(Ap 7,2-4.9-14; Sl 23[24]; 1Jo 3,1-3; Mt 5,1-12)
1.
Falar dos santos é falar de pessoas que são de casa, seja na liturgia ou no
coração do crente. Muitos se tornaram afetivamente e efetivamente próximos a
quem recorremos por uma intercessão ou mesmo com quem falamos como se estivesse
aqui conosco.
2.
Há, no entanto, muitos santos que, apesar de terem vivido uma vida de total
dedicação a Deus e ao próximo, permanecem no anonimato. É precisamente para dar
também a esses santos sem rosto e sem voz a devida honra, que a Igreja
instituiu a solenidade de hoje.
3.
Especificando ainda mais o significado, A. Pronzato, um sacerdote e escritor
italiano, anota: “Hoje é a festa dos santos anônimos, não canonizados e,
portanto, sem lugar no calendário. Pessoas humildes, que talvez tenham vivido
ao nosso lado, que nos tocaram tantas vezes e que agora estão na luz e na
glória. Pessoas, cuja santidade desgastou os trapos da existência comum, da
existência cotidiana. Pessoas que não abriram o caminho com milagres, mas que
realizaram aquele grande e extraordinário milagre que é a fidelidade silenciosa
e diária ao evangelho”.
4.
Se isso for verdade, o aniversário de hoje nos leva, sim, a festejar, mas
também a refletir sobre o fato de que, para ser santo não é necessário nem o
reconhecimento oficial da Igreja, nem o sentimento destinado a algo
excepcional. Vale lembrar: santo é aquele que se esforça, dia após dia, para
permanecer fiel ao evangelho e todos os apelos a ele ligados.
5.
Em particular, aos apelos das bem-aventuranças que o evangelho da missa
apropriadamente repropõe e que falam do dever de serem pobres em espírito,
mansos, famintos e sedentos de justiça, misericordiosos, puros de coração,
construtores da paz, fortes na perseguição e em todo tipo de dor por causa de
Cristo.
6.
Talvez isso possa parecer pouco para alguns. No entanto, a santidade está aqui.
Neste espaço circunscrito que não tem nada de particularmente relevante, mas
que delimita bem os limites entre aqueles que o seguem apenas com palavras,
levemente, sem nenhum senso de responsabilidade.
7.
E se não queremos ser contados entre esses últimos, devemos tomar cuidado com
uma tentação generalizada que existe entre os cristãos, como adverte o filósofo
francês Gustave Thibon: “Os santos nos são tão mais queridos quanto mais
longe eles estão e a uma distância que nos dá o direito de nos considerar
dispensados de alcança-los”.
8.
A imensa multidão de “santos anônimos” que hoje a liturgia faz desfilar diante
dos olhos demonstra exatamente o contrário. Precisamente porque são muitos e
sem nome, eles manifestam que a santidade está ao alcance de todos, mesmo ao
seu.
9.
Por que então, em vez de nos deixarmos seduzir pela tentação da
“impossibilidade”, não nos deixamos seduzir pela tentação da “possibilidade”,
oferecida pelas bem-aventuranças?
10.
Léon Bloy, escritor francês afirmou com seu conhecido vigor: “Há apenas uma
tristeza no mundo: a de não ser santo”. A observação é mais um estimulo
para que tomemos consciência que ainda falta um nome entre os inúmeros “santos
anônimos” e que esse nome pode ser o seu.
Pe.
João Bosco Vieira Leite