III Domingo da Quaresma – Ano A

(Ex 17,3-7; Rm 94[95]; Rm 5,1-2.5-8; Jo 4,5-42)*

1. Esse episódio que acabamos de acompanhar gira em torno do simbolismo da água.  Um dos elementos do Batismo. Uma mulher da Samaria vem buscar água e Jesus, cansado, lhe pede de beber. Se instala um diálogo que começa pelo preconceito racial, enveredando para algo que transcende o simples elemento material.

2. Percebemos que dois tipos de água são colocados em contraste, indicando dois modos de conceber e de realizar a própria vida, dois objetivos, dois horizontes diversos. E assim podemos encaminhar nossa reflexão

3. A mulher tem buscado dar um sentido a sua vida e encher o vazio do seu coração com o amor de um homem. Mas inutilmente, faz notar Jesus. Até esse momento ela bebe de uma água que não é capaz de extinguir a sua sede, isto é, ela busca a felicidade onde ela não está, ou onde se dá de maneira breve.

4. À Samaritana, e a todos que se reconhecem nesse personagem, Jesus faz uma proposta radical: buscar uma outra ‘água’, dar um sentido e um horizonte novo à própria vida. Um horizonte eterno: “A água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna”.

5. A palavra “eternidade”, tempos atrás, catalisava os pensamentos de todos e ajudava a suportar com mais coragem as dificuldades da vida. Hoje ela se encontra um tanto em desuso. Quase uma espécie de tabu, como se ela tolhesse o esforço concreto e histórico de mudar esse mundo.

6. O resultado dessa mudança de cenário é que a vida, a dor humana, tudo se torna um grande absurdo. Se perdeu a medida, o equilíbrio, o peso, como numa antiga balança de dois pratos. Falta o contrapeso da eternidade. Assim todo sofrimento, todo sacrifício aparece como um absurdo, desproporcional. Puxa-nos pra baixo.  

7. Paulo lembrava aos seus leitores: “A nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, nos proporciona um peso eterno de glória incomensurável. Porque não miramos as coisas que se veem, mas sim as que não se veem” (2Cor 4,17-18).

8. Talvez alguém nos diga que é necessário viver, que é necessário contentar-se com essa vida. E quem não se contenta? Não é quem deseja a eternidade que demonstra não amar essa vida, mas quem não a deseja, resignando-se facilmente ao pensamento de que essa deverá acabar.

9. Na vida de cada um de nós tem um momento em que nos vem qualquer intuição sobre a eternidade, um lampejo, um sentimento, ainda que confuso, do infinito.

10. Como quem olha, calmamente para o céu ou o mar ou outro espetáculo da natureza que o atrai, esvaziando de tudo a mente, para sentir, por um instante, a emoção do eterno e do infinito. O sentido de eternidade dorme dentro de nós. Há quem busque essa sensação no naufrágio da mente, nas drogas e outras coisas que ao fim, só resta desilusão e morte.

11. Mas não basta saber que existe a eternidade, é necessário saber como se faz para atingi-la. Como pergunta aquele rico do Evangelho: “Mestre, que devo fazer ter a vida eterna?”. Comecemos por familiarizarmo-nos de novo com esta palavra. Isto já seria um grande ganho para a nossa sociedade, não só para Igreja.  

12. Nos ajudaria a reencontra o equilíbrio, a relativização das coisas, a não cair no desespero diante das injustiças e das dores do mundo. A viver menos freneticamente.

13. A nossa amiga Samaritana, no momento em que entendeu as palavras de Jesus, tornou-se uma evangelizadora. Volta ao seu povoado e, sem constrangimento, partilha o que lhe disse Jesus. A coisa mais bonita e importante para um pregador é ouvir aquilo que disseram os compatriotas dela: “Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmo ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo”.

* com base em texto de Raniero Cantalamessa

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 7 de março de 2026

(Mq 7,14-15.18-20; Sl 102[103]; Lc 15,1-3.11-32) 2ª Semana da Quaresma.

“Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver;

estava perdido e foi encontrado” Lc 15,32.

“A exaltação da misericórdia e da benevolência divinas da primeira leitura está em sintonia com a página estupenda do Evangelho, autêntica proclamação da grandeza insondável do amor de Deus. Outra página justamente famosa redigida pelo ‘escritor da mansidão de Cristo’: o evangelista São Lucas, que aqui narra o coração do amor misericordioso de Deus por todos os homens. A guiar-nos na reflexão temos o pai, obstinado no perdão, que espera o regresso do filho mais novo, depois de ter experimentado a lonjura do pecado, a solidão completa e a esperança da liberdade. Mas este pai está obstinado também em procurar trazer para casa o filho mais velho e com isso a reconciliação deste com o irmão. O filho mais velho vive no desprezo do outro irmão e, talvez, do pai. Temos alguém que faliu longe de casa e alguém que ficou prisioneiro da sua mesquinhez e do juízo injusto para com o próprio pai: como é difícil o ‘papel’ desempenhado por Deus! Mas há necessidade deste pai que, como escreveu G. K. Chesterton: ‘ama tanto o seu filho que o apanha com um azol invisível e com uma linha de pesca invisível, que é suficientemente grande para o deixar vaguear até os confins do mundo e, no entanto, fazê-lo regressar com um só puxão da linha’” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Quaresma Páscoa] – Paulus).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sexta, 06 de março de 2026

(Gn 37,3-4.12-13.17-28; Sl 104[105]; Mt 21,33-43.45-46) 2ª Semana da Quaresma.

“Escutai esta outra parábola: certo proprietário plantou uma vinha, pôs uma cerca em volta, fez nela um lagar para esmagar as uvas e construiu uma torre de guarda. Depois, arrendou-a a um vinhateiro e viajou para o estrangeiro” Mt 21,33.

“Mais uma vez Jesus fala em parábola, que é uma alegoria completa, visto que cada aspecto tem um significado: o pai é Deus; a vinha é povo eleito de Israel; os servos são os profetas; o filho é Jesus, morto fora das muralhas de Jerusalém; os vinhateiros homicidas são os judeus infiéis; o outro povo ao qual se confiará a vinha são os pagãos. O mesmo evangelista um pouco mais abaixo, declara: ‘Ouvindo isto, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus compreenderam que era deles que Jesus falava’ (Mateus 21,45). Por sua vez, Jesus aqui, mais que repetir a parábola da vinha de Isaías traz (5,1-7), suficientemente conhecida elos israelitas, faz uma aplicação da mesma. Assim como o pai de família fez pela vinha quanto dependia dele, cuidando dela com solicitude extrema, assim também o Senhor cuidou do seu povo Israel, e cuida agora de seu povo cristão com intensa solicitude. Os frutos exigidos pelo Senhor da vinha são a observância da lei e as boas obras: obras de justiça e de caridade, santidade de vida. Um escritor faz a seguinte aplicação dessa parábola: a vinha é a nossa alma plantada por Deus, adornada com sua graça, cuidada com solicitude por meio de suas inspirações e de seus sacramentos. Nós somos os colonos que devemos trabalhar para conseguir o fruto, que são as boas obras. O Senhor envia seus servos que são os seus sacerdotes ou suas inspirações e os próprio acontecimentos da vida, para que nos incitem à produção dos frutos, que são as boas obras e o aperfeiçoamento de nossa vida. Se nós não nos importarmos com essas moções, seremos semelhantes àqueles vinhateiros da parábola e merecermos o castigo por termos desprezado as admoestações de Deus e não termos produzidos os frutos de santidade que o Senhor tem direito de esperar de nós” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite