Sábado, 01 de novembro de 2025

(Ap 7,2-4.9-14; Sl 23[24]; 1Jo 3,1-3; Mt 5,1-12) Todos os Santos.

“Depois disso, vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, 

que ninguém podia contar” Ap 7,9.

“O evangelista João apresentou Jesus no seu mistério pascal, ou seja, como ‘um Cordeiro, de pé, como que imolado’ (5,6). Diz depois que tudo deve ser iluminado por este acontecimento, mesmo as coisas muito dolorosas que refere na abertura dos primeiros quatro ‘selos’, e sobretudo na do sexto que parece preanunciar o fim iminente de tudo (vv. 2-3). Neste ponto, como que uma pausa para reflexão, apresenta a cena das ‘cento e quarenta e quatro mil’ pessoas ainda na terra e a da ‘grande multidão’ que está no Céu (v 4,9-14). [Compreender a Palavra:] Na primeira cena, os ‘cento e quarenta e quatro mil’ (v. 4) são todos os membros da Igreja, representados neste número simbólico que é produto de 12 x 12 x 1000: lembremo-nos de que o número 12 serve para indicar o novo Povo de Deus que nasce dos doze Apóstolos de Cristo. Aqueles, porque vencem as grandes dificuldades, recebem o ‘selo’ de proteção (cf. Ez 9,4); trata-se do nosso Batismo e dos outros sacramentos. Na segunda cena, João contempla esses cento e quarenta e quatro mil, isto é, uma ‘multidão imensa’, que, vencida a prova, estão em adoração diante de Deus e do Cordeiro: a ‘cor branca’ das suas túnicas é símbolo da glória celeste e as ‘palmas’ são símbolo do martírio, da vitória, da alegria (v. 9). Adoram continuamente a Deus e ao Cordeiro, dos quais receberam a ‘salvação’ (v. 10). A solenidade de Todos os Santos deve fazer-nos viver intensamente a realidade mais profunda e misteriosa da Igreja, que ainda peregrina na terra, saboreia e vive dos bens do Céu” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Tempo Comum – Vol. 2] – Paulus). 

Pe. João Bosco Vieira Leite


Sexta, 31 de outubro de 2025

(Rm 9,1-5; Sl 147[147B]; Lc 14,1-6) 30ª Semana do Tempo Comum. 

“Tomando a palavra, Jesus falou aos mestres da Lei e aos fariseus: ‘A Lei permite curar em dia de sábado 

ou não?’” Lc 14,3.

“Com essa pergunta, Jesus busca a interpretação correta do sábado e da cura. O que é essencial ao sábado? E em que consiste o curar? Para Jesus, o sábado é ‘o dia de realizar obras de acordo com a imagem das obras de Deus’ (Bovon, p. 474). E curar é obra divina, não trabalho humano. Quando os fariseus, depois da pergunta de Jesus, ficam calados, ele age no sentido de Deus: ‘Ele deu-lhe a mão, curou-o e despediu-o’ (Lc 14,4). Jesus pega na mão do doente, apieda-se dele, a fim de ajudá-lo. Lucas coloca aqui a palavra essencial para a obra sanadora de Jesus: ‘iasato’, ‘ele curou’. Lucas emprega essa palavra quinze vezes. Jesus é o médico que restabelece o ser humano de acordo com a maneira como Deus havia planejado. Ele é o terapeuta que conserta quem perdeu o equilíbrio. A terceira palavra para a ação de curar é ‘apolyo’, ‘libertar’, ‘desamarrar’, ‘soltar’. Lucas já usou essa palavra na cura da mulher curvada. Curar é libertar o ser humano, e soltá-lo dos liames da doença e dos grilhões dos demônios. Aqui a palavra significa ‘dar alta’. Jesus dá alta ao doente. Agora ele poderá seguir seu próprio. Mas Lucas gosta do duplo sentido das palavras. Para ele trata-se, sem dúvida, também do sentido de ‘soltar’ e ‘libertar’. A pessoa curada sempre é também uma pessoa liberta, solta e salva de todos os bloqueios. Estar doente é estar amarrado. Todo o estar amarrado a padrões de vida, hábitos e compulsões, e também todo o estar preso a outras pessoas, produz dentro de nós uma energia negativa, contra nós mesmos e contra os outros. Cura significa a libertação de todos os laços e, com isso, a solução da negatividade interna. Esse ficar livre de amarras nos torna capazes de estabelecer comunhão, boas relações, amizade. A aptidão para nos relacionar, para estarmos ligados aos outros de uma maneira boa, pertence essencialmente à boa saúde. E, para os gregos, exatamente essa capacitação para a amizade era essencial para a sua imagem do ser humano belo e bom” (Anselm Grüm – Jesus, modelo do ser humano – Loyola). 

Pe. João Bosco Vieira Leite


Quinta, 30 de outubro de 2025

(Rm 8,31-39; Sl 108[109]; Lc 13,31-35) 30ª Semana do Tempo Comum.

“... nem a altura nem a profundeza, nem outra criatura qualquer será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor” Rm 8,39.

“Com o texto de hoje, Paulo conclui o importante capítulo oitavo da Carta aos Romanos e toda a seção argumentativa dos capítulos 5-9, apoiada no estudo dos crentes. Uma série de perguntas retóricas (vv. 31-35) e de enumerações (vv. 35,38-39) pretendem instalar nos leitores sentimentos de confiança absoluta na eficácia do amor de Deus que nos foi comunicado. [Compreender a Palavra:] Impressionados pela grandiosidade da atuação de Deus e da realidade da condição humana que dela brota, Paulo sublinha a confiança que isto faz nascer nos crentes, projetando o olhar para o último futuro. Fingido um imaginário tribunal processual, o Apóstolo pergunta-se quem poderá estar contra nós, ou seja, levantar-se como acusador a nosso respeito. Uma tal pergunta, como todas as da presente seção, é retórica, isto é, pressupõe já a resposta, enquanto nada pode separar-nos do amor de Deus, historicamente revelado em Jesus Cristo e continuamente operante na nossa vida. A consciência da salvação, agora experimentada, é para nós garantia do encontro escatológico com um Deus que continua a amar-nos e a salvar-nos. Para sublinhar este aspecto, Paulo passa em revista algumas entidades históricas (v. 35) e cósmica (vv. 38-39), assegurando com vigor uma convicção basilar da fé: ‘Nada pode separar-nos do amor de Deus’ (cf. v. 39)” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Tempo Comum – Vol. 2] – Paulus). 


Pe. João Bosco Vieira Leite


Quarta, 29 de outubro de 2025

(Rm 8,26-30; Sl 12[13]; Lc 13,22-30) 30ª Semana do Tempo Comum.

“Então começareis a dizer: ‘Nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossa praça!’” Lc 13,26.

“Jesus recusa-se a entrar em discussão casuística sobre quem se salvará, pois considera-la inútil. Importante para ele era empenhar-se, com sinceridade, por viver uma vida agradável a Deus, e assim, ser acolhido por ele, no final da caminhada terrena. As palavras do Mestre são uma denuncia contra aqueles que se iludem pensando ter garantido uma vaga no céu, quando, de fato, estão vagando longe da salvação. ‘Comemos e bebemos na tua presença, e tu ensinaste nas nossas praças’ dizem os que se iludem pensando que, no Reino de Deus, tem valor evocar determinadas procedências étnicas, práticas religiosas ou formação cultural como privilégios para se ingressar nele. É a falsa segurança dos judeus, mormente, dos fariseus. Mas pode ser também a falsa segurança da comunidade cristã. Sem a prática da justiça e da caridade, sem um amor entranhado ao semelhante, de nada valerá evocar, diante de Deus, a condição de cristão para se ingressar no Reino. Se nele existem privilegiados, estes são os pobres, os marginalizados, os oprimidos, os desclassificados. Ou seja, os que estão reduzidos a uma condição tão deplorável, a ponto de não conseguirem voltar-se para Deus, a fim de exigir dele a salvação. Quiçá, no seu entender, a salvação esteja fora de seus horizontes. Para que preocupar-se com ela? Quem se considerava privilegiado, não procurando vivenciar o amor, será expulso do Reino; ao passo que os últimos serão acolhidos pelo Senhor. – Espírito de justiça e caridade, torna-me solícito em dedicar-me à prática do bem, de forma a agradar ao Senhor e alcançar a salvação (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano C] - Paulinas).

Pe. João Bosco Vieira Leite


Terça, 28 de outubro de 2025

(Ef 2,19-22; Sl 18[19ª]; Lc 6,12-19) Santos Simão e Judas, Apóstolos. 

“Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de apóstolos” 

Lc 6,13.

“Simão e Judas Tadeu, como os demais Apóstolos, tiveram a imensa sorte de aprender dos lábios do Mestre a doutrina que depois ensinaram. Compartilharam com Ele alegrias e tristezas. Como os invejamos! Quantas coisas não aprenderam na intimidade das suas conversas com o Mestre, para depois as transmitirem aos outros! ‘O que vos digo ao ouvido, pregai-o sobre os telhados” (Mt 10,27). Nenhum milagre havia de passar-lhes despercebido, nenhuma lágrima, nenhum sorriso do Senhor deixaria de ter importância. Foram as testemunhas, os transmissores. Os Doze consideravam tão essencial esta íntima união com o Senhor que, quando tiveram de completar o número do Colégio apostólico, depois da defecção de Judas, estabeleceram uma única condição indispensável: ‘Convém, pois, que destes homens que têm estado conosco durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, desde o batismo de João até o dia em que foi arrebatado ao céu no meio de nós, um deles seja constituído testemunha conosco da sua ressurreição’ (At 1,21). Esses homens estiveram com Jesus nas fadigas do apostolado, nas horas de descanso, em que Ele lhes ensinava com voz pausada os mistérios do Reino, nas caminhadas esgotadoras sob o sol... Compartilharam com Ele as alegrias quando a multidão acolhia a sua pregação, e as penas quando notavam a falta de generosidade de um ou outro em seguir o Mestre. ‘Com que intimidade se confiavam a Ele, como um pai, como um amigo, quase como a sua própria alma! Conheciam-no pelo seu porte nobre, pelo cálido tom da sua voz, pela sua maneira de partir o pão. Sentiam-se inundados de luz e estremeciam de alegria quando os seus olhos profundos pousavam sobre eles e a sua voz lhes vibrava aos ouvidos. Coravam quando os repreendia pela sua pobreza de vistas, e, quando os corrigia, humilhavam os seus rostos curtidos pelos anos, como crianças apanhadas em falta... Sentiam-se profundamente impressionados quando lhes falava repetidamente da sua Paixão. Amavam o seu Mestre e seguiam-no não apenas porque queriam aprender a sua doutrina, mas sobretudo porque o amavam’ (O. Hophan, ‘Los Apóstolos’). Peçamos hoje aos Apóstolos Simão e Judas que nos ajudem a conhecer e a amar a cada dia mais o Mestre, o mesmo a quem um dia seguiram, e que foi o eixo em torno do qual girou toda a sua vida” (Francisco Fernandez-Carvajal – Falar com Deus – Vol. 7 – Quadrante).

Pe. João Bosco Vieira Leite


Segunda, 27 de outubro de 2025

(Rm 8,12-17; Sl 67[68]; Lc 13,10-17) 30ª Semana do Tempo Comum. 

“Havia aí uma mulher que, fazia dezoito anos, estava com um espírito que a tornava doente. Era encurvada e incapaz de se endireitar” Lc 13,11.

“... E a mulher talvez tenha sido oprimida. Quem sabe alguém lhe quebrou a espinha dorsal. Ela não tem condições para se erguer por sua própria força. Não pode andar reta. Não se sente capaz. A palavra grega ‘panteles’, ‘totalmente’, ‘absolutamente’, ‘para sempre’, expressa que a doença é incurável, que a mulher nunca mais poderá se erguer. Não pode mais olhar para cima. Está cortado o seu contato com Deus. Ela dirige o seu olhar somente para o chão, para o que está lá embaixo. Seu horizonte é estreito, e ela perdeu sua dignidade humana, seu espaço e sua liberdade. E isso já há dezoito anos. Entendendo ‘dezoito’ como número simbólico, poderíamos dizer: dez é o número da totalidade, da integridade do ser humano. Essa mulher perdeu sua integridade, sua beleza e sua bondade originais. Oito é o número da eternidade, da infinitude. As pias batismais da Igreja primitiva eram octogonais. Mostram que pelo batismo o cristão participa da vida eterna de Deus. A mulher está doente há dezoito anos, sem contato com Deus. Não pode mais levantar os olhos para o céu, sua vista está escurecida” (Anselm Grüm – Jesus, modelo do ser humano – Loyola). 

Pe. João Bosco Vieira Leite


30º Domingo do Tempo Comum – Ano C

(Eclo 35,15-17.20-22; Sl 33[34]; 2Tm 4,6-8.16-18; Lc 18,9-14)* 

1. A parábola que escutamos inicia nos apresentando, como num drama, os personagens: “Dois homens subiram ao templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos”. E uma última frase, lapidar, descreve o êxito da questão: “... este último voltou para casa justificado, o outro não”.

2. No momento que entram no templo, os dois personagens, mesmo pertencendo a categorias religiosas e sociais diferentes, eram, no fundo, muito parecidos. Mas quando saem, são duas pessoas radicalmente diferentes. 

3. Um é justificado, isto é, feito justo, perdoado, em paz com Deus, feita nova criatura; o outro permanece aquele do início; na verdade piorou sua situação diante de Deus. Um obteve a salvação e o outro não. O que justifica tal conclusão nessa breve narrativa?

4. Jesus usa a estratégia de um operador cinematográfico, quando depois de mostrar o cenário geral, enquadra separadamente, um personagem depois do outro, mas particularmente sobre o fariseu. 

5. Ele começa a rezar agradecendo a Deus, algo sumamente recomendável. Mas seu agradecimento não é a Deus em si, mas pelo fato de não ser como os outros, particularmente como aquele cobrador de impostos. Mas isso não é graças a Deus, mas a ele mesmo, por suas obras: jejua e paga o seu dízimo. 

