Terça, 27 de outubro de 2026

(Ef 5,21-33; Dl 127[128]; Lc 13,18-21) 30ª Semana do Tempo Comum.

“Ele é como a semente de mostarda, que um homem pega e atira no seu jardim” Lc 13,19.

“Embora seja São Marcos quem nos ofereça as principais parábolas referentes ‘ao Reino dos céus’, Lucas também nos fala do ‘Reino de Deus’. Dessa maneira proporciona-nos a parábola da mostarda, dizendo-nos que assim como a mostarda é uma semente sumamente pequena, mas logo ao germinar se transforma em um dos maiores e densos arbustos, alcançando até cerca de quatro metros de altura, assim também o Reino de Deus tem começos sumamente simples e ocultos, humildes e aparentemente insignificantes e sem importância; mas depois estende-se pouco a pouco, tanto no coração de cada homem, quanto na própria sociedade, e torna-se universal e glorioso, acolhendo em si homens de todas as regiões e culturas. O Reino de Deus é chamado a ser em você um Reino consolidado e forte, amplo e extenso; as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo foram-lhe dados no batismo, embora somente em germe; com o sacramento da Confirmação começam a desenvolver-se e a adquiri consistência com sua primeira Comunhão. À medida que você foi desenvolvendo sua vida sacramental, era de esperar que o Reino de Deus fosse se consolidando e expandindo-se em você, pela prática das diversas virtudes. E você chegou até o presente momento de sua vida e é agora que precisa questionar-se sobre o desenvolvimento que o Reino alcançou em você e sobre seus projetos e propósitos, bem como as metas traçadas para seu futuro” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 26 de outubro de 2026

(Ef 4,32—5,8; Sl 1; Lc 13,10-17) 30ª Semana do Tempo Comum

“O chefe da sinagoga ficou furioso, porque Jesus tinha feito uma cura em dia de sábado”

Lc 13, 14a.

“O chefe da sinagoga reage com irritação à cura da mulher curvada. No sábado não se podia trabalhar. Ele interpreta a cura da mulher como um trabalho humano. Jesus vê nela uma obra divina. O chefe da sinagoga exagera na sua interpretação da Lei. Para ele, a Lei é mais importante do que o ser humano. Jesus refuta a sua atitude rigorosa com uma referência aos animais, que todo mundo desata da manjedoura, levando-os a beber. Se todos soltam o boi e o jumento, é permitido também libertar o ser humano de seus limites. Para Lucas, Deus é sobretudo o libertador, que salva para que seja novamente como foi criado por Deus. O sábado lembra a Criação. No sétimo dia Deus descansa da obra da Criação. Contempla-a no seu esplendor. Para Lucas, a melhor maneira para se celebrar o sábado é reerguer o ser humano na sua figura original, é alegrar-se de sua dignidade divina e louvar a Deus, o Criador da beleza humana. A reação do povo é a alegria ‘por todas as maravilhas que Jesus fazia’ (Lc 13,17). À libertação oferecida por Jesus, todos sempre reagem com alegria. Jesus não fala sobre a alegria: seus atos é que provocam a alegria do povo. Lucas narra a cura da mulher curvada de tal maneira que todo aquele que se abre inteiramente para esse texto há de prosseguir mais aprumado o seu caminho. A libertação pintada no texto há de apoderar-se também do leitor e do ouvinte, e eles hão de se alegrar de sua dignidade divina, e poderão voltar para casa de cabeça erguida” (Anselm Grüm – Jesus, modelo do ser humano – Loyola).

Pe. João Bosco Vieira Leite

30º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Ex 22,20-26; Sl 17[18]; 1Ts 1,5-10; Mt 22,34-40) *

1. Pesquisar a essência da Lei era uma questão apaixonante para os homens religiosos do tempo de Jesus. Qual é a coisa mais importante para Deus, no vasto acervo de tantos preceitos? Jesus participou também desse esforço de unificação e diante da pergunta sobre qual é o maior dos mandamentos, temos a resposta no evangelho.

