(Gn 2,7-9; 3,1-7; Sl 50[51]; Rm 5,12-19; Mt
4,1-11)*
1.
A página do Evangelho que nos vem proposta neste 1º domingo da quaresma, se
coloca num contexto bem preciso: o deserto; e tem um conteúdo bem definido: as
tentações. É oportuno esclarecermos esses dois termos.
2.
O ‘deserto’ na tradição bíblica, é um tema ‘ambivalente’. No Antigo Testamento,
de fato, se entrelaçam duas teologias do deserto. Primeiramente temos o deserto
como o lugar do encontro com Deus, da intimidade com Ele, do diálogo
contemplativo. Quase um prolongamento do Paraíso perdido. Aqui o Senhor chama o
seu povo para fazer-lhe escutar sua palavra, para estabelecer com ele a sua
Aliança.
3.
Mas há também o deserto inóspito, árido, duro, onde tudo fala de morte. É o
ante Éden. Domínio dos demônios. Lugar onde acontece o enfrentamento com o
Adversário. Assim, o deserto aparece como terra de bênção e de maldição ao
mesmo tempo. Oásis e desafio.
4.
A ‘tentação’ não é desgraça e nem mesmo, genericamente, incitamento ao mal. Se
trata de uma força em ação. Uma força que age com intenção precisa de quebrar,
separar. O verbo grego e o seu equivalente hebraico que nós traduzimos com
“tentar”, significa literalmente “provar”, uma coisa ou uma pessoa para testar
a sua resistência, checar a sua consistência. Como quem prova a resistência de
um tecido.
5.
Na narrativa de Mateus, o Tentador por excelência busca separar Jesus do
projeto do Pai, ou seja, da estrada de um Messias sofredor, humilhado,
rejeitado, para levá-lo a um caminho de facilidade, de sucesso e de poder. O
diálogo se desenvolve a golpes de citações da Sagrada Escritura.
6.
Por traz dessas propostas do Tentador se escondem as várias esperanças
messiânica do seu tempo. Um messianismo concebido como esperança terrena,
limitado aos bens econômicos, reduzindo a salvação a um projeto material.
7.
Um messianismo marcado pelo espetáculo, acontecimentos milagrosos que eliminam
qualquer dúvida, e evita a difícil estrada da fé. E por fim o messianismo do
poder, da política, da ação revolucionária. Não o do amor e da liberdade, mas
do domínio e da força, talvez até para a maior glória de Deus!
8.
Jesus rejeita decididamente tais sugestões e reafirma sua vontade de seguir a
via estabelecida por Deus, mesmo que não coincida com as esperanças dos seus
contemporâneos. Deixa claro que o ser humano é bem mais que seu estômago e que
seus horizontes não podem ser confiscados pela busca exclusiva de interesses
econômicos ou do prazer. Que deve aprender a ter fome e sede de Deus.
9.
Que a estrada da fé passa através dos silêncios de Deus, da dúvida, das
contradições. Que a fé não se alimenta de milagres, mas de paciência, de
espera, de coragem. É necessário desfazer-se dos ídolos, unificar, centrar a
vida no essencial. Não deixar-se seduzir pelo efêmero.
10.
Toda a vida de Jesus será atravessada, contrastada pelas tentações. O tentador
estará travestido pelas multidões, pelos chefes do povo, por certos grupos e
até mesmo por seus discípulos. Ele terá sempre que reafirmar e esclarecer o
significado do seu messianismo em meio a incompreensões, lacerações, solidão.
11.
Essa página de Mateus ganha um profundo significado teológico quando se projeta
sobre ela a ‘passagem’ de Israel pelo deserto e as várias tentações
enfrentadas. Cristo, aqui, é o novo Israel que vence onde o antigo povo de Deus
fracassou. Com Jesus, o povo da nova Aliança pode entrar na Terra prometida da
salvação.
12.
A própria Igreja deve confrontar-se continuamente com essa página do Evangelho
para verificar a autenticidade de sua missão e purificar a própria imagem de
todas as incrustações que a deformam ou a tornam opaca. Assim como cada cristão
deve recuperar o sentido genuíno da própria responsabilidade e presença no
mundo.
13.
Um dia Ele multiplicará pães para uma multidão faminta; não o fará através de
pedras, mas de um gesto de partilha. Tempos depois será exaltado, glorioso, não
sobre a parte mais alta do Templo, mas sobre a cruz para salvar aos outros,
pois não deseja salvar a própria vida. E um pouco antes o veremos de joelho,
não diante de Satanás, mas dos apóstolos para lavar-lhes os pés e lembrar-lhes
que a verdadeira grandeza está no serviço.
14.
Em uma palavra, Jesus nos recorda que quando pronunciamos o nome de Deus,
devemos o ligar imediatamente com a Sua vontade. Pois esse nome não pode ser
invocado como suporte de nossos projetos mesquinhos, das nossas pequenas
cobiças terrenas, ainda que mascaradas de “para uma boa causa”, e travestidas
de motivações religiosas.
* Com base em texto de
Alessandro Pronzato
Pe.
João Bosco Vieira Leite