6. Olhando de maneira rápida, pensamos: talvez lhe falte humildade. Mas é muito mais que isso. A chave de leitura está na introdução feita por Jesus: a parábola é contada para alguns que confiavam na sua própria justiça, ou seja, que se consideravam justos. 

7. Estabelece para si o que é justo e o que não é. As coisas importantes são as que ele faz e que os outros não fazem. Se faz um autorretrato e, deste modo, alguém que sai sempre vencedor no confronto com os outros. Ele não se dá conta que deixou de fora um ponto importantíssimo da Lei: o amor ao próximo.

8. Mas há um motivo ainda mais sério: ele inverte as posições e faz de Deus um devedor seu. Ele que fez algumas obras boas se apresenta para receber o que lhe é devido. Diante de tudo aquilo Deus ouve, mas não faz nada. A câmara se desloca para o cobrador de impostos.

9. Ele está diante de Deus, sem comparar-se a ninguém, mas somente consigo mesmo e com Deus. Mantém-se a distância, sem levantar o olhar e batendo no peito. De seus lábios brota apenas uma breve oração: “Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!”.

10. Assim Jesus nos apresenta dois modos diversos de conceber a salvação: como algo que o ser humano pretende realizar por si mesmo, ou como dom da graça e da misericórdia de Deus. E isso persiste também em nosso tempo. 

11. Muitas das assim chamadas “novas formas de religiosidade”, concebem a salvação como conquista pessoal, devido a técnicas meditativas e alimentares, ou a particulares conhecimentos filosóficos. A fé cristã a concebe como dom gratuito de Deus em Cristo, que exige, certamente o esforço pessoal e a observância dos mandamentos, mas mais como resposta à graça do que como causa.  

12. De um modo prático, a parábola nos lembra que o fariseu e o publicano vivem entre nós cristãos. Há quem estabeleça por sua conta a medida do bem e do mal, de modo que esta corresponda exatamente ao que ele faz, somos a medida ideal.

13. Ninguém, ou muito pouco, é totalmente fariseu ou totalmente publicano. Muitas vezes nos comportamos como um ou outro. A coisa pior seria comportar-se como publicano na vida e como fariseu no templo. Como assim?

14. Há muitos que na vida prática aprontam, mas quando se apresentam diante de Deus, não encontram absolutamente nada do que se acusar ou ser perdoado. Mas se nos resignarmos a ser um pouco um e outro: que sejamos fariseus na vida, observantes escrupulosos, mas publicanos no templo, que reconhecem que tudo que se é, é dom Seu e imploramos, para nós e para os outros, a Sua misericórdia. 

15. Façamos nossa essa breve oração do publicano: “Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!”. Ela é uma oração completa, capaz de desarmar o próprio Deus, deixando-O disposto a escutar-nos. Amém. 

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa.


Pe. João Bosco Vieira Leite


Sábado, 25 de outubro de 2025

(Rm 8,1-11; Sl 23[24]; Lc 13,1-9) 29ª Semana do Tempo Comum.

“Então disse ao vinhateiro: ‘Já faz três anos que venho procurando figos nesta figueira e nada encontro. Corta-a! Por que está ela inutilizando a terra?” Lc 13,7.

“O fruto do tempo de conversão deve ser o arrependimento; o arrependimento é exigido pela misericórdia de Deus, que se torna patente na parábola da figueira estéril, no trabalho de cavar e de preparar a terra. Como de uma figueira plantada junto às águas e devidamente cuidada. Deus tem direito de exigir-nos frutos de santidade e de boas obras; porém, ocasionalmente, quando vem a nós procurando o fruto, não o encontra, porque nós não temos correspondido à graça que o Senhor tinha derramado sobre nós. No máximo temos dado folhas e até mesmo flores de bons propósitos ou santos desejos, que nunca chegaram a desenvolver-se em frutos de santidade e de vida evangélica. Toda graça que recebemos de Deus tem o direito de ser correspondida por nós com obras de santidade e de perfeição; frequentemente, o Senhor vem a nós, procurando esses frutos e não os encontra. Você deve pensar que dessa maneira pode tornar-se causa de que o dono da terra o corte e dê seu lugar para outro, que lhe corresponda melhor que você. Viva constantemente em santo temor: o temor de não corresponder devidamente à graça do Senhor, o temor de não render tanto quanto o Senhor esperava de você, devido às graças que sobre você derramou” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).        

Pe. João Bosco Vieira Leite

          


Sexta, 24 de outubro de 2025

(Rm 7,18-25; Sl 118[119]; Lc 12,54-59) 29ª Semana do Tempo Comum.

“Quando, pois, tu vais com o teu adversário apresentar-te diante do magistrado,

procura resolver o caso com ele enquanto estais a caminho. Senão ele te levará ao juiz,

o juiz te entregará ao guarda e o guarda te jogará na cadeia” Lc 12,58.