2. O primeiro e maior mandamento, Jesus retoma do Antigo Testamento. Essa afirmação da primazia do amor a Deus era como um credo, recitado na oração vespertina do sábado. Em tempos recentes, muitos hebreus o recitavam enquanto iam trêmulos para a morte nos campos de extermínio: “Shemá Israel” – Ouve Israel.

3. A essa primazia do amor divino Jesus acrescenta o amor ao próximo, também presente no Antigo Testamento; daí compreendemos o porquê da 1ª leitura. Mas era algo disperso entre uma multidão de outros mandamentos e um tanto restrito aos do mesmo país ou prosélito.  

4. Com Jesus, “o próximo” adquire uma dimensão universal e um nível nunca imaginado: este mandamento está ao lado do primeiro. Sua resposta fica clara quando escutamos a parábola do bom samaritano. O Evangelista João vai tornar mais explícito o pensamento de Jesus em suas cartas: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso...” (cf. 1Jo 4,20-21).

5. No dado momento em que Deus – Criador e Senhor – vem a nós em Jesus, compreendemos que amar é sair de si mesmo para ir ao outro. Deus, e somente ele, será, no fim, o objeto fixo e total do nosso amor; mas enquanto estamos aqui na terra, a nossa busca de Deus, e de amá-lo passa pelo próximo.  

6. Estaríamos errados se afirmássemos que os cristãos compreenderam e realizaram este equilíbrio entre os dois mandamentos. No passado fomos lançados nesse amor a Deus descuidando do próximo ou fazendo-o um simples instrumento do primeiro: amar o ser humano ‘por amor a Deus’, ou para adquirir méritos. Não sei quanto esta censura seja verdadeira e justa.

7. A euforia da secularização tem buscado a “religião do segundo mandamento”, puramente horizontal, sem Deus. A ideologia põe o ser humano como único fim e sentido da história; amar a Deus é alienação, é desperdiçar no céu os tesouros – e o amor – destinados para a terra e para os seres humanos.

8. Mas sabemos que essa morte de Deus não foi preenchida pelo amor e pelo respeito ao ser humano, mas pela destruição dele. É só prestar atenção.

9. Diante de um desfecho tão negativo, não é correto que nós, cristãos, voltemos a colocar entre parênteses o “segundo mandamento”, ou concebê-lo como uma das tantas práticas para tornar-nos santos, como “praticar a caridade”. O verdadeiro problema é e fica o de fazer uma síntese entre os dois mandamentos, de como harmonizar uma total doação a Deus e ao seu culto e uma total dedicação ao próximo.

10. Devemos descobrir sempre de novo o que o Evangelho nos ensinou: que o amor de Deus é exatamente o mais sólido fundamento do amor e do respeito do ser humano; que o ser humano só fica livre totalmente de violências, manipulações e instrumentalizações, quando Deus é reconhecido como seu Criador, protetor e Pai.

11. Um único amor, portanto, que sobe dos seres humanos a Deus, uma única religião, a nossa, vertical e horizontal ao mesmo tempo. Se, porém, nos colocamos a pergunta de por onde começar concretamente para realizar este amor, se do alto ou da terra, o Evangelho não nos deixa dúvida: do próximo.

12. Isto não significa deixar para depois o sacrossanto dever de amar a Deus, mas amá-lo desde agora no único modo com o qual ele se nos faz presente concretamente, quer dizer, no irmão. O outro é também uma espécie de sacramento, o mais cotidiano de todos, como a carne humana que escondia o Verbo e como o pão eucarístico que oculta o Corpo de Cristo.

13. Concluiremos o nosso ano litúrgico ouvindo aquela sentença máxima de Cristo: “tudo que fizestes a um desses pequeninos, foi a mim que o fizeste”. É este o “deus próximo” que encontramos em cada passo da vida, ao qual podemos estender a mão também já agora, saindo de nossas assembleias. A Eucaristia que agora celebramos nos consagra precisamente para este difícil amor.

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa

Pe. João Bosco Vieira Leite