(Is 42,1-4.6-7; Sl 28[29]; At 10,34-38; Mt 3,13-17)
1. Passado o Advento e as festas natalícias, estamos agora no umbral do chamado Tempo Comum do ano litúrgico que, ao contrário do que se possa pensar, não é um ‘tempo secundário’, mas fundamental na vida celebrativa da Igreja.
2. Ao longo desse chamado ‘Tempo Comum’, domingo após domingo, contemplamos de perto, episódio após episódio, toda a vida histórica de Jesus, desde o Batismo no Jordão até à Cruz e à Glória da Ressurreição. Isso só é possível porque em cada um dos anos litúrgicos, acompanhamos de maneira semicontínua, um Evangelho inteiro.
3. Neste ano nos é dado a graça de ouvir o Evangelho segundo Mateus, conhecido como ‘Evangelho da Igreja’, dada a grande importância que este Evangelho granjeou na Igreja primitiva, sobretudo devido a clareza e riqueza temáticas dos longos, solenes e pausados discursos de Jesus que nele encontramos, e que constituem um imenso tesouro para a vida da Igreja.
4. Em nosso Evangelho, Jesus aparece em meio da multidão, como verdadeiro Servo do Senhor, solidário com Seu povo e assumindo as suas faltas. João Batista fica confuso, pois ele realiza um batismo de penitência; na verdade esperava um juiz acima do povo, para julgar o povo e não alguém solidário com o povo no pecado.
5. E mais assustador ainda é que Jesus não vem para batizar, mas para ser batizado; é exclusivo de Mateus esse diálogo entre Jesus e João. São as primeiras palavras de Jesus nesse Evangelho. Aqui, o termo justiça indica o plano divino da salvação e a adequação da nossa vontade [obediência] a esse plano.
6. A abertura dos céus e a descida do Espírito evoca e cumpre Is 63,19; a voz que vem do alto, diferentemente de Marcos e Lucas, não se dirige diretamente a Jesus, mas a nós, apresentando o Filho.
7. Diante dos olhos atônitos de João, e também dos nossos, fica, portanto, Jesus que, conosco e no meio de nós, como um de nós, desce ao rio Jordão para ser conosco batizado. Conforme os Atos dos Apóstolos, Jesus ‘fazendo o bem e curando a todos’. Para nos curar, é preciso passar pelo meio de nós. O Jordão é o rio de Cristo e dos cristãos.
8. Para bem ilustrar o Batismo do Senhor, temos o chamado ‘Primeiro Canto do Servo do Senhor’ (Is 42,1-7), que põe em cena Deus e o seu Servo. Ele levará vida em plenitude e Deus mesmo o ampara, leva pela mão e modela. Uma linguagem de criação, confidência e providência.
9. Temos também essa bela expressão: ‘Ele não clama nem levanta a voz, nem se faz ouvir pela rua’. A ação do servo não é algo exterior, mas algo que vem dentro, silencioso, aproximando-se das pessoas, descendo ao nível das pessoas, amando as pessoas.
10. Para não esquecer: esta bela missão de Jesus, Batizado com o Espírito no Jordão e declarado Filho Amado, deve ser a nossa bela missão de batizados com o Espírito Santo e filhos amados de Deus.
Pe. João Bosco Vieira Leite