4º Domingo da Páscoa – Ano A

(At 2,14.36-41; Sl 22[23]; 1Pd 2,20-25; Jo 10,1-10) *

1. O Evangelho do 4º Domingo do tempo pascal é a 1ª parte do capítulo 10 de João sobre o bom pastor. Daí o nome de “Domingo do Bom Pastor”. E nesse domingo a Igreja nos convida a fazer dele também um dia de oração pelas vocações sacerdotais e religiosas.

2. O nosso texto se apresenta em quatro tempos, e ao interno de cada um deles se nota uma contraposição entre dois personagens, um bom e um mal. Do personagem bom se diz que: é o pastor das ovelhas, entra no recinto pela porta, conhece as ovelhas, as ovelhas o seguem, ele dá a vida pelas ovelhas.

3. Do personagem negativo se diz que: é ladrão e assaltante, salta pelo muro, é para as ovelhas um estranho, as ovelhas fogem dele, rouba e mata as ovelhas.

4. Sabemos de quem se trata tais personagens: Jesus é o personagem positivo. O uso de tais imagens está relacionada às origens de Israel, um povo nômade de pastores. Isto plasmou sua mentalidade, seus costumes e sua língua. Assim, a relação pastor-ovelha serviu como imagem para exprimir as relações entre o povo e o seu rei, e entre o povo e Deus.

5. Jesus é a realização ideal do pastor perfeito, daquele que busca a ovelha extraviada e dá a vida por suas ovelhas, como profetizara Ezequiel: Deus mesmo cuidará do seu rebanho. Daí, por sua vez, Jesus escolher alguns discípulos para darem continuidade a sua missão. Estes recebem o nome de “Pastores”, os bispos e os sacerdotes, seus colaboradores.

6. Ao tratar do “ladrão” e “estranho”, Jesus pensa, em 1º lugar nos falsos profetas e aos pseudos-messias do seu tempo, que se passam por enviados por Deus, libertadores do povo, quando na realidade mandam as pessoas morrerem por eles. Algo que não é completamente estranho ao nosso tempo, com o fenômeno das seitas. 

7. Quando falamos de seitas, devemos estar atentos para não colocar a todos no mesmo plano. Temos grupos evangélicos e pentecostais protestantes com os quais a Igreja católica, há muito mantém um diálogo ecumênico em nível oficial, o que não é possível com as seitas. 

8. De modo geral, as seitas não partilham pontos essenciais da fé cristã, como a divindade de Cristo e da Trindade; às vezes misturam a doutrina cristã com elementos estranhos e incompatíveis com essa, como por exemplo a reencarnação. Não honram nem respeitam a Mãe de Jesus.

9. Literalmente se tornam “ladrões de ovelhas” quando tentam com todos os meios tirar os fiéis da sua Igreja de origem, muitas vezes com métodos agressivos e polêmicos, manipulando a própria Bíblia a seu favor. Polemizam tudo que diz respeito a Igreja católica, à Virgem Maria, indo na contra mão do próprio evangelho que é amor e respeito pela liberdade do outro.

10. Existem seitas que estão fora do mundo cristão, com novas formações religiosas, que não são agressivas, se apresentam com “vestes de cordeiro” pregam o amor para com todos, pela natureza, na busca do "eu profundo"... Aqui pode se perceber um certo sincretismo religioso, que recolhe elementos de várias religiões.

11. O dano espiritual gerado por elas é que a pessoa de Jesus quase desaparece e com ele a “Vida em abundância” que veio nos trazer. Além do perigo com relação a sanidade mental e à ordem pública. Sem entrarmos aqui em questões financeiras atreladas a certos grupos. Muitas delas acabaram com o fim de seus fundadores, mas não sem terem causado muitos estragos...

12. Talvez estejamos nos perguntando do porquê chegamos a esse assunto. Jesus era muito otimista, em achar que suas ovelhas não seguem estranhos... No entanto a realidade é bem outra. Talvez nós sacerdotes e bispos da Igreja deveríamos bater no peito e recitar um “mea culpa”. Nem sempre fomos capazes de dar continuidade a obra do Cristo Bom Pastor.

13. Muitos findam em seitas por não encontrarem o calor e o suporte humano de uma comunidade, não encontraram a sua paróquia. Assim como é verdade também que aqueles que findam em seitas, muitas vezes vivem à margem da vida da Igreja, sem preocupar-se de conhecer melhor e cultivar a sua fé cristã. Nem sempre a culpa é dos pastores...

