II Domingo da Quaresma – Ano A

(Gn 12,1-4a; Sl 32[33]; 2Tm 1,8-10; Mt 17,1-9)*

1. Esse evangelho é bastante conhecido e hoje gostaria de abordá-lo do ponto de vista dos 3 discípulos que subiram ao monte com Jesus. O que aconteceu com eles? O que significou para eles aquele momento?

2. Pois, até aquele momento só conheciam Jesus na sua aparência externa, um homem não diferente dos outros, sabiam de onde vinha, sus hábitos, timbre de voz... Agora conhecem um outro Jesus, o verdadeiro Jesus, que não é possível ver com os olhos de todo o dia, à luz normal do sol, mas que é fruto de uma revelação repentina, de uma mudança, de um dom.

3. A partir dessa experiência dos discípulos poderíamos refletir sobre algo que deve ser essencial para a nossa vivência quaresmal e cristã de um modo geral: que esforço empregamos, verdadeiramente em conhecer a pessoa de Jesus? Muito se fala e se escreve sobre Ele. Mas é um Cristo impessoal, distante, um estranho, ainda que famoso.

4. Para que as coisas mudem também para nós, como o foi para os três discípulos, é preciso que aconteça em nossa vida algo parecido àquilo que que acontece a um rapaz ou a uma moça quando se enamoram. Não estranhem a comparação, o próprio Jesus se comparou a um esposo aguardado por um grupo de virgens com suas lâmpadas...

5. O que acontece com os enamorados? O outro, o amado, que antes era mais um entre tantos, ou um desconhecido, de repente se torna o único. Todo o resto virá um fundo neutro. O coração, os pensamentos, que antes vagavam de um objeto a outro ou de uma pessoa a outra, agora são como que fixados sobre um único objeto. Não se é capaz de pensar em outra coisa... 

6. Se dá uma verdadeira e própria transfiguração. A pessoa amada vem vista como em uma aura luminosa. Tudo é belo nela, até mesmo os defeitos. Até se chega a sentir-se indigno da pessoa. O amor verdadeiro gera humildade. Gostaríamos que a vida fosse sempre assim. Uma nova alegria de viver, um novo ânimo para enfrentar as obrigações da vida.

7. A força da atração é capaz de fazer coisas que nenhuma coerção consegue fazer. Ela dá asas aos pés. “Todo mundo – dizia o poeta Ovídeo – é atraído pelo objeto do próprio prazer”. Algo assim deveria acontecer uma vez na vida para tornar-nos cristãos verdadeiros, convictos, alegres em sê-lo.

8. O problema do nosso cristianismo é que fazemos quase tudo por coerção, como se fosse uma taxa a ser paga a alguém. Não conhecemos que coisa significa ser atraído. E a razão é que damos pouco espaço ao Espírito Santo que é a força que ‘atrai’ a Deus, que torna Deus ‘atraente’.

9. É verdade que os enamorados, se veem, se tocam. Também a Jesus se pode ver e tocar. Porém com outros olhos e com outras mãos: aqueles do coração, da fé. Ele está vivo, é um ser concreto, não uma abstração, para quem faz a experiência e busca conhecer. Com Ele as coisas vão melhor.

10. No enamoramento humano, infelizmente, nos enganamos com frequência, atribuindo ao amado capacidades que não são reais. No caso de Jesus, quanto mais se conhece e quanto mais nos unimos a ele, descobrimos sempre mais novos motivos para sermos orgulhosos dele e confirmados na própria escolha.

11. Em São Paulo, nas suas cartas, vamos encontrar o mais forte exemplo da diferença que Jesus faz na vida de quem o descobre. O encontro com Cristo dividiu a sua vida num antes e depois de Cristo. E isto que acontece na vida quando encontramos a Cristo de modo profundo e verdadeiro.

12. Talvez poderíamos pensar, se esse encontro com Cristo se assemelha a um enamoramento, não há muito o que fazer se não aguardar tranquilamente que algo do gênero se dê em nossa vida... Não é bem assim. Se esse moço ou essa moça está todo o tempo dentro de casa, e ninguém o vê, não acontecerá nada em sua vida.

