(At 3,11-26; Sl 8; Lc 24,35-48) Oitava de Páscoa.
“Vede minhas mãos e meus pés: sou eu
mesmo! Tocai em mim e vede! Um fantasma não tem carne nem ossos, como estai
vendo que eu tenho” Lc 24,39.
“Jesus
diz aos discípulos que devem apalpá-lo. A palavra grega ‘pselaphao’, ‘pegar’,
‘apalpar’, ‘segurar’, é usada outra vez por Lucas no discurso de Paulo no
Areópago, onde Paulo responde conscientemente à Filosofia estoica: os homens
deveriam ‘procurar Deus; talvez pudessem encontra-lo e segurá-lo, pois não está
longe de cada um de nós’ (At 17,27). Com a palavra de Jesus: ‘Apalpai-me’,
Lucas sugere aos sequazes da filosofia estoica que nós, os humanos, podemos
tocar em Deus na pessoa de Jesus Cristo. Nas suas mãos, nos seus pés, os
discípulos tocam no próprio Deus. Assim cumpre-se o ardente desejo humano de um
Deus que os nossos sentidos possam perceber. Em cada Eucaristia podemos tocar
em Jesus, no pão que nos é colocado na mão. Na Igreja primitiva os cristãos
tocavam nos seus próprios olhos e ouvidos com o corpo de Cristo, não apenas
para poderem tocar no Cristo, mas para se deixarem tocar e apalpar
carinhosamente por ele. Jesus pede ainda que lhe deem algo para comer, e ele
come juntamente com os discípulos, participa da refeição com eles. A
Ressurreição cria uma nova comunidade. Nas refeições dos discípulos entre si, o
próprio ressuscitado está no meio deles. Para Lucas, a Eucaristia é sempre um
encontro com o ressuscitado. A intimidade e a alegria de que fala a sua
descrição da refeição pascal devem caracterizar também a celebração da
Eucaristia. Jesus explica a Escritura aos seus discípulos e discípulas, e se
mostra a eles como Deus e homem, como aquele que se tornou realmente ‘ele
mesmo’, a fim de que nós ressuscitemos da alienação para ser ‘nós mesmos’, da
rigidez para a vivacidade, do isolamento para uma convivência nova” (Anselm Grüm – Jesus,
modelo do ser humano – Loyola).
Pe. João Bosco Vieira Leite