Segunda, 14 de setembro de 2026

(Nm 21,4-9; Sl 77[78]; Jo 3,13-17) Exaltação da Santa Cruz.

“Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto,

assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado” Jo 3,14.

“No Ano dedicado à Eucaristia, esta comemoração adquire um significado particular: ela convida-nos a meditar sobre o vínculo profundo e indissolúvel que une a Celebração Eucarística e o Mistério da Cruz. Com efeito, cada Santa Missa atualiza o Sacrifício redentor de Cristo. Até o Gólgota e à ‘hora’ da Morte na Cruz – escreve o amado Papa João Paulo II, na Encíclica ‘Ecclesia de Eucharistia’ – ‘se deixa transportar em espírito cada presbítero ao celebrar a Santa Missa, juntamente com a comunidade cristã que nela participa’ (n. 4). Portanto, a Eucaristia é o memorial de todo o Mistério Pascal: Paixão, Morte, descida à mansão dos mortos, Ressurreição e Ascensão ao Céu; e a Cruz é a manifestação enternecedora do ato de amor infinito, com o Filho de Deus salvou o homem e o mundo do pecado e da morte. Por isso, o Sinal da Cruz é o gesto fundamental da nossa oração, da prece do cristão. Fazer o Sinal da Cruz, como agora faremos com a Bênção, significa pronunciar um sinal visível e público Àquele que morreu por nós e que ressuscitou, ao Deus que na humildade e da debilidade do seu amor é o Onipotente, mais vigoroso que todo o poder e inteligência do mundo. Após a consagração na Santa Missa, a assembleia dos fiéis, consciente de se encontrar na Presença Real de Cristo crucificado e ressuscitado, assim aclama: ‘Anunciamos, Senhor, a vossa Morte e proclamamos a vossa Ressurreição. Vinde Senhor Jesus’. Com os olhos da fé, a Comunidade reconhece Jesus vivo, com os sinais da sua Paixão e, juntamente com Tomé, repleta de surpresa, pode repetir: ‘Meu Senhor e meu Deus!’ (Jo 20,28). A Eucaristia é o Mistério de Morte e de Glória, como a Cruz, que não constitui um acidente de percurso, mas a passagem através da qual Cristo entrou na sua Glória (cf. Lc 24) e reconciliou a humanidade inteira, derrotando toda a inimizade. Por isso, a liturgia convida-nos a rezar com esperança confiante. ‘Mane nobiscum Domine!’ Permanecei conosco, Senhor, que com a vossa santa Cruz remistes o mundo! Maria, presente no Calvário junto da Cruz, está igualmente presente, com a Igreja e como Mãe da Igreja, em cada uma das nossas Celebrações eucarísticas (cf. Carta Encíclica ‘Ecclesia de Eucharistia’, 57). Por isso, ninguém melhor que Ele pode ensinar-nos a compreender e viver com fé e amor a Santa Missa, unindo-nos ao Sacrifício redentor de Cristo. Quando recebemos a sagrada Comunhão, também nós, como Maria e a Ela unidos, nos estreitamos ao madeiro que Jesus, mediante o seu amor, transformou em instrumento de salvação, e pronunciamos o nosso ‘Amém’, o nosso ‘sim’ ao Amor crucificado e ressuscitado” (Bento XVI – Um Caminho de Fé Antigo e sempre Novo – Vol. IV – Mokai) 

Pe. João Bosco Vieira Leite

24º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Eclo 27,33—28,9; Sl 102[103]; Rm 14,7-9; Mt 18,21-35) *

1. No domingo anterior, a Palavra de Deus levou-nos a refletir sobre o dever da correção fraterna; hoje nos propõe o grande tema do perdão, como uma espécie de comentário ao pedido de perdão que fazemos ao rezar o Pai-Nosso.

2. Em torno do perdão gira toda a radicalidade evangélica. A pergunta de Pedro tem por base toda uma discussão presente no Antigo Testamento, como ilustra a 1ª leitura. E Pedro pensa estar sendo generoso em sua proposta, quando Jesus lhe responde de modo radical: perdoar sempre, também o inimigo, mesmo a quem continua a pagar o bem com o mal.

3. A parábola que se segue quer ilustrar que o ser humano é um grande devedor de Deus, a quem deve tudo, a começar do seu ser. Ao mesmo tempo salienta o pequeno crédito que alguém pode ter perante as outras pessoas. E mesmo assim, Deus é capaz de perdoar, o ser humano não!

4. E assim, somos levados a concluir que devemos perdoar porque Deus nos perdoou e para que Deus nos perdoe! Mas esta não é a única motivação. Se a tomarmos isoladamente, levaria a pensar numa forma de cálculo e de sutil egoísmo.

5. A motivação de Jesus é a misericórdia, um sentimento feito de compreensão, de identificação com o irmão, de solidariedade e de humildade.

