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Terça, 29 de setembro de 2026

(Dn 7,9-10.13-14; Sl 137[138]; Jo 1,47-51) Santos Miguel, Gabriel e Rafael.  

“E Jesus continuou: ‘Em verdade, em verdade, eu vos digo, vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” Jo 1,51.

[Bento XVI por ocasião da ordenação episcopal a seis novos bispos:] “O Bispo deve ser um orante, alguém que intercede pelos homens junto de Deus. Quanto mais o fizer, tanto mais compreende também as pessoas que lhe estão confiadas e pode tornar-se para elas um anjo um mensageiro de Deus, que as ajuda a encontrar a sua verdadeira natureza, a si mesmas, e a viver a ideia que Deus tem delas. Tudo isso se torna ainda mais claro se olharmos agora para as figuras dos três Arcanjos cuja festa a Igreja celebra hoje. Antes de tudo está Miguel. Encontramo-lo na Sagrada Escritura sobretudo no Livro de Daniel, na Carta do Apóstolo São Judas e no Apocalipse. Deste Arcanjo tornam-se evidentes nestes textos duas funções. Ele defende a causa da unicidade de Deus contra a soberba do dragão, da ‘serpente antiga’, como diz João. É a perene tentativa da serpente de fazer crer aos homens que Deus deve desaparecer, para que eles se possam tornar grandes; que Deus é um obstáculo para a nossa liberdade e que por isso devemos desfazer-nos dele. Mas o dragão não acusa só Deus. O Apocalipse chama-o também ‘o acusador dos nossos irmãos, que os acusava de dia e de noite diante de Deus’ (12,10). Quem põe Deus de lado, não enobrece o homem, mas priva-o da sua dignidade. Então o homem torna-se um produto defeituoso da evolução. Quem acusa Deus, acusa também o homem. A fé em Deus defende o homem em todas as suas debilidades e insuficiências: o esplendor de Deus resplandece sobre cada indivíduo. É tarefa do Bispo, como homem de Deus, fazer espaço para Deus no mundo contra as negações e defender assim a grandeza do homem. E o que se poderia dizer e pensar de maior sobre o homem a ser o próprio Deus que se fez homem? A outra função de Miguel, segundo a Escritura, é a de protetor do Povo de Deus (cf. Dn 10,21; 12,1). Queridos amigos, sede verdadeiramente ‘anjos da guarda’ das Igrejas que vos serão confiadas! Ajudai o povo de Deus, que deveis preceder o discernimento dos espíritos: a acolher o bem e a recusar o mal, a permanecer e tornar-se sempre mais, em virtude da esperança da fé, pessoas que amam em comunhão com Deus-Amor” (Bento XVI – Um Caminho de Fé Antigo e sempre Novo – Vol. IV – Mokai)

Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 28 de setembro de 2026

(Jó 1,6-22; Sl 16[17]; Lc 9,46-50) 26ª Semana do Tempo Comum.

“Houve entre os discípulos uma discussão para saber qual deles seria o maior” Lc 9,46.

“Jesus conhecia perfeitamente o interior dos corações de seus discípulos; conhecia o que pensavam e o que sentiam; era-lhe patente o que eles planejavam e tramavam em seu íntimo. São Lucas afirma explicitamente que Jesus intuiu seus pensamentos. As ideias excessivamente terrena, que os apóstolos tinham do Messias, fazia-lhes desejar os primeiros postos de maior honra e proveito em seu Reino. Para dar-lhes a conhecer as verdadeiras características do Reino de Deus, apresenta-lhes precisamente a pergunta inquietante que os torturava: ‘Quem é o maior do Reino de Deus?’ E como eles não se atrevessem a responder, serve-se da presença de uma criança para dar-lhes a resposta. O exemplo da criança é uma parábola em ação; o simbolismo parabólico ou o sentido da ação parabólica de Jesus deve ser procurado não tanto na pessoa da criança, quanto no gesto de Jesus que acolhe a criança, o desamparado, o necessitado de proteção, que é exatamente o caso da criança; isto é, não se refere aqui à humildade, mas ao fato de apequenar-se no âmbito social e ante os postos de dignidade e de comando, visto que no ambiente judaico da antiguidade a criança era considerada quase sem valor; o pensamento, ao invés, está na atitude que se há de ter em relação aos postos de responsabilidade. O que Jesus faz com o mínimo da humanidade é o que os seus discípulos devem fazer uns com os outros. A medida da grandeza cristã é dada pela prática da caridade fraterna; Jesus põe a humildade não tanto em um desprezo a si mesmo, e sim na caridade, no serviço aos irmãos. Mostram-se duas ideias: é maior aquele que reconhece sua grande indigência diante de Deus; é maior aquele que ama ao mais humilde” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

26º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Ez 18,25-28; Sl 24[25]; Fl 2,1-11; Mt 21,28-32)*

1. Como de costume em nossa liturgia da Palavra, a 1ª e a 3ª leitura acabam por convergir para um mesmo tema. Tal tema é a responsabilidade pessoal na salvação. A nossa salvação é toda obra ou dom gratuito de Deus. Mas ela só acontece como fruto de nossa livre colaboração e de nossa liberdade. No dizer de Agostinho: “Aquele que te criou sem a tua vontade não te salva se tu não queres”.

2. O sinal dessa liberdade é a capacidade de se converter do mal para o bem, de mal tornar-se bom e, por outro lado, a capacidade de se perverter. Ninguém, portanto, está condicionado irremediavelmente na vida pelo seu passado. É disso que trata a 1ª leitura.

3. Deus não castiga os filhos pelas culpas dos pais ou os pais pelas culpas dos filhos (Cf. Ez 18,20). Cada um tem a possibilidade de se salvar, mas somente se o quiser; sinal disso é o perdão que Deus dá sempre e generosamente a quem decide deixar a vida do mal para converter-se a Ele de todo o coração.

