(Os 6,3-6; Sl 49[50]; Rm 4,18-25; Mt 9,9-13) *
1.
Nosso evangelho traz dois episódios distintos: a vocação de Mateus e a refeição
de Jesus com os pecadores, com a consequente discussão com os fariseus.
2.
Não devemos tomar o chamado de Mateus como uma informação exata do ocorrido,
mas de uma busca de revelar-nos a quem Deus escolhe, como é feito o
chamado e como se deve responder ao mesmo.
3.
Sabemos que os cobradores de impostos eram odiados em Israel, considerados
ladrões e aproveitadores. A salvação deles era praticamente impossível. A lei
estabelecia que o ladrão deveria restituir o que tirou indevidamente, e mais
20%. Recordemos o caso de Zaqueu em sua busca por salvação.
4.
Assim o gesto de Jesus torna-se revolucionário. Talvez o autor do nosso
Evangelho pensava em combater certo “puritanismo” que se infiltrava na
comunidade, lembrando o seu próprio chamado.
5.
Quando Jesus o chama a segui-lo, não significava tanto deixar-se instruir por
ele ou servi-lo, mas comprometer-se a seguir seu exemplo de vida. Jesus
subverte as relações discípulo/mestre do seu tempo. Não os chama de “servos”,
mas de amigos, se coloca a serviço deles e lhe lava os pés.
6.
O “seguimento” de Jesus não tem promessa de nenhuma glória, nenhuma riqueza,
mas somente serviço, dom de si. Uma resposta que deve ser firme e decidida.
Mudança de vida. A vocação de Mateus representa o chamado a todos os cristãos.
Ele não quer ser admirado, mas seguido.
7.
A 2ª parte do evangelho nos situa na festa organizada na casa do próprio
Mateus. E ali, entre Jesus e os discípulos, estão outros publicanos. Jesus come
com eles, os acolhe.
8.
E temos a reação dos fariseus, que se acham “justos”. Jesus responde a tal
reação com um provérbio um tanto irônico e em seguida cita o profeta Oséias da
1ª leitura. Por fim acrescenta uma sentença que resume todo o seu
comportamento: “Eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”.
9.
Os fariseus imaginavam que o Deus ‘santo’ não iria se misturar com os pecadores
e para imitá-lo se mantinham isolados e distantes de pessoas impuras. Jesus vem
dizer que Deus não é como elas pensam, não despreza, não julga, não condena,
salvo aqueles que prefiram se manter em suas posições.
10.
Aqui se lança uma reflexão para todos os seus seguidores. É óbvio que a
comunidade cristã tem que ter claro o que diz o Evangelho e quem não se sente
disposto a seguir a Cristo, se exclui da vida comunitária. Mas talvez devamos
refletir, em casos específicos, se a total exclusão seria a escolha certa.
11.
Não será, talvez, mais conveniente manter sempre algum laço para ‘não apagar o pavio que ainda fumega?’. Quantos de nós não temos contatos com pessoas que não
creem, ou que são de outras denominações religiosas ou mesmo que não tenham uma
vida assim tão “santa”? Talvez nós sejamos, para alguns, o único contato que
eles têm com o Evangelho.
*
com base em texto de Fernando Armellini.
Pe.
João Bosco Vieira Leite