Sexta, 06 de novembro de 2026

(Fl 3,17—4,1; Sl 121[122]; Lc 16,1-8) 31ª Semana do Tempo Comum.

“E o senhor elogiou o administrador desonesto, porque ele agiu com esperteza. Com efeito,

os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz” Lc 16,8.

“Quero comentar rapidamente uma outra parábola exclusivamente lucana, a do gerente astuto (Lc 16,1-8). Ainda hoje, ela é capaz de provocar o leitor. Quando tento explicá-la num grupo, sempre surge algum protesto. Como é que Jesus pode aprovar uma fraude? Aqui percebemos como Jesus é habilidoso na arte de mexer com o leitor. Ao provocar o ouvinte, Jesus o seduz para ir além da posição segura da sua religiosidade. Exatamente lá onde uma parábola nos escandaliza, somos desafiados a questionar e corrigir o nosso modo de pensar sobre Deus e os homens. Com essa parábola sobre o administrador velhaco, que dribla seu patrão, Jesus sem dúvida provocou gozação entre os seus ouvintes, que devemos procurar sobretudo entre os pobres. Mas não se trata disso. Trata-se da questão: como é que nós lidamos com as nossas culpas? Queiramos ou não, nós contraímos ‘dívidas’, isto é, culpamo-nos de alguma coisa, ou somos culpados inculpados. Não há jeito de tirarmos o corpo fora. A questão é: Como reagimos a isso? Vamos sentir vergonha o resto da vida, vestindo roupas de penitente, conforme o gerente delibera consigo mesmo no seu solilóquio? Então todos vão falar mal de nós, e ficaremos sempre pedindo esmolas. A outra possibilidade de reagir à dívida seria dar duro, trabalhar cerrando os dentes, a fim de doravante fazer tudo direitinho e cumprir rigorosamente todos os mandamentos. Mas ambos esses caminhos levam a um beco sem saída. O gerente, no seu solilóquio, encontra um terceiro caminho, que Jesus aprova. Em vez de querer pagar, penando, a sua dívida a Deus, ou de querer morrer de vergonha, deveríamos nos aproveitar da dívida como chance para entrarmos em contato com os outros. A culpa nos convida a nos relacionar mais humanamente com os outros. O gerente faz a única coisa possível: ele chama os vendedores e reduz a sua dívida. Assim ele tem esperança de que o receberão nas suas casas. Ele lida criativamente com a própria dívida. Ele usa a imaginação para resolver o seu problema da melhor maneira possível. Jesus elogia a astúcia do gerente velhaco: ‘Os filhos deste mundo são mais avisados no trato com seus semelhantes do que os filhos da luz’ (Lc 16,8). A expressão ‘filhos da luz’ lembra os essênios, que eram muito piedosos, mas expulsavam sem dó a todos que transgrediam as suas normas. Na comunidade cristã não deve ser assim. Os cristãos não devem se excluir uns aos outros; devem receber nas suas casas quem se torna culpado. Jesus fala aqui sobre a culpa em termos muitos simples e realistas. Na Igreja ainda não chegamos a entender a sua linguagem, tão aberta e clara. Exatamente ao se tratar de culpa, corremos o perigo de rebaixar e desvalorizar as pessoas. Impingimos-lhes sentimentos de culpa para que, contritos, exibam arrependimentos. Com Jesus podemos aprender a falar de outra maneira sobre culpa e sentimentos de culpa. Jesus quer nos mostrar um caminho para aprendermos a lidar com a nossa culpa sem perder a autoestima” (Anselm Grüm – Jesus, modelo do ser humano – Loyola).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Quinta, 05 de novembro de 2026

(Fl 3,3-8; Sl 104[105]; Lc 15,1-10) 31ª Semana do Tempo Comum.

“E se uma mulher tem dez moedas de prata e perde uma, não acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente, até encontrá-la?” Lc 15,8.

“Uma parábola sempre tem vários planos, deixa ao leitor a liberdade de projetar nela as suas próprias experiências, os seus próprios anseios. A mulher com as suas dracmas pode ser uma imagem da alma humana que perdeu o seu centro, e agora vive em busca do seu verdadeiro ‘eu’. Mas pode ser também uma imagem de Deus que procura o homem perdido, e para isso revira a casa inteira. Se interpretamos assim a parábola, então Deus é descrito na figura de uma mulher. No Antigo Testamento não há texto nenhum em que Deus seja comparado a uma mulher que revira a casa. O exegeta suíço Hermann-Josef Venetz comenta: ‘Quem faz coisa semelhante mostra-se altamente competente e livre, e também muito próximo de Deus e do mundo’ (Venetz, p. 124). Tauler interpreta essa parábola no sentido de que Deus, logo quando estamos bem instalados na casa da nossa vida, começa a agir como uma mulher que remexe tudo para procurar a dracma. Tauler acha que é exatamente no centro da vida que estamos ‘bem instalados’. E de tanto agir externamente perdemos a dracma. Então Deus nos joga numa crise, em ‘apuros’, a fim de achar dentro de nós a dracma, o nosso verdadeiro ‘eu mesmo’” (Anselm Grüm – Jesus, modelo do ser humano – Loyola).

Pe. João Bosco Vieira Leite

 

Quarta, 04 de novembro de 2026

(Fl 2,12-18; Sl 26[27]; Lc 14,25-33) 31ª Semana do Tempo Comum.

“Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim não pode ser meu discípulo” Lc 14,27

“Fazendo da vida uma peregrinação, o cristão se desprende completa e imediatamente, para seguir adiante com Jesus Cristo. Ser discípulo de Jesus Cristo não é algo difícil de ser desejado; a figura de Jesus se apresenta tão santa e pura, tão amável e bondosa, tão humana e tão divina, que não pode deixar de arrastar o coração humano no desejo de seu seguimento. Vemos hoje como mesmo as multidões juvenis não cristãs se apaixonam pela figura de Jesus e propuseram-na como guia e líder na novela e no cinema. Porém, ser verdadeiro discípulo de Jesus, tal como ele no-lo exige no evangelho, é mais que a simples admiração e reconhecimento das suas qualidades e virtudes. Seguir Jesus verdadeiramente e de perto exige muito: acima dos afetos mais dignos e santos, mais corretos e naturais, deve estar o amor a Deus, e inclusive acima da própria vida e do próprio eu. A palavra ‘odiar’ é um hebraísmo com o qual Jesus não pede ódio ou rancor, mas desprendimento completo e imediato de tudo que pode ser mais caro ao coração do homem. É preciso colocar o amor a Deus acima de tudo e de todos. O evangelho não nos pode mandar que odiemos os nossos pais, quando, no próprio evangelho, se nos ordena que amemos os nossos inimigos. A cruz é símbolo de negação; o cristão deve seguir Jesus Cristo ao calvário, para que possa segui-lo na ressurreição e na ascensão aos céus. O Senhor Jesus fala-nos de carregar a cruz e assim expressa a entrega da própria vida; o discípulo de Jesus deve estar disposto ao martírio. ‘Carregar a cruz’ é frase antiga, muito usada, para simbolizar o sacrifício da própria vida; Jesus carregou sua cruz: entregou sua vida por nós; devemos carregar nossa cruz: entregar nossa vida por ele” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite