Terça, 31 de março de 2026

(Is 49,1-6; Sl 70[71]; Jo 13,21-33.36-38) Semana Santa.

“Jesus respondeu: ‘É aquele a quem eu der o pedaço de pão passado no molho’.

Então Jesus molhou um pedaço de pão e o deu a Judas, filho de Simão Iscariotes” Jo 13,26.

“O anúncio da traição foi desconcertante para o grupo de discípulos. Independentemente de qualquer cultura, a traição é sempre um ato abominável. De modo especial, entre pessoas cujas vidas foram postas em comum, e nas quais se deposita toda confiança. Isto explica a surpresa dos discípulos quando Jesus anunciou que um deles haverá de traí-lo. E essa surpresa foi maior, quando o traidor foi identificado com Judas, filho de Simão Iscariotes. O evangelista João dirá várias vezes que se tratava de um ladrão. Logo, alguém de caráter duvidoso, de quem se pode esperar tudo. A traição seria apenas mais uma manifestação da personalidade malsã deste discípulo. Os evangelistas, em geral, referem-se a Judas como alguém que vendeu sua própria consciência ao aceitar entregar o Mestre por um punhado de dinheiro. Entretanto, é possível suspeitar de outras razões desta atitude tresloucada. Será que Judas entendeu, de fato, o projeto de Jesus? Terá sido capaz de abrir mão de seus esquemas messiânicos para aceitar Jesus tal qual se apresentava? Estava disposto a seguir um Messias pobre, manso, amigo dos excluídos e marginalizados, anunciador de um Reino incompatível com a violência e a injustiça? Judas esperava tirar partido do Reino a ser instaurado por Jesus. Vendo frustrado o seu intento, não teria tido escrúpulo de traí-lo? Uma coisa é certa: Judas estava longe de sintonizar com Jesus. Algo parecido acontecia com Pedro, que haveria de negá-lo. Só que este recuou e se converteu à misericórdia do Senhor. – Pai, faze-me viver em sintonia com Jesus, de modo que meus preconceitos não venham a influenciar minha adesão a ele (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 30 de março de 2026

(Is 42,1-7; Sl 26[27]; Jo 12,1-11) Semana Santa.

“Pobres, sempre tereis convosco, enquanto a mim, nem sempre me tereis” Jo 12,8.

“Maria demonstrou a delicadeza de seu amor pelo mestre. Naquele tempo costumava-se ungir a cabeça dos hóspedes em sinal de distinção e respeito. Maria escolhe a essência mais pura e de maior preço para ungir os pés de Jesus e depois derramá-la sobre sua cabeça. Não encontrou coisa melhor e faz a oblação total, não reservando nem só uma gota daquele bálsamo. Quebra o frasco a fim de que todo o perfume se derrame sobre a cabeça de Jesus, quebra o recipiente para que tudo seja para Cristo. Mas Judas não entende de delicadezas e vê com maus olhos a ação de Maria; por isso criticou-a, e pretendeu justificar sua murmuração com as aparências de caridade para com os pobres; mas o evangelista adverte-nos que era a avareza o que o movia a falar. Jesus defende Maria. Sabia que o que a movia era o amor. Jesus assumiu a situação do homem ‘em seu nascimento, em sua vida e, sobretudo, em sua paixão e morte, em que alcançou a máxima expressão da pobreza. Por esta única razão, os pobres merecem uma atenção preferencial, qualquer que seja a situação moral ou pessoal em que se encontrem’ (Documento de Puebla 1141-1142). Nas palavras de Jesus existe não só uma descrição dos fatos (‘pobres sempre tereis convosco’), mas especialmente um chamado ‘ao compromisso autêntico com os outros homens, especialmente com os mais pobres, e pela necessária transformação da sociedade’ (João Paulo II)” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria). 

 Pe. João Bosco Vieira Leite

Domingo de Ramos – Ano A

(Mt 21,1-11; Is 50,4-7; Sl 21[22]; Fl 2,6-11; Mt 27,11-54) *

1. Em nossa caminhada quaresmal nos concentramos sobre a pessoa de Jesus. Vimos que Jesus é aquele que nos liberta das potências demoníacas, que nos abre o horizonte da vida eterna, que nos ilumina com a sua verdade, que nos faz ressurgir da morte do coração...

