28º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Is 25,6-10; Sl 22[23]; Fl 4,12-14.19-20; Mt 22,1-14)*

1. Um grande anúncio de esperança e de alegria perpassa do início ao fim da Palavra de Deus desta celebração: uma mensagem de consolação de Deus ao seu povo. Isaías logo nos diz: “O Senhor Deus eliminará para sempre a morte, e enxugará as lágrimas de todas as faces”.

2. Na história da literatura de todos os povos há muitas páginas em que surgem lampejos de esperança de um futuro melhor, especialmente em momentos de calamidades; mas a promessa de Deus aqui toma corpo em torno de um evento preciso do futuro:

3. Deus irá preparar um dia uma grande festa para todos os povos. No 1º momento, a promessa fica vaga e não se entende bem o que seja essa festa de que Deus está preparando. Uma luz nos vem a partir da parábola contada no Evangelho: o Reino dos Céus é um banquete de núpcias: Jesus é o esposo; Deus Pai, o rei da parábola, o autor e a origem de todo o projeto.

4. Todas as promessas de Deus encontram seu cumprimento com a vinda de Jesus Cristo. O Reino dos Céus que Ele trouxe sobre a terra é, ao mesmo tempo, a grande sala em que se celebra o banquete e é o próprio banquete: é a Igreja e é a redenção nela servida.

5. A imagem do casamento quer lembrar que Jesus veio ao mundo para unir a si a humanidade numa maneira tão nova, tão íntima, a ponto de Paulo falar de um matrimônio entre Ele e a Igreja (cf. Ef 5,32s). Mas apesar da bela imagem, uma nuvem ofusca a alegria: a recusa dos convidados.

6. Essa recusa traduz a oposição do povo hebreu a Jesus e à sua mensagem. Eles, que eram os primeiros, passarão a ser os últimos; outros, os pagãos, tomarão seu lugar. A mesma mensagem que conclui a parábola do domingo anterior. Nós somos aquela segunda onda de convidados procurada nas encruzilhadas, formada de bons e maus.

7. O que será de nós? Estamos nós livres de toda recusa? Estamos nós, de verdade, seguros de não perder mais o Reino? Também para nós a parábola reserva num cantinho uma grande advertência. Entre os novos convidados havia um que não estava trajado a rigor;

8. Um que se encontra aí por acaso, cujo coração e sentimentos estavam longe: um oportunista, diríamos hoje, ou um parasita. Os outros convidados não percebem, pensam que é um deles. Mas o olhar do patrão, logo que entrou na sala, dirigiu-se para ele.      

9. “Amigo, como entraste aqui?” Esta pergunta é dirigida a cada um de nós que nos encontramos na grande sala nupcial que é a Igreja, para o banquete que é a Eucaristia. Obriga-nos a entrar em nós mesmos e nos perguntar-nos se não estamos aqui por acaso, por costume, sem tomar parte e interesse por aquilo que aqui acontece; se não estamos também nós com o coração ausente e a mente perdida atrás dos próprios trabalhos e negócios.

10. O que está em questão não é, evidentemente, somente o fato de nós estarmos aqui – o motivo pelo qual viemos participar da missa -, mas é também, mais radicalmente, o nosso modo de ser dentro da Igreja, nosso ser cristão, isto é, do tomar consciência e querer o que se realizou em nosso batismo.

11. Talvez seja isso que Jesus queira dizer com a imagem da veste. Estar vestido com a veste nupcial poderia significar revestir-se das obras evangélicas, daquele manto da boa vontade e caridade que cubra a nudez de nossa natureza. Jesus vai dizer a samaritana que Deus espera que o adoremos em espírito e verdade: com os fatos e não só com as palavras.

12. Somos nós deste grupo? De qualquer maneira, a Palavra de Deus nos convida para isso. Para o sermos contamos não tanto com nossas forças, mas a do bom Pastor. A ele, bom pastor e esposo da parábola, estamos para nos aproximar de modo diferente. Por meio de seu corpo eucarístico, pedimos que nos doe também seu Espírito e a força da ressurreição.

* com base em texto de Raniero Cantalamessa.

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 10 de outubro de 2026

(Gl 3,22-29; Sl 104[105]; Lc 11,27-28) 27ª Semana do Tempo Comum.

“Jesus respondeu: ‘Muito mais felizes são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática’” Lc 11,28.