“A parábola dos inimigos a caminho do tribunal quer mostrar aos discípulos a necessidade inadiável de aderir, sem restrições, ao Reino, e deixar-se transformar por ele, antes da chegada do Senhor. O fato da vida, que serve como referencial para a parábola, funda-se no bom senso: é preferível reconciliar-se antes de comparecer diante do juiz, para evitar ser submetido a pesados castigos. Por outro lado, a necessidade de reconciliação é mais forte entre os pobres. Resolver os problemas, sem a necessidade de processo judicial, é o caminho para se evitar a prisão ou outro tipo de condenação. Jesus oferecia aos seus a última chance de conversão. Adiar tal decisão poderia resultar em consequências trágicas. Seria mais inteligente reconciliar-se, imediatamente, com Deus e com o próximo. Jesus admirava-se da capacidade de discernimento das pessoas em relação às coisas do mundo, como também, da incapacidade de discernir quais atitudes deveriam tomar, em se tratando da salvação. Ou seja, a incapacidade de acolher sua palavra, seu convite a aderir ao Reino. Só um louco haveria de preferir ver-se diante do tribunal, correndo o risco de ser severamente punido. No entanto, os contemporâneos de Jesus acharam por bem virar-lhe as costas. – Espírito que move à decisão, faze-me suficientemente sensato para não adiar ainda mais minha decisão de viver, de fato, reconciliado com Deus e com meu próximo (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano C] - Paulinas).

Pe. João Bosco Vieira Leite


Quinta, 23 de outubro de 2025

(Rm 6,19-23; Sl 1; Lc 12,49-53) 29ª Semana do Tempo Comum.                

“Agora, porém, libertados do pecado e como escravos de Deus, frutificais para a santidade até a vida eterna, que é a meta final” Rm 6,22.

“Continua a argumentação entre o indicativo da condição crente e o imperativo do compromisso responsável consequente. A característica destes versículos é também a dialética entre a atitude de antes e agora (v. 19), com a qual se aproxime a efetividade da mudança acontecida na vida dos batizados: outrora estávamos submetidos ao domínio do pecado, agora estamos livres dele, para vivermos para Deus. [Compreender a Palavra:] A partir de Rm 5, o ‘pecado’ é apresentado por Paulo como um sujeito personificado, para indicar a sua dimensão de estrutura prévia, que condiciona as opções dos indivíduos, Cristo libertou-nos deste domínio. Mas a liberdade do crente não é só uma liberdade do pecado: é necessariamente uma ‘liberdade’ orientada para realizar na vida a vontade de Deus (justiça). Uma liberdade entendida somente como ‘liberdade de alguma coisa’ é pura potencialidade, espaço vazio para a própria autodeterminação, que requer ser preenchido por opções responsáveis e por comportamentos consequenciais. O indivíduo não pode viver num espaço eticamente neutro: ele manifesta, com as suas ações, a sua orientar-se efetivamente para a vontade de Deus. O fruto de uma vida assim orientada é a plenitude da vida na comunhão eterna com Deus e com Cristo Jesus, Nosso Senhor” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Tempo Comum – Vol. 2] – Paulus).

Pe. João Bosco Vieira Leite


Quarta, 22 de outubro de 2025

(Rm 6,12-18; Sl 123[124]; Lc 12,39-48) 29ª Semana do Tempo Comum.

“A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido!” Lc 12,48b.

“Com as primeiras palavras deste evangelho, volta-se a repetir-nos a lição dada no evangelho anterior, que se pode resumir na seguinte afirmação do divino Mestre: ‘Estais, pois, preparados, porque, à hora em que menos pensais, virá o Filho do Homem’ (v. 40). A preparação que se recomenda não consiste somente na vigilância, mas no cumprimento constantes do dever; porque Jesus fala do ‘administrador fiel e prudente’, imagem nova que inculca a fidelidade mais que a vigilância no serviço. Com estas últimas palavras, o Senhor pretende chamar a atenção de todos, mas de um modo todo particular dos que, por terem recebido graças e dons espirituais, devem recordar continuamente que tudo quanto receberam não receberam para que o considerem como próprio, mas como algo que devem administrar em proveito da comunidade. A ideia dessa passagem evangélica tem muito a ver com os dirigentes da comunidade cristã, sobre os quais pesa grande responsabilidade. Os próprios representantes de Deus, que são por ele mais amados, sofrerão mais, se não corresponderem às graças que lhe são outorgadas para o cumprimento de sua missão apostólica. Por isso, Jesus acrescenta: ‘A quem muito se deu, muito se exigirá’ (v. 48). O que Deus deu a você não lhe deu como elemento decorativo de sua personalidade; deu-lhe como elemento ou ferramenta de trabalho, como fator de aperfeiçoamento, como meio para melhor exercer o apostolado. Deus colocou em suas mãos a tocha de suas qualidades e talentos, não para que os exiba nas alturas, a fim de que os outros possam admirar o pedestal que sustenta essa tocha, mas para que, caminhando sempre em frente e levando no alto a tocha, possa iluminar o caminho daqueles que vão atrás de você. Que fez você, até o presente, com essa tocha e com a luz de seus talentos? Enterrou-a sob as cinzas? Entregou-se ao repouso, admirando afrodisiacamente sua própria luz? Sua vontade permaneceu inativa, sem colocá-la a serviço da luz da fé? É muito conveniente que aplique este evangelho a você mesmo(a). Diz o Senhor: ‘A quem muito se deu, muito se exigirá’ (v. 48). O Senhor distinguiu-o(a) dentre o comum dos homens, dando-lhe a vocação para a fé, e dentre o comum dos cristãos, dando-lhe a vocação para esse ou aquele apostolado de maneira concreta. Deus realmente deu-lhe muito. Portanto, você não pode contentar-se com uma vida vulgar, com uma virtude e sem relevância; não pode levar avante uma vida cristã na qual unicamente se evita o pecado mortal, considerando o pecado venial como delicadezas reservadas. Você deve aspirar uma perfeição incomum, uma vez que as graças recebidas não foram comuns” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

