Terça, 23 de junho de 2026

(2Rs 19,9-11.14-21.31-36; Sl 47[48]; Mt 7,6.12-14) 12ª Semana do Tempo Comum.  

“Protegerei esta cidade e a salvarei em atenção a mim mesmo e ao meu servo Davi” 2Rs 19,34.

“Esta página da Bíblia, repleta de acontecimentos dolorosos, recorda que depois de haver destruído o poder e a identidade nacional do reino do Norte, os Assírios, em 701 a.C., ameaçaram também Jerusalém. O piedoso rei Ezequiel, ao contrário do ímpio Acaz, seu pai, não se deixa atemorizar pela arrogância humana, mas confia no Deus de Israel e na Palavra que lhe foi anunciada pelo profeta Isaías: Deus é fiel ao Seu amor e às Suas promessas. [Compreender a Palavra:] Para além dos episódios de guerra, ameaças, desafios, assédios, batalhas e derrotas, os fatos narrados não são simplesmente ‘história’, mas História da Salvação e, como tais, são narrados para comunicar um significado religioso: o olhar profético lê na História um enredo de salvação que permanece invisível para quem está privado de olhos de fé. A ótica puramente humana está representada por Senequerib, o soberano assírio que raciocina segundo parâmetros simplesmente militares e por isso acha o seu exército capaz de atacar e exterminar qualquer adversário, pelo que manda dizer Ezequias: ‘Não te deixes enganar pelo teu Deus, em quem confias...’ (2Rs 19,10). O poder bélico representa a arrogância humana, que desafia Deus com a pretensão de se substituir a Ele, e insinua a dúvida, apresentando a dimensão da fé, pelo contrário, lê nos acontecimentos humanos (neste caso, numa epidemia que debilita as forças inimigas), o fato providencial que leva a cumprimento o desígnio do Senhor” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Tempo Comum – Vol. I] – Paulus).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 22 de junho de 2026

(2Rs 17,5-8.13-15.18; Sl 59[60]; Mt 7,1-5) 12ª Semana do Tempo Comum.

“Pois vós sereis julgados com o mesmo julgamento com que julgardes;

e sereis medidos com a mesma medida com que medirdes” Mt 7,2.

“Quão fáceis somos em conceder a nós mesmos o certificado de boa conduta! Quão compreensivos, quão indulgentes, quão bondosos somos com nós mesmos, quão rapidamente descobrimos explicações, justificativas para nós e nossos atos! Pelo contrário, que norma tão diferente e oposta nos rege, quando se trata dos outros! Para ver os defeitos dos outros, somos rápidos; para ver e reconhecer nossas deficiências e nossas falhas, somos praticamente cegos. Algumas vezes Deus permite que cheguem aos nossos ouvidos as críticas que os outros fazem sobre o nosso modo de proceder. Por que não nos questionamos se isso está ocorrendo porque anteriormente tenhamos criticado isso mesmo nos outros? Quem semeia ventos, colhe tempestades; as tempestades contra nós, que às vezes descobrimos, não obedecerão aos ventos que nós mesmos desatamos contra os outros? Queixamo-nos e nos sensibilizamos, e ficamos magoados ao ver que não somos devidamente apreciados ou valorizados, não nos levam em consideração ou nem nos respeitam; e não será isso o fruto dessas mesmas atitudes que tenhamos adotado em relação aos outros?” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

12º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Jr 20,10-13; Sl 68[69]; Rm 5,12-15; Mt 10,26-33) *

1. Ao centro do nosso Evangelho está o esforço de Cristo de libertar-nos do medo. O medo é a nossa condição essencial; ele nos acompanha da infância ao túmulo. A criança tem medo de tantas coisas: de ser abandonado, do escuro, de quem levanta a voz, dos monstros que povoam sua mente para que se comporte...

2. O adolescente tem medo do outro sexo e esse o envolve num complexo de timidez e de inferioridade. O adulto experimenta a angústia do mundo, do futuro, sente sua vulnerabilidade de modo violento e descontrolado. A estes medos tradicionais se juntam aqueles criados pelo próprio progresso: as guerras nucleares, a poluição atmosférica, a IA...

3. O medo é a manifestação do nosso instinto fundamental de conservação. É a reação a uma ameaça à nossa vida, a resposta a um perigo verdadeiro ou possível; do maior medo que é o da morte, aos perigos particulares que ameaçam ou a tranquilidade, ou bem-estar físico, ou nosso mundo afetivo.

4. Em nosso mundo também transitam medos reais e imaginários. As fobias que habitam nosso tempo. Como as doenças, os medos podem ser ou agudos ou crônicos, estes últimos nos acompanharão por toda a vida. O medo, mesmo que crônico, não é um mal em si mesmo. Por vezes é a ocasião em que se revela uma coragem e uma força que se desconhecia.  

5. Só quem conhece o medo, sabe que coisa é a coragem. Este se torna verdadeiramente um mal que consome e não possibilita viver, quando, antes que um estímulo a reagir e motivar a ação, torna-se de desculpa para não agir, qualquer coisa que paralisa. E se transforma em ânsia.

6. A ansiedade se tornou o mal do século e uma das causas principais de enfartos. Vivemos na ansiedade, e por isso não vivemos. A ansiedade é o medo irracional de um algo desconhecido. Um temer sempre, a tudo, um esperar sistematicamente pelo pior e viver sempre com o coração acelerado.

7. Se o perigo não existe, a ânsia o inventa, se existe o aumenta. A pessoa ansiosa sofre sempre o mal duas vezes: primeiramente na previsão e depois na realidade. O que Jesus censura no Evangelho não é tanto o simples medo ou a justa solicitude pelo amanhã, mas a ânsia e o afã: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã, a cada dia basta o seu mal”.

8. O remédio que nos é oferecido pelo Evangelho é a confiança em Deus, crer na providência e no amor do Pai do céu. A verdadeira raiz de todos os medos é aquela de encontrar-se só. O medo da criança, de ser abandonado. Jesus quer nos assegurar que mesmo que todos nos abandonem, Deus não o fará. O seu amor é mais forte que tudo.

9. Próximo fim de semana estaremos celebrando São Pedro e São Paulo. É de Paulo, em sua carta aos Romanos, que recolhemos um conselho prático para vencer o medo. Ele faz uma revisão de todos os perigos que lhe aconteceram na vida. Olha tudo isso à luz da grande certeza de que Deus o ama e conclui triunfalmente: “Mas, em todas essas coisas somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou” (Rm 8,37).

10. Somos convidados a fazer o mesmo. A olhar a nossa vida, presente e passada, trazer à tona os medos que ali se aninharam, o que nos impediu de aceitar-nos e termos confiança em nós mesmos. Os medos são como fantasmas: precisam do escuro para agir. Precisamos trazê-los à luz, dar-lhes nomes, para que se dissolvam ou os redimensionemos.

11. Para além da sua vida pessoal, Paulo vai alargar o seu olhar sobre o mundo que o rodeia com as incógnitas que aterrorizavam os seres humanos na sua época. Muitas coisas nos ameaçam, e nesse vasto universo nos descobrimos como um grão de areia. Confrontando tudo, Paulo dirá: “Se Deus é por nós, quem será contra nós”?

12. Jesus pode nos ajudar de duas formas: tirando o medo do nosso coração ou nos ajudando a vivê-lo de modo novo, mais livres, tornando-nos uma ocasião de graça para nós mesmos e para os outros. Lembremos a experiência que Ele mesmo faz no jardim das Oliveiras.

13. Ele experimenta o medo em seu maior grau, o da morte, justamente para redimir também esse aspecto da condição humana. Além do incentivo de com Ele levantar-nos, alerta-nos de estarmos atentos aos outros, a sermos mais compreensivos; numa palavra, a sermos mais humanos.

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa

 Pe. João Bosco Vieira Leite