12º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Jr 20,10-13; Sl 68[69]; Rm 5,12-15; Mt 10,26-33) *

1. Ao centro do nosso Evangelho está o esforço de Cristo de libertar-nos do medo. O medo é a nossa condição essencial; ele nos acompanha da infância ao túmulo. A criança tem medo de tantas coisas: de ser abandonado, do escuro, de quem levanta a voz, dos monstros que povoam sua mente para que se comporte...

2. O adolescente tem medo do outro sexo e esse o envolve num complexo de timidez e de inferioridade. O adulto experimenta a angústia do mundo, do futuro, sente sua vulnerabilidade de modo violento e descontrolado. A estes medos tradicionais se juntam aqueles criados pelo próprio progresso: as guerras nucleares, a poluição atmosférica, a IA...

3. O medo é a manifestação do nosso instinto fundamental de conservação. É a reação a uma ameaça à nossa vida, a resposta a um perigo verdadeiro ou possível; do maior medo que é o da morte, aos perigos particulares que ameaçam ou a tranquilidade, ou bem-estar físico, ou nosso mundo afetivo.

4. Em nosso mundo também transitam medos reais e imaginários. As fobias que habitam nosso tempo. Como as doenças, os medos podem ser ou agudos ou crônicos, estes últimos nos acompanharão por toda a vida. O medo, mesmo que crônico, não é um mal em si mesmo. Por vezes é a ocasião em que se revela uma coragem e uma força que se desconhecia.  

5. Só quem conhece o medo, sabe que coisa é a coragem. Este se torna verdadeiramente um mal que consome e não possibilita viver, quando, antes que um estímulo a reagir e motivar a ação, torna-se de desculpa para não agir, qualquer coisa que paralisa. E se transforma em ânsia.

6. A ansiedade se tornou o mal do século e uma das causas principais de enfartos. Vivemos na ansiedade, e por isso não vivemos. A ansiedade é o medo irracional de um algo desconhecido. Um temer sempre, a tudo, um esperar sistematicamente pelo pior e viver sempre com o coração acelerado.

7. Se o perigo não existe, a ânsia o inventa, se existe o aumenta. A pessoa ansiosa sofre sempre o mal duas vezes: primeiramente na previsão e depois na realidade. O que Jesus censura no Evangelho não é tanto o simples medo ou a justa solicitude pelo amanhã, mas a ânsia e o afã: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã, a cada dia basta o seu mal”.

8. O remédio que nos é oferecido pelo Evangelho é a confiança em Deus, crer na providência e no amor do Pai do céu. A verdadeira raiz de todos os medos é aquela de encontrar-se só. O medo da criança, de ser abandonado. Jesus quer nos assegurar que mesmo que todos nos abandonem, Deus não o fará. O seu amor é mais forte que tudo.

9. Próximo fim de semana estaremos celebrando São Pedro e São Paulo. É de Paulo, em sua carta aos Romanos, que recolhemos um conselho prático para vencer o medo. Ele faz uma revisão de todos os perigos que lhe aconteceram na vida. Olha tudo isso à luz da grande certeza de que Deus o ama e conclui triunfalmente: “Mas, em todas essas coisas somos mais que vencedores pela virtude daquele que nos amou” (Rm 8,37).

10. Somos convidados a fazer o mesmo. A olhar a nossa vida, presente e passada, trazer à tona os medos que ali se aninharam, o que nos impediu de aceitar-nos e termos confiança em nós mesmos. Os medos são como fantasmas: precisam do escuro para agir. Precisamos trazê-los à luz, dar-lhes nomes, para que se dissolvam ou os redimensionemos.

11. Para além da sua vida pessoal, Paulo vai alargar o seu olhar sobre o mundo que o rodeia com as incógnitas que aterrorizavam os seres humanos na sua época. Muitas coisas nos ameaçam, e nesse vasto universo nos descobrimos como um grão de areia. Confrontando tudo, Paulo dirá: “Se Deus é por nós, quem será contra nós”?

12. Jesus pode nos ajudar de duas formas: tirando o medo do nosso coração ou nos ajudando a vivê-lo de modo novo, mais livres, tornando-nos uma ocasião de graça para nós mesmos e para os outros. Lembremos a experiência que Ele mesmo faz no jardim das Oliveiras.

13. Ele experimenta o medo em seu maior grau, o da morte, justamente para redimir também esse aspecto da condição humana. Além do incentivo de com Ele levantar-nos, alerta-nos de estarmos atentos aos outros, a sermos mais compreensivos; numa palavra, a sermos mais humanos.

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa

 Pe. João Bosco Vieira Leite