2. E assim chegamos à semana santa com a leitura, hoje e sexta, do Evangelho da paixão de Cristo. E é sobre ela que devemos nos concentrar em nossa reflexão. Vias sacras, procissões, pregações quaresmais e vivências penitenciais ajudam a muitos na reflexão desse mistério da Paixão de Cristo nesse período.

3. Em muitas dessas práticas, o nosso olhar contemplativo ajuda-nos a rezar e, porque não dizer, até nos cura. Jesus, ao conversar com Nicodemos, recorda aquela serpente elevada no deserto e que curou o povo, comparando com o que lhe acontecerá ao ser elevado na Cruz. Ele atrairá o olhar de muitos.

4. Quem olha com fé a Ele elevado na cruz, é restaurado, não só na alma, mas também nas memórias, nos afetos, e até mesmo na própria carne: “Nas suas chagas nós fomos curados”.   

5. Desse olhar, e aqui apelando para a nossa imaginação, vamos fazer três breves estações. Na 1ª delas vamos ao Getsêmani. Estamos diante de um Jesus irreconhecível! Ele, que dominava os ventos, que dizia a todos “não temer”, agora é presa da tristeza e angústia diante do sofrimento que se abaterá sobre Ele.

6. É o “pecado do mundo” que se abate sobre ele e que esmaga o seu coração como uma rocha. Imaginemos todo ódio, mentira, egoísmo e injustiças que há no mundo. É tudo isto que gera uma tristeza mortal e o suar sangue. O filósofo pascal dizia: “Cristo está em agonia, no horto das oliveiras, até o fim do mundo, não devemos deixa-lo só em todo este tempo”.

7. Cristo está em agonia onde há um ser humano que luta com a tristeza, o medo, a angústia, com uma situação sem saída, como ele naquele dia. Não podemos fazer nada pelo Cristo agonizante de então, mas podemos fazer alguma coisa pelo Cristo que agoniza hoje. Quantos hortos da oliveira, quantos Getsêmani no coração de nossa cidade!

8. Conduzamo-nos agora ao pretório de Pilatos, os soldados acabam de flagela-lo, jogam-lhe um manto nas costas, colocam-lhe uma cora de espinhos e um caniço nas mãos. Zombam dele. Tiram-lhe toda liberdade. Deixam-no imobilizado. E Pilatos o apresentará à multidão: “Eis o homem!”.

9. E podemos afirmar aqui também que Jesus se encontra no pretório até o fim dos tempos. Pensemos em todos os torturados e algemados de ontem e hoje (inocentes ou culpados que sejam), sós e impotentes, a mercê de abusadores ou policiais sem piedade, em qualquer escuro átrio de prisão, sem ninguém para intervir. “Cada vez que fizestes isso a um dos meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes”.

10. Deixemos o pretório e nos conduzamos ao Calvário. Lá, já pregado na cruz, Jesus grita: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?”. Dá um alto grito e entrega o seu espírito. Temos uma leve sensação que Jesus tenha duvidado do próprio Deus.

11. Cantalamessa dirá que, deste modo, Jesus há expiado por antecipação todo o ateísmo que existe no mundo. Não só aquele dos ateus declarados, mas aquele dos ateus práticos que vivem “como se Deus não existisse”, deixando-o em último lugar na própria vida.

12. Aqui também podemos dizer: “Jesus está pregado na cruz até o fim dos tempos”. Ele está em todos os inocentes que sofrem. Pregado na cruz nos doentes graves. Os pregos que o mantem preso a cruz são todas as injustiças cometidas para com os pobres. E nesse cenário da Cruz não podemos esquecer de José de Arimateia.

13, Ele representa todos aqueles que desafiam os regimes, sistemas e até mesmo a opinião pública, para ajudarem alguém a descer da cruz. Há muitos esperando um personagem como esse em nossos dias.

14. E não podemos nos afastar do Calvário sem dirigir um olhar à sua Mãe, Maria. Ela que viveu, em muitos momentos, o silêncio de Deus. E sabe muito bem o quanto isso nos custa. Que ela nos ensine o caminho do saber confiar e esperar.  

15. Nesses dias da Semana Santa, tanto quanto possível, permitamo-nos entrar com a mente e o coração no processo da Paixão e imaginar que também nós estávamos lá e que não nos é concedido dizer como Pilatos: “Eu não sou responsável pelo sangue deste homem”. Olhando de bem perto, nos damos conta que temos algo a ver...

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa.

Pe. João Bosco Vieira Leite