14º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Zc 9,9-10; Sl 144[145]; Rm 8,9.11-13; Mt 11,25-30)*

1. Ao final do Evangelho de hoje Jesus nos convida a imitar a sua humildade. Olhando, de um modo geral os evangelhos, no que entendemos por humildade, Jesus não se encaixa de modo exato. Ele estava bastante convencido de não ter pecado. Se proclama Mestre e Senhor. Se disse maior que Abraão, que Moisés, Jonas, Salomão. De que humildade Ele está falando?

2. Esse seu convite nos leva a ver que a humildade não consiste necessariamente em ser pequeno e pobre, porque alguém pode ser insignificante e arrogante ao mesmo tempo. Não consiste em sentir-se pequeno e sem valor, porque tal sensação pode ser resultado de um complexo de inferioridade ou baixa estima que leva a depressão e a autoagressão e não a humildade.

3. Não consiste também em declarar-se pequeno, porque muitos se declaram de não valer nada, sem acreditar verdadeiramente no que dizem, ou mesmo porque esse modo de falar faz parte da própria cultura.    

4. A humildade consiste no fazer-se pequeno por amor, para elevar o outro. É essa a humildade de Jesus. Enquanto Deus, se despojou de tudo, assumindo a nossa humanidade para nos salvar. Nesse sentido ele tem toda razão de dizer: “Aprendei de mim, que sou humilde”.

5. Humilde mesmo, só Deus, porque na posição em que se encontra, não pode elevar-se acima de si, porque não há nada acima d’Ele. Só pode descer, abaixar-se. E é o que faz todo o tempo: criando o mundo, se abaixa; inspirando a Bíblia, faz como um pai que se adapta ao balbuciar para ensinar a criança a falar. A história da salvação é uma história de descida e da humilhação de Deus.

6. Essa ideia fascinava Francisco de Assis, que convidava constantemente seus irmãos a “olhar a humildade de Deus”. No seu “Canto das Criaturas” faz da água o símbolo da humildade. Ela é humilde porque entregue a si mesma, sempre desce, até atingir o ponto mais baixo possível. Ela sempre escolhe o último lugar, ao contrário do vapor, que sempre se eleva (orgulho).

7. Há quem acuse o Evangelho de Jesus de ter introduzido no mundo a “doença” da humildade, opondo a essa o ideal da “vontade de poder” (Nietzsche). Mas já assistimos bastante os frutos desta inversão. A humildade não só não deprime o ser humano, mas o torna autêntico, verdadeiro.

8. A humildade é a verdade. É interessante perceber que a palavra homem e humildade derivam de “humus”, solo. O humilde é aquele que tem os pés na terra, é radicado no solo, que não se deixa levar pelas opiniões e pelas modas, que não exalta a si mesmo. Diz como Paulo: “Que coisa tenho que não tenha recebido? E se a recebi porque me comporto como se não fosse assim?”.

9. Devemos reconhecer que a humildade não nos é natural. Nos agrada, mas nos outros, não em nós mesmos. A quem diga que 75% do espírito humano é constituído de orgulho e vaidade. Até mesmo a psicologia reconhece o valor terapêutico da humildade.

10. O Evangelho não é contra querer ser grande ou o primeiro. O que ressalta o evangelho é a via para realizar esta aspiração legítima. Essa não consiste no elevar-se sobre os outros, reduzindo-os a escravos ou admiradores, mas no elevar os outros, servindo-os, ajudando-os a crescer. Como faz um pai com seus filhos, para que se tornem até maiores que ele mesmo.

11. Aqui não há vencedores, e um bando de vencidos, mas um caminho que eleva a todos. A competitividade selvagem é substituída pela solidariedade. É a via mais digna do ponto de vista humano. Humildade não significa colocar-se sob os pés de outro ou mesmo não reagir às injustiças. O verdadeiro humilde sabe também lutar pela verdade, porque é livre em si mesmo.

12. Assim Jesus se alegra em nosso Evangelho por que Deus revela tais coisas aos pequeninos, que aqui não é o contrário de ‘inteligentes’, mas o contrário de ‘soberbos’. O Evangelho não condena a sabedoria, mas o orgulho. Também agimos assim: a quem gostamos de contar os nossos segredos? A pessoas humildes, discretas, capazes de escutar e calar.

13. Se a humildade é assim bela, devemos esforçar-nos para sermos um pouco mais humildes. Um meio que nos faz crescer na humildade e saber aceitar qualquer observação que nos faça o outro, sem de imediato deprimir-nos ou contra-atacar sem antes termos considerado se a observação era justa ou não. Ninguém se torna humilde sem aceitar alguma humilhação...

