(Sb 12,13.16-19; Sl 85[86]; Rm 8,26-27; Mt 13,24-43) *
1.
Se fala muito, em nossa sociedade insatisfeita de todas as conquistas técnicas
e de seu consumismo, de um retorno ao sagrado, de um novo desejo de contato com
o absoluto, particularmente entre os jovens. A oração é o sinal revelador desta
busca.
2.
Gostaria de conduzir a nossa reflexão a partir da 2ª leitura de nossa
celebração que nos permite abordar melhor esse tema. Se pudéssemos descobrir
que coisas diz o Espírito em seus “gemidos inexprimíveis”, descobríamos o
segredo da oração. Talvez dessa expressão paulina possamos recolher alguma luz.
3.
O Espírito que reza em nós, secretamente e sem barulho de palavras, é o mesmo
Espírito que nos traz luz ao debruçarmo-nos sobre as Escrituras, pois foi Ele
mesmo que a inspirou, tanto quanto as orações que nela encontramos. Elas são
para nós expressões desses gemidos “inexprimíveis” do Espírito.
4.
Partindo desse princípio, um cristão, para aprender a rezar, deve buscar a
escola da oração bíblica. Certamente não poderíamos aqui voltarmo-nos sobre
todas as orações que encontramos nela, como a oração de Abraão, de Moisés, dos
profetas, os salmos...
5.
Vamos direto a oração mais importante de todas que é a oração de Jesus. Se
descobrirmos como o Espírito rezava em Jesus, descobriremos como reza em nós,
ou menos, como quer que nós rezemos. O Espírito Santo continua em nós a oração
de Jesus, que atravessa séculos, através dos cristãos.
6.
Sabemos que toda a oração de Jesus iniciava com um grito filial: Pai! Essa é a
fonte da Sua oração, um grito de brotava dos seus lábios num ato de alegria,
agradecimento ou em meio ao sofrimento. Quando o Espírito vem a nós, não faz
outra coisa senão continuar esse grito filial: “Deus enviou ao nosso
coração o Espírito do seu Filho que grita: Abbà, Pai!” (Rm 8,17).
7.
A oração cristã é um grito ou diálogo do filho com o próprio pai: livre,
confiante, sem complexos. Nada de ‘humilhante’, como dizia Nietzsche. O
Espírito infunde no fiel um sentimento de ser um filho amado por Deus. Algo que
às vezes, se revela de modo imprevisto. Deus é grande, onipotente e ao mesmo
tempo um pai, meu pai.
8.
Esse sentimento, ainda que forte, não dura muito. Logo chega o tempo de
dizermos “Pai nosso”, sem sentirmos nada de particular, e até mesmo nos vem uma
impressão de gritarmos ao nada. Quando isso nos ocorre, precisamos lembrar que
não rezamos sozinhos, o Espírito reza em nós e por nós.
9. “Aquele
que penetra o íntimo dos corações, sabe qual é a intenção do Espírito”. Pode
ser que não nos sintamos satisfeitos ou preenchidos, mas Deus, que nos escuta,
sabe da nossa busca, fidelidade e abandono. Beethoven chegou a compor a IX
Sinfonia sem nada escutar ou sentir. Sua obra prima. Por vezes a aridez faz
isso com a nossa oração.
10.
Paulo nos lembra que a oração é graça, ela está dentro de nós. Não recebemos
somente o mandamento da oração, mas o próprio dom do Espírito, um filão secreto
que devemos constantemente redescobrir. A fonte está em nós. Precisamos limpar
no coração o barulho, a dispersão, o ativismo frenético. Isso requer tempo,
trabalho, busca, persistência.
11.
Ainda que muitas vezes soframos com as tentações constantes e não possamos
viver toda a exigência moral que nos pede o Evangelho, de evitar o pecado, mas
isso não nos impede de rezar, de pedir aquilo que por nós mesmos não podemos.
12.
A oração é o respiro da alma. Como alguém que está preste a desmaiar se pede o
esforço de respirar de modo profundo, pausado. Assim rezamos, em meio as
tentações ou mesmo prestes a deixar-se vencer pela dificuldade e pelo cansaço,
rezamos, fazemos respiros profundos de oração.
13.
Muitos já experimentaram o quanto um momento dedicado a oração no seu dia faz a
diferença e aprenderam a defender tal momento de tantas outras obrigações
diárias que sempre parecem mais urgentes. E se por acaso não soubermos o que
dizer ou rezar, pede ao Espírito que venha em nosso socorro. Ou melhor, que Ele
reze em nós com seus “gemidos inexprimíveis”.
* Com base em texto de Raniero
Cantalamessa
Pe.
João Bosco Vieira Leite