23º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Ez 33,7-9; Sl 94[95]; Rm 13,8-10; Mt 18,15-20)*

1. A parte final do nosso Evangelho aponta para uma realidade que exige de nós um enorme ato de fé: a presença do Senhor, pelo simples fato de estarmos aqui reunidos em seu nome. Ele estará presente mediante a consagração eucarística, é certo, mas não é dessa presença que agora se trata.

2. Em cada um de nós Jesus se faz presente ao outro. É também uma presença real que devemos aprender a reconhecer e a transferir na vida cotidiana. A sua presença aqui também se dá pela Palavra, que exige de nós uma escuta atenta. Hoje Ele nos fala da correção, isto é, de como fazer para ganhar um irmão.

3. A correção, nos moldes do Evangelho é, talvez, a manifestação mais genuína do amor fraterno. Ela exclui qualquer desejo de vingança ou ostentação pessoal e é movida unicamente pelo desejo do bem do outro. E tudo começa no âmbito privado, nas relações interpessoais.

4. O termo ‘irmão’, aqui no âmbito comunitário, pode ser aplicado também à vida familiar, entre amigos, no ambiente onde passamos nossa vida cotidiana. Parece um mandamento fácil e agradável. O que existe de mais natural do que perceber as culpas dos outros? No entanto, se trata de uma das coisas mais difíceis e isto explica por que seja tão rara nos relacionamentos humanos a verdadeira correção fraterna.

5. Jesus não encoraja a caça aos defeitos alheios, a maledicência ou aquela propensão frequente de tornar públicos os defeitos do próximo, embora fingindo estar talvez hipocritamente triste pelo mal que produzem contra a virtude.

6. Trata-se dos teus olhos nos dele, e dizer-lhe abertamente o que te parece digno de reprovação, para que não proceda mais assim ou se esforce por corrigir-se. Agindo dessa forma, tu corres o risco de desagradá-lo, de talvez ver desmontada a tua correção, ou de ouvir dizer, por tua vez, o que ele pensa de ti. Não importa: se te ouves, ganhaste teu irmão...

7. A correção fraterna franca, respeitosa, sugerida pelo Evangelho, se praticada constantemente pelos cônjuges, poderia interromper na raiz aqueles perigosos caminhos de ressentimentos, de friezas e de vinganças que muitas vezes acabam levantando muros de separação, tornando estéreis os melhores casamentos.

8. O Evangelho prossegue dizendo que se a primeira tentativa neste âmbito não surte efeito deve ser a comunidade que deve se encarregar disso. E aqui a correção se torna pública. Estamos falando desse papel confiado por Cristo à sua Igreja, que pode chegar até mesmo à separação dos contumazes do seu meio. Aqui se aplica a mensagem da 1ª leitura.

9. Esse ser vigia, sentinela do mundo, é uma missão quase sobre-humana. A Igreja não pode, por isso, calar, também se muitos gostariam que se calasse. A denúncias das desordens, dos pecados, seja na vida social ou na individual, faz parte dos seus deveres e nenhuma intimidação pode impedir o exercício desse dever. Uma sentinela muda não serviria a Deus nem às pessoas.

10. Cada cristão deve esforçar-se para ser ele mesmo sentinela, isto é, em atitude de escuta da Palavra de Deus, para que possa discernir, sob a ação do Espírito Santo, o que é bom, justo, correto e de acordo com a vontade de Deus, e também a quem deve reconhecer a autoridade, ainda que isso possa gerar impopularidade.

11. Paulo, na 2ª leitura, indica um caminho, talvez único possível, para superar todo eventual conflito entre obediência e resistência, e que vale também para a correção individual entre irmãos: a caridade, o amor. Escutando Paulo, Santo Agostinho escreveu: “Ama e faze o que queres. Seja que cales, cales por amor, seja que fales, fala por amor; seja que corrijas, corrige por amor; seja que perdoes, perdoa por amor. Esteja em ti a raiz do amor, porque desta raiz não pode nascer outra coisa a não ser o bem”.