13. Para enamorar-se é preciso sair, paquerar! Ninguém conhecerá a Cristo já assim, belo, transfigurado. É preciso começar busca-lo, ‘paquerá-lo’, ler seus escritos, sua carta de amor é o Evangelho! É ali que Ele se revela, se ‘transfigura’. O enamoramento nasce do observar, do aproximar-se, do saber onde mora. Não é difícil aplicar tudo isso a Jesus. A casa onde Ele habita é também a Igreja. 

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa.

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 28 de fevereiro de 2026

(Dt 26,16-19; Sl 118[119]; Mt 5,46-48) 1ª Semana da Quaresma.

“Portanto, sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” Mt 5,48.

“No Evangelho de hoje escutamos uma outra antítese do discurso do Sermão da Montanha referido por São Mateus, a última da série (cf. Mt 5,20-48): é certamente uma das mais exigentes porque pede o amor do inimigo. Só vivendo como filhos do Pai que está nos Céus é possível dilatar a medida do próprio coração, superar o que é somente sensato e conveniente, e viver um novo tipo de amor. [Compreender a Palavra:] antes do mais convém precisar que em nenhum texto do Antigo Testamento foi ordenado odiar os inimigos, embora, de fato, algumas passagens pareçam encorajar essa atitude (Dt 7,2; 20,16; Sl 139,21). Provavelmente São Mateus, acrescentando as palavras ‘odiarás o teu inimigo’ queria entender como próximo somente os israelitas, como era normal algumas interpretações rabínicas. A verdade é que, ordenado ou não, o ódio dos inimigos é algo muito espontâneo e bem testemunhado também na história de Israel. Jesus pede aos discípulos a atitude exatamente oposta: amar os inimigos e orar pelos que perseguem, isto é, oferecer o bem em troca do mal que se recebeu. Estabelece-se assim a semelhança entre modo de agir e o de Deus que manda o sol e a chuva sobre bons e maus, não fazendo distinção alguma entre os homens. Este agir do Pai é que é pedido a cada cristão. Quem é o filho? Aquele que se assemelha a seu pai. O cristão, no Batismo, recebe o Espírito de Deus, o Espírito prometido pelo Filho. Só em força deste dom é que é possível não limitar-se a retribuir o que se recebe não ultrapassando a lógica da contabilidade ao fazer o bem, mas viver um tipo de amor que se assemelhe ao do Pai. É mesmo isto que exige a conclusão da antítese, que é também a conclusão de toda a série de antíteses começada no versículo 21: ‘Sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito’” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Quaresma Páscoa] – Paulus).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sexta, 27 de fevereiro de 2026

(Ez 18,21-28; Sl 129[130]; Mt 5,20-26) 1ª Semana da Quaresma.

“Portanto, quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão.

Só então vai apresentar a tua oferta” Mt 5,23-24.

“O 5º mandamento do Decálogo – ‘Não matarás!’ – foi superado na interpretação de Jesus. Corria-se o risco de se deter na superficialidade do preceito, quando, no fundo, a exigência divina era muito mais radical. O respeito pela vida alheia vai muito além da garantia de sua vida física. Existe um outro nível que o discípulo desejoso de ser fiel a Deus deve levar em conta: o da dignidade humana, enquanto tal. Para ele, irritar-se contra o seu próximo, de modo especial, os mais fracos e pequeninos, é suficientemente grave para exigir a punição divina. Da mesma forma, a ofensa verbal, pela qual o próximo é vilipendiado e humilhado. Tais gestos de prepotência já são uma violação do 5º mandamento. O Mestre exige urgente reconciliação, sem protelar. Cada minuto é de extrema importância. Pode ser que venha a hora do juízo e um severo castigo. Por quê? A incapacidade de reconciliar-se e a insistência em permanecer no ódio ou no desejo de vingança são indícios de falta de comunhão com o Pai. Quem conclui a sua caminhada terrestre nesta situação, arrisca-se a não gozar da comunhão eterna com o Pai celeste. É inútil aspirar a viver em união com o Pai, sem um esforço prévio de reconciliação e de comunhão com o próximo. Afinal, o sentido último dos mandamentos divinos é criar comunhão entre os seres humanos para se chegar à comunhão com o Pai. – Pai, move meu coração a reconciliação, de forma que a comunhão com o meu próximo seja expressão de minha comunhão contigo (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

 Pe. João Bosco Vieira Leite