(Ex 32,4-14; Sl 105[106]; Jo 5,31-47) 4ª Semana da Quaresma.
“E o Senhor disse ainda a Moisés: ‘Vejo
que este é o povo de cabeça dura’” Ex
32,9.
“’Vejo
que este povo é um povo de cabeça dura’ (Ex 32,9), assim diz Deus a respeito de
Israel (primeira leitura). Depois do pecado do bezerro de ouro, JHWH já não
chama Israel ‘o Meu povo’, porque já não o reconhece, já não é aquele para quem
olhava com tanto amor quando lhe propunha a aliança, já não é ‘sua propriedade
especial entre todos os povos’ (Ex 19,5): Israel perverteu-se, tornou-se duro
de cabeça e de coração, já não escuta a voz do seu Senhor, já não anda nos Seus
caminhos, tornou-se impenetrável ao Seu amor. A ‘cabeça dura’ indica
precisamente a atitude de fechamento, de orgulho, de afirmação de si mesmo e de
reconhecimento de que não precisa de salvação. É uma atitude que está na raiz
do pecado de Adão e Eva, da construção da torre de Babel e de todos os outros
pecados. ‘Vós nunca ouvistes a Sua voz nem vistes a Sua face. Desse modo a Sua
palavra não permanece em vós [...] conheço-vos muito bem: o amor de Deus não
está dentro de vós’ (Jo 5,38.42), diz Jesus aos judeus que não creem n’Ele (Evangelho).
É ainda a dureza, o fechamento que torna o coração indiferente ao testemunho e
insensível ao amor de Deus. À perversão opõe-se a conversão, e à dureza de
cerviz o coração contrito. Julgamos que Deus pode mudar o coração de pedra em
coração de carne (Ez 36,26) e que seu Espírito consegue dobrar o que é rígido e
aquecer o que é gélido. Ele inflama-Se de ira perante os filhos perversos, mas
tem piedade e mostra a Sua ternura de Pai logo que eles se convertem a Ele.
Agrada-lhe ‘um espírito contrito’ e jamais despreza ‘um coração contrito e
humilhado’ (Sl 50,19). Porventura todos nós precisamos de nos sentir provocados
pela Palavra, precisamos de que nos dirijam palavras duras de Jesus que nos
sacudam da modorra, da preguiça, da ilusão de estarmos bem, daquela procura de
‘receber a glória uns dos outros’ (Jo 5,44), precisamos experimentar a dor da
‘compunctio cordis’, de deixar que Deus nos toque o coração de modo a provocar
em nós um despertar e nos disponha a acolher o Seu amor misericordioso” (Giuseppe Casarin – Lecionário
Comentado [Quaresma - Páscoa] – Paulus).
Pe.
João Bosco Vieira Leite