14. Finalizo com alguns versos de Dante, bastante diretos e atuais: “Quais razões vos inspiram, cristãos? Não sede como plumas ao vento! Nem toda água é capaz de lavar. Tendes o Velho e o Novo Testamento, e da Igreja, o pastor que os guia. Que mais quereis para o vosso salvamento? Homens sede e não brutos animais” (cf. Paraíso, V,72-80).

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 25 de abril de 2026

(1Pd 5,5-14; Sl 88[89]; Mc 16,15-20) São Marcos Evangelista.

“Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi elevado ao céu e sentou-se à direita de Deus” Mc 16,19.

“Não se pode descrever o céu, mas podemos antegozá-lo. Não podemos alcançá-lo com nossa mente, mas é difícil não desejá-lo. Se falamos do céu não é para satisfazer nossa curiosidade, mas para reavivar nosso desejo e nossa atração por Deus. Se o recordamos é para não esquecer o anseio último que trazemos no coração. Ir para o céu não é chegar a um lugar, mas entrar para sempre no mistério do amor de Deus. Por fim, Deus já não será alguém oculto e inacessível. Embora nos apareça inacreditável, podemos conhecer, tocar, provar e desfrutar seu ser mais íntimo, sua verdade mais profunda, sua bondade e beleza infinitas. Deus despertará em nós a paixão do amor para sempre. Esta comunhão com Deus não será uma experiência individual. Jesus ressuscitado nos acompanhará. Ninguém vai ao Pai se não for por meio de Cristo. ‘Nele habita toda a plenitude da divindade em forma corporal’ (Cl 2,9). Só conhecendo e desfrutando o mistério contido em Cristo penetraremos no mistério insondável de Deus. Cristo será o nosso ‘céu’. Vendo a ele, ‘veremos’ a Deus. Cristo não será único mediador de nossa felicidade eterna. Inflamados pelo amor de Deus, cada um de nós nos converteremos, à nossa maneira, em ‘céu’ para os outros. A partir de nossa limitação e finitude tocaremos o Mistério infinito de Deus, saboreando-o em suas criaturas. Gozaremos de seu amor insondável, saboreando-o no amor humano. O gozo de Deus nos será dado encarnado no prazer humano. O teólogo húngaro Ladislaus Boros procura sugerir esta experiência indescritível: ‘Sentiremos o calor, experimentaremos o esplendor, a vitalidade, a riqueza transbordante da pessoa que hoje amamos, com a qual desfrutamos e pela qual agradecemos a Deus. Todo o seu ser, a profundeza de sua alma, a grandeza de seu coração, a criatividade, a amplitude, a paixão de sua reação amorosa nos serão presenteados’. Que plenitude alcançará em Deus a ternura, a comunhão e o gozo do amor e da amizade que conhecemos aqui! Com que intensidade nos amaremos então, nós que já nos amamos tanto na terra! Poucas experiências nos permitem antegozar melhor o destino último ao qual somos atraídos por Deus” (José Antonio Pagola – “O Caminho Aberto por Jesus” – Marcos – Vozes)

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sexta, 24 de abril de 2026

(At 9,9,1-20; Sl 116[117]; Jo 6,52-59) 3ª Semana da Páscoa.

“Porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida” Jo 6,54.

“A última parte do discurso de Jesus sobre o ‘pão da vida’ constitui o seu momento mais intenso. Os judeus (que para João representam os guias espirituais de Israel), habituados a investigar sobre a interpretação da Lei e sobre os discursos de sabedoria, procuram compreender o sentido das palavras do Nazareno: palavras que se tornam cada vez mais nítidas e desconcertantes. Comer o pão que é Jesus, isto é, comer a carne do Filho do homem, une a nossa vida à Sua vida, que é a vida eterna. [Compreender a Palavra:] A identificação do pão como ‘carne’ de Jesus (v. 52), repugnante para os judeus enquanto violação de um dos mais sagrados preceitos da Lei, coloca os interlocutores perante a realidade física de uma morte sacrificial que ultrapassa as prescrições legais, e dá a vida. Os hebreus estavam proibidos de consumir sangue (mesmo o dos animais oferecidos em sacrifício) porque ele representava a vida, e ninguém podia apropriar-se dela a não ser Deus, único dono da vida. O homem tem o usufruto, não a propriedade, da Criação: isto significava abster-se do sangue. Mas em Jesus, Deus vai mais além: a própria vida do Filho, ou seja, o Seu sangue, é colocada nas mãos dos homens, consumada totalmente no dom do amor, que se fez ‘verdadeira comida e verdadeira bebida’ (v. 55). Pela primeira vez, através da linguagem eucarística, é expressa a presença de Jesus no crente, o qual é assim introduzido na dimensão trinitária (v. 56-58)” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Quaresma Páscoa] – Paulus).

 Pe. João Bosco Vieira Leite