Terça, 29 de setembro de 2026

(Dn 7,9-10.13-14; Sl 137[138]; Jo 1,47-51) Santos Miguel, Gabriel e Rafael.  

“E Jesus continuou: ‘Em verdade, em verdade, eu vos digo, vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” Jo 1,51.

[Bento XVI por ocasião da ordenação episcopal a seis novos bispos:] “O Bispo deve ser um orante, alguém que intercede pelos homens junto de Deus. Quanto mais o fizer, tanto mais compreende também as pessoas que lhe estão confiadas e pode tornar-se para elas um anjo um mensageiro de Deus, que as ajuda a encontrar a sua verdadeira natureza, a si mesmas, e a viver a ideia que Deus tem delas. Tudo isso se torna ainda mais claro se olharmos agora para as figuras dos três Arcanjos cuja festa a Igreja celebra hoje. Antes de tudo está Miguel. Encontramo-lo na Sagrada Escritura sobretudo no Livro de Daniel, na Carta do Apóstolo São Judas e no Apocalipse. Deste Arcanjo tornam-se evidentes nestes textos duas funções. Ele defende a causa da unicidade de Deus contra a soberba do dragão, da ‘serpente antiga’, como diz João. É a perene tentativa da serpente de fazer crer aos homens que Deus deve desaparecer, para que eles se possam tornar grandes; que Deus é um obstáculo para a nossa liberdade e que por isso devemos desfazer-nos dele. Mas o dragão não acusa só Deus. O Apocalipse chama-o também ‘o acusador dos nossos irmãos, que os acusava de dia e de noite diante de Deus’ (12,10). Quem põe Deus de lado, não enobrece o homem, mas priva-o da sua dignidade. Então o homem torna-se um produto defeituoso da evolução. Quem acusa Deus, acusa também o homem. A fé em Deus defende o homem em todas as suas debilidades e insuficiências: o esplendor de Deus resplandece sobre cada indivíduo. É tarefa do Bispo, como homem de Deus, fazer espaço para Deus no mundo contra as negações e defender assim a grandeza do homem. E o que se poderia dizer e pensar de maior sobre o homem a ser o próprio Deus que se fez homem? A outra função de Miguel, segundo a Escritura, é a de protetor do Povo de Deus (cf. Dn 10,21; 12,1). Queridos amigos, sede verdadeiramente ‘anjos da guarda’ das Igrejas que vos serão confiadas! Ajudai o povo de Deus, que deveis preceder o discernimento dos espíritos: a acolher o bem e a recusar o mal, a permanecer e tornar-se sempre mais, em virtude da esperança da fé, pessoas que amam em comunhão com Deus-Amor” (Bento XVI – Um Caminho de Fé Antigo e sempre Novo – Vol. IV – Mokai)

Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 28 de setembro de 2026

(Jó 1,6-22; Sl 16[17]; Lc 9,46-50) 26ª Semana do Tempo Comum.

“Houve entre os discípulos uma discussão para saber qual deles seria o maior” Lc 9,46.

“Jesus conhecia perfeitamente o interior dos corações de seus discípulos; conhecia o que pensavam e o que sentiam; era-lhe patente o que eles planejavam e tramavam em seu íntimo. São Lucas afirma explicitamente que Jesus intuiu seus pensamentos. As ideias excessivamente terrena, que os apóstolos tinham do Messias, fazia-lhes desejar os primeiros postos de maior honra e proveito em seu Reino. Para dar-lhes a conhecer as verdadeiras características do Reino de Deus, apresenta-lhes precisamente a pergunta inquietante que os torturava: ‘Quem é o maior do Reino de Deus?’ E como eles não se atrevessem a responder, serve-se da presença de uma criança para dar-lhes a resposta. O exemplo da criança é uma parábola em ação; o simbolismo parabólico ou o sentido da ação parabólica de Jesus deve ser procurado não tanto na pessoa da criança, quanto no gesto de Jesus que acolhe a criança, o desamparado, o necessitado de proteção, que é exatamente o caso da criança; isto é, não se refere aqui à humildade, mas ao fato de apequenar-se no âmbito social e ante os postos de dignidade e de comando, visto que no ambiente judaico da antiguidade a criança era considerada quase sem valor; o pensamento, ao invés, está na atitude que se há de ter em relação aos postos de responsabilidade. O que Jesus faz com o mínimo da humanidade é o que os seus discípulos devem fazer uns com os outros. A medida da grandeza cristã é dada pela prática da caridade fraterna; Jesus põe a humildade não tanto em um desprezo a si mesmo, e sim na caridade, no serviço aos irmãos. Mostram-se duas ideias: é maior aquele que reconhece sua grande indigência diante de Deus; é maior aquele que ama ao mais humilde” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

