V Domingo da Quaresma – Ano A

(Ez 37,12-14; Sl 129[130]; Rm 8,8-11; Jo 11,3-7.17.20-27.33-45)*

1. Que sentido pode ter essa história de Lázaro para o nosso hoje? As histórias do Evangelho não foram escritas para simplesmente serem lidas, mas revividas. A história de Lázaro vem nos lembrar que existe uma ressurreição do corpo e também uma ressurreição do coração.

2. Sabemos que a ressurreição de Lázaro é uma realidade provisória, terrena, não tem a dimensão do novo ou da eternidade, como a de Cristo. No entanto, ele é restituído ao afeto dos seus. É um homem novo e sabe que há alguém mais forte que a morte.   

3. Essa ressurreição do coração nos é sugerida pela 1ª leitura. O profeta tem uma visão de um campo de ossos ressequidos e entende que esse representa a moral do povo de Deus, no pós exílio, que se sente perdido, sem esperança. Então o profeta dirige a eles a promessa de Deus, que é o texto que acompanhamos.

4. Este não trata da ressurreição final dos corpos, mas da ressurreição atual dos corações à esperança. De tudo isso deduzimos uma coisa que conhecemos também por experiência: que se pode estar morto em vida, mesmo antes de ... morrer.

5. E aqui não se trata tão somente da morte da alma envolta no pecado; mas também daquele estado de total ausência de energia, de esperança, de vontade de lutar e de viver, cujo nome mais adequado é morte do coração. E as razões são diversas: fracasso matrimonial, traição, doença, revés financeiro, crise depressiva, incapacidade de superar um vício...

6. Quem nos pode dar essa ressurreição do coração? Para certos males sabemos que não há remédio humano que traga solução. Palavras de consolação ou encorajamento não são suficientes. Também na casa de Marta e Maria, os judeus vieram para consolá-las, mas a presença deles não mudou nada. Foi preciso ‘mandar chamar Jesus’.

7. Invocá-lo como fazem as pessoas que estão sob escombros de desabamento ou coisa parecida, que buscam com seus gemidos a atenção dos socorristas. Se bem que muitos que se encontram nesse estado não conseguem nem rezar. Estão como Lázaro, no túmulo, precisam que outros façam alguma coisa por ele.

8. É interessante perceber que ao enviar seus discípulos em Mt 10,8, Jesus os envia a curar os enfermos e também ressuscitar os mortos. E sabemos que se pode contar nos dedos das mãos os santos que chegaram a realizar tal coisa literalmente. Jesus entendia, sobretudo, os mortos no coração, os mortos espirituais. Na parábola do filho pródigo, assim o Pai define o estado do filho: “estava morto e voltou a viver...” nada físico, apenas seu retorno para casa.

9. Podemos tomar também para nós esse mandato de Cristo de ressuscitar os mortos. Basta estarmos atentos a certas situações que nos cercam. Um exemplo: Quem tem pais anciãos em casa ou num asilo? Talvez o coração destes esteja morto pelo silêncio dos filhos. Que tal ligar e prometer vista-los?

10. Seu esposo ou esposa se ausentou de casa depois de mais um desencontro entre ambos? Telefona-lhe, e faz renascer no seu coração a esperança. Sãos situações que nos desafiam a não deixar morrer...

11. Certamente não podemos perder de vista aqueles que vivem em estado de pecado grave, mortos na alma. Também para estes o caminho da conversão permanece aberto, na esperança. A estes, sobretudo, a ressurreição de Lázaro deveria colocar em seu coração, nesta Páscoa, o desejo de ressurgir.

12. Entre as obras de misericórdia que muitos aprenderam desde pequeno, havia uma que dizia: “Sepultar os mortos”; agora sabemos que entre as obras de misericórdia tem aquela de “ressuscitar os mortos” ... Nesses novos tempos a necessidade se faz mais presente e urgente.

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa.

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 21 de março de 2026

(Jr 11,18-20; Sl 07; Jo 7,40-53) 4ª Semana da Quaresma.

“Ao ouvirem as palavras de Jesus, algumas pessoas da multidão diziam: ‘Este é, verdadeiramente, o Profeta”

Jo 7,40.

“A pregação de Jesus produz profunda impressão nas pessoas que o escutam. Observam que ele tem algo de extraordinário, que acontece nele e somente nele. Jesus fala em nome do Pai que o enviou; por isso Jesus é o Profeta do Pai; o que Jesus ensina não é doutrina, mas a doutrina do Pai. Jesus quer levar-nos todos para o Pai; assim ele cumpre sua missão profética. O cristão, por seu batismo, participa da missão profética de Jesus. O cristão, por isso mesmo, tem de cumprir sua missão tomando consciência de que é o profeta de Jesus, enviado por Jesus ao mundo para transmitir a doutrina, a palavra, a mensagem de salvação do Senhor. O cristão tem de ser um profeta querigmático, ao anunciar ao mundo: ‘Dela foi constituído ministro, em virtude da missão que Deus me conferiu de anunciar em vosso favor a realização da palavra de Deus, mistério este que esteve escondido desde a origem às gerações passadas, mas que agora foi manifestado aos seus santos’ (Colossenses 1,25-26). Pregar esse mistério de salvação, dá-lo a conhecer, comunica-lo com fidelidade, essa é a missão do cristão como profeta. Não seja você um profeta infiel, que se desvie de sua missão, pregando a você mesmo em lugar de pregar a Cristo” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).  

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sexta, 20 de março de 2026

(Sb 2,1.12-22; Sl 33[34]; Jo 7,1-2.10.25-30) 4ª Semana da Quaresma.

“Então, queriam prendê-lo, mas ninguém pôs a mão nele, porque ainda não tinha chegado a sua hora” Jo 7,30.

“A vida de Jesus estava toda colocada nas mãos do Pai. Com esta consciência, ele enfrentava os desafios do ministério, sem se deixar abater pelos mal-entendidos, pelas hostilidades evidentes ou veladas ou mesmo pela ameaça de morte que pairava sobre a sua cabeça. Sua coragem manifestava-se na maneira aberta com que proclamava sua doutrina, em plena Jerusalém – no Templo –, mesmo sabendo que os judeus buscavam matá-lo. Importava-lhe unicamente manter-se fiel a quem o enviou, pois não tinha vindo por si mesmo, nem proclamava uma doutrina de sua autoria e propriedade. As hostilidades contra ele provinham do desconhecimento do Pai. Logo, fruto da ignorância! Bastava que se abrissem para o Pai, para estarem em condições de compreender a veracidade do testemunho de Jesus. A vida do Filho estava nas mãos do Pai. Isto impedia que os adversários assumissem o controle do destino de Jesus. Por isso, em vão, procuravam detê-lo e infligir-lhe a pena capital. ‘Sua hora ainda não chegara’. A coragem do Mestre serviu de exemplo para os discípulos, sobretudo nos momentos difíceis de seu ministério apostólico. Também a vida deles estava nas mãos do Pai. Sendo assim, nenhum inimigo, por pior que fosse, haveria de se transformar em senhor de seus destinos. Somente o Pai pode determinar a hora de cada um! – Pai, minha vida está colocada em tuas mãos, pois tu és o Senhor do meu destino. Movido por esta certeza, dá-me a graça de testemunhar, com coragem, o teu Reino (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

Pe. João Bosco Vieira Leite