 Pe. João Bosco Vieira Leite


Terça, 21 de outubro de 2025

(Rm 5,12.15.17-21; Sl 39[40]; Lc 12,35-38) 29ª Semana do Tempo Comum.

“Porém, onde se multiplicou o pecado, aí superabundou a graça” Rm 5,20.

“Atualmente, o conceito do ‘politicamente correto’ impera. Assim, vários pressupostos são descaracterizados e repensados. Nessa perspectiva, falar sobre pecado talvez seja um problema. Muitas vezes, inclusive, são usados outros termos, tais como falhas, erros, escolhas ruins etc. porém, quando olhamos para as Escrituras Sagradas, não há como esconder a verdade sobre o pecado. É sobre essa realidade que Paulo está escrevendo aos romanos, especialmente no cap. 5, afirmando que todos pecaram e que somente por meio de Cristo somos aceitos por Deus (cf. Rm 5,12.15b.17-19.20b-21). Paulo coloca dois conceitos em oposição: o pecado, que se multiplica, e a graça, que o supera. Uma ação afetou a todos, trazendo consequências para a humanidade: Adão pecou, condenando todos os seres humanos (v. 18). De fato, o pecado é real hoje, pois todos pecam (v. 12). Portanto, não há como fingir que o pecado não existe. Ele está bem presente em nosso cotidiano, afastando-nos de Deus. Paulo ressalta a força do pecado a ponto de caracterizá-lo como um ‘amo’ que escraviza suas vítimas (v. 21). De fato, o pecado se multiplica porque reina absoluto em nossa realidade. O que fazer, então? A resposta está no mesmo versículo. Ele não apresenta somente a desgraça ocasionada pelo pecado. Outra ação também atinge a humanidade: por meio de Cristo, somos aceitos por Deus e temos nossos pecados perdoados. Paulo define essa obra de amor como uma graça que se torna abundante, pois, onde ‘aumentou o pecado, a graça de Deus aumentou muito mais’ (v. 20b). A graça, portanto, possui uma força maior e supera o pecado. Há esperança para todos na graça de Jesus Cristo que, como um favor imerecido, leva Deus a aceitar as pessoas. O mal iniciado em Adão é superado pela graça de Cristo. Aleluia! – Senhor, ajuda-nos a reconhecer e confessar nossos pecados para que possamos ser alvo de tua graça, que nos perdoa e nos reconcilia contigo. Amém (Acyr de Gerone Junior – Meditações para o dia a dia 2017 – Vozes)

 Pe. João Bosco Vieira Leite


Segunda, 20 de outubro de 2025

 (Rm 4,20-25; Sl Lc 1; Lc 12,13-21) 29º Semana do Tempo Comum.

“E disse-lhes: ‘Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de muitos bens’” Lc 12,15.

“Jesus deve ter percebido a mentalidade de muitas pessoas exageradamente preocupadas em adquirir e acumular bens. Se os discípulos desejassem ser fiéis ao Reino, deveriam precaver-se contra atitudes deste gênero. Daí a preocupação do Mestre em alertá-los. Tudo, na vida do rico, gira em torno do próprio eu: ‘meus celeiros’, ‘meu trigo’, ‘meus bens’. Em sua vida, não existe espaço para Deus e para o próximo. Tudo é pensado em função de sua satisfação pessoal: ‘Ó minha alma, descansa, come, bebe, regala-te, pois tens bens acumulados para muitos anos’. Solidariedade, partilha, misericórdia são palavras banidas de seu vocabulário. Sua avareza impede-o de sensibilizar-se diante das necessidades do próximo. Todavia, como não somos feitos só para esta vida, a morte confronta-nos com outra realidade: a vida eterna. Aqui, só têm valor os gestos de fraternidade, a bondade para com os excluídos e carentes, a capacidade de fazer-se próximo de quem sofre. Este é o verdadeiro tesouro a ser acumulado durante a vida terrena. Os bens materiais, quando partilhados, podem ser instrumentos para adquirir este tesouro eterno. Acumulá-los significa torna-lo infrutíferos, ou seja, inúteis. O discípulo do Reino, por ter seu coração centrado em Deus e no próximo, sabe ser generosos com quem necessita de ajuda fraterna. – Espírito de partilha fraterna, afasta para longe de mim toda avareza, porque ela me impede de manifestar meu amor ao próximo, partilhando com ele os meus bens (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano C] - Paulinas).

Pe. João Bosco Vieira Leite


29º Domingo do Tempo Comum – Ano C

 (Ex 17,8-13; Sl 120[121]; 2Tm 3,14—4,2; Lc 18,1-8)*

1. Há muito o ser humano vem prescrutando o universo em busca de mensagens proveniente de outros planetas, ou mesmo enviando mensagens ao cosmo com seus grandes radiotelescópios, seja em Porto Rico, Rússia e temos um desenvolvimento aqui na Paraíba.

2. Até o momento não temos nenhum resultado positivo, nenhum sinal de vida em outros mundos. Ainda que hipoteticamente conseguíssemos estabelecer contato com outros seres inteligentes no cosmo, um diálogo seria impossível porque entre a pergunta e a resposta teríamos um espaço de séculos...

3. A palavra de Deus deste domingo nos ensina a como ter êxito nessa tarefa humanamente desesperada. Acompanhamos a parábola da viúva e do juiz injusto que dá continuidade ao tema da oração já presente na 1ª leitura com a figura de Moisés com seus braços erguidos por uma vitória do seu povo.

4. O ser humano prescruta o universo para captar mensagens de outros mundos e não se dá conta daqueles que os alcançam colocando-se de joelhos e levantando os braços aos céus, como Moisés.

5. A oração é o segredo para entrar em contato com outros mundos! O orante é aquele que um dia captou um sinal inconfundível proveniente de “um outro mundo” e que não pode fazer mais que buscá-lo novamente, se o perde.

6. Ilusão? Antes de chegarmos a uma conclusão rápida demais, pensemos naqueles que fizeram desse “contato” a razão de sua vida. Uma existência plena, ativa, fecunda e que enriqueceu o mundo. É suficiente recordamos alguns deles: Moisés, Jesus Cristo, Francisco de Assis, Teresa Dávila, e outros até mesmo fora do nosso âmbito eclesiástico.  

7. A oração é aquilo que pode dar alma à nossa civilização tecnológica e impedir que nossas cidades se transformem em desertos humanos.

8. A oração é entrar em diálogo com um mundo acima de nós. Não simplesmente ‘com outros seres inteligentes’, mas com o criador de tudo, o Pai que nos conhece, que nos ama e nos quer ajudar. Um diálogo, onde entre a pergunta e a resposta não transcorrem séculos. Ela vem logo. Ou melhor: a pergunta já é conhecida antes mesmo de ser formulada. Na definição clássica, a oração é “uma piedosa conversa com Deus”.

9. São muitas as definições sobre a oração provinda de experiências várias, mas a Bíblia se expressa com o termo ‘elevar’, que encontramos em vários salmos. O sentido da oração está em si mesma, não vem de uma demonstração, do externo; o gosto da oração vem do próprio ato de rezar.

10. Rezando, se compreende que essa não é uma ficção ou ilusão. Nos damos conta que se estabelece um verdadeiro diálogo com Deus, de um modo misterioso e intraduzível em linguagem humana. Não é um eco que nos manda de volta a mesma palavra; aqui se trata de algo novo, palavras novas, não pensadas ou imaginadas, palavras que provocam reviravoltas na própria existência.

11. Mas há quem coloque sua objeção: Deus conhece e já decidiu para sempre o curso dos eventos: como pode, portanto, a criatura pensar em mudar, com a sua oração, uma decisão eterna de Deus? Diz São Tomás de Aquino: “Não rezamos para mudar a decisão de Deus, mas para obter aquilo que Deus, desde sempre, decidiu dar-nos em resposta à nossa oração”.

12. Rezar significa administrar, do modo mais profundo e autêntico, o próprio destino e a própria liberdade. Mais que uma obrigação, é um privilégio, uma concessão. Por vezes é preciso encontrar-se numa situação extrema para que se descubra o simples fato de que lhe é consentido rezar.

13. Ao final do Evangelho há algo que nos deixa inquieto. Se fala de uma pronta resposta ao tempo que fazemos a experiências das muitas de nossas preces que repousam num silêncio. Um problema para o crente, e que não tem uma resposta fácil e simples.

