21º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Is 22,19-23; Sl 137[138]; Rm 11,33-36; Mt 16,13-20)*

1. Dentro de ciclo litúrgico do ano A, já celebramos o nascimento, o batismo, a paixão, a ressurreição, a ascensão de Jesus e testemunhamos algumas de suas obras. E aí nos chega nesta altura do ano que nos perguntemos: quem é, na realidade, esse Jesus que cada assembleia nos fala e do qual sempre falamos?

2. Também durante a sua vida Jesus não formulou a pergunta no início, mas mais tarde, quando os discípulos estavam preparados para dar uma resposta. Mas a primeira pergunta de Jesus é com relação ao que diz o povo, aqueles de fora, aqueles que ouviram falar de Jesus ou o viram, mas não aderiram a ele.

3. Certamente Jesus não tinha necessidade de saber o que pensam as pessoas a respeito dele. A pergunta serve antes para nós, que cremos. Para algo que devemos descobrir em seguida. Para essa pergunta de Jesus podemos pinçar algumas respostas do nosso tempo, nem sempre fáceis de decifrar.

4. As vozes jovens que tanto movimentou os decênios passados, aparece num filme realizado por eles e para eles: “Jesus Cristo Superstar”. Numa humanização total de Cristo! Um Jesus que está entre os homens – isto é correto – mas há algo nele que vai além daquele horizonte, também se não se tem nem os meios nem a vontade de conduzir até lá a pesquisa.

5. Quem é Jesus de Nazaré? Há hoje também quem a esta pergunta, responda como então: um profeta! São os ‘políticos’, alguns marxistas que abandonaram os preconceitos anticristãos, ou simplesmente, pessoas comprometidas com um mundo mais justo. Profeta, entende-se, da história, não de Deus. Um Jesus com o qual se identificou toda uma geração de ideólogos da revolução e da mudança social.

6. Também filósofos e teólogos tentaram responder a essa pergunta. Para alguns filósofos, Jesus foi uma pessoa que realizou completamente todas as possibilidades do ser humano e que pode, por isso, colocar-se como sentido e modelo da existência humana; alguém em quem Deus se tornou presente. Nele “há” Deus, mas não “é” Deus.

7. Se a Cristo realmente importasse o dizer do povo, ele deveria ter parado por ali, dar-se por satisfeito. Mas sua verdadeira intenção vem com a pergunta seguinte: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Dos discípulos que o conheceram de perto, que escutaram suas palavras, Jesus espera uma resposta diferente daquela do povo.

8. Também hoje Jesus não se contenta que nós saibamos o que diz dele a cultura; quer a nossa resposta, de nós que cremos nele e que nele colocamos nossa esperança. A resposta não se deve certamente inventar. Temos aquela que um dia deu Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”.

9. Nesta está em “germe”, toda a cristologia. Aquela resposta, revivida e aprofundada por todas as gerações cristãs que nos precederam, proclamadas pelos concílios e pelo magistério da Igreja, que chegou até nós, e nós, recitando o credo, não fazemos outra coisa senão repeti-la.

10. Nas suas orações e nos seus ensinamentos a Igreja sempre repete a si mesma esta fé: Jesus não é somente um homem, ou um profeta; é mais do que profeta: é Deus conosco. Esta é, portanto, a resposta da fé à pergunta: Quem é Jesus?

11. As respostas do povo, de ontem e de hoje não representam a fé, representam a “pesquisa”; não vem de cima, mas da Terra, ainda que com interrogações honestas sobre a figura de Jesus. As duas respostas se assemelham ao caminhar dos Magos para Belém e os Magos regressando de Belém: primeiro foram se informando sobre o Menino, depois, o encontrando, o adoraram, considerando-o Deus.

12. Mas a resposta da fé, de tão antiga, pode se tornar insignificante se não a torno minha, se não a interiorizo. É a mim que a pergunta também se dirige. E aqui poderíamos partilhar muitas respostas pessoais que nascem das experiências, como o fizeram os cristãos da primeira geração.

13. Não podemos ignorar que a pesquisa renova a fé e, sobretudo, a encarna. É normal e desejável que nos coloquemos questões a respeito d’Ele, de repensar sua pessoa à luz dos problemas e das exigências sempre novas que afloram na história. Muitos já a fazem para nós. Ainda que as repostas sejam parciais e insuficientes. Muitos não avançam, só tocam na orla do manto. Que Jesus se volte também para eles e os ajudem a descobri-lo totalmente.

14. O silêncio pedido por Jesus ao fim do Evangelho já não vale mais. A nós, seus discípulos, Jesus manda que digamos a todos que ele é o Cristo: e dizê-lo, sobretudo, ao povo que continua a perguntar quem é Jesus de Nazaré.

* com base em texto de Raniero Cantalamessa

Pe. João Bosco Vieira Leite