(Ez 33,7-9; Sl 94[95]; Rm 13,8-10; Mt 18,15-20)*
1.
A parte final do nosso Evangelho aponta para uma realidade que exige de nós um
enorme ato de fé: a presença do Senhor, pelo simples fato de estarmos aqui
reunidos em seu nome. Ele estará presente mediante a consagração eucarística, é
certo, mas não é dessa presença que agora se trata.
2.
Em cada um de nós Jesus se faz presente ao outro. É também uma presença real
que devemos aprender a reconhecer e a transferir na vida cotidiana. A sua
presença aqui também se dá pela Palavra, que exige de nós uma escuta atenta.
Hoje Ele nos fala da correção, isto é, de como fazer para ganhar um irmão.
3.
A correção, nos moldes do Evangelho é, talvez, a manifestação mais genuína do
amor fraterno. Ela exclui qualquer desejo de vingança ou ostentação pessoal e é
movida unicamente pelo desejo do bem do outro. E tudo começa no âmbito privado,
nas relações interpessoais.
4.
O termo ‘irmão’, aqui no âmbito comunitário, pode ser aplicado também à vida
familiar, entre amigos, no ambiente onde passamos nossa vida cotidiana. Parece
um mandamento fácil e agradável. O que existe de mais natural do que perceber
as culpas dos outros? No entanto, se trata de uma das coisas mais difíceis e
isto explica por que seja tão rara nos relacionamentos humanos a verdadeira
correção fraterna.
5.
Jesus não encoraja a caça aos defeitos alheios, a maledicência ou aquela
propensão frequente de tornar públicos os defeitos do próximo, embora fingindo
estar talvez hipocritamente triste pelo mal que produzem contra a virtude.
6.
Trata-se dos teus olhos nos dele, e dizer-lhe abertamente o que te parece digno
de reprovação, para que não proceda mais assim ou se esforce por corrigir-se.
Agindo dessa forma, tu corres o risco de desagradá-lo, de talvez ver desmontada
a tua correção, ou de ouvir dizer, por tua vez, o que ele pensa de ti. Não
importa: se te ouves, ganhaste teu irmão...
7.
A correção fraterna franca, respeitosa, sugerida pelo Evangelho, se praticada
constantemente pelos cônjuges, poderia interromper na raiz aqueles perigosos
caminhos de ressentimentos, de friezas e de vinganças que muitas vezes acabam
levantando muros de separação, tornando estéreis os melhores casamentos.
8.
O Evangelho prossegue dizendo que se a primeira tentativa neste âmbito não
surte efeito deve ser a comunidade que deve se encarregar disso. E aqui a
correção se torna pública. Estamos falando desse papel confiado por Cristo à
sua Igreja, que pode chegar até mesmo à separação dos contumazes do seu meio.
Aqui se aplica a mensagem da 1ª leitura.
9.
Esse ser vigia, sentinela do mundo, é uma missão quase sobre-humana. A Igreja
não pode, por isso, calar, também se muitos gostariam que se calasse. A
denúncias das desordens, dos pecados, seja na vida social ou na individual, faz
parte dos seus deveres e nenhuma intimidação pode impedir o exercício desse
dever. Uma sentinela muda não serviria a Deus nem às pessoas.
10.
Cada cristão deve esforçar-se para ser ele mesmo sentinela, isto é, em atitude
de escuta da Palavra de Deus, para que possa discernir, sob a ação do Espírito
Santo, o que é bom, justo, correto e de acordo com a vontade de Deus, e também
a quem deve reconhecer a autoridade, ainda que isso possa gerar impopularidade.
11.
Paulo, na 2ª leitura, indica um caminho, talvez único possível, para superar
todo eventual conflito entre obediência e resistência, e que vale também para a
correção individual entre irmãos: a caridade, o amor. Escutando Paulo, Santo
Agostinho escreveu: “Ama e faze o que queres. Seja que cales, cales por
amor, seja que fales, fala por amor; seja que corrijas, corrige por amor; seja
que perdoes, perdoa por amor. Esteja em ti a raiz do amor, porque desta raiz
não pode nascer outra coisa a não ser o bem”.
12.
Peçamos por isso a Deus, que disse estar presente no meio de nós, para que nos
ensine esta difícil forma de amor que sabe corrigir sem desencorajar e lutar
sem ofender.
*
com base em texto de Raniero Cantalamessa.
Pe.
João Bosco Vieira Leite