26º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Ez 18,25-28; Sl 24[25]; Fl 2,1-11; Mt 21,28-32)*

1. Como de costume em nossa liturgia da Palavra, a 1ª e a 3ª leitura acabam por convergir para um mesmo tema. Tal tema é a responsabilidade pessoal na salvação. A nossa salvação é toda obra ou dom gratuito de Deus. Mas ela só acontece como fruto de nossa livre colaboração e de nossa liberdade. No dizer de Agostinho: “Aquele que te criou sem a tua vontade não te salva se tu não queres”.

2. O sinal dessa liberdade é a capacidade de se converter do mal para o bem, de mal tornar-se bom e, por outro lado, a capacidade de se perverter. Ninguém, portanto, está condicionado irremediavelmente na vida pelo seu passado. É disso que trata a 1ª leitura.

3. Deus não castiga os filhos pelas culpas dos pais ou os pais pelas culpas dos filhos (Cf. Ez 18,20). Cada um tem a possibilidade de se salvar, mas somente se o quiser; sinal disso é o perdão que Deus dá sempre e generosamente a quem decide deixar a vida do mal para converter-se a Ele de todo o coração.

4. Jesus explica essa verdade ao povo de sua época por meio da parábola dos dois filhos convidados pelo pai a trabalhar na vinha. Jesus põe abaixo um modo de pensar sobre quem se salva de fato. A salvação não é um privilégio de um povo que foi escolhido, que disse “sim”, mas na prática não faz a vontade de Deus.

5. A salvação é coisa pessoal e se decide na atitude que cada um assume diante de Deus e de seu anúncio. Todos são admitidos à salvação. Sua eficácia ou não dependerá da livre resposta de cada um, não da casta a que pertence ou de direitos adquiridos.

6. Deus quer ser amado na liberdade não na submissão. Ele se colocou na condição de ter de esperar de nós, de nossa liberdade, antes de pedir-nos que esperássemos em sua salvação. O texto diz mais: além de ser uma adesão livre, deve ser também concreta e eficiente.

7. Não é quem diz “Senhor, Senhor” que entra no Reino dos Céus, mas quem faz a vontade de Deus. Não quem se contenta com pios sentimentos e aspirações, mas quem arregaça as mangas e traduz em gestos e fatos de vida cotidiana a vontade Deus. Assim, fica claro que Jesus prefere aquele que recusa por palavras, mas depois se arrepende e faz aquilo que o pai lhe pediu.

8. Esta parábola de Jesus nos deve fazer refletir atentamente e também tremer de medo a nós cristãos. Sob muitos aspectos, nós estamos, com efeito, nas mesmas condições dos hebreus. Também fomos chamados a trabalhar na vinha, isto é, na Igreja. Desde o “sim” do nosso batismo, outros “sim” estão implícitos na nossa vida cristã.

9. Mas muitas vezes este “sim” disfarça apenas uma recusa real e cria uma mentalidade hipócrita. O risco é que nós nos formamos uma psicologia de salvos por direito, de privilegiados da salvação. A psicologia, por exemplo, do filho mais velho da parábola do Filho pródigo, o qual, tendo ficado sempre em casa, pensa que o pai lhe seja por isso devedor para sempre.

10. O risco é grave porque se nós descuidamos de “procurar com mais diligência consolidar nossa vocação e eleição” (cf. 2Pd 1,10) e mediante uma contínua conversão do coração, é contra nós que se dirige a Palavra de Jesus: “Os publicanos e as meretrizes vos precedem no Reino de Deus”.

11. Dentro desse projeto de salvação oferecido por Cristo, Paulo nos dá algumas sugestões como um programa de vida: “Nada façais por competição e vanglória, mas com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante e não cuide somente do que é seu, mas também do que do outro”.

12. Mas a coisa não funciona se simplesmente vem de fora, mas deve nascer de dentro, com a ajuda d’Aquele que prescruta o espírito e nesse dia da Bíblia, rezamos com o salmista: “Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus da minha salvação; em vós espero, ó Senhor todos os dias!”. E Ele também espera de nós alguma resposta em nossa liberdade!

* com base em texto de Raniero Cantalamessa.

Pe. João Bosco Vieira Leite