(At 2,14.22-33; Sl 15[16]; 1Pd 1,17-21; Lc 24,134-35) *
1.
Esse episódio dos discípulos de Emaús é bastante rico nas reflexões que nos
oferece. Gostaria de me deter nessa afirmação dos discípulos após reconhecem
Jesus no partir do pão: “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos
falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”
2.
Temos dois modos de aproximar-nos da Bíblia. O 1º é aquele de considera-la um
livro antigo, pleno de sabedoria religiosa, de valores morais, e também de
poesia. Deste ponto de vista, esse é o livro absolutamente mais importante para
entender a nossa cultura ocidental e a religião hebraico-cristã.
3.
É o livro mais impresso e mais lido de toda a humanidade. Ainda hoje, suas
narrativas, seus personagens, suas histórias são capazes de atrair a atenção de
muitos leitores ou mesmo quando encenadas seja no cinema ou na TV.
4.
O outro modo, mais desafiador de se aproximar da Bíblia é aquele de crer que
ela contém a palavra viva de Deus para nós. Que é um livro inspirado, ainda que
escrito por autores humanos, com todos os seus limites, mas com a intervenção
direta de Deus. Um livro humano e ao mesmo tempo divino. Que fala aos homens e
mulheres de todos os tempos, lhes revela o sentido da vida e da morte. E,
sobretudo, lhes revela o amor de Deus.
5.
Isto explica porque tantas pessoas se aproximam da Bíblia, mesmo sem grande
cultura ou grandes estudos, mas com simplicidade, crendo que seja o Espírito
Santo que fala nela e encontram respostas para seus problemas, luz,
encorajamento, uma palavra de vida. “Não só de pão vive o homem...”.
6.
A palavra de Deus é “viva e eficaz”, isto é, ela produz aquilo que significa,
dá aquilo que promete. É também uma palavra “eterna”: “Céus e terra
passarão...”. Esses dois mil anos de história confirmam essas palavras de Jesus:
suas palavras, longe de passarem, são mais viva que nunca entre nós. Por vezes
temos a impressão de que uma certa palavra foi escrita para nós, pelas
circunstâncias que estamos vivendo.
7.
Os dois modos de aproximar-nos da Bíblia, o erudito e o da fé, não se excluem,
e devem se manter unidos. É necessário estudar a Bíblia, nos modos como ela vai
interpretada por aqueles que se debruçam sobre ela, para não cair num
fundamentalismo, como fazem algumas linhas protestante ou evangélicas...
8.
O fundamentalismo consiste no tomar um verso da Bíblia, assim como está
escrito, e aplica-lo de modo direto a uma situação de hoje, sem levar em conta
a diferença de cultura, tempo, e dos diversos gêneros literários da Bíblia. Por exemplo: há
quem acredite que o mundo tem 4 mil anos, que seria, em tese a idade da Bíblia,
mas sabemos que o mundo tem milhares e milhares...
9.
A Bíblia não foi escrita para fazer ciência, mas para dar a salvação. Deus, na
Bíblia, se adaptou ao linguajar humano, para que esse, em seu tempo, pudesse
entender, mesmo o da era tecnológica.
10.
A Bíblia não pode ser reduzida somente a um objeto de estudo e de erudição, sem
levar em conta a sua mensagem. É como um sujeito que recebe uma carta de sua
namorada e se coloca a examiná-la a partir de um dicionário, e do ponto de
vista da gramatica e da sintaxe, e parasse nessas coisas, sem recolher o amor
que está nela.
11.
É preciso aproximar-se da Bíblia com fé e tendo como referência a pessoa de
Jesus Cristo, recolhendo ali tudo que se refere a Ele, como Ele mesmo fez com
os discípulos de Emaús.
12.
Hoje, talvez mais que antes, nos aproximamos da Bíblia, mas precisamos reforçar
esse hábito, particularmente na leitura dos Evangelhos, não basta só escutar o
que dizem os comentaristas. É preciso ler, tomar nas mãos o texto. Ler um pouco
a cada dia. É bom perceber quando a Bíblia tem um lugar de destaque numa casa,
mas precisamos lê-la.
13.
Jesus permanece conosco de dois modos: na Eucaristia e na sua Palavra. Nas
duas, Ele está presente: na Eucaristia, sob a forma de alimento, na
Palavra sob a forma de luz, de verdade. Sendo que a Palavra tem uma grande
vantagem sobre a Eucaristia, dela, todos podem se aproximar. Ninguém está
totalmente indigno de recebe-la. É dela que nasce a fé.
14.
Concluímos como a oração da aclamação ao Evangelho, que é um pedido:
“Revelai-nos o sentido da Escritura; fazei o nosso coração arder quando
falardes”. Amém.
*
Com base em texto de Raniero Cantalamessa.
Pe.
João Bosco Vieira Leite