14. Jesus sabe que as coisas não se dão assim de modo simples, mas é preciso rezar sempre, e nunca desistir, nos diz a parábola. Se não podemos entender porque Deus não escuta certas preces, podemos ao menos entender que desastre seria... se Ele escutasse tudo e sempre. Quem não já agradeceu a Deus de não tê-lo escutado quando pediu certa coisa... Não à toa, diz em outra ocasião, Ele dará o Espírito Santo, a quem o pedir, para o discernimento...   

Pe. João Bosco Vieira Leite


Sábado, 18 de outubro de 2025

(2Tm 4,10-17; Sl 144[145]; Lc 10,1-9) São Lucas, evangelista e missionário.

“Só Lucas está comigo. Toma contigo Marcos e traze-o, porque me é útil para o ministério” 2Tm 4,11

“A outra imagem de Jesus que a Tradição nos transmite remonta a Lucas como pintor. Também isso é historicamente incerto, mas há algo de verdadeiro nessa imagem. Lucas é um escritor talentoso, que domina a arte de apresentar os acontecimentos de tal maneira que nos parecem um quadro pintado.  Não é sem motivo que Klaas Huizing escreveu seu ‘Lucas pinta o Cristo’. Lucas desenha para nós um retrato literário de Jesus. Muitos acham que Lucas foi um bom narrador, mas não um bom teólogo. Não posso partilhar tal opinião. Lucas domina a arte de narrar a história de Jesus de uma maneira que clareia toda a teologia da Encarnação. Lucas não precisa formular nem fundamentar que Jesus é o Filho de Deus. Ele narra a história de Jesus de tal maneira que vemos em Jesus o brilho divino. Quando o leitor é comovido por Jesus, Deus lhe é revelado. Assim ele é puxado para dentro do acontecimento da Encarnação. Para mim, isso é elevada teologia. Nas narrativas de Lucas aparece-nos o esplendor do rosto de Deus através do homem Jesus. Ao contemplar essa imagem, somos por ela transformados. Na leitura da história é que acontece a redenção. Quando leio com todos os meus sentidos, quando acho para mim um lugarzinho dentro do texto – como dizia Martinho Lutero –, então, ao sair do texto, estarei transformado. Pois então encontrei-me com a figura de Jesus, que agora modela a minha figura. O texto cria uma nova realidade. O leitor não continua o mesmo. Ele é criado de novo, pelo texto. Ele entra em contato com a imagem de Jesus Cristo, que nele se imprime durante a leitura (cf. Huizing, pp. 140s)” (Anselm Grüm – Jesus, modelo do ser humano – Loyola).      

 Pe. João Bosco Vieira Leite


Sexta, 17 de outubro de 2025

(Rm 4,1-8; Sl 31[32]; Lc 12,1-7) 28ª Semana do Tempo Comum.     

“Pois bem, meus amigos, eu vos digo, não tenhais medo daqueles que matam o corpo,

não podendo fazer mais do que isso” Lc 12,4.

“Duas virtudes recomendam-se ao discípulo do Senhor: a verdade e sinceridade diante da hipocrisia dos fariseus e a valentia na confissão da fé. A hipocrisia dos fariseus consistia na aparência de santidade e em estar vazios de virtude e cheios de maldade. Os discípulos de Jesus não podem ser assim. Precisam mostrar-se por fora como são por dentro; para se mostrarem bons, justos e retos por fora, devem ser isso no seu íntimo; o que aparece por fora não deve ser senão o reflexo do que seja por dentro. Nada existe de tão oculto que não se chegue a descobrir; jamais você poderá pensar e dizer: ‘Agora estou sozinho’, pois sempre sua consciência o acompanhará, que não é outra coisa senão o olhar de Deus. Não existe trevas tão espessas que possam escondê-lo(a) ao olhar penetrante de Deus; por isso, sua intimidade, por mais íntima e secreta que a queira supor, fica sempre patente aos olhos de Deus e haverá de chegar o dia em que Deus ponha às claras as trevas da sua solidão íntima. Jesus não promete livrar os discípulos do sofrimento e da morte, mas dar testemunho da sua lealdade no último dia. A perseguição, assim como a tentação, nem sempre serão evitadas por Deus aos seus eleitos, pois são parte da economia divina. A fortaleza é também um dom do Espírito Santo. Os santos mártires da Igreja de Deus não tiveram medo da morte, nem do sofrimento, souberam dirigir a vida toda para a eternidade; como diz a Sagrada Bíblia: ‘As almas dos justos estão nas mãos de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aparentemente estão mortos aos olhos dos insensatos: seu desenlace é julgado como uma desgraça e sua morte como uma destruição, quando na verdade estão na paz. Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles era portadora de imortalidade, e, por terem sofrido um pouco, receberão grandes bens; porque Deus que os provou, achou-os dignos de si’ (Sabedoria 3,1-5)” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite