jo 18,33.

“A paixão revelou a dignidade real de Jesus, embora, tenha havido uma radical contradição entre a interpretação de Jesus e a dos inimigos e algozes. Ao ser interrogado por Pilatos, Jesus respondeu: ‘Eu sou rei’, depois de fazer a autoridade romana concluir, por si mesma: ‘Tu o dizes!’.  A soldadesca insana ultrajou Jesus, servindo-se de mímicas burlescas próprias de uma investidura real: colocaram-lhe uma coroa de púrpura. A seguir, prostraram-se, ironicamente, diante dele, saudando-o como rei dos judeus. Por ordem de Pilatos, foi preparada uma inscrição, em três línguas, para ser afixada sobre a cabeça de Jesus, indicando a causa da condenação: ‘Jesus nazareno, rei dos judeus’. Alertado a mudar o teor da inscrição, Pilatos apelou para a sua autoridade: ‘O que escrevi, está escrito’. O evangelista observa que muitos judeus leram a inscrição, por ter sido crucificado perto da cidade. O Mestre, porém, tinha consciência de que seu Reino não era deste mundo, e estava estruturado de maneira diferente. Fundava-se na fraternidade, na justiça, na partilha, no perdão reconciliador. Os reinos deste mundo não serviam de modelo para Jesus fazer os discípulos entenderem o que se passava com o seu Reino. Por conseguinte, nem Pilatos nem os judeus tinham condições de compreender em que sentido Jesus era rei. – Pai, confirma minha condição de discípulo do Reino instaurado por Jesus na história humana, fazendo-me acreditar sempre mais na força da justiça e do amor (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).


Pe. João Bosco Vieira Leite

Quinta, 02 de abril de 2026

(Ex 12,1-8.11-14; Sl 115[116B]; 1Cor 11,23-26; Jo 13,1-15) Ceia do Senhor.

“Chegou a vez de Simão Pedro, Pedro disse: ‘Senhor, tu me lavas os pés?’” Jo 13,9.

“João tem duas interpretações para o lava-pés: numa ele o vê como símbolo e noutra como modelo. O conteúdo simbólico do lava-pés revela-se nas palavras: ‘Jesus (...) depõe o seu manto e toma um pano com o qual se cinge’ (13,4). Trata-se de uma metáfora da encarnação de Jesus. Ele depôs o manto de sua natureza divina e se apresenta com um pano, como escravo. O simbolismo do lava-pés aparece também no diálogo com Pedro. Este não quer permitir que Jesus lhe lave os pés. Pedro vê no gesto um serviço que cabe a um escravo.  Jesus respondeu-lhe: ‘O que eu faço, tu não és capaz de saber agora, mais tarde, porém, compreenderás’ (13,7). O lava-pés remete a um outro acontecimento, à morte de Jesus. É uma imagem do último serviço que Jesus prestará aos seus discípulos: sua morte por amizade na cruz. Quem recusa esse serviço não participa da salvação, da glória de Jesus: ‘Se eu não te lavar, não poderás ter parte comigo’ (13,8). Novamente, Pedro não entende o que Jesus gostaria de lhe dizer. Ele intui apenas que o lava-pés lhe dará parte com Cristo. Por isso pede que Jesus lhe dê logo um banho completo. Jesus lhe explica, então, o sentido de seu ato: ‘Aquele que tomou banho não tem nenhuma necessidade de ser lavado, pois está inteiramente puro’ (13,10). Os discípulos já se tornaram puros pelos atos e pelas palavras de Jesus. Bultman entende essa pureza como libertação do mundo. Quem crê em Jesus, livrou-se do poder do mundo e de seus padrões. Ele não se suja com os jogos de poder, com as intrigas e os vícios. Para Jesus, o lava-pés é um sinal daquele ato de amor que ainda falta: a sua morte de cruz. Nesse ato, o seu amor se completará. A fé não exige apenas que o discípulo creia nas palavras de Jesus, mas que creia sobretudo em sua morte. Assim se completa também a sua fé, pois ele vê na morte de cruz a maior prova do amor de Jesus” (Anselm Grun – Jesus, porta para a vida – Vozes).

Pe. João Bosco Vieira Leite