6º Domingo da Páscoa – Ano A

(At 8,5-8.14-17; Sl 65[66]; 1Pd 3,15-18; Jo 14,15-21) *

1. Aproximando-nos da festa de Pentecostes, a liturgia começa a preparar-nos para essa celebração. Na 1ª leitura temos a menção ao gesto de confirmação do batismo a partir do dom do Espírito, conforme celebramos em tempos atuais o sacramento do Crisma.

2. Jesus, no Evangelho, fala dessa vinda do Espírito Santo sobre os discípulos, aqui chamado de Defensor, em nossa tradução do grego Paráclito, que seria também Consolador, ou as duas coisas juntas. Aplicados ao Espírito Santo, tais títulos expressam algo já presente na Bíblia.

3. No Antigo Testamento, Deus é o grande consolador do seu povo, afirma Isaías (51,12), que consola seu povo como uma mãe. Paulo utiliza a expressão “Deus de toda a consolação” (Rm 15,4), que em Cristo se encarnou, e é o primeiro consolador ou Paráclito.

4. É Ele que no Evangelho nos convida: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, eu vos darei descanso” (Mt 11,28). Assim, o Espirito Santo, nesse e em outros aspectos, continua a obra de Cristo e leva à realização as obras comuns da Trindade. Ele não poderia ter outro nome que, Consolador.

5. Por que o Evangelista insiste nessa denominação Consolador/Defensor? Isso tem a ver com a própria experiência da Igreja primitiva, em meio as dificuldades externas e internas, perseguições, processos, e com a vida de cada dia. Ela a experimenta como advogado e defensor divino contra os acusadores humanos.

6. Passada essa fase mais tenebrosa, o acento recai sobre o significado predominante de consolador nas tribulações e angústias da vida. Uma consolação diferente daquela humana. São Boaventura dirá que ela é verdadeira, perfeita e proporcional.

7. Dessa contemplação da realidade consoladora do Espírito Santo podemos recolher algumas consequências práticas. Paulo nos diz que o Paráclito, “o amor de Deus, derramado em nossos corações” (cf. Rm 5,5) não se limita a dar-nos um pouco de consolação, mas nos ensina a arte de consolar: 2Cor 1,2-4.

8. Nesse texto o termo Paráclito retorna por cinco vezes, ora como verbo, ora como substantivo. E traz o essencial para uma teologia da consolação. Se a consolação verdadeira vem de Deus sobre quem está aflito, ela não para no indivíduo que a recebeu, seu objetivo último é que uma vez experimentando essa consolação, saibamos consolar a outros.

9. Consolar como? Com a consolação que nos vem de Deus, não contentando-se em repetir palavras estéreis, mas em clima de oração, com fé na presença do Espírito, uma simples palavra ou um gesto, são capazes de operar milagres. Como quem acompanha um enfermo, sem dizer muito, sendo apenas presença. É Deus quem está consolando através de nós.

10. Em certo sentido, o Espírito Santo necessita de nós para ser Paráclito. Ele quer consolar, defender, exortar; nossas mãos, nossos olhos, nossa boca dão corpo e expressão a essa consolação. Como se a nossa alma desejasse dar um sorriso ou fazer uma carícia a alguém, mas não pode fazer por si mesma, é preciso que os lábios, as mãos, traduzam o desejo.

11. Quando Paulo exorta os tessalonicenses a “consolarem-se uns aos outros” (1Ts 5,11), e como se dissesse: “façam-se paráclitos” uns dos outros. Por isso rezava e lembrava São Francisco de Assis: “Que eu não procure tanto ser consolado, mas consolar; de ser compreendido, mas de compreender, de ser amado, mas de amar...”.

12. Muitos fazem em sua vida essa “ação” de ser Paráclito, inclinando-se sobre doentes terminais, aliviando a solidão dos anciãos, dedicando-se às crianças vítimas de abusos de todo tipo, dentro e fora de casa. Paráclitos são também os que buscam os direitos de minorias ameaçadas ou que se fazem voz de quem não tem voz.

13. Paráclitos devem ser os sacerdotes e religiosos para o povo de Deus, sobretudo do que nos vem da palavra de Deus, da esperança, do perdão sacramental. Paráclitos são ou foram muitas mães, de um modo particular. As mãos da providência chegaram até nós por elas, em consolação, defesa, cuidado. Nosso agradecimento a Deus por elas e que nos venha de novo e sempre Seu Espírito: “Vem Espírito, vem Espírito...”.

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa.

Pe. João Bosco Vieira Leite