Segunda, 24 de agosto de 2026

(Ap 21,9-14; Sl 144[145]; Jo 1,45-51) São Bartolomeu Apóstolo.

“Jesus viu Natanael, que vinha para ele, e comentou: ‘Aí vem um israelita de verdade, um homem sem falsidade’” Jo 1,47.

“No elogio de Jesus a Natanael, descobre-se a atração que uma pessoa sincera exerce sobre o coração de Cristo. O Mestre diz do novo discípulo que nele não há ‘dolo nem engano’: é um homem sem falsidade. Não tem como que ‘dois corações e duas pregas no coração, uma para a verdade e outra para a mentira’ (Santo Agostinho). Isso é o que deve poder dizer-se de a cada um de nós, por sermos homens e mulheres íntegros, que procuramos viver com coerência a fé que professamos. O mentiroso, aquele que tem um espírito duplo, aquele que atua com pouca clareza, soa sempre a sino rachado: ‘Lias naquele dicionário os sinônimos de insincero: ‘ambíguo, ladino, dissimulado, matreiro, astuto’... – Fechaste o livro, enquanto pedias ao Senhor que nunca pudessem aplicar-se a ti esses qualificativos, e te propuseste aprimorar ainda mais esta virtude sobrenatural e humana da sinceridade’ (Josemaria Escrivá). Trata-se de uma virtude fundamental para seguir o Senhor, pois Ele é a verdade divina e aborrece toda mentira. Até os inimigos de Cristo terão de reconhecer o seu amor pela verdade: ‘Mestre – dir-lhe-ão numa ocasião –, sabemos que és sincero e que ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, sem te prenderes a ninguém, porque não fazes acepção de pessoas’ (Mt 16,22). E ensina-nos que as manifestações das nossas ideias ou pensamentos devem ser feitas conforme a verdade: ‘Seja o vosso falar: Sim, sim; não, não; porque tudo o que passa disto procede do mal’ (Mt 5,37). O demônio, pelo contrário, é o pai da mentira (cf. Jo 8,44), pois tenta constantemente levar os homens ao maior de todos os enganos, que é o pecado. O próprio Jesus, que sempre se mostra compreensivo e misericordioso com todas as fraquezas humanas, lança duríssimas condenações contra a hipocrisia dos fariseus. Por isso podemos imaginar a alegria que lhe causou o encontro com Natanael” (Francisco Fernandez-Carvajal – Falar com Deus – Vol. 7 – Quadrante)

 Pe. João Bosco Vieira Leite

21º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Is 22,19-23; Sl 137[138]; Rm 11,33-36; Mt 16,13-20)*

1. Dentro de ciclo litúrgico do ano A, já celebramos o nascimento, o batismo, a paixão, a ressurreição, a ascensão de Jesus e testemunhamos algumas de suas obras. E aí nos chega nesta altura do ano que nos perguntemos: quem é, na realidade, esse Jesus que cada assembleia nos fala e do qual sempre falamos?

2. Também durante a sua vida Jesus não formulou a pergunta no início, mas mais tarde, quando os discípulos estavam preparados para dar uma resposta. Mas a primeira pergunta de Jesus é com relação ao que diz o povo, aqueles de fora, aqueles que ouviram falar de Jesus ou o viram, mas não aderiram a ele.

3. Certamente Jesus não tinha necessidade de saber o que pensam as pessoas a respeito dele. A pergunta serve antes para nós, que cremos. Para algo que devemos descobrir em seguida. Para essa pergunta de Jesus podemos pinçar algumas respostas do nosso tempo, nem sempre fáceis de decifrar.

4. As vozes jovens que tanto movimentou os decênios passados, aparece num filme realizado por eles e para eles: “Jesus Cristo Superstar”. Numa humanização total de Cristo! Um Jesus que está entre os homens – isto é correto – mas há algo nele que vai além daquele horizonte, mesmo se não se tem nem os meios nem a vontade de conduzir até lá a pesquisa.

5. Quem é Jesus de Nazaré? Há hoje também quem a esta pergunta, responda como então: um profeta! São os ‘políticos’, alguns marxistas que abandonaram os preconceitos anticristãos, ou simplesmente, pessoas comprometidas com um mundo mais justo. Profeta, entende-se, da história, não de Deus. Um Jesus com o qual se identificou toda uma geração de ideólogos da revolução e da mudança social.

6. Também filósofos e teólogos tentaram responder a essa pergunta. Para alguns filósofos, Jesus foi uma pessoa que realizou completamente todas as possibilidades do ser humano e que pode, por isso, colocar-se como sentido e modelo da existência humana; alguém em quem Deus se tornou presente. Nele “há” Deus, mas não “é” Deus.

7. Se a Cristo realmente importasse o dizer do povo, ele deveria ter parado por ali, dar-se por satisfeito. Mas sua verdadeira intenção vem com a pergunta seguinte: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Dos discípulos que o conheceram de perto, que escutaram suas palavras, Jesus espera uma resposta diferente daquela do povo.

8. Também hoje Jesus não se contenta que nós saibamos o que diz dele a cultura; quer a nossa resposta, de nós que cremos nele e que nele colocamos nossa esperança. A resposta não se deve certamente inventar. Temos aquela que um dia deu Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”.

9. Nesta está em “germe”, toda a cristologia. Aquela resposta, revivida e aprofundada por todas as gerações cristãs que nos precederam, proclamadas pelos concílios e pelo magistério da Igreja, que chegou até nós, e nós, recitando o credo, não fazemos outra coisa senão repeti-la.

10. Nas suas orações e nos seus ensinamentos a Igreja sempre repete a si mesma esta fé: Jesus não é somente um homem, ou um profeta; é mais do que profeta: é Deus conosco. Esta é, portanto, a resposta da fé à pergunta: Quem é Jesus?

11. As respostas do povo, de ontem e de hoje não representam a fé, representam a “pesquisa”; não vem de cima, mas da Terra, ainda que com interrogações honestas sobre a figura de Jesus. As duas respostas se assemelham ao caminhar dos Magos para Belém e os Magos regressando de Belém: primeiro foram se informando sobre o Menino, depois, o encontrando, o adoraram, considerando-o Deus.

12. Mas a resposta da fé, de tão antiga, pode se tornar insignificante se não a torno minha, se não a interiorizo. É a mim que a pergunta também se dirige. E aqui poderíamos partilhar muitas respostas pessoais que nascem das experiências, como o fizeram os cristãos da primeira geração.

13. Não podemos ignorar que a pesquisa renova a fé e, sobretudo, a encarna. É normal e desejável que nos coloquemos questões a respeito d’Ele, de repensar sua pessoa à luz dos problemas e das exigências sempre novas que afloram na história. Muitos já a fazem para nós. Ainda que as repostas sejam parciais e insuficientes. Muitos não avançam, só tocam na orla do manto. Que Jesus se volte também para eles e os ajudem a descobri-lo totalmente.

14. O silêncio pedido por Jesus ao fim do Evangelho já não vale mais. A nós, seus discípulos, Jesus manda que digamos a todos que ele é o Cristo: e dizê-lo, sobretudo, ao povo que continua a perguntar quem é Jesus de Nazaré.

* com base em texto de Raniero Cantalamessa

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 22 de agosto 2026

(Is 9,1-6; Sl 112[113]; Lc 1,26-38) Bem-aventurada Virgem Maria Rainha.

“O anjo entrou onde ela estava e disse: ‘Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!’” Lc 1,28.

“Ante vossa glória, ó Maria, não consegue a devoção calar, nem a mente árida formular algo de digno... Até os habitantes do céu, estupefatos, perguntam uns aos outros: ‘Quem é esta que sobe do deserto plena de delícias?... Quem é esta que lá do mundo, onde tudo é cansaço, dor e aflição de espírito, sobe até aqui a superabundar de delícias espirituais?... Subindo do deserto, ó Rainha do mundo, até para os santos Anjos, apareceis encantadora de beleza e a suave em vossas delícias’... A vós, pois, ó fonte de vida, chega-se nossa sedenta! A vós, tesouro de misericórdia, recorre nossa miséria com toda a solicitude! Virgem bendita... revele ao mundo, vossa piedade, aquela graça que achastes junto de Deus! Obtende, com vossas santas preces, perdão para os culpados, cura para os doentes, fortaleza para os débeis, conforto para os aflitos, auxílio e libertação para quem está em perigo. Neste dia de tranquilidade e alegria, nós, vossos pobres servos, vos invocamos, e vosso dulcíssimo nome louvamos! Por vossa intercessão, ó Virgem clementíssima, alcançai-nos a abundância das graças daquele que é vosso Filho, Jesus Cristo Nosso Senhor, Deus bendito sobre todas as coisas, pelos séculos eternos’ (São Bernardo)” (Gabriel de Sta. Maria Madalena, OCD – Intimidade Divina – Loyola)

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Sexta, 21 de agosto de 2026

(Ez 37,1-14; Sl 106[107]; Mt 22,34-40) 20ª Semana do Tempo Comum.

“Jesus respondeu: ‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma

e de todo o teu entendimento!’” Mt 22,37.

“O rabino quer pôr à prova o modo de pensar de Jesus e apresenta-lhe uma artimanha para comprometer o Mestre, isto é, a pergunta é hostil e faz-se para tentar o Mestre. O amor a Deus e o amor ao próximo são o resumo de toda a Lei e desses dois preceitos adquirem valor e significado os preceitos restantes. ‘Foi-te mandado amar com todo o coração, com toda alma, com toda a mente. O coração é o centro da vida animal e palpita. A alma é o primeiro princípio da vida e move todos os membros. A mente é a faculdade que avalia, pensando, por assim dizer, a essência e a propriedade das coisas. Tudo isso te foi dado para que possas correr para Deus e estar com ele’ (Santo Agostinho). Jesus Cristo nos exige amor total; não se contenta com parcialidade, exige a totalidade da entrega tanto a Deus, como ao próximo; quer que o amemos não de qualquer maneira, mas ‘com todo teu coração, com toda tua alma e com toda tua mente’” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Quinta, 20 de agosto 2026

(Ez 36,23-28; Sl 50[51]; Mt 22,1-14) 20ª Semana do Tempo Comum.

“O Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho” Mt 22,2.

“A parábola pode ser interpretada também como o caminho da encarnação de cada um individualmente. Essa interpretação individual, que poderíamos chamar também de interpretação à luz da psicologia profunda, que interpreta tudo no nível do sujeito como caminho do indivíduo para Deus, remonta a Orígenes. Ele coloca essa interpretação individual ao lado da eclesial. Ambas têm a sua razão de ser. Orígenes interpreta a parábola como a ‘união do Logos, o noivo, com a alma, a noiva, que se realiza pelo casamento espiritual’ (Luz III, 247). Pelo encontro com o Logos, a alma recebe a imortalidade. O verdadeiro encontro e a união com o Logos acontece na contemplação, ou seja, na visão de Deus pelo Espírito. Interpretando a parábola dessa maneira, ela adquire um significado atual aplicável a cada um de nós, descrevendo o caminho interior da autorrealização e da unificação com Deus. Todos nós somos convidados para a festa nupcial. A nossa vocação cristã não quer dizer apenas que devemos cumprir os mandamentos de Deus, mas que somos convidados a ser um com Deus em Jesus Cristo. O objetivo de nossa vida é a autorrealização pela qual fundimos com o nosso núcleo divino. Quantas vezes passamos pelo convite sem lhe dar a devida atenção! Primeiro, desprezamos o convite que se manifesta em impulsos sutis de nosso coração. Intuímos que a nossa verdadeira vocação consiste em deixarmo-nos cair em Deus para nos tornar um com ele. Mas a voz convidativa de Deus é tão baixinha que não chega a alcançar a nossa consciência. Ou, como lembra a segunda chamada, temos coisas mais importantes a fazer: aumentar o nosso patrimônio, correr atrás do sucesso, cuidar dos negócios do dia-a-dia. Às vezes, sufocamos simplesmente os nossos impulsos internos porque nos desagradam. Eles não nos deixam em paz. Então preferimos anestesia-los pelo acúmulo de atividades ou os calamos, matando-os. É o ego que assassina os servos do rei. O ego não gosta de ser incomodado em suas aspirações egoístas. Mas o rei envia os seus servos outra vez. Tudo o que há em nós é convidado. Os que andam pelas estradas são os pobres. O nosso lado pobre se abre mais facilmente para Deus do que o nosso lado bem-sucedido. Os servos têm ordens de percorrer todo o reino até onde terminam as estradas. Todos os setores de nossa alma, toda a nossa história, até mesmo as zonas periféricas de nosso inconsciente, tudo é convidado a se unir a Deus. Nada fica excluído, nem mesmo o mal. É uma mensagem consoladora. A única condição da parte de Deus é que demos a devida atenção ao convite, que ponhamos tudo o que há em nós em relação com ele. Para mim, a veste nupcial significa que respeito o rei que me convida, que trato com cuidado tudo o que está em mim, por mais pobre e roto que seja, a fim de pô-lo em relação com o casamento. Isso requer atenção e cuidado. Não preciso percebê-lo e revesti-lo com a roupa do amor. Preciso olhar com carinho para tudo o que há em mim e apresenta-lo a Deus. Aí então posso participar do banquete nupcial. Todo o meu ser pode unir-se a Deus. Mas, se eu tratar com desleixo o que sou e tenho, serei expulso da mesa; então, perderei o meu centro de gravidade e meu interior se cobrirá de trevas. Aquilo que não recebeu a devida atenção transforma-se em escuridão que me devora e me dilacera por dentro. É esse o sentido das palavras ‘choro e ranger de dentes’. Se eu não estiver disposto a encarar a minha própria verdade e a oferece-la a Deus, esta me destruirá. A minha vida se transformará em choro e lamentações. O mal em mim se tornará uma fonte de tristeza e de pranto, de desespero e de absurdeza” (Anselm Grün – Jesus, Mestre da Salvação – Loyola).

  Pe. João Bosco Vieira Leite

Quarta, 19 de agosto de 2026

(Ez 34,1-11; Sl 22[23]; Mt 20,1-16) 20ª Semana do Tempo Comum.

“O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores

para a sua vinha” Mt 20,1.

“Houve Padres da Igreja que interpretassem essa parábola como uma imagem do curso de vida dos indivíduos. Algumas pessoas são cristãs desde o nascimento, outras se convertem logo na juventude, outros só na idade adulta ou provecta. Os Padres da Igreja admoestam, então, aos cristãos da primeira hora a não esmorecer em seu fervor, aos que receberam o batismo mais tarde, eles incutem ânimo e confiança. Cada um deve trilhar o seu próprio caminho e servir a Deus nesse seu caminho pessoal, sem comparar-se com os outros. Para todos, o prêmio será a moeda de prata. Essa moeda única não é só a diária habitual daquele tempo, ela é também o símbolo da unificação com Deus. Nada ultrapassa esse ato de tornar-se uno. É a meta da vida humana. O caminho para alcançar essa meta é mais longo para uns, mais curto para outros. Essa interpretação foi uma tentativa de inserir o sentido da parábola na respectiva época. E qual seria o seu sentido hoje? Vejo-me colocado diante da pergunta: como entendo a minha vida de cristão? É apenas um esforço, um trabalho fatigante, quando a verdadeira vida consiste em ficar parado sem fazer nada? Ou acredito que, pela união com Cristo, a minha vida ganha sentido e fica boa? O desafio que acompanha o trabalho pode ser uma fonte de paz interior para o ser humano, já que lhe dá a sensação de que sua vida tem sentido. Aquele que fica à toa na praça certamente não está feliz com essa situação. Ele se sente supérfluo. Sua vida lhe parece inútil. O ser humano se sente valorizado quando é chamado, convidado, aliciado. Quando me dedico ao trabalho que me é confiado, sem querer comparar-me com os outros, torno-me um comigo mesmo, com Deus e com os homens. Não preciso de mais nada para viver. Mas se eu desviar o olhar do meu trabalho para observar os outros e me comparar com eles, ficarei internamente dividido e descontente” (Anselm Grün – Jesus, Mestre da Salvação – Loyola).

  Pe. João Bosco Vieira Leite

Terça, 18 de agosto de 2026

(Ez 28,1-10; Sl Dt 32; Mt 19,23-30) 20ª Semana do Tempo Comum.

“Muitos que agora são os primeiros serão os últimos. E muitos que agora são os últimos serão os primeiros”

Mt 19,30.

“O que Jesus ensina é que pode acontecer que aqueles que receberam a graça e o chamado primeiramente não mereçam tanto como os chamados à última hora; não é uma época do chamado, mas a generosidade da resposta o que vai aproximar-nos de Deus, conseguindo-nos a salvação e a santificação; não basta, por outro lado, começar, se não se persevera na prática do bem e da virtude; não basta responder, mas é preciso responder com generosidade às graças recebidas. São Beda ilustra esta frase de Jesus Cristo dessa forma: ‘Presta atenção em Judas, que de apóstolo transformou-se em apóstata, e aprende que muitos que são os primeiros poderão ser os últimos. Presta atenção no bom ladrão que, embora tenha sido crucificado por causa de seus pecados, pela graça da fé, passou a gozar com Jesus Cristo o Paraíso; e aprende que também os últimos podem chegar a ser os primeiros” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

  Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 17 de agosto de 2026

(Ez 24,15-24; Sl Dt 32; Mt 19,16-22) 20ª Semana do Tempo Comum.

“Jesus respondeu: ‘Por que tu me perguntas sobre o que é bom? Um só é o bom.

Se tu queres entrar na vida eterna, observa os mandamentos’” Mt 19,17.

“A pergunta apresentada a Jesus pelo jovem reflete uma tendência do farisaísmo, a de praticar a virtude visando apenas obter a salvação. Esses fariseus eram calculistas, sempre preocupados em acumular méritos diante de Deus. Tendo feito tudo quanto estava a seu alcance, interessava ao jovem saber o que poderia ainda fazer de bom para alcançar a vida eterna. Na qualidade de Messias, talvez Jesus pudesse indicar-lhe obras que rendessem méritos de valor muito maior.  O Mestre, porém, tentou corrigir este modo de pensar. Não se alcança a vida eterna pela prática de coisas boas (‘O que devo fazer de bom’), submetendo-se a um código de regras precisas de comportamento, e sim pela relação com uma pessoa (‘Um só é Bom!’), entendendo-se, com isso, tanto Jesus quanto o Pai. O que é bom deve ser praticado por corresponder à vontade daquele que é Bom. Sem esta obediência, os atos de virtude ficam desprovidos de valor. O jovem é confrontado com a proposta de passar da prática mecânica dos mandamentos para um tipo de relação capaz de transformar-lhe a vida: desfazer-se de tudo e dar aos pobres o valor correspondente para, em seguida, tornar-se seguidor de Jesus. Se o jovem não fosse tão apegado a seus bens, teria tido a chance de experimentar a alegria de conhecer em profundidade, a vontade salvífica de Deus. – Pai, quero estar sempre em comunhão contigo, pois só tu és Bom. Que eu possa, assim, conhecer a tua vontade e colocá-lo em prática, pois este é o caminho da salvação” (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria

(Ap 11,19; 12,1.3-6.10; Sl 44[45]; 1Cor 15,20-27; Lc 1,39-56) *  

1. A solenidade da Assunção nos presenteia no evangelho com o texto do Magnificat. Trata-se do canto de Maria, ainda grávida de Jesus, que agradece a Deus pela graça recebida.

2. É curioso, e convém sublinhá-lo, o fato de a Igreja nos oferecer um texto evangélico de uma Maria jovem para nos explicar o que aconteceu depois de sua morte.

3. Diz o dogma que Maria subiu ao céu de corpo e alma. Que foi a primeira dentre todos nós. Sua Assunção é sinal e promessa da nossa. Mas a Assunção não foi apenas um fato que aconteceu em momento determinado. Maria subiu ao céu porque viveu com o olhar posto em Deus.

4. O Magnificat – o canto de Maria, jovem ainda, grávida de seu filho, que se encontra com sua prima Isabel, igualmente grávida – não é apenas uma bela poesia. Trata-se de claro testemunho do estilo de vida de Maria.

5. Aquela jovenzinha de uma aldeia da Galileia tinha a alegria impregnada no corpo. Era uma alegria fruto da fé e da confiança no Deus de seu povo. Para além das aparências, ela sabia ficar acima do cotidiano e olhar para a história com perspectiva.

6. Por isso, Maria sabe que “sua misericórdia (a de Deus) chega a seus fiéis de geração em geração” e que “socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia”. Isso não significa dizer que Maria não tenha passado por momentos cinzentos em sua vida cotidiana.

7. Não deveria dar para muitas alegrias a vida naquelas aldeias das montanhas da Galileia. Lavar, cozinhar, limpar, ajudar nas tarefas do campo, todos os trabalhos de uma mulher agravados pela pobreza em que vivia aquela gente.

8. Naquela situação, a maioria das pessoas permanecia ao rés do chão. Não eram capazes de ver nada além do imediato, do que a vida tem de cinzento, dor, negatividade e morte. Maria – e isto é importante – passou exatamente pelo mesmo, mas olhava para outros horizontes.

9. Olhava para o céu e enxergava o rosto bondoso do Deus que havia sido sempre misericordioso com seu povo e que lhe havia prometido a salvação. Por sua fé, Maria transformou sua vida de cinzenta em algo luminosa.

10. Sua luz continua iluminando a todos nesta festa. Nossa vida, também costuma ficar cinza quando permitimos que nosso olhar fique no rés do chão.

11. A festa de hoje nos recorda que precisamos levantar nosso olhar e colocar nossos horizontes um pouco mais adiante. Devemos olhar nossa vida e a de nossos irmãos com os olhos de Deus, com a perspectiva de Deus. Nós nos surpreenderemos ao descobrir a cor diferente que terá a vida. E aprenderemos a rezar o Magnificat com o prazer e a fé de Maria.

12. Uma proposta de nossa festa: por que não experimento rezar diariamente o Magnificat? Basta fazer um instante de silêncio e permitir que as palavras de Maria se tornem minhas palavras. Que por meio delas, fale, igualmente o meu coração dando graças a Deus por tudo que me concedeu, porque viu a minha humilhação e me fez seu filho. Talvez isso nos ajude a levantar o nosso olhar até o horizonte de Deus.

* Fernando Torres, CMF

Pe. João Bosco Vieira Leite 

Sábado, 15 de agosto de 2026

(Ez 18,1-10.13.30-32; Sl 50[51]; Mt 19,13-15) 19ª Semana do Tempo Comum.

“Então Jesus disse: ‘Deixai as crianças e não as proibais de virem a mim, porque delas é o Reino dos Céus’”

Mt 19,14.

“Era costume judaico apresentar os filhos aos rabinos, pra que eles os abençoassem, impondo-lhes as mãos; o gesto acompanhado de uma oração bíblica aparece como uma forma de bênção; tudo isso prova o conceito de grandeza moral e taumatúrgica em que as pessoas tinham Jesus. É fácil imaginar a cena das mães aglomerando-se e com gestos e gritos, tão característicos dos orientais, querendo ter a preferência para suas crianças. Os apóstolos não viram com bons olhos o procedimento das crianças, nem das mães, seja porque fossem muitos e poderiam molestar o Mestre, seja pela inoportunidade da presença delas exatamente no momento em que Jesus estava ensinando sua doutrina maravilhosa; o caso é que, com gestos e palavras, começaram a impedir que as crianças se aproximassem do Mestre. O Senhor censurou a atitude dos apóstolos e ordenou que deixassem as crianças aproximaram-se dele; o Senhor descansava no olhar simples das crianças. O apostolado entre as crianças gozou sempre de um profundo interesse, por mais que proceda hoje à revisão da Pastoral da criança. Ilustrar suas inteligências que se abrem para a luz da verdade, colocar a semente do bem naqueles corações que se apresentam como terreno fértil para todos os sentimentos puros e elevados, dar-lhes a conhecer o amor de Deus e sua divina Providência, fazê-los entusiasmar coma figura de Jesus Cristo como seu Salvador e seu melhor amigo... A criança é como a árvore recém-plantada, que exige cuidado e atenção esmerados. Hoje como ontem, Jesus repete-nos: ‘Deixai vir a mim as criancinhas’ (v. 14). Acostumemos nossas crianças a irem ao Sacrário, a frequentarem a recepção dos Sacramentos da Penitência e da Eucaristia, que ofereçam suas orações ao Senhor sacramentado; recomendemos que, em suas orações, se lembram das necessidades da família, da Igreja, da pátria e do mundo inteiro; será muito difícil que o coração sacratíssimo de Jesus não atenda ao que lhe pedem as almas inocentes” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sexta, 14 de agosto de 2026

(Ez 16,1-15.60.63; Sl Is 12; Mt 19,3-12) 19ª Semana do Tempo Comum.

Mas puseste tua confiança na beleza e te prostituíste graças à tua fama.

E sem pudor te oferecias a qualquer passante” Ez 16,15.

“As relações com Deus são expressas de muitos modos no Antigo Testamento: Deus é um pai que educa seus filhos (cf. Os 11,1-4); é uma mãe que não pode esquecer o fruto das suas entranhas (cf. Is 49,15); é o Bom Pastor que leva as Suas ovelhas ao pasto (cf. Sl 22). Mas a partir do tempo do Oseias, Ele é sobretudo o esposo de Israel. Ezequiel utiliza mesmo esta metáfora para esclarecer a história das relações de JHWH com seu Povo. [Compreender a Palavra:] O motivo principal nesta narração é o de uma enjeitada, da qual o rei se enamora, salva e constitui rainha. A enjeitada (Jerusalém/Israel), tornada rainha, prostitui-se, servindo-se dos presentes de núpcias do Senhor (v. 16). Ezequiel recebe assim a missão de dizer, de forma simbólica, a verdade ao seu povo, dando-lhe a conhecer as suas responsabilidades ao ter abandonado o Senhor para seguir os deuses dos outros povos. O fato de se encontrar agora no exílio é uma consequência da sua contínua rejeição do amor do Senhor. Toda a sua história está marcada pelo amor e pela graça da parte de JHWH, pela indiferença e pela traição da parte do povo. Ezequiel recorda as práticas idolátricas nos montes altos, e o culto estático e orgiástico lá prestado (vv. 15-19). Em particular ataca o sacrifício de crianças a Moloc. Israel foi sempre tentado na sua história a procurar auxílio político no Egito ou nos países da Mesopotâmia. Todavia, isso não evitou o exílio. O povo na sua história desprezou os compromissos solenes assumidos com o Senhor e deve refletir sobre isso. Deus, porém, não se esquece do juramento com o qual se comprometeu com a enjeitada-Jerusalém (v. 8): Ele permanece fiel para sempre à sua Aliança (v. 60). Por conseguinte, o povo deve arrepender-se daquilo que fez e voltar para o Senhor (v. 63)” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Tempo Comum – Vol. II] – Paulus).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Quinta, 13 de agosto de 2026

(Ez 12,1-12; Sl 77[78]; Mt 18,21—19,1) 19ª Semana do Tempo Comum.

“Jesus respondeu: ‘Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” Mt 18,22.

