Segunda, 03 de agosto de 2026

(Jr 28,1-17; Sl 118[119]; Mt 14,22-36) 18ª Semana do Tempo Comum.

“E Jesus respondeu: ‘Vem!’ Pedro desce da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus” Mt 14,29.

“De repente, ao reconhecer Jesus, Pedro recobra a sua coragem. Confiando no apoio da proximidade do mestre, ele ousa descer do barco. O barco pode ser a imagem do ego, do qual precisamos sair. Quando o ego é sacudido pelo inconsciente, é necessário sair da própria estreiteza, superando os próprios limites. Mas o barco pode ser também a imagem da comunidade. Na crise mais profunda, não podemos ter certeza de que a comunidade vá sustentar-nos. Nessa hora precisamos descer, para pôr os pés no caminho da confiança. enquanto Pedro mantém os olhos fixos em Jesus, consegue andar sobre a água. O olhar preso em Cristo nos sustenta em meio às incertezas da vida. Mas, quando Pedro dirige o olhar para as ondas, começa a afundar. Enquanto a nossa vida está fixada nos problemas, enquanto enxergamos apenas as vagas, descemos ao fundo. Pedro grita: ‘Senhor, salva-me!’. Com essa descrição do terror de Pedro e com a sua exclamação em forma de prece, Mateus alude ao salmo 69. Nesse salmo, os judeus piedosos – e com eles os cristãos – pedem que Deus os salve da água que chega ‘até a garganta’ e que ameaça leva-los embora. Jesus estende a mão e segura Pedro. A sua advertência não se dirige apenas a Pedro, ela vale para todos os cristãos cuja fé ficou fraca: ‘Homem de pouca fé, porque duvidaste?’ (14,31). É típico do evangelho de Mateus falar em ‘pouca fé’. Com essa expressão, Mateus dirige-se aos seus leitores, cristãos que têm fé, mas uma fé fraca. Ela não resiste às vagas e às tempestades que sacodem os cristãos. Mas, no meio da noite de nossa vida, no meio das tempestades que nos ameaçam está Jesus. Ele quer fortificar a nossa fé. Se confiarmos em Jesus e se permitirmos que ele reconforte a nossa fé, então essa fé será capaz de deslocar montanhas, então poderemos caminhar sobre as águas, então estaremos seguros, mesmo que o chão nos falte debaixo dos pés, que as pessoas nos abandonem, que percamos os bens, que tudo desmorone ao nosso redor” (Anselm Grün – Jesus, Mestre da Salvação – Loyola).

Pe. João Bosco Vieira Leite

18º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Is 55,1-3; Sl 144[145]; Rm 8,35.37-39; Mt 14,13-21) *

1. Aqueles que buscam aprofundar-se na leitura da Palavra de Deus, vez por outra encontram algum termo ou palavra que lhes soa estranho, como, por exemplo, evangelhos sinóticos. Que significa? Identificamos como evangelhos sinóticos os três primeiros evangelhos: Mateus, Marcos e Lucas.

2. Se os pudéssemos colocar lado a lado, os perceberíamos como muito semelhantes em seu conteúdo, ainda que não sejam iguais. E que é possível lê-los, olhá-los, paralelamente, ainda que tenham suas exclusividades e os fatos não sigam a mesma cronologia. O quarto Evangelho escapa dessa categoria.

3. Mas a narrativa da multiplicação dos pães pode ser encontrada nos quatro Evangelhos. O texto pontua para nós algumas atitudes de Jesus. Primeiro, que Ele se preocupa, enche-se “de compaixão” de todos eles, de corpo e alma. Para a alma a Palavra, para o corpo a cura e o alimento.

4. Quem dera, podem pensar alguns, pudesse Ele ainda fazer tal milagre em nosso tempo... O milagre segue acontecendo ao longo das estações nos processos internos da natureza, associados ao trabalho humano, que ao nosso olhar se tornou comum, que a ciência explica. Mas quem “ordena” a natureza para que tudo tenha essa regularidade incrível?

5. Certamente o que Jesus faz é uma outra coisa, mas um gesto confirma o outro. Para quem olha as coisas sobre o olhar da fé, Deus continua multiplicando os pães e os peixes como fez Jesus. Por quê, então, o pão continua a faltar na mesa de tantos? O Evangelho nos traz um pouco de luz.

