(Ez 36,23-28; Sl 50[51]; Mt 22,1-14) 20ª Semana do Tempo Comum.
“O Reino dos Céus é como a história do
rei que preparou a festa de casamento do seu filho” Mt 22,2.
“A
parábola pode ser interpretada também como o caminho da encarnação de cada um
individualmente. Essa interpretação individual, que poderíamos chamar também de
interpretação à luz da psicologia profunda, que interpreta tudo no nível do
sujeito como caminho do indivíduo para Deus, remonta a Orígenes. Ele coloca
essa interpretação individual ao lado da eclesial. Ambas têm a sua razão de
ser. Orígenes interpreta a parábola como a ‘união do Logos, o noivo, com a
alma, a noiva, que se realiza pelo casamento espiritual’ (Luz III, 247). Pelo
encontro com o Logos, a alma recebe a imortalidade. O verdadeiro encontro e a
união com o Logos acontece na contemplação, ou seja, na visão de Deus pelo
Espírito. Interpretando a parábola dessa maneira, ela adquire um significado
atual aplicável a cada um de nós, descrevendo o caminho interior da
autorrealização e da unificação com Deus. Todos nós somos convidados para a
festa nupcial. A nossa vocação cristã não quer dizer apenas que devemos cumprir
os mandamentos de Deus, mas que somos convidados a ser um com Deus em Jesus
Cristo. O objetivo de nossa vida é a autorrealização pela qual fundimos com o
nosso núcleo divino. Quantas vezes passamos pelo convite sem lhe dar a devida
atenção! Primeiro, desprezamos o convite que se manifesta em impulsos sutis de
nosso coração. Intuímos que a nossa verdadeira vocação consiste em deixarmo-nos
cair em Deus para nos tornar um com ele. Mas a voz convidativa de Deus é tão
baixinha que não chega a alcançar a nossa consciência. Ou, como lembra a
segunda chamada, temos coisas mais importantes a fazer: aumentar o nosso
patrimônio, correr atrás do sucesso, cuidar dos negócios do dia-a-dia. Às
vezes, sufocamos simplesmente os nossos impulsos internos porque nos
desagradam. Eles não nos deixam em paz. Então preferimos anestesia-los pelo
acúmulo de atividades ou os calamos, matando-os. É o ego que assassina os
servos do rei. O ego não gosta de ser incomodado em suas aspirações egoístas.
Mas o rei envia os seus servos outra vez. Tudo o que há em nós é convidado. Os
que andam pelas estradas são os pobres. O nosso lado pobre se abre mais
facilmente para Deus do que o nosso lado bem-sucedido. Os servos têm ordens de
percorrer todo o reino até onde terminam as estradas. Todos os setores de nossa
alma, toda a nossa história, até mesmo as zonas periféricas de nosso inconsciente,
tudo é convidado a se unir a Deus. Nada fica excluído, nem mesmo o mal. É uma
mensagem consoladora. A única condição da parte de Deus é que demos a devida
atenção ao convite, que ponhamos tudo o que há em nós em relação com ele. Para
mim, a veste nupcial significa que respeito o rei que me convida, que trato com
cuidado tudo o que está em mim, por mais pobre e roto que seja, a fim de pô-lo
em relação com o casamento. Isso requer atenção e cuidado. Não preciso
percebê-lo e revesti-lo com a roupa do amor. Preciso olhar com carinho para
tudo o que há em mim e apresenta-lo a Deus. Aí então posso participar do
banquete nupcial. Todo o meu ser pode unir-se a Deus. Mas, se eu tratar com
desleixo o que sou e tenho, serei expulso da mesa; então, perderei o meu centro
de gravidade e meu interior se cobrirá de trevas. Aquilo que não recebeu a
devida atenção transforma-se em escuridão que me devora e me dilacera por
dentro. É esse o sentido das palavras ‘choro e ranger de dentes’. Se eu não
estiver disposto a encarar a minha própria verdade e a oferece-la a Deus, esta
me destruirá. A minha vida se transformará em choro e lamentações. O mal em mim
se tornará uma fonte de tristeza e de pranto, de desespero e de absurdeza” (Anselm Grün – Jesus,
Mestre da Salvação – Loyola).
Pe. João Bosco Vieira Leite