“No tempo de Jesus, os rabinos discutiam a respeito de quantas vezes a pessoa ofendida era obrigada a perdoar. Chegava-se ao número máximo de até quatro vezes. Pedro, para mostrar-se generoso, propôs uma quantidade maior: sete vezes. A ‘generosidade’ do apóstolo fazia uma espécie de contraponto com um episódio do Antigo Testamento, no qual, Lamec, descendente de Caim, prometeu vingar-se sete vezes de quem levantasse a mão contra ele. À máxima vingança, Pedro pensava contrapor o máximo perdão. Enganou-se! O discípulo do Reino deve estar disposto a perdoar, não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete vezes, ou seja, sempre. A parábola do servo cruel oferece o fundamento teológico da postura do discípulo: este deve agir de forma idêntica ao agir de Deus. Deus está sempre pronto a perdoar as ofensas dos seres humanos, por maiores que elas sejam. Foi o que fez o senhor do Evangelho. Bastou que o devedor lhe suplicasse clemência, para se ver logo perdoado. A contrapartida do gesto divino deve acontecer em forma de perdão das ofensas recebidas. Quem foi perdoado por Deus deve dispor-se a perdoar. Mas quem age de maneira diferente não pode contar com o perdão divino. Esta foi a sorte do servo cruel que se recusou a perdoar uma pequena dívida de seu companheiro. O discípulo deve espelhar-se no comportamento misericordioso de Deus. – Pai, predispõe meu coração para o perdão, e que eu esteja sempre disposto a perdoar e a querer viver reconciliado com meu semelhante” (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Quarta, 12 de agosto de 2026

(Ez 9,1-7; 10,18-22; Sl 112[113]; Mt 18,15-20) 19ª Semana do Tempo Comum.

“O Senhor disse-lhe: ‘Passa pelo meio da cidade, por Jerusalém, e marca com uma cruz na testa os homens que gemem e suspiram por causa de tantos horrores que nela se praticam’” Ez 9,4.

“Na leitura de hoje estão reunidos dois textos, nos quais se narram duas visões de Ezequiel: o envio de mensageiros que castigam a cidade pecadora, na qual porém um resto de fiéis é preservado (9,17); e a glória do Senhor, que sai do Templo profanado (10,18-22). A primeira cena, de grande violência, é mais difícil de compreender pela nossa sensibilidade. Ambas as visões têm a finalidade de convencer os exilados de que Deus podia permitir a profanação da Cidade Santa e do seu Templo, no qual tinha estabelecido a Sua glória. [Compreender a Palavra:] Ezequiel tinha visto com os seus olhos as destruições feitas pelo exército babilônico nas ruas de Jerusalém no ano de 597 a.C. Agora experimenta, juntamente com muitos outros, os sofrimentos do afastamento dos lugares amados, a solidão do exílio em terra pagã e, com os olhos de Deus, observa aquilo que, por causa da dureza de coração do rei Sedecias, está para se abater sobre a cidade. Por detrás destes fatos está o Senhor. O profeta vê-o em ação, enquanto manda os seus mensageiros – seis homens –, que castigam os culpados, e um sétimo, vestido de linho (sinal da sua proximidade com Deus), que reserva alguns da destruição, marcando-os com a última letra do alfabeto hebraico ‘tau’, que naquele tempo tinha forma de cruz e é a primeira letra da palavra Torá. Trata-se de um resto, como os filhos de Israel preservados pelo anjo do Senhor na noite de Páscoa no Egito (cf. x 12,23,29), como os sete mil que não se ajoelharam diante de Baal no tempo de Elias (cf. 1Rs 19,18), como os discípulos de Isaías (cf. Is 8,16-17). No final da visão, Ezequiel, sacerdote muito ligado ao Templo, assiste a um acontecimento que lhe despedaça o coração: a glória do Senhor afasta-se do santuário e da cidade (cf. Ez 11,22). Aquilo que de novo virá do Senhor, já não poderá vir do velho Templo. Com o chamamento de Ezequiel, o Senhor dá início a uma nova presença entre os deportados” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Tempo Comum – Vol. II] – Paulus).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Terça, 11 de agosto de 2026

(Ez 2,8—3,4; 118[119]; Mt 18,1-5.10.12-14) 19ª Semana do Tempo Comum.

“Em verdade vos digo, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças,

não entrareis no Reino dos Céus” Mt 18,3.

“Os discípulos devem ser como as criancinhas, isto é, devem tirar do coração a ambição e a inveja, que levam a desejar os postos de honra. E Jesus não fala precisamente da inocência da criança neste texto, mas do conhecimento que ela tem de sua pequenez e de sua debilidade e falta de poder; o mais humilde será o maior perante o Pai, pouco importa a posição que ocupe e o papel que desempenhe na comunidade. O sentido desse ‘tornar-se como as criancinhas’ inclui a humildade e singeleza de coração; porém, neste texto, entende-se principalmente o apequenar-se em relação à sociedade e perante os postos que impliquem dignidade e poder; isto se deduz da motivação que os apóstolos deram a este ensinamento do Salvador, porque nesse momento cada um deles queria ser o ‘maior’ no Reino. Daí que tornar-se como uma criança seja condição não só para ser grande no Reino, mas para ser admitido nele. Fazer-se criança, tornar-se humilde: no direito antigo, a criança não era pessoa no sentido legal pleno; não só estava sujeita à autoridade dos pais, mas era propriedade deles. O termo ‘criança’, empregado aqui por Jesus, refere-se aos simples que se tornaram seus discípulos, visto que possuíam aquela simplicidade afirmada por Jesus como condição para segui-lo: aquele que não se nega a si mesmo não pode ser discípulo do Mestre. Os apóstolos, ainda homens imperfeitos e ambiciosos, pretendiam ser ‘o maior’ no Reino dos céus, não por ser o Reino dos céus, mas simplesmente por ser ‘o maior’. A resposta de Jesus foi taxativa: ‘Chamou uma criancinha, colocou-a no meio deles e disse: ‘Em verdade vos declaro, se não vos tornardes como criancinhas, não entreis no Reino dos céus’ (v. 3)” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 10 de agosto de 2026

(2Cor 9,6-10; 11[112]; Jo 12,24-26) São Lourenço, diácono e mártir.

“Em verdade, em verdade vos digo, se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto” Jo 12,24.

“Para explicar a força que se encerra na sua morte na cruz, Jesus usa uma imagem simples que todos podem entender. ‘Se o grão de trigo não cai na terra e morrer, ficará só; mas se morrer, produzirá muito fruto’. Se o grão morre, Ele faz germinar e brotar a vida, mas se Ele se encerra em seu pequeno envoltório e guarda para si sua energia vital, permanece estéril. Esta bela imagem nos faz descobrir uma lei que atravessa misteriosamente a vida inteira. Não é uma norma moral. Não é uma lei imposta pela religião. É a dinâmica que torna a vida de quem sofre movido pelo amor. É uma ideia repetida por Jesus em diversas ocasiões: quem se agarra egoisticamente à sua vida a põe a perder. Quem sabe entregá-la com generosidade gera mais vida. Não é difícil comprová-lo. Quem vive exclusivamente para seu bem-estar, seu dinheiro, seu êxito ou sua segurança, acaba vivendo uma vida medíocre e estéril. Sua passagem por este mundo não faz a vida mais humana. Quem se arrisca a viver em atitude aberta generosa, difunde vida, irradia alegria, ajuda a viver. Não há uma maneira mais apaixonante de viver que fazer a vida dos outros mais humana e mais suportável. Como podemos seguir a Jesus se não nos sentimos atraídos por seu modo de viver e de morrer?” (José Antonio Pagola – O Caminho Aberto por Jesus – João – Vozes).

Pe. João Bosco Vieira Leite

19º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(1Rs 19,9.11-13; Sl 84[85]; Rm 9,1-5; Mt 14,22-33)*

1. O Evangelho que escutamos traz uma série de eventos que culmina num retorno à calmaria e a afirmação de que Jesus é o Filho de Deus. A comunidade primitiva conservou a lembrança daquela noite memorável de prodígios, porque nela via traçada, numa espécie de parábola, a própria situação no mundo.

2. Jesus já havia partido e já havia impelido a barquinha da sua Igreja, com Pedro no leme, sobre as ondas, para que iniciasse, sem ele, a travessia do grande mar da história. A Igreja, porém, não tinha caminhado muito nessa nova situação – apenas alguns anos – e já se levantavam os primeiros vagalhões da perseguição. Várias coisas aconteceram.

3. Ouvindo essa narrativa de Mateus, a comunidade tirava sobretudo uma conclusão: o Mestre não está longe nem agora; não nos deixará lutando com as ondas; basta invoca-lo que ele descerá do monte e virá em socorro de sua Igreja. Esta confiança se baseava no fato de que ele tinha ressuscitado e estava vivo.

4. Nesta situação, uma coisa é necessária para não afundar: não perder a confiança, não desanimar no meio das dificuldades, não olhar para baixo ou ao redor, para as ondas que se agitam, mas à frente, para Cristo. Somente quem vacila na fé, ou quem confia nas próprias forças, afunda. Basta que recordemos como foi o caminhar do próprio Pedro.

5. O desfecho do trecho evangélico traçava para a Igreja um modelo concreto: permanecer na barca e proclamar junto com os apóstolos a fé que salva: “verdadeiramente tu és o Filho de Deus”.

6. Até aqui, pode-se dizer, a leitura de nosso Evangelho é feita com os olhos da comunidade primitiva. Mas, e hoje? O que podemos ler nós cristãos nascidos tantos séculos depois? Talvez as mesmas e idênticas coisas que descobriram os primeiros cristãos. Mudou o cenário, até o tamanho da barca, mas as dificuldades são as mesmas e mesmas as escolhas a ser feitas.

7. Talvez um detalhe a ser meditado mais atentamente. Jesus veio quando a noite ia pelo fim, não antes; veio quando a provação estava chegando ao auge, assim como o cansaço; quando tudo nos indicava que se devia resolver com as próprias forças, isso havia bastado para criar uma enorme distância dele.

8. Mas não é um pouco nosso estado de ânimo de hoje? Alguém chegou a dizer até que é bom que seja assim; que nos devemos habituar a ir em frente “como se Deus não existisse” (D. Bonhoeffer), manobrando sozinho os remos na água, no silêncio e na escuridão da noite.

9. Porque a fé verdadeira, se diz, é aquela que se vive assim; aquela que não reduz Deus a tapa-buracos e não lhe pede para fazer-nos caminhar sobre as águas da vida sem molhar os pés.

10. Será verdadeiro também isto, mas o Evangelho não parece nos pedir tanto. Parece antes nos exortar a nos dirigir a ele, a rezar e a implorá-lo: “Mestre, não te importa que pereçamos?” (Mc 4,38). E implorá-lo não por nós, entenda-se, mas por todos os que estão na barca, pela Igreja, a fim de que, depois de reconquistada a calma, ela possa proclamar no mundo a sua fé: “Verdadeiramente tu és o Filho de Deus”.

11. Elias encontrou a Deus no murmúrio de uma leve brisa, nos disse a 1ª leitura, depois que passaram o vento impetuoso e o terremoto; encontrou-o na paz e cobriu o seu rosto para adorá-lo. Também nós estamos aqui para encontrar Nosso Senhor na quietude da assembleia dominical.

12. Não devemos mais cobrir-nos o rosto. É Ele, aliás, que se cobriu o rosto com o véu do pão e do vinho para não ofuscar nossa vista e para poder chegar perto de nós. É o momento que ele nos dá aquela “presença de paz” que repetidamente hoje lhe pedimos no salmo responsorial.

Com base em texto de Raniero Cantalamessa.

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 08 de agosto de 2026

(Hab 1,12—2,4; Sl 9A[9]; Mt 17,14-20) 18ª Semana do Tempo Comum.

“Quem não é correto vai morrer, mas o justo viverá por sua fé” Hab 2,4.

“No século VII a.C., o livro de Habacuc propôs uma penetrante reflexão acerca da justiça divina atuante na História, ou seja, sobre o fato de que o Senhor é Aquele que julga e condena toda forma de opressão. A exemplo de Naum, também Habacuc vê na Babilônia o instrumento da justiça de Deus, mas, desta vez, contra a injustiça de Judá e dos opressores dos pobres (cf. Hab 2,5-20). O excerto de hoje é um diálogo com Deus, composto por interpelações, objeções e expressões de esperança, até ao momento em que Senhor responde, prometendo salvar quem é justo e quem, na fé, busca refúgio em Deus (cf. Hab 2,1-4). [Compreender a Palavra:] Uma profissão de fé apaixonada abre o texto: o Senhor é apresentado em toda a Sua forte confiabilidade. A primeira interrogação vai à raiz da presença do mal culpável na vida humana e pelo escândalo que suscita: um Deus que Se coloca em posição alternativa ao próprio mal, como pode aceitar a prevaricação de quem O rejeita sobre quem tem uma relação positiva com Ele sem reagir? O profeta chama Deus em termos cada vez mais resolutos, delineando a impassibilidade divina diante da relação não natural do poder que se instaura no interior da Humanidade, e à violência consequente, que parece destinada a endoidecer tragicamente, como sucede a qualquer peixe que acabe na rede. Uma resposta da parte do interlocutor divino é esperada pelo profeta, o qual procura colocar-se nas melhores condições para poder registra-la. A reação chega e fala de uma manifestação de Deus que abrirá um novo horizonte de esperança e que terá um valor não transitório. O fio condutor desta afirmação será – o texto hebraico é complexo e intenso ao mesmo tempo – o insucesso de quem tem o espírito inchado de arrogância. Ao lado desta negatividade está a salvação da vida da parte de quem confia no Senhor e na Sua justiça e, consequentemente, é justo em razão da fé que se tem n’Ele. Habacuc não se opõe certamente à tradição do Deuteronômio, segundo o qual a vida é assegurada pela observância dos Mandamentos, mas coloca o discurso num nível diferente, o da fé enquanto base da salvação, que no Novo Testamento Paulo aceitará e reinterpretará muito frutuosamente (cf. Rm 1,17)” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Tempo Comum – Vol. II] – Paulus). 

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sexta, 07 de agosto de 2026

(Na 2,1.3; 3,1-3.6-7; Sl Dt 32; Mt 16,24-28) 18ª Semana do Tempo Comum.

“Jesus disse aos discípulos: ‘Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga’” Mt 16, 24.

“Indubitavelmente, o programa que Jesus traça para seus seguidores é difícil e doloroso: renunciar a si mesmo, tomar a cruz e segui-lo. Renunciar a si mesmo: é vencer as inclinações desordenadas e enfrentar pacientemente as contrariedades de cada dia. A negação de si mesmo supõe deixar para trás os próprios interesses e a própria comodidade, estar preparado para renunciar a todas as coisas antes de perder a graça de Deus. E ainda implica algo mais radical, que chega às profundezas do eu: é sacrificar a própria vontade e tendência à afirmação de si mesmo, para aceitar somente a vontade de Deus. É, pois, pura ilusão querer seguir a Cristo, fazendo o próprio capricho ou a própria vontade em nossa vida. É impossível seguir Jesus sem renunciar ao próprio juízo, buscando-se a si mesmo em tudo, em lugar de buscar a vontade do Pai. Tomar a cruz: porém, toma-la como fez o Mestre, com amor, com entrega, sabendo que não se chega à luz da ressurreição a não ser atravessando a escuridão da morte. No evangelho do dia de ontem, Jesus tinha dito a Pedro que era necessário que o Filho do Homem sofresse e morresse na cruz; no Evangelho de hoje, Jesus dá mais um passo e diz a Pedro que também ele e todos quantos quiserem segui-lo deverão submeter-se à lei da cruz e do sofrimento. Assim Jesus promulgou a lei austera de crucificação da carne e do coração para alcançar a vida. E São Lucas acrescenta que se deve carregar a cruz diariamente, dando a entender que esse estado de aceitação da cruz não há de ser tomado isoladamente, mas de modo permanente e contínuo. Seguir Jesus Cristo: porque caminhar junto com Cristo, ao lado dele, sentindo sua mão sobre a nossa é muito menos penoso. Ir após Jesus Cristo significa segui-lo, imitá-lo, copiar em nossa vida as virtudes de Jesus. O discípulo há de seguir o Mestre em tudo; seguirá seus passos com imitação fiel e fervorosa da vida de Jesus, deixando-se embeber dos sentimentos de Jesus, valorizando as coisas com o critério de Jesus, buscando, sempre e em tudo, a vontade do Pai que está nos céus, o mesmo que Jesus fez, que não veio para fazer sua vontade, mas a vontade do Pai que o enviou” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Quinta, 06 de agosto de 2026

(Dn 7,9-10.13-14; Sl 96[97]; Mt 17,1-9) Transfiguração do Senhor.

“E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol, e as suas roupas ficaram brancas como a luz”

Mt 17,2.

“Pedro, Tiago e João, os mais destacados do grupo dos discípulos, tiveram o privilégio de ‘ver’ a glória do Messias, antecipada na cena da transfiguração. Este estava destinado a ser glorificado por Deus, e revestido de imortalidade divina. O episódio evangélico está todo envolvido pela presença divina. O monte, para o qual Jesus e seus discípulos se dirigiram, simboliza o lugar da presença e da comunicação divinas. Dirigiram-se para o alto monte, porque o ser humano deve elevar-se para contemplar a manifestação da glória divina. O rosto de Jesus, ‘brilhante como o sol’, apontava para a glória dos justos no reino do Pai. Igualmente, o esplendor luminoso de suas vestes. A presença de Moisés e Elias indicava que as Escrituras – Palavra de Deus – estão centradas na pessoa de Jesus. Tudo quanto Deus havia falado a seu povo eleito tinha sido em função do seu filho amado. Moisés e Elias evocavam o monte Sinai, o lugar da manifestação de Deus, onde ambos estiveram. O auge da presença divina revela-se quando uma nuvem luminosa envolveu Jesus, e a voz celeste se faz ouvir: ‘Este é o meu filho amado, que muita coisa me agrada. Escutem o que ele diz!’. Assim, os discípulos estavam em condições de compreender a verdadeira identidade de Jesus, na sua condição humana e divina. Este seria um dado importante para quem haveria de ver o Mestre tornar-se vítima da incompreensão das lideranças religiosas do povo. – Pai, que a transfiguração leve-me a confessar Jesus como teu Filho amado, e a reconhecer que sou chamado a expressar o esplendor divino que trago dentro de mim (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Quarta, 5 de agosto de 2026

(Jr 31,1-7; Sl Jr 31; Mt 15,21-28) 18ª Semana do Tempo Comum.