26º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Ez 18,25-28; Sl 24[25]; Fl 2,1-11; Mt 21,28-32)*

1. Como de costume em nossa liturgia da Palavra, a 1ª e a 3ª leitura acabam por convergir para um mesmo tema. Tal tema é a responsabilidade pessoal na salvação. A nossa salvação é toda obra ou dom gratuito de Deus. Mas ela só acontece como fruto de nossa livre colaboração e de nossa liberdade. No dizer de Agostinho: “Aquele que te criou sem a tua vontade não te salva se tu não queres”.

2. O sinal dessa liberdade é a capacidade de se converter do mal para o bem, de mal tornar-se bom e, por outro lado, a capacidade de se perverter. Ninguém, portanto, está condicionado irremediavelmente na vida pelo seu passado. É disso que trata a 1ª leitura.

3. Deus não castiga os filhos pelas culpas dos pais ou os pais pelas culpas dos filhos (Cf. Ez 18,20). Cada um tem a possibilidade de se salvar, mas somente se o quiser; sinal disso é o perdão que Deus dá sempre e generosamente a quem decide deixar a vida do mal para converter-se a Ele de todo o coração.

4. Jesus explica essa verdade ao povo de sua época por meio da parábola dos dois filhos convidados pelo pai a trabalhar na vinha. Jesus põe abaixo um modo de pensar sobre quem se salva de fato. A salvação não é um privilégio de um povo que foi escolhido, que disse “sim”, mas na prática não faz a vontade de Deus.

5. A salvação é coisa pessoal e se decide na atitude que cada um assume diante de Deus e de seu anúncio. Todos são admitidos à salvação. Sua eficácia ou não dependerá da livre resposta de cada um, não da casta a que pertence ou de direitos adquiridos.

6. Deus quer ser amado na liberdade não na submissão. Ele se colocou na condição de ter de esperar de nós, de nossa liberdade, antes de pedir-nos que esperássemos em sua salvação. O texto diz mais: além de ser uma adesão livre, deve ser também concreta e eficiente.

7. Não é quem diz “Senhor, Senhor” que entra no Reino dos Céus, mas quem faz a vontade de Deus. Não quem se contenta com pios sentimentos e aspirações, mas quem arregaça as mangas e traduz em gestos e fatos de vida cotidiana a vontade Deus. Assim, fica claro que Jesus prefere aquele que recusa por palavras, mas depois se arrepende e faz aquilo que o pai lhe pediu.

8. Esta parábola de Jesus nos deve fazer refletir atentamente e também tremer de medo a nós cristãos. Sob muitos aspectos, nós estamos, com efeito, nas mesmas condições dos hebreus. Também fomos chamados a trabalhar na vinha, isto é, na Igreja. Desde o “sim” do nosso batismo, outros “sim” estão implícitos na nossa vida cristã.

9. Mas muitas vezes este “sim” disfarça apenas uma recusa real e cria uma mentalidade hipócrita. O risco é que nós nos formamos uma psicologia de salvos por direito, de privilegiados da salvação. A psicologia, por exemplo, do filho mais velho da parábola do Filho pródigo, o qual, tendo ficado sempre em casa, pensa que o pai lhe seja por isso devedor para sempre.

10. O risco é grave porque se nós descuidamos de “procurar com mais diligência consolidar nossa vocação e eleição” (cf. 2Pd 1,10) e mediante uma contínua conversão do coração, é contra nós que se dirige a Palavra de Jesus: “Os publicanos e as meretrizes vos precedem no Reino de Deus”.

11. Dentro desse projeto de salvação oferecido por Cristo, Paulo nos dá algumas sugestões como um programa de vida: “Nada façais por competição e vanglória, mas com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante e não cuide somente do que é seu, mas também do que do outro”.

12. Mas a coisa não funciona se simplesmente vem de fora, mas deve nascer de dentro, com a ajuda d’Aquele que prescruta o espírito e nesse dia da Bíblia, rezamos com o salmista: “Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus da minha salvação; em vós espero, ó Senhor todos os dias!”. E Ele também espera de nós alguma resposta em nossa liberdade!

* com base em texto de Raniero Cantalamessa.

Pe. João Bosco Vieira Leite