6º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Eclo 15,16-21; Sl 118[119]; 1Cor 2,6-10; Mt 5,17-37)*

1. O trecho do evangelho de hoje contem muita riqueza e recomendações de Jesus. Para não cair no lugar comum, gostaria de reter-me nessa pequena parábola de Jesus que Mateus insere em seu texto nos vv. 25-26. Aqui se faz alusão ao juízo de Deus, já com a vinda de Jesus, mas que será decisivo no fim da história.

2. Esse tema, dentro da teologia se chama “Novíssimos”, e trata das últimas coisas, definitivas e irreversíveis; aquelas que acontecem uma só vez, mas duram, em seus efeitos, pela eternidade: morte, juízo, inferno e paraíso. Tempos atrás era uma realidade bem presente na mente dos cristãos.

3. Igrejas antigas traziam alguma menção dessa realidade em suas pinturas. Era uma lembrança silenciosa, mas contínua, orientando o nosso pensamento para as coisas últimas e para o eterno. Agora, parecem temas proibidos de ser tratados. Em boa parte do tempo vivemos despreocupados, ignorando o que nos espera, como estultos.

4. Se você tivesse de enfrentar, na semana que vem, um processo e um julgamento num tribunal, do qual depende, suponhamos, a posse da casa em que você mora, que emoção, que medo e que preparação durante a espera! Pois bem, a eternidade que nos espera é logo ali, se levarmos em conta a fluidez do tempo.   

5. Se não nos estarrecemos diante deste pensamento é porque não conseguimos medir a importância desta palavra ‘eternidade’. O pensamento secular entende que falar de eternidade é ‘alienante’ porque desviaria do compromisso com este mundo e com a vida (uma coisa não anula a outra), e nós nos deixamos muitas vezes impressionar e intimidar pelo pensamento secular, nos deixamos ‘secularizar’.  

6. O diretor James Cameron imortalizou no cinema a história do Titanic, o célebre transatlântico em viagem para a América, a bordo do qual se festejava durante a noite, e do qual se dizia que nem Deus o teria afundado. Mas sabemos que jaz ainda em algum lugar no fundo do oceano Atlântico.  

7. O que devemos fazer para evitar a mesma sorte na viagem bem mais importante da eternidade? A Palavra de Deus, com efeito, não fere, mas cura, não assusta, mas consola, não ameaça, mas é misericordiosa.

8. Nesta pequena parábola, simples e compreensível, Jesus coloca em cena dois homens que estão indo ao tribunal resolver uma contenda: um deles não tem razão e sabe disso e o outro tem razão e sabe tê-la. Somos um dos dois homens e, portanto, ouçamos bem o que nos é dito.

9. Nós, com efeito, estamos indo de encontro ao juízo e estamos indo com o próprio Juiz. Ele, Jesus Cristo, está em caminho conosco; durante o ‘caminho’, isto é, nesta vida, não é juiz, mas amigo. Na parábola é chamado ‘adversário’ somente no sentido de que está à nossa frente, com sua palavra e com nossa consciência, e nos convence do pecado.

10. O que nos resta é colocar-nos de acordo, anteciparmos o juízo nós mesmos. Ou seja, resolvendo nossas intrigas. Se te desagrada o mesmo que a Deus, se condenas agora o que Deus condena, tu entras no seu juízo, o fazes teu, te colocas do lado do Juiz e deixas o banco dos réus.

11. Concretamente, trata-se de reconhecer o pecado, de dizer como Davi: ‘Reconheço meu pecado [...]’; o que nos cabe fazer é arrepender-nos e confessá-lo a Deus através da Igreja, porque assim nos falou Jesus, no Evangelho, para obter o perdão dos pecados.

12. Escolhi esse olhar sobre o texto por causa da quaresma que se aproxima. A confissão sacramental é o meio ordinário para ‘colocar-nos de acordo’ com Deus, para ‘reconciliar-se’, ou reconciliar-nos; há pessoas que se confessam até demais; quase por hábito, faltando, por vezes, certas disposições internas para a mudança necessária.

13. Mas há pessoas que não se confessam há meses e talvez anos e comungam tranquilamente em cada missa. Isto não é colocar-se de acordo com ele pelo caminho, mas brincar pelo caminho. ‘Não vos iludais – escrevia São Paulo aos Gálatas – de Deus não se zomba. O que o homem semear, isso colherá’ (cf. Gl 6,7).

* com base em texto de Raniero Cantalamessa  

Pe. João Bosco Vieira Leite