“Diante disso, Jesus lhe disse: ‘Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como tu queres!’

E desde aquele momento sua filha ficou curada” Mt 15,28.

“É admirável a fé dessa mulher e é também admirável a forma com a qual pede que seja socorrida: humildade, confiança e perseverança. São Marcos acrescenta que a mulher se atirou aos pés do Mestre. Assim deve você orar, com as mesmas disposições de espírito. Com humildade: reconhecendo sua indigência. Todos somos pobres na presença de Deus e todos necessitamos de sua ajuda, uma vez que tudo nos vem dele. Com confiança: sabendo quão imensamente misericordioso é o coração de Deus e que não olha para nossa indignidade, mas se deixa levar pelos impulsos de seu coração de Pai. Com perseverança: Deus olha, antes de mais nada, para a fidelidade de conduta e para coerência de vida. O pedido é arma dos pobres, dos que sabem que nada têm e nada têm direito de exigir ou esperar; reconhecendo-se tão indigente na presença de Deus, o pobre torna-se merecedor dos favores celestes. Por isso devemos esforçar-nos por ser, todos, pobres autênticos na presença do Senhor. Vê-se claramente no evangelho o desejo de chamar a atenção, mais do que sobre o milagre realizado por Jesus, sobre a fé extraordinária daquela mulher pagã em contraposição ao farisaísmo judaico. Finalmente, a falta de fé dos seus próprios patrícios, os nazaretanos, tinha impedido que Jesus fizesse milagres entre os seus e, no entanto, a fé excepcional dessa mulher pagã consegue o milagre do bondoso Jesus. Você também tem em suas mãos a armas para arrancar inclusive milagres da divina Providência” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Terça, 04 de agosto de 2026

(Jr 30,1-2.12-15.18-22; Sl 101[102]; Mt 15,1-2.10-14) 18ª Semana do Tempo Comum.

“Jesus respondeu: ‘Toda planta que não foi plantada pelo meu Pai celeste será arrancada’” Mt 15,13.

“São poucos versículos nos quais encontramos Jesus comprometido em três diálogos diferentes: com fariseus e escribas (vv. 1,2); com a multidão (vv. 1-11); com os discípulos (vv. 12-14). O fio condutor é a polêmica sobre as normas de pureza legal, que faz emergir alguns aspectos que distinguem a mensagem cristã da sua raiz judaica. A pureza ritual mostra-se uma preocupação de grande parte da classe dirigente judaica, mas aqui Jesus é muito radical que perante normas da tradição opostas ao mandamento de Deus (v. 3), quer ao propor uma perspectiva completamente diversa (v. 11) e, sobretudo, no juízo terrível sobre os fariseus (vv. 13-14). [Compreender a Palavra:] A diferença clara entre o formalismo religioso, aqui atribuído pelo texto de Mateus aos fariseus e escribas, e o valor substancial da responsabilidade individual é o que mais ressalta no texto. Nele exprime a tensão (já presente noutros lugares do Evangelho segundo Mateus; vejam-se, por exemplo, os caps. 19-22) entre todas as comunidades cristãs para as quais ele foi redigido e o judaísmo do século I d.C. na Palestina. Jesus preocupa-se em fazer compreender, não já a quem o interrogou, mas à multidão indiferenciada daqueles que o seguem, que a impureza legal não depende da transgressão de tradições humanas, impregnadas de formalismo, mas das opções de fundo da própria vontade a favor ou contra a vontade divina. A atenção de Jesus, pelo contrário, está centrada toda no interior da pessoa, naquilo que o homem cultiva em si mesmo e que depois, inevitavelmente, sai e, se for mau, pode contaminá-lo. Seguir fariseus e escribas nos caminhos de uma atenção formalista no campo religioso significa a ruina para o discípulo que os segue ou se deixa conduzir por eles” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Tempo Comum – Vol. I] – Paulus). 

Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 03 de agosto de 2026

(Jr 28,1-17; Sl 118[119]; Mt 14,22-36) 18ª Semana do Tempo Comum.

“E Jesus respondeu: ‘Vem!’ Pedro desce da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus” Mt 14,29.

“De repente, ao reconhecer Jesus, Pedro recobra a sua coragem. Confiando no apoio da proximidade do mestre, ele ousa descer do barco. O barco pode ser a imagem do ego, do qual precisamos sair. Quando o ego é sacudido pelo inconsciente, é necessário sair da própria estreiteza, superando os próprios limites. Mas o barco pode ser também a imagem da comunidade. Na crise mais profunda, não podemos ter certeza de que a comunidade vá sustentar-nos. Nessa hora precisamos descer, para pôr os pés no caminho da confiança. enquanto Pedro mantém os olhos fixos em Jesus, consegue andar sobre a água. O olhar preso em Cristo nos sustenta em meio às incertezas da vida. Mas, quando Pedro dirige o olhar para as ondas, começa a afundar. Enquanto a nossa vida está fixada nos problemas, enquanto enxergamos apenas as vagas, descemos ao fundo. Pedro grita: ‘Senhor, salva-me!’. Com essa descrição do terror de Pedro e com a sua exclamação em forma de prece, Mateus alude ao salmo 69. Nesse salmo, os judeus piedosos – e com eles os cristãos – pedem que Deus os salve da água que chega ‘até a garganta’ e que ameaça leva-los embora. Jesus estende a mão e segura Pedro. A sua advertência não se dirige apenas a Pedro, ela vale para todos os cristãos cuja fé ficou fraca: ‘Homem de pouca fé, porque duvidaste?’ (14,31). É típico do evangelho de Mateus falar em ‘pouca fé’. Com essa expressão, Mateus dirige-se aos seus leitores, cristãos que têm fé, mas uma fé fraca. Ela não resiste às vagas e às tempestades que sacodem os cristãos. Mas, no meio da noite de nossa vida, no meio das tempestades que nos ameaçam está Jesus. Ele quer fortificar a nossa fé. Se confiarmos em Jesus e se permitirmos que ele reconforte a nossa fé, então essa fé será capaz de deslocar montanhas, então poderemos caminhar sobre as águas, então estaremos seguros, mesmo que o chão nos falte debaixo dos pés, que as pessoas nos abandonem, que percamos os bens, que tudo desmorone ao nosso redor” (Anselm Grün – Jesus, Mestre da Salvação – Loyola).

Pe. João Bosco Vieira Leite

18º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Is 55,1-3; Sl 144[145]; Rm 8,35.37-39; Mt 14,13-21) *

1. Aqueles que buscam aprofundar-se na leitura da Palavra de Deus, vez por outra encontram algum termo ou palavra que lhes soa estranho, como, por exemplo, evangelhos sinóticos. Que significa? Identificamos como evangelhos sinóticos os três primeiros evangelhos: Mateus, Marcos e Lucas.

2. Se os pudéssemos colocar lado a lado, os perceberíamos como muito semelhantes em seu conteúdo, ainda que não sejam iguais. E que é possível lê-los, olhá-los, paralelamente, ainda que tenham suas exclusividades e os fatos não sigam a mesma cronologia. O quarto Evangelho escapa dessa categoria.

3. Mas a narrativa da multiplicação dos pães pode ser encontrada nos quatro Evangelhos. O texto pontua para nós algumas atitudes de Jesus. Primeiro, que Ele se preocupa, enche-se “de compaixão” de todos eles, de corpo e alma. Para a alma a Palavra, para o corpo a cura e o alimento.

4. Quem dera, podem pensar alguns, pudesse Ele ainda fazer tal milagre em nosso tempo... O milagre segue acontecendo ao longo das estações nos processos internos da natureza, associados ao trabalho humano, que ao nosso olhar se tornou comum, que a ciência explica. Mas quem “ordena” a natureza para que tudo tenha essa regularidade incrível?

5. Certamente o que Jesus faz é uma outra coisa, mas um gesto confirma o outro. Para quem olha as coisas sobre o olhar da fé, Deus continua multiplicando os pães e os peixes como fez Jesus. Por quê, então, o pão continua a faltar na mesa de tantos? O Evangelho nos traz um pouco de luz.

6. Jesus não tem varinha de condão. Não se trata de mágica. Mas pergunta os que eles têm e os convida a repartir o pouco que têm. Sabemos que a produção, em escala mundial, é suficiente para alimentar os milhares de seres humanos existentes.

7. Como podemos acusar a Deus de não fornecer alimento suficiente para todos, quando a cada ano se destroem milhões de reservas alimentares, chamadas de excedentes, para que o preço não abaixe? Sei que as coisas não são tão simples assim. Tem outras questões a serem levadas em conta e além disso muitos governantes irresponsáveis contribuem para manter muitas populações famintas...

8. Parte da responsabilidade recai também sobre os países ricos, aqui representado pelo garoto anônimo, que em outro evangelista, tem os cinco pães e dois peixes. Longe de partilhá-los, são mantidos em seus alforges. É preciso que alguma desgraça aconteça para movê-los em algum gesto de solidariedade.

9. Mas tenhamos presente um outro gesto de Jesus, muito importante: o modo como se descreve a multiplicação dos pães e dos peixes: “ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães e os deu aos seus discípulos...”.