6. Jesus não tem varinha de condão. Não se trata de mágica. Mas pergunta os que eles têm e os convida a repartir o pouco que têm. Sabemos que a produção, em escala mundial, é suficiente para alimentar os milhares de seres humanos existentes.

7. Como podemos acusar a Deus de não fornecer alimento suficiente para todos, quando a cada ano se destroem milhões de reservas alimentares, chamadas de excedentes, para que o preço não abaixe? Sei que as coisas não são tão simples assim. Tem outras questões a serem levadas em conta e além disso muitos governantes irresponsáveis contribuem para manter muitas populações famintas...

8. Parte da responsabilidade recai também sobre os países ricos, aqui representado pelo garoto anônimo, que em outro evangelista, tem os cinco pães e dois peixes. Longe de partilhá-los, são mantidos em seus alforges. É preciso que alguma desgraça aconteça para movê-los em algum gesto de solidariedade.

9. Mas tenhamos presente um outro gesto de Jesus, muito importante: o modo como se descreve a multiplicação dos pães e dos peixes: “ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães e os deu aos seus discípulos...”.

10. As palavras e gestos de Jesus nos remetem sempre a pensar numa outra multiplicação, que é o seu Corpo eucarístico. Nós vamos encontrar em algumas antigas representações da Eucaristia, em pinturas ou afrescos, uma vasilha contendo cinco pães e ao lado dois peixes.

11. Estamos aqui fazendo também essa multiplicação dos pães: o pão da Palavra de Deus. Um milagre que antigamente se dava só pelos livros, e hoje, com toda tecnologia, podemos partilhar, multiplicar. Recolhemos os “pedaços” para aqueles que não vieram participar desse banquete. Que eles possam ter algo para refletir, pensar. Amém.

* com base em texto de Raniero Cantalamessa.  

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 01 de agosto de 2026

(Jr 26,11-16.24; Sl 68[69]; Mt 14,1-12) 17ª Semana do Tempo Comum.

“E mandou cortar a cabeça de João no cárcere” Mt 14,10.

“A voz austera do Batista ressoou no palácio de Herodes como se fosse uma chicotada que queria açoitar a imoralidade da conduta do rei e, ao condenar o procedimento do rei, dava a conhecer, bem às claras, que também deveriam sentir-se tocados por aquela voz que repreendia todas as situações injustas e imorais, que se alimentavam naquela corte. A fidelidade do profeta não considerou as categorias sociais, mais ainda, começou pelo chefe ou cabeça, pela autoridade, em uma corajosa demonstração de liberdade evangélica; nada pode calar aquela voz denunciante da imortalidade e da injustiça. João era profeta e falava como profeta e vivia como profeta e teve de morrer como profeta. Você não poderá afastar-se de sua missão profética por dificuldades de nenhuma espécie, nem por sofrimentos, humilhações e amarguras de qualquer espécie. Se você é profeta de Cristo, como Cristo é Profeta do Pai, à semelhança dele que chegou até a morte e morte de cruz, deverá estar disposto a chegar aos braços da cruz redentora, sabendo que nem tudo termina na cruz, mas sim na luz da ressurreição. Assim, você deverá denunciar profeticamente, com sua palavra e sobretudo com seu modo concreto de vida, qualquer injustiça e imoralidade. João Batista denunciou o adultério e o escândalo; muitas vezes você deverá denunciar a injustiça e a imoralidade. Sua presença no mundo, por ser a presença de um autêntico profeta, deve desacomodar o mundo não por agressividade, mas por seu exemplo, fazendo com que sua atitude seja uma contínua reprovação para o mundo e seus princípios. Herodes sentiu remorsos pelo crime que cometeu ao mandar decapitar o Batista; por isso, quando lhe chegou a notícia e a fama de Jesus, seu próprio remorso fê-lo crer que Deus tinha vigado seu crime, ressuscitando João Batista. O pecado carrega consigo o castigo do remorso, que força e dilacera a consciência pecadora; com o remorso desaparecem a tranquilidade e a paz. Procurar-se-á muitas vezes silenciar a voz da consciência, mas o aguilhão do remorso causará sempre indisposição e amargura” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

 Pe. João Bosco Vieira Leite