14. Precisamos aprender a ser o primeiro a estender a mão, ou acenar um sorriso depois de uma briga entre marido e mulher, um pedido de desculpa entre colegas de trabalho, ou mesmo entre adversários políticos, tudo isto torna serena a atmosfera, desmonta os ressentimentos, torna tudo mais simples. O verdadeiro vencedor é quem se antecipa num ato de humildade...

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 04 de julho de 2026

(Am 9,11-15; Sl 84[85]; Mt 9,14-17) 13ª Semana do Tempo Comum.

“Também não se coloca vinho novo em odres velhos, senão os odres se perdem.

Mas vinho novo se coloca em odres novos, e assim os dois se conservam” Mt 9,17.

“O evangelho fala-nos várias vezes do homem novo e do homem velho. A doutrina do evangelho é uma doutrina nova, um espírito novo; se formos odres velhos, gastos, sem força, não poderemos captar a novidade do Espírito do Senhor. Por isso, a Igreja nos convida, várias vezes também, a pedir que o Espírito Santo renove a face da terra, renove nosso espírito, renove nossa mente e nosso coração. Não nos esqueçamos de que na linguagem bíblica veterotestamentária, a palavra ‘coração’ expressa os pensamentos do homem e é esse o sentido do tão repetido pedido dos salmos: - Purifica, Senhor, meu coração, isto é, purifica meus pensamentos, meu modo de pensar, meus critérios, minha visão de mundo. A vida de Deus é uma vida nova, que o cristão recebe para fazer dele um homem novo; e com o homem novo poderemos construir novos céus e a nova terra, que serão o sacramento, o sinal e o instrumento do futuro Reino de Deus” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

 

Sexta, 03 de julho 2026

(Ef 2,19-22; Sl 116[117]; Jo 20,24-29) São Tomé, apóstolo.

“Tomé respondeu: ‘Meu Senhor e meu Deus!” Jo 20,28.

“Quando Tomé viu e ouviu Jesus, exprimiu em poucas palavras o que senti no seu coração: ‘Meu Senhor e meu Deus!’ exclama comovido até o mais fundo do seu ser. É um ato simultâneo de fé, de entrega e de amor. Confessa abertamente que Jesus é Deus e reconhece-o como seu Senhor. Jesus respondeu-lhe: ‘Tu creste, Tomé, porque me viste; bem-aventurados os que não viram e creram’. E comenta João Paulo II: ‘Esta é a fé que nós devemos renovar, na esteira de incontestáveis gerações cristãs que ao longo de dois mil anos confessaram a Cristo, Senhor invisível, chegando até o martírio. Devemos fazer nossas, como muitos outros fizeram suas, as palavras de Pedro na sua primeira Epístola: Este Jesus, vós não o vistes, mas o amais, vós também agora credes n’Ele sem o ver; e, crendo, exultais com uma alegria inefável (1Pd 1,8). Esta é a autêntica fé: entrega absoluta às coisas que não se vêm, mas são capazes de satisfazer e enobrecer toda uma vida’. A partir daquele momento, Tomé foi outro homem, graças em boa parte à caridade fraterna que os demais Apóstolos tiveram com Ele. A sua fidelidade ao Mestre, que pareça impossível naqueles dias de trevas, foi para sempre firme e incondicional. Essas suas palavras têm-no servido muitas vezes para fazer um ato de fé – Meu Senhor e meu Deus! – ao passarmos diante de um Sacrário ou no momento da Consagração na Santa Missa. A sua figura é hoje para nós um motivo de confiança no Senhor, que vela por nós constantemente, e um motivo de esperança em relação aos que temos mais perto de nós, se por vontade divina passam por momentos de desconcerto na sua fidelidade a Deus. Nessa situação, o nosso alento e a graça divina farão milagres. Pedimos hoje ao Senhor com a Liturgia: ‘Concedei-nos, Deus todo poderoso, celebrar com alegria a festa de São Tomé, para que sejamos sempre sustentados por sua proteção e tenhamos a vida pela fé no nome de Jesus Cristo, que o Apóstolo reconheceu como Senhor’. A Virgem, que estava naqueles dias tão perto dos Apóstolos, deve ter seguido atentamente a evolução da alma de Tomé. Talvez tenha sido Ela quem impediu que o Apóstolo se afastasse definitivamente. Nós confiamos-lhe hoje a nossa fidelidade ao Senhor e a daqueles que de alguma maneira Deus colocou sob os nossos cuidados. Virgem fiel..., rogai por eles..., rogai por mim!” (Francisco Fernandez-Carvajal – Falar com Deus – Vol. 7 – Quadrante)

 Pe. João Bosco Vieira Leite