10. As palavras e gestos de Jesus nos remetem sempre a pensar numa outra multiplicação, que é o seu Corpo eucarístico. Nós vamos encontrar em algumas antigas representações da Eucaristia, em pinturas ou afrescos, uma vasilha contendo cinco pães e ao lado dois peixes.

11. Estamos aqui fazendo também essa multiplicação dos pães: o pão da Palavra de Deus. Um milagre que antigamente se dava só pelos livros, e hoje, com toda tecnologia, podemos partilhar, multiplicar. Recolhemos os “pedaços” para aqueles que não vieram participar desse banquete. Que eles possam ter algo para refletir, pensar. Amém.

* com base em texto de Raniero Cantalamessa.  

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 01 de agosto de 2026

(Jr 26,11-16.24; Sl 68[69]; Mt 14,1-12) 17ª Semana do Tempo Comum.

“E mandou cortar a cabeça de João no cárcere” Mt 14,10.

“A voz austera do Batista ressoou no palácio de Herodes como se fosse uma chicotada que queria açoitar a imoralidade da conduta do rei e, ao condenar o procedimento do rei, dava a conhecer, bem às claras, que também deveriam sentir-se tocados por aquela voz que repreendia todas as situações injustas e imorais, que se alimentavam naquela corte. A fidelidade do profeta não considerou as categorias sociais, mais ainda, começou pelo chefe ou cabeça, pela autoridade, em uma corajosa demonstração de liberdade evangélica; nada pode calar aquela voz denunciante da imortalidade e da injustiça. João era profeta e falava como profeta e vivia como profeta e teve de morrer como profeta. Você não poderá afastar-se de sua missão profética por dificuldades de nenhuma espécie, nem por sofrimentos, humilhações e amarguras de qualquer espécie. Se você é profeta de Cristo, como Cristo é Profeta do Pai, à semelhança dele que chegou até a morte e morte de cruz, deverá estar disposto a chegar aos braços da cruz redentora, sabendo que nem tudo termina na cruz, mas sim na luz da ressurreição. Assim, você deverá denunciar profeticamente, com sua palavra e sobretudo com seu modo concreto de vida, qualquer injustiça e imoralidade. João Batista denunciou o adultério e o escândalo; muitas vezes você deverá denunciar a injustiça e a imoralidade. Sua presença no mundo, por ser a presença de um autêntico profeta, deve desacomodar o mundo não por agressividade, mas por seu exemplo, fazendo com que sua atitude seja uma contínua reprovação para o mundo e seus princípios. Herodes sentiu remorsos pelo crime que cometeu ao mandar decapitar o Batista; por isso, quando lhe chegou a notícia e a fama de Jesus, seu próprio remorso fê-lo crer que Deus tinha vigado seu crime, ressuscitando João Batista. O pecado carrega consigo o castigo do remorso, que força e dilacera a consciência pecadora; com o remorso desaparecem a tranquilidade e a paz. Procurar-se-á muitas vezes silenciar a voz da consciência, mas o aguilhão do remorso causará sempre indisposição e amargura” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

 Pe. João Bosco Vieira Leite  

Sexta, 31 de julho de 2026

(Jr 26,1-9; Sl 68[69]; Mt 13,54-58) 17ª Semana do Tempo Comum.

“Dirigindo-se para a sua terra, Jesus ensinava na sinagoga, de modo que ficavam admirados.

E diziam: ‘De onde lhe vem essa sabedoria e esses milagres?’” Mt 13,54.

“As interrogações levantadas pelo povo de Nazaré, a respeito de Jesus, já tinham, de antemão, uma resposta. Tendo Jesus saído do meio deles, era impossível que tivesse poderes divinos, como sua sabedoria e seus milagres deixavam transparecer. Não dava para combinar o fato de Jesus ser um nazareno e, ao mesmo tempo, ter sido autorizado a realizar as obras de Deus. Com isto os nazarenos não negavam que Deus pudesse intervir na história humana. Afinal, ele interviera continuamente na história de Israel, a partir da libertação do Egito por intermédio de Moisés. Os conterrâneos de Jesus estavam recusando-se a aceitar que Deus estivesse agindo a partir da família deste jovem de Nazaré. Isto não se enquadrava nos esquemas de esperança messiânica da época, segundo os quais, embora sendo homem, o Messias não assumira as condições que Jesus apresentava. Faltavam-lhe grandeza e dignidade! Sua condição de filho de carpinteiro e de homem do povo depunham contra ele. Em suma, não tinham gabarito nem credenciais para a missão que estavam realizando.  O pecado dos nazarenos consistiu em querer enquadrar Deus em seus curtos esquemas mentais. Como em Jesus Cristo Deus agiu à revelia das esperanças em voga, eles perderam a chance de acolher o Messias. Procuram longe, aquele que estava bem preso! – Pai, livra-me da tentação de querer enquadra-te em meus mesquinhos esquemas. Que eu saiba reconhecer e respeitar o teu modo de agir (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

 Pe. João Bosco Vieira Leite  

 

Quinta, 30 de julho de 2026

(Jr 18,1-6; Sl 145[146]; Mt 13,47-53) 17ª Semana do Tempo Comum.

“Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos

e jogam fora os que não prestam” Mt 13,48.

“A parábola da rede parece repetir, mesmo no vocabulário, a do trigo e do joio. Mas enquanto esta última coloca o acento sobre o tempo presente do crescimento, o Evangelho de hoje olha para o futuro, está interessado mais no vaso dos peixes do que na sua captura (os verbos antes estão no particípio passado e depois no indicativo). [Compreender a Palavra:] Através da parábola da rede, mais uma vez o Senhor mostra a dinâmica do Reino, distinguindo-se entre o tempo da História, em que todos os homens, bons e maus, convivem como os diversos peixes no mesmo mar, e o tempo do juízo final, quando se der a separação uns dos outros, com o fim trágico dos maus. A particular acentuação do juízo negativo pretendia eliminar qualquer equívoco na insistente e surpreendente pregação de Jesus sobre a misericórdia de Deus, que podia levar a duvidar da existência de um juízo final. Jesus Cristo projeta uma imagem nova de Deus e do seu Reino, a qual embora criando uma distanciação do ensino religioso da época, permanece no rasto da continuidade e da felicidade divinas: a misericórdia de Deus não anula a distinção entre o bem e o mal. Eis então que a mensagem de Jesus acerca do Reino pede uma renovação, antes de tudo da parte dos anunciadores (escribas/discípulos). O grande tesouro é Cristo e é Ele que ilumina todo o antigo e o novo, Ele que deve ser anunciado e transmitido, permanecendo fiéis à sua Pessoa que encerra em Si todas as novidades capazes de explicar e realizar as antigas promessas” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Tempo Comum – Vol. I] – Paulus). 

Pe. João Bosco Vieira Leite  

Quarta, 29 de julho de 2026

(1Jo 4,7-16; Sl 33[34]; Jo 11,19-27) Santos Marta, Maria e Lázaro.

“Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa” Jo 11,20.

“Em Jo 11,2 Maria é caracterizada como aquela ‘que ungira o Senhor com óleo perfumado e lhe enxugara os pés com os cabelos’. Trata-se, portanto, de uma antecipação daquilo que será contado só depois, no capítulo 12. Marta chama a irmã Maria pra vir junto de Jesus. Esta logo se levanta e lança chorando aos pés do mestre. Maria é aquela que acredita sem palavras. Ela sente o amor de Jesus pelo amigo dele e irmão dela. Chorando ela se sabe unida a Jesus e ao seu destino fatal” (Anselm Grüm – Jesus: Porta para a Vida – Loyola).

Pe. João Bosco Vieira Leite  

 

Terça, 28 de julho de 2026

(Jr 14,17-22; Sl 78[79]; Mt 13,36-43) 17ª Semana do Tempo Comum.

“Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram:

‘Explica-nos a parábola do joio!’” Mt 13,36.

“A parábola do joio e do trigo soou misteriosa aos ouvidos dos discípulos. Foi preciso que, a sós, Jesus os ajudasse a compreender o significado do ensinamento nela contido. A explicação que lhes foi oferecida corresponde a uma espécie de vocabulário onde cada elemento é interpretado. Um aspecto importante da explanação de Jesus consiste em estabelecer a nítida distinção entre os filhos do Reino e os filhos do Maligno. Os filhos do Reino são os que acolhem a Palavra de Deus e, embora pressionados pelos inimigos, mantêm-se fiéis, pautando sua vida pela vontade de Deus. A perseverança é conseguida, a duras penas, com a força do Espírito. Eles conhecem bem o preço da fidelidade! Já ‘os filhos do maligno’ são os que, fechando os ouvidos de Jesus, seguem os impulsos das próprias paixões ou se deixam levar por quem está na contramão de Deus. Sua malignidade manifesta-se de muitas formas, entre elas, no combate sem descanso aos que optaram pelo Reino de Deus. O drama é que nem sempre podemos identificar, à primeira vista, quem é ‘o filho do Reino’ e quem é ‘o filho do Maligno’. As aparências enganam! Existem lobos travestidos de cordeiros. Nem sempre é fácil desmascará-los. A parábola aconselha-nos a esperar o final dos tempos, quando ficará patente quem está a serviço do bem e quem está a serviço do mal. – Pai, que as pressões dos filhos do Maligno jamais sejam suficientemente fortes para me levar a renunciar à minha condição de filho do Reino. Quero estar sempre a teu serviço (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

Pe. João Bosco Vieira Leite  

Segunda, 27 de julho de 2026

(Jr 13,1-11; Sl Dt 32; Mt 13,31-35) 17ª Semana do Tempo Comum.

