(Is 8,23—9,3; 1 Cor 1,10-13.17; Mt 4,12-23) *
1.
Mateus nos introduz brevemente no início do ministério de Jesus e conclui com
essas palavras: “Jesus andava por toda Galileia, ensinando em suas sinagogas,
pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do
povo”
2.
Cerca de 1/3 do Evangelho se ocupa das curas que Jesus realizou em sua breve
vida pública. É impossível eliminar esses milagres ou dar-lhes uma explicação
natural, sem desestabilizar o Evangelho e torna-lo incompreensível.
3.
Os milagres do Evangelho têm características inconfundíveis. Não são realizados
para impressionar ou exaltar a aquele que os realiza. Comumente Jesus ordena
guardar segredo, para evitar entusiasmos excessivos e, muitas vezes após
realizar um milagre ele se esconde, fazendo desparecer assim seus vestígios.
4.
Não são poucos os que buscam e se deixam encantar de certos personagens capazes
de realizar levitações, de fazer aparecer e desparecer objetos, e outras coisas
do gênero. A que serve esse tipo de milagre, se é que podemos chamar como tal?
A ninguém, ou só a quem o pratica, para fazer discípulos ou para fazer
dinheiro.
5.
Jesus opera milagres por um motivo muito simples: por compaixão, porque ama as
pessoas e se comove até às lágrimas, ao ver seu sofrimento. Realiza milagres
para ajudar as pessoas a reconhecerem a presença do Reino de Deus e para
crerem.
6.
Realiza curas, enfim, para anunciar que Deus é o Deus da vida e que ao fim,
juntamente com a morte, também a doença será vencida, e não haverá mais “luto
nem pranto”. Não só Jesus cura, mas ordena aos seus apóstolos que façam o
mesmo. Em seu envio, duas coisas vão associadas: pregar o Evangelho e curar os
enfermos.
7.
E assim foi ao longo da história da Igreja. Os cristãos não se contentaram em
apenas pregar o Evangelho, mas buscaram aliviar os sofrimentos humanos fundando
obras assistenciais de todo tipo: leprosários, hospitais, particularmente nos
países de missão.
8.
Mas poderíamos questionar: era isso que entendia Jesus aos enviá-los? Não
falava de impor as mãos para curar? É verdade, e isso ocorreu por um tempo.
Pouco a pouco, o dom de poder realizar curas cessou para ser reconhecido só em
certos santos taumatúrgicos, isto é, realizadores de prodígios, como S. Antônio
de Pádua, ou mesmo em certos santuários.
9.
Hoje, assistimos um certo “despertar do Espírito” em alguns grupos de linha
carismáticas, onde o dom da cura se faz presente, ainda que quem o exercita não
seja necessariamente um santo, ou o mais santo entre os demais. Em Mt 7,21-23,
o próprio Jesus reprova aqueles que profetizaram, realizaram milagres, mas cujo
viver não corresponde ao poder recebido.
10.
O ser humano tem dois meios para procurar superar suas enfermidades: a natureza e
a graça. Natureza indica inteligência, a ciência, a medicina,
a técnica; a graça indica o recorrer diretamente a Deus, através da fé, da
oração e dos sacramentos. Entre ambos, natureza e fé, está Deus, porque também
a engenhosidade humana vem d’Ele.
11.
Há quem busque a magia, em supostos poderes de alguém, que não se baseia nem na
ciência nem na fé. Por vezes nos encontramos diante do charlatanismo ou pior,
na ação do inimigo de Deus. Muitos acabam economicamente e psicologicamente
destruídos. Em tudo isso se exige bastante discernimento e prudência. Muitas
ilusões e sentimentos não muito claros se infiltram nesse terreno.
12.
O fato de não se alcançar uma cura não nos deve levar a conclusões precipitadas
do tipo: ausência de fé ou mesmo de ser menos amado por Deus. Os médicos
calculam hoje que S. Francisco, ao morrer, tinha doenças diversas e todas
graves.
13.
A força de Deus não se manifesta só de um modo – eliminando o mal ou a doença –
mas também na capacidade de suportar ou conviver, e por vezes na própria
alegria de levar em si a própria cruz de Cristo. Ele redimiu também pelo
sofrimento e pela morte. O sofrimento não é sinal de pecado, mas instrumento de
redenção. Mesmo aqui Deus faz seus santos.
14.
Há muitos que para além desses personagens carismáticos da nossa Igreja, buscam
a cura na Eucaristia, e como aquela mulher do Evangelho, buscam não apenas
tocar em seu mato, mas receber todo o seu corpo e sangue. Buscam o sacramento
dos enfermos. Seja qual for a sua enfermidade, aqui rezamos uns pelos outros
para que o Senhor nos levante.
* Com base em texto de Raniero
Cantalamessa.
Pe.
João Bosco Vieira Leite