“Muitas vezes a palavra humana causou-lhe dano grave: a palavra humana entusiasmou o seu espírito, ou excitou seu egoísmo, ou acendeu sua sensualidade, ou desviou do caminho reto... Tudo isso você deve aos efeitos da palavra humana, que, por ser humana, é falível, egoísta, carregada de paixões, do veneno do ódio, das discórdias entre irmãos. No entanto, quão diferente é a palavra de Deus, que não somente diz, mas também realiza. Diz o que faz e faz o que diz; é por si mesma eficiente e dinâmica, tende sempre à realização, e se promete, dá; se expõe, ilumina; se corrige, santifica; se perdoa, devolve a graça. A palavra de Deus é uma palavra sem som, porém com eficiência; palavra que não se percebe pelo ouvido, mas capta-se com o coração; palavra que não grita, mas se sente na intimidade mais recôndita de nosso ser. A palavra de Deus não só promete, mas também cumpre o que prometeu, e dá e outorga ainda muito mais do que mostrou; palavra que responde mesmo antes de ser interrogada, ou sem necessidade de o ser; palavra que se dirige, mais que a seu exterior, ao interior de seu coração. A palavra de Deus há de confortar e animar você no desânimo; moderará seu excessivo entusiasmo; tornará você fervoroso(a) e fiel em seus momentos de apatia ou frieza; aclamará seus arrebatamentos; serenará suas excitações; infundir-lhe-á a luz que necessita para os momentos de dúvida; ela o/a confirmará e tranquilizará em suas horas de bem e de retidão; ela o/a perdoará quando cair; ela o/a impulsionará quando permanece no bem. Se você escuta, cumpre e vive a Palavra, ela lhe dará paz e salvação; porque Deus salva os que nele esperam. Palavra de Deus que surge acima de todos os enganos e falsidades que o/a rodeiam; palavra que nunca engana, nem falseia; palavra de Deus que leva no íntimo a fecundidade da vida. A felicidade e a glória da mulher israelita, segundo os livros dos sábios, fundamentam-se no filho (Provérbios 23,24ss e Gênesis 30,13); porém Jesus valoriza de outro modo a glória da mulher e do homem: o conhecimento e a prática da palavra de Deus. Esta afirmação ‘ouvir a palavra’ tem sentido enfático, que ultrapassa a simples audição; trata-se de recebe-la, aceita-la e praticá-la. É a recepção carinhosa da semente no seio da terra, guardando-a para que frutifique” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

    

Sexta, 09 de outubro de 2026

(Gl 3,7-14; Sl 110[111]; Lc 11,15-26) 27ª Semana do Tempo Comum.

“E a Escritura, prevendo que Deus justificaria as nações pagãs pela fé, anunciou, muito antes, a Abraão:

‘Em ti serão abençoadas todas as nações’” Gl 3,8.

“Paulo encontra nas Escrituras do Antigo Testamento uma confirmação do Evangelho que anuncia. Abraão, o pai do povo de Israel, não podia esperar da mulher Sara um filho, mas ele acreditou na promessa que o Senhor lhe tinha feito, acreditou no poder criativo de Deus que não tem limites. Filhos de Abraão e participantes da sua bênção são aqueles que creem (cf. vv. 6-9). Quem pelo contrário vive esforçando-se por merecer justiça diante de Deus, fazendo as obras que a Lei prescreve, permanece debaixo da maldição (cf. vv. 13-14). Mas em Cristo a bênção de Abraão chega aos crentes (cf. vv. 13-14). [Compreender a Palavra:] Na Bíblia ‘ser justificado’ significa ter sido colocado numa relação justa com Deus. É reconhecer que os nossos esforços não bastam para nos tirar das areias movediças em que nos precipitámos; pelo contrário, pioram a situação. Só é justo quem diz ‘sim’ a Deus, reconhecendo-O e acolhendo-O como seu Senhor. Abraão foi reconhecido justo pela sua fé, não pelas obras da Lei. Paulo cita o Livro do Gênesis (cf. 15,6) e o profeta Habacuc (cf. 2,4), onde se diz que o justo terá a vida pela sua fé. A própria fé, todavia, não é um mérito por qualquer obra, nem é obra humana. Quem quiser ser justo pelas obras da Lei deve cumprir toda Lei, com todas as suas prescrições, mas isso é impossível. Por isso, todos os que se referem a Lei segundo Dt 27,26, estão debaixo da maldição. O único modo de libertar-se dessa maldição consiste em libertar-se do peso da Lei mosaica, seguindo por outro caminho: o caminho percorrido pelo próprio Cristo. É esta a boa notícia anunciada por Paulo” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Tempo Comum – Vol. II] – Paulus).

Pe. João Bosco Vieira Leite