6. A misericórdia nos ajuda a ver no irmão, especialmente quando ofende sem motivo, mais um infeliz do que uma pessoa má, ela nos faz pensar em nossa experiência (é quando passamos por dificuldades que somos mais amargos e agressivos com os outros); ajuda-nos a alargar o coração e a ser magnânimos. Se pecar é humano, como diziam os antigos, perdoar é ainda mais humano.

7. Misericórdia é palavra composta de duas raízes: miséria e coração; trata-se, com efeito, de um sentimento misto de piedade e de compaixão que nasce no coração humano vendo a miséria da condição humana. A misericórdia só acontece em relação ao ser humano. Também Deus é para conosco bom e misericordioso, lembra o salmo de nossa liturgia.

8. Paulo lembrava da necessidade do perdão para situações concretas da vida, especialmente na vida doméstica, convidando-nos a revestir-nos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência. Suportando-nos uns aos outros e perdoando-nos mutuamente (cf. Cl 13,12ss). E isso é fundamental no ambiente familiar.

9. Perdoar é indispensável para manter vivo e sadio um matrimônio, tão importante como amar-se. O perdão, quando é sincero, renova, torna-se ele mesmo fator de crescimento do próprio amor. Perdoar de verdade é um gesto cheio de nobreza, digno do ser humano e indispensável para viver juntos e em paz.

10. Mas atenção: perdoar não significa necessariamente renunciar à luta, quando se trata de injustiças continuadas que se caracterizam como prepotência e injustiça contra nós ou contra os irmãos. São dois sentimentos e atitudes que não se excluem; como não se excluem correção e perdão. Jesus durante a sua vida lutou e perdoou.

11. Mais importante que perdoar é, muitas vezes, pedir perdão. De outra forma cria a mentalidade, falsamente generosa, de quem tem sempre algo a perdoar.

12. Cuidado com certo intimismo: pensar que basta não odiar no coração, sem fazer nenhum gesto externo de perdão. Matar e fazer reviver o irmão, mas tudo em segredo. Não é isto que pretendia Jesus: o perdão que ele deseja é aquele que se manifesta concretamente, que leva à reconciliação: “Deixa tua oferta diante do altar...” (cf. Mt 5,23-24).

13. Nós somos, agora, aqueles que estão oferecendo seu dom sobre o altar. Para nós, portanto, é dirigida a Palavra: Vai reconciliar-te. Que esta Palavra, meditada em nossa assembleia de hoje, nos acompanhe ao voltarmos para casa e que a comunhão com o corpo de Cristo nos dê a força necessária para começar a praticá-la.

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa.   

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 12 de setembro de 2026

(1Cor 10,14-22; Sl 115[116]; Lc 6,43-49) 23ª Semana do Tempo Comum.

“Não existe árvore boa que dê frutos ruins nem árvore ruim que dê frutos bons” Lc 6,43.

“Há, em Psicologia, um teste chamado Teste da Árvore, pelo qual o especialista pode detectar os traços básicos da personalidade do seu cliente. A exemplo dessa ciência, e até mesmo antes, muito antes, já tinha a religião o seu teste da árvore, testes cujos princípios Jesus estabeleceu: “... não há arvore boa que dê fruto mau, nem tampouco árvore má que dê fruto bom”. Se, então, o desenho da árvore, em Psicologia, determina o tipo de personalidade que temos, uma religião revela a espécie de fruto que vamos produzir. Como será, pois, o nosso desenho da árvore espiritual? Talvez nem o queiramos ver. Pelos rabiscos de nossos frutos (de mais ou menos para ruins) já temos uma ideia não muito animadora sobre ela: espinhosa, retorcida, ressecada. Dourar os frutos, espaná-los e poli-los bem – será que isso não daria à arvore um outro perfil? Vamos consultar o Mestre para ver o que ele diz: árvore boa dá fruto bom, árvore má dá fruto mau. Bom, então não tem jeito. Cada qual com sua árvore, e seja lá o que Deus quiser. Mas espera aí. O Mestre tem uma solução, solução essa que não passa pelas técnicas de feirantes sabidos, mas pela transformação genética de nossa árvore. Como ele o faz? Ele chama um tal de Espírito Santo, que, em duas etapas, às vezes dolorosas, a reprograma toda: 1º) arranca todas as suas raízes e galhos e retira também toda a sua seiva natural; 2º) implanta as raízes da fé e os galhos do perfeito conhecimento de Deus e ainda instila a seiva do amor. Pronto! Eis a nova árvore que vai produzir fruto bom. Para finalizar, só umas perguntinhas a mais: como estão os nossos frutos? Valeu o trabalho do Espírito Santo? Ou será que tudo ficou na mesma? – Ó Deus, fomos criados árvores sagradas e puras, mas, pela desobediência, nos transformamos em árvores más. Pelo teu Santo Espírito restabelecestes nossa posição original. Incentiva-nos a produzir os frutos da tua graça. Amém” (Martinho Lutero e Iracy Dourado Hoffmann – Graças a Deus [1995] – Vozes).   

Pe. João Bosco Vieira Leite