“Jesus contou-lhes ainda uma outra parábola: ‘O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pega

e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado’” Mt 13,33.

“Esta parábola tomada da vida familiar da Palestina também se refere ao Reino de Deus em você e nos outros. Você também pode chegar a ser fermento que acabe com seus maus exemplos, com sua vida egoísta e acomodada, às vezes até injusta e sensual. Esta parábola nos fala claramente de eficácia da doutrina do evangelho. Como o levedo fermenta toda a mesa, a doutrina de Jesus Cristo fermentou as almas, os costumes, os critérios, os sentimentos, a vida do homem. Para que a doutrina de Jesus Cristo possa fermentar sua própria alma, é preciso que primeiro você afaste de si mesmo o velho fermento do pecado, como o chama São Paulo: ‘o fermento da malícia e da iniquidade’ que como o levado penetra na massa, as palavras e os exemplos de Jesus penetrem em você pela serena meditação. Indubitavelmente, a pregação evangélica da palavra de Deus é também levedo capaz de transformar todo homem. O Reino de Deus tem em si mesmo força e vigor para fermentar cristãmente o mundo onde nos encontramos; isto é, se na parábola anterior do grão de semente de mostarda o Reino é-nos mostrado com vigor suficiente para estender-se pelo mundo todo, nesta fala-se de vigor interno do Reino, capaz em si mesmo força e vigor para fermentar cristãmente o mundo onde nos encontramos. Porém o Reino será fermento em você por você; você é chamado(a) a ser fermento em seu ambiente, ali onde a Providência o/a houver colocado; não levedura que corrompa, mas que faça crescer a massa e fermente com o evangelho” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

 Pe. João Bosco Vieira Leite  

17º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(1Rs 3,5.7-12; Sl 118[119]; Rm 8,28-30; Mt 13,44-52) *   

1. As duas parábolas correm o risco de serem tomadas como duas pequenas narrativas de fatos da vida, mas quem compreende seu significado, se sentirá inquieto pelo resto da vida. O que queria de fato dizer Jesus?

2. Mais ou menos isto: essa é a hora decisiva da história. Eis que o Reino de Deus se faz presente entre nós. Aquilo que os patriarcas esperaram, que os profetas desejaram ver, mas não viram: Deus que vem salvar o seu povo, resgatá-lo do pecado e da morte, e introduzi-lo em sua intimidade.

3. Tudo isso, na realidade, Jesus vai traduzir por “evangelho”, “Boa Nova”, aquela tanto esperada. Concretamente se trata da sua vinda à terra. O tesouro escondido, a pérola preciosa, não é outra coisa senão o próprio Jesus.

4. É como se Jesus com essas parábolas quisesse dizer: a salvação veio a vocês gratuitamente, por iniciativa de Deus, tomem uma decisão, não deixem escapar. Como acontece com certos artigos de luxo, que por tempo limitado entram em especial oferta.

5. É como se Jesus quisesse provocar uma espécie de “não perca a oportunidade. Há um tesouro que lhe espera, uma pérola preciosa. Não deixe passar…”. O Reino é a única coisa que nos pode salvar do risco supremo da vida que é perder o motivo pelo qual estamos nesse mundo.

6. Vivemos em uma sociedade que vive de seguros. Há seguros contra tudo que possa nos acontecer. Em algumas nações tornou-se uma espécie de mania. Entre eles está o mais importante e frequente que é o seguro de vida. Não estou aqui colocando em questão o seu valor.

7. Mas se refletimos um momento, de que coisa estamos nos assegurando? Da morte? Certamente que não. Asseguramos que, em caso de morte, alguém receberá uma indenização.

8. O reino dos céus é também um seguro de vida e contra a morte, mas uma asseguração real, que beneficia não só a quem fica, mas também a quem parte. “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá”, disse Jesus. E sabemos que não são palavras vazias.

9. Assim logo entendemos as exigências que esse Reino traz consigo: para adquiri-lo é preciso estar disposto, se necessário, a algum sacrifício. Não para pagar o preço do tesouro ou da pérola, que por definição, não têm preço, mas para ser digno dele.

10. Esse reino não pode ser colocado em pé de igualdade com qualquer outra realidade. “Não se pode servir a dois senhores”, dirá Jesus. Isso seria despreza-lo ou trai-lo. Eu sei que essa compreensão cria em nós uma tremenda responsabilidade.

11. Antes de concluirmos, há um aspecto que esquecemos nessas duas parábolas. Em cada uma delas há, na realidade, não um ator, mas dois. Tem aquele que vai, vende, compra, e o outro está escondido, subtendido. O proprietário do terreno, que não se deu conta que em seu terreno havia um tesouro e o vende; tem um homem ou uma mulher que possuía a pérola preciosa, e não se tinha dado conta do seu valor e a vende ao comprador.

12. A pergunta que devemos nos colocar é simples: a qual dos dois atores nós assemelhamos? Será que não vendemos a nossa fé por uma ideologia, por preguiça, por acharmos interessantes, quem sabe, mostrar-nos gnóstico, superiores aos outros.

13. Para muitos batizados, a última preocupação de sua vida é o Reino de Deus, possa ele significar o próprio Deus, a Igreja, a fé. Quão perigosa é essa atitude, nos diz o evangelho.

14. Mas não quero concluir com essa nota triste. Vejam que não nos é dito na parábola que alguém vendeu tudo que possuía e saiu em busca de um tesouro escondido. Sabemos bem como terminam as histórias que começam assim. Um que perde tudo que tinha e não encontra nenhum tesouro. Histórias de ilusões…

15. Primeiro é preciso encontrar o tesouro, nos diz a parábola, para depois ter a força e a alegria de vender tudo para conquista-lo. Ou seja, quando encontramos a Jesus de maneira nova, pessoal, convicta, nos veremos plenos de alegria como esses “buscadores” de que nos fala o evangelho. Amém.

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa

  Pe. João Bosco Vieira Leite  

Sábado, 25 de julho de 2026

(2Cor 4,7-15; Sl 125[126]; Mt 20,20-28) São Tiago Apóstolo.

“Quando os outros dez discípulos ouviram isso, ficaram irritados contra os dois irmãos” Mt 20,24.

“No espaço de tempo que transcorreu entre o momento em que Tiago manifestou as suas ambições – não inteiramente nobres – e o seu martírio, tem lugar um longo processo interior. O próprio zelo do Apóstolo, dirigido contra aqueles samaritanos que não tinham querido receber Jesus ‘por dar a impressão de ir para Jerusalém’ (Lc 9,53), transformar-se-á mais tarde em ânsia de almas. Pouco a pouco, sem perder a própria personalidade, Tiago irá aprendendo que o zelo pelas coisas de Deus não pode ser áspero nem violento, e que a única ambição que vale a pena é a glória de Deus. Conta São clemente de Alexandria que, quando o Apóstolo era levado ao tribunal onde iria ser julgado, foi tal a inteireza que o seu acusador se aproximou dele para pedir perdão. São Tiago refletiu... Depois, abraçou-o dizendo: ‘A paz esteja contigo’; e os dois receberam a palma do martírio. Ao meditarmos hoje sobre a vida do Apóstolo, serve-nos de grande ajuda considerarmos os seus defeitos, bem como os dos outros Onze que o Senhor tinha escolhido. Não eram poderosos, nem sábios, nem simples. Vemo-los às vezes ambiciosos, discutidores, com pouca fé. Mas, a par dessas deficiências e falhas, tinham uma alma e um coração grandes. São Tiago será o primeiro Apóstolo mártir. Tanto pôde a graça divina naquele coração generoso, que o levou a enveredar por caminhos bem diversos dos que ele tinha sonhado e pedido. O Mestre sempre foi paciente com Tiago e com todos, e contou com o tempo para ensiná-los e formá-los com uma sábia pedagogia divina. ‘Observemos – escreve João Crisóstomo – com a maneira de o Senhor os interrogar equivale a uma exortação e a um aliciante. Não diz: ‘Podeis suportar a morte? Sois capazes de derramar o vosso sangue?’. As suas palavras são: ‘Podeis beber o cálice?’ E, para animá-los a dar o passo, acrescenta: ‘... que eu irei beber?’. Deste modo, a consideração de que se tratava do mesmo cálice que o Senhor iria beber havia de estimulá-los a uma resposta mais generosa. E chama à sua Paixão ‘batismo’, mostrando assim que os seus sofrimentos haviam de ser causa de uma grande purificação para o mundo inteiro’. O Senhor também nos chamou a cada um de nós. Não nos deixemos invadir pelo desalento se alguma vez as nossas fraquezas e defeitos se tornam patentes. Se recorrermos a Jesus, Ele nos dará ânimos para seguirmos adiante com humildade, mais fielmente. O Senhor tem paciência também conosco, e conta com o tempo” (Francisco Fernandez-Carvajal – Falar com Deus – Vol. 7 – Quadrante).

Pe. João Bosco Vieira Leite