(1Sm 16,1.6-7.10-13; Sl 22[23]; Ef 5,8-14; Jo 9,1.6-9.13-17.34-38)*
1.
A narrativa sobre o cego de nascença nos remete, simbolicamente, ao estado de
visão, como a temos, que a ciência afirma ter passado por um processo
evolutivo. Os primeiros seres não tinham olhos para ver, nem existia o ver em
si. O olho, em sua complexidade e perfeição, é uma das funções que se formou
bem tarde.
2.
Assim podemos imaginar com que assombro os primeiros seres começaram a ver o
céu sobre as suas cabeças, as cores e verem-se. Um salto de qualidade na
evolução da vida. Se um bebê pudesse expressar esse momento em que começa a ver
claramente o rosto da mãe, das pessoas, das coisas... seria um hino à luz, à
visão!
3.
O ver é um milagre que nos habituamos e que só nos damos conta se existe uma
ameaça de perde-lo. Os cegos que ao longo do Evangelho receberam a cura,
funcionam como algo para nos deixar atentos. Como um professor que vendo seus
alunos desatentos, bate fortemente as mãos para despertá-los.
4.
Mas tais narrativas não foram construídas somente para a importância dessa
realidade material, mas para uma outra questão: o olhar da fé! Esse permite
vislumbrar um outro mundo para além daquele que vemos com os olhos do corpo: o
mundo de Deus, a vida eterna, o mundo do Evangelho. A fé é como uma janela que
se abre diante de horizontes ilimitados.
5.
Diferentemente de outras curas, Jesus envia o cego à piscina de Siloé para
lavar-se. Aqui vislumbramos que Jesus queria significar esse olhar diverso, da
fé, que começa com o batismo, onde recebemos o dom da fé. No passado o batismo
era chamado de “iluminação”.
6.
Claramente o Evangelho não trata de uma fé genérica em Deus, mas de crer em
Cristo. O Evangelista nos quer mostrar como se chega a uma fé plena e madura no
Filho de Deus. É fácil perceber essa progressiva descoberta de quem é Jesus
motivada pelas várias perguntas que fazem ao cego de nascença ao longo da narrativa: ele é um
homem, um profeta, ele é o Senhor.
7.
Pontuando esses elementos, é como se o Evangelista nos convidasse discretamente
a perguntar-nos: “E eu, em que ponto estou do meu caminho? Quem é Jesus de
Nazaré para mim?” Que seja um homem, a história não o nega. Que foi um profeta,
um enviado de Deus, que abriu novos horizontes religiosos e morais, isso se
admite quase universalmente.
8.
Mas muitos param por aqui. Mas não basta. Até um mulçumano, se é coerente com
aquilo que diz o Alcorão, reconhece que Jesus é um profeta, mas nem por isso se
considera um cristão. O salto mediante o qual se torna um cristão em sentido
próprio é quando se proclama, como o cego, Jesus é “Senhor” e o adora como
Deus.
9.
A razão para darmos este salto está no fato de Jesus ser apresentado ao mundo
como Filho de Deus e que chamava a Deus de seu Pai de um modo único, diferente
de todos. É o testemunho global do Novo Testamento. Ou ele é o que declara ser,
ou é o maior impostor da história e o cristianismo não passa de um equívoco.
Não existe meio termo.
10.
Mas como Jesus não apaga o “pavio que ainda fumega”, isto é, não rejeita quem
ainda está estacionado no “homem” ou no “profeta”, se é honesto consigo mesmo.
Quem está em busca da verdade, não andará muito para encontrar Cristo, porque
Ele é a verdade.
11.
Este evangelho do cego de nascença nos oferece também ocasião para a reflexão
entre fé e razão, o eterno problema que persiste também para o ser humano em
conciliar as duas coisas. Crer, tanto quanto enamorar-se, não nasce de um
estudo, pesquisa ou coisa do gênero. Se enamora e se crê porque se encontrou
alguém digno desse amor, dessa fé, alguém que inspira confiança.
12.
A fé cristã não é primeiramente crer em alguma coisa (que Deus existe, que
existe a eternidade...), mas o crer em alguém: Jesus Cristo. A dificuldade de
muitos em crer está relacionada ao fato de jamais terem encontrado Jesus. Se
alguém quer saber se lá fora faz sol ou não, tem um caminho mais simples que
buscar as previsões nos meios de comunicação: abra a janela e olhe lá fora.
13.
A nossa janela são as páginas do Evangelho. Não só o Evangelho escrito, mas o
Evangelho vivido hoje e feito credível em tantos testemunhos. A fé –
especialmente a fé em Cristo – se transmite por contágio. Se não conseguimos
ainda gritar como o cego de nascença: “Eu creio, Senhor!”, digamos, ao menos,
como outro personagem evangélico: “Senhor, aumenta minha fé!”.
* Com base em texto de Raniero
Cantalamessa
Pe.
João Bosco Vieira Leite