12. Peçamos por isso a Deus, que disse estar presente no meio de nós, para que nos ensine esta difícil forma de amor que sabe corrigir sem desencorajar e lutar sem ofender.    

* com base em texto de Raniero Cantalamessa.

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 05 de setembro de 2026

(1Cor 4,6-15; Sl 144[145]; Lc 6,1-5) 22ª Semana do Tempo Comum.

“E Jesus acrescentou: ‘O Filho do Homem é senhor também do sábado’” Lc 6,5.

“Os escribas e fariseus tinham acrescentado ao livro da Lei uma série de minuciosas observâncias e proibições que sobrecarregavam onerosamente a consciência dos piedosos israelitas. A humanidade sempre caiu no erro de considerar a lei, a técnica, a ordem, o poder mais importante que o próprio homem, como se o homem tivesse sido criado para as coisas e não as coisas para o homem. Mas Jesus não pensa assim; antes de mais nada, ele como verdadeiro Filho de Deus está acima de toda a lei acima de todo ordenamento. Ele é o senhor do sábado, o dono da lei, que não tem razão ser, senão nele, em sua divina vontade. Em segundo lugar, Deus criou todas as coisas para o homem, fazendo-o rei da criação, criou o homem para Cristo e Cristo é para Deus” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).   

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sexta, 04 de setembro de 2026

(1Cor 4,1-5; Sl 36[37]; Lc 5,33-39) 22ª Semana do Tempo Comum.

“Os fariseus e o mestres da Lei disseram a Jesus: ‘Os discípulos de João, e também os discípulos dos fariseus, jejuam com frequência e fazem orações. Mas os teus discípulos comem e bebem’”

Lc 5,33.

“Desde tempos antigos, a riqueza do mistério pascal foi sendo explicada ao longo de todo o itinerário anual da liturgia da Igreja, a fim de permitir ao crente contemplar a Pessoa de Jesus em todas as fases da sua vida. Enquanto O celebramos, crucificado e ressuscitado, o caminho eclesial ajuda-nos a encontrar as disposições interiores mais aptas para acolhermos o dom da presença de Cristo. Os tempos fortes do Advento e da Quaresma pedem-nos vigilância e conversão dos pecados; o Natal e a Páscoa pedem-nos que nos alegremos pela vida nascida e redimida; o Tempo Comum ampara-nos na fadiga cotidiana, colocando-nos em contato com o ensino e a vida do Mestre. Estes tempos da graça estão já presentes no Evangelho e a discussão surge entre os discípulos de João Batista e os de Jesus justificam os tempos novos inaugurados pelo Nazareno. Se a procura humana é caracterizada por jejuns e penitências escolhidos pelo homem, com a presença de Deus no meio dos homens irrompe a alegria da festa. O relevo é colocado precisamente na festa de núpcias, e não nas fadigas que a vida matrimonial comporta. A sequela de Cristo é uma festa de núpcias e por isso os jejuns e as orações servem de preparação, de aprendizagem para gozar a festa eterna, quando o noivo voltar definitivamente. Falta por vezes, na vivência da vida cristã, a capacidade de gozar, a partir de agora, do bem, da presença de Cristo, da alegria da novidade trazida pelo Evangelho. Se a acusação de tristeza dirigida aos cristãos é verdadeira, então pecamos contra a alegria pelo noivo que celebra a festa conosco. Até a última página da Bíblia, o Apocalipse, contempla o fim dos tempos como o encontro entre os dois noivos. Devemos renovar na nossa vida espiritual o sentido da festa, o gosto pelo lazer, a alegria do encontro, não em prejuízo do trabalho, mas para conceder espaço àquelas dimensões que muitas vezes são sufocadas por múltiplas ocupações” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Tempo Comum – Vol. II] – Paulus).

Pe. João Bosco Vieira Leite