(Ex 22,20-26; Sl 17[18]; 1Ts 1,5-10; Mt 22,34-40) *
1.
Pesquisar a essência da Lei era uma questão apaixonante para os homens
religiosos do tempo de Jesus. Qual é a coisa mais importante para Deus, no
vasto acervo de tantos preceitos? Jesus participou também desse esforço de
unificação e diante da pergunta sobre qual é o maior dos mandamentos, temos a
resposta no evangelho.
2.
O primeiro e maior mandamento, Jesus retoma do Antigo Testamento. Essa
afirmação da primazia do amor a Deus era como um credo, recitado na oração
vespertina do sábado. Em tempos recentes, muitos hebreus o recitavam enquanto
iam trêmulos para a morte nos campos de extermínio: “Shemá Israel” – Ouve
Israel.
3.
A essa primazia do amor divino Jesus acrescenta o amor ao próximo, também
presente no Antigo Testamento; daí compreendemos o porquê da 1ª leitura. Mas
era algo disperso entre uma multidão de outros mandamentos e um tanto restrito
aos do mesmo país ou prosélito.
4.
Com Jesus, “o próximo” adquire uma dimensão universal e um nível nunca
imaginado: este mandamento está ao lado do primeiro. Sua resposta fica clara
quando escutamos a parábola do bom samaritano. O Evangelista João vai tornar
mais explícito o pensamento de Jesus em suas cartas: “Se alguém disser: ‘Amo a
Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso...” (cf. 1Jo 4,20-21).
5.
No dado momento em que Deus – Criador e Senhor – vem a nós em Jesus,
compreendemos que amar é sair de si mesmo para ir ao outro. Deus, e somente
ele, será, no fim, o objeto fixo e total do nosso amor; mas enquanto estamos
aqui na terra, a nossa busca de Deus, e de amá-lo passa pelo próximo.
6.
Estaríamos errados se afirmássemos que os cristãos compreenderam e realizaram
este equilíbrio entre os dois mandamentos. No passado fomos lançados nesse amor
a Deus descuidando do próximo ou fazendo-o um simples instrumento do primeiro:
amar o ser humano ‘por amor a Deus’, ou para adquirir méritos. Não sei quanto
esta censura seja verdadeira e justa.
7.
A euforia da secularização tem buscado a “religião do segundo mandamento”,
puramente horizontal, sem Deus. A ideologia põe o ser humano como único fim e
sentido da história; amar a Deus é alienação, é desperdiçar no céu os tesouros
– e o amor – destinados para a terra e para os seres humanos.
8.
Mas sabemos que essa morte de Deus não foi preenchida pelo amor e pelo respeito
ao ser humano, mas pela destruição dele. É só prestar atenção.
9.
Diante de um desfecho tão negativo, não é correto que nós, cristãos, voltemos a
colocar entre parênteses o “segundo mandamento”, ou concebê-lo como uma das
tantas práticas para tornar-nos santos, como “praticar a caridade”. O
verdadeiro problema é e fica o de fazer uma síntese entre os dois mandamentos,
de como harmonizar uma total doação a Deus e ao seu culto e uma total dedicação
ao próximo.
10.
Devemos descobrir sempre de novo o que o Evangelho nos ensinou: que o amor de
Deus é exatamente o mais sólido fundamento do amor e do respeito do ser humano;
que o ser humano só fica livre totalmente de violências, manipulações e
instrumentalizações, quando Deus é reconhecido como seu Criador, protetor e
Pai.
11.
Um único amor, portanto, que sobe dos seres humanos a Deus, uma única religião,
a nossa, vertical e horizontal ao mesmo tempo. Se, porém, nos colocamos a
pergunta de por onde começar concretamente para realizar este amor, se do alto
ou da terra, o Evangelho não nos deixa dúvida: do próximo.
12.
Isto não significa deixar para depois o sacrossanto dever de amar a Deus, mas
amá-lo desde agora no único modo com o qual ele se nos faz presente
concretamente, quer dizer, no irmão. O outro é também uma espécie de
sacramento, o mais cotidiano de todos, como a carne humana que escondia o Verbo
e como o pão eucarístico que oculta o Corpo de Cristo.
13.
Concluiremos o nosso ano litúrgico ouvindo aquela sentença máxima de Cristo:
“tudo que fizestes a um desses pequeninos, foi a mim que o fizeste”. É este o
“deus próximo” que encontramos em cada passo da vida, ao qual podemos estender
a mão também já agora, saindo de nossas assembleias. A Eucaristia que agora
celebramos nos consagra precisamente para este difícil amor.
*
Com base em texto de Raniero Cantalamessa
Pe.
João Bosco Vieira Leite