Terça, 01 de setembro de 2026

(1Cor 2,10-16; Sl 144[145]; Lc 4,31-37) 22ª Semana do Tempo Comum.  

“Lucas descreve a libertação dos escravos durante a primeira cura depois de tudo o que Jesus fez e falou na sinagoga de Nazaré. Ele conta, então, que na sinagoga de Cafarnaum havia um ‘possuído por um demônio, um espírito impuro’” (Lc 4,31).

“A palavra ‘demônio’ significa um poder estranho, dominando alguém por meio de sofrimentos, opressão, degeneração, padrões neuróticos, obsessões, ideias fixas. O ser humano pode de tal maneira estar possuído por semelhantes forças ‘que não consegue mais, de forma alguma, ser ele mesmo, perdendo seu poder de falar, sua identidade, sua personalidade, e ficando completamente alheio a si mesmo e ao seu ambiente’ (Venetz, p. 67). Seu pensamento fica perturbado por preconceitos, amarguras, pavores, ciúmes. ‘Cura’ significa, para Lucas, que tal pessoa consegue novamente enxergar com toda a clareza, sendo libertada dos demônios que a escravizam” (Anselm Grün – Jesus, Modelo do ser humano – Loyola).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 31 de agosto de 2026

(1Cor 2,1-5; Sl 118[119]; Lc 4,16-30) 22ª Semana do Tempo Comum.

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamara libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista;

para libertar os oprimidos...” Lc 4,18.

“Onde Jesus proclama a boa nova da proximidade do Deus bondoso, todos sentem-se livres de sua culpa. Aí os pecadores criam coragem para chegar perto de Jesus, pedindo perdão. Aí eles se sentem incondicionalmente aceitos, apesar de suas culpas. É essa experiência que Lucas faz penetrar no coração dos seus leitores com maravilhosa narrativa da pecadora que teve a coragem de entrar na casa do fariseu, a fim de ungir os pés de Jesus (Lc 7,36-50). Onde Jesus aparece e atua, cria-se um espaço livre em que todos podem novamente respirar aliviados. Deve ser esse o sentido da imagem das roças deixadas sem cultivo. Jesus transmite a ideia de que não devemos continuamente trabalhar em cima de nós mesmos, de que devemos deixar a lavoura de nossa alma descansar também uma vez, na confiança de que Deus há de semear a boa semente. Então, pela graça de Deus, a terra há de render cem vezes mais” (Anselm Grün – Jesus, Modelo do ser humano – Loyola).    

Pe. João Bosco Vieira Leite

22º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Jr 20,7-9; Sl 62[63]; Rm 12,1-2; Mt 16,21-27) *

1. Nossa Liturgia da Palavra se abre com esse trecho do profeta Jeremias. Ele faz um desabafo diante de Deus que o envia a anunciar um tempo de sofrimento para um povo que não o escuta, pois estão acostumados com as palavras dos profetas que acariciam e embalam o povo com previsões de paz e segurança.

2. Nestas condições, o profeta, que fala realmente em nome de Deus, se torna objeto de ironia, a chacota de todos. Falar em nome de Deus se torna uma tarefa desgastante. Ele tenta escapar de tal missão. Mas o profeta não vai desistir, não pode desertar: Deus o seduziu. A Palavra de Deus entrou nele qual fogo devorador que o profeta não pode abafar.

3. Na 2ª leitura, Paulo exorta os cristãos a oferecer-se “em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. E assim chegamos ao Evangelho, onde Jesus nos diz: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. Quem quiser conservar a sua vida vai perde-la... O que adianta alguém ganhar o mundo inteiro se depois vai perder a própria alma?

4. Essas palavras de Cristo, tão austera da cruz, faz tremer as veias e os pulsos de nossa pobre natureza humana. “Renunciar a si mesmo” não são palavras que o nosso tempo goste de ouvir. Talvez fosse melhor ouvir sobre como combater as injustiças do mundo, do que combater e vencer a nós mesmos.

5. Como Jeremias, também nós pregadores gostaríamos de fugir dessa ingrata missão, aparentemente inútil, anunciar ao nosso tempo as palavras que eles não gostam e não querem ouvir. Porque também somos filhos desse mesmo tempo que não quer ouvir falar em cruz.

6. Mas não se trata de simplesmente anunciar a cruz, mas também o de fazer compreender o significado daquele anúncio de Jesus, qual o sentido ela tem para nós, para nossa experiência humana e para o nosso destino.

7. Vivemos numa civilização que recusa e combate a alienação de si mesmo e que propõe, ao invés, o valor supremo da pessoa, a própria realização. O trabalho, o tempo livre, a cultura, toda promoção e emancipação social, tudo é visto em função de uma autorrealização do ser humano. Ele quer vencer, não perder, tanto menos perder sua vida.

8. Enfim, a que somos convidados a renunciar? Não às nossas autênticas possiblidades e aos valores humanos, mas à parte doentia de nós mesmos, o inimigo de Deus e nosso, inimigo que mora em nossa carne: o ser humano egoísta, dominado pela ganância e pela concupiscência, que não é capaz de amar ninguém a não ser a si mesmo e isto ademais, de modo equivocado. O ‘homem velho’, como chama a Bíblia.

9. Dando um passo mais adiante: renúncia por quem e por qual motivo? “Por causa de mim”, diz Jesus, por amor a Deus. Por causa, portanto, de uma escolha, a escolha de Deus em lugar do nosso eu; por causa da esperança que Deus nos oferece além da morte: “que adianta ganhar o mundo inteiro...”.

10. Este caminho estreito que o Evangelho nos traça tem, portanto, Deus como sua meta e prêmio. Mas tem Deus também em seu início. Jesus, com efeito, inaugurou e percorreu pessoalmente este caminho e por isso ‘tomar a cruz’ significa agora ‘ir após ele’, colocar os pés em suas pegadas, segui-lo. Jesus fala da cruz dos discípulos, depois de falar da sua.

11. Ao terceiro dia ressuscitará e também seus discípulos vão ressuscitar. É este evento da morte e ressurreição do Salvador a fonte e o modelo do nosso perder-nos para reencontrar-nos, do nosso morrer para viver.

12. Este evento se repete agora diante dos nossos olhos no sacrifício da missa. Procuremos haurir desse acontecimento a coragem para segui-lo e o propósito de oferecer de verdade a nós “mesmos em sacrifício vivo a Deus”. Senhor, ensina-nos a perder-nos para reencontrar em vós a vida eterna.    

* com base em texto de Raniero Cantalamessa.    

Pe. João Bosco Vieira Leite