4. Jesus explica essa verdade ao povo de sua época por meio da parábola dos dois filhos convidados pelo pai a trabalhar na vinha. Jesus põe abaixo um modo de pensar sobre quem se salva de fato. A salvação não é um privilégio de um povo que foi escolhido, que disse “sim”, mas na prática não faz a vontade de Deus.

5. A salvação é coisa pessoal e se decide na atitude que cada um assume diante de Deus e de seu anúncio. Todos são admitidos à salvação. Sua eficácia ou não dependerá da livre resposta de cada um, não da casta a que pertence ou de direitos adquiridos.

6. Deus quer ser amado na liberdade não na submissão. Ele se colocou na condição de ter de esperar de nós, de nossa liberdade, antes de pedir-nos que esperássemos em sua salvação. O texto diz mais: além de ser uma adesão livre, deve ser também concreta e eficiente.

7. Não é quem diz “Senhor, Senhor” que entra no Reino dos Céus, mas quem faz a vontade de Deus. Não quem se contenta com pios sentimentos e aspirações, mas quem arregaça as mangas e traduz em gestos e fatos de vida cotidiana a vontade Deus. Assim, fica claro que Jesus prefere aquele que recusa por palavras, mas depois se arrepende e faz aquilo que o pai lhe pediu.

8. Esta parábola de Jesus nos deve fazer refletir atentamente e também tremer de medo a nós cristãos. Sob muitos aspectos, nós estamos, com efeito, nas mesmas condições dos hebreus. Também fomos chamados a trabalhar na vinha, isto é, na Igreja. Desde o “sim” do nosso batismo, outros “sim” estão implícitos na nossa vida cristã.

9. Mas muitas vezes este “sim” disfarça apenas uma recusa real e cria uma mentalidade hipócrita. O risco é que nós nos formamos uma psicologia de salvos por direito, de privilegiados da salvação. A psicologia, por exemplo, do filho mais velho da parábola do Filho pródigo, o qual, tendo ficado sempre em casa, pensa que o pai lhe seja por isso devedor para sempre.

10. O risco é grave porque se nós descuidamos de “procurar com mais diligência consolidar nossa vocação e eleição” (cf. 2Pd 1,10) e mediante uma contínua conversão do coração, é contra nós que se dirige a Palavra de Jesus: “Os publicanos e as meretrizes vos precedem no Reino de Deus”.

11. Dentro desse projeto de salvação oferecido por Cristo, Paulo nos dá algumas sugestões como um programa de vida: “Nada façais por competição e vanglória, mas com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante e não cuide somente do que é seu, mas também do que do outro”.

12. Mas a coisa não funciona se simplesmente vem de fora, mas deve nascer de dentro, com a ajuda d’Aquele que prescruta o espírito e nesse dia da Bíblia, rezamos com o salmista: “Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus da minha salvação; em vós espero, ó Senhor todos os dias!”. E Ele também espera de nós alguma resposta em nossa liberdade!

* com base em texto de Raniero Cantalamessa.

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 26 de setembro de 2026

(Ecl 11,9—12,8; Sl 89[90]; Lc 9,43-45) 25ª Semana do Tempo Comum.

“Mas os discípulos não compreendiam o que Jesus dizia. O sentido lhes ficava escondido, de modo que não podiam entender; e eles tinham medo de fazer perguntas sobre o assunto” Lc 9,45.

“Este evangelho apresenta-nos Jesus e seus discípulos em um dos muitos momentos que, seguramente, foram-se repetindo, sobretudo à medida que se aproximava o momento de Jesus enfrentar sua paixão e morte. Por um lado, Jesus, cuidando de convencer os discípulos da necessidade de o Filho do Homem sofrer e morrer, e, por ouro lado, os apóstolos, em uma atitude de fechamento apertado de espírito, não só não entendendo, mas como adverte o evangelista, ‘não querendo entender’ o que Jesus lhes dizia; na cabeça deles não cabia que Jesus tivesse terminado na cruz. Os caminhos de Deus, a palavra de Deus, as coisas de Deus, são de difícil entendimento, mas não é isso o que nos é pedido; antes, se nos exige que aceitemos viver as coisas de Deus na dimensão do evangelho e, para isso, é preciso aceita-las com espírito de fé: de fé que não entende, mas fé que aceita e se entrega cegamente com a certeza de entregar-se à verdade, porque se entrega ao amor” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sexta, 25 de setembro de 2026

(Ecl 3,1-11; Sl 143[144]; Lc 9,18-22) 25ª Semana do Tempo Comum.

“Mas Jesus perguntou: ‘E vós, quem dizeis que eu sou?’ Pedro respondeu: ‘O Cristo de Deus’” Lc 9,20.

“Atualmente como no passado, a presença de Jesus é questionada, porque tanto em nossos dias quanto outrora sua presença questiona o mundo. Jesus Cristo é sempre o grande questionamento que se coloca diante de todas as realidades da vida, diante da própria vida. Diante disso reage-se de muitos e diferentes formas, em não poucas ocasiões contraditórias, respostas que se opõem ao evangelho e evangelho que contradiz muitas respostas. Para poder descobrir quem é Jesus Cristo é preciso recorrer à fé; somente a fé é capaz de penetrar o mistério profundo que a personalidade de Jesus encerra. O apóstolo Pedro, iluminado pela luz do Espírito Santo, penetra e descobre a personalidade de Jesus e por isso responde: ‘Tu és o Cristo de Deus’ (v. 20), o escolhido de Deus, o Filho de Deus. O mundo de hoje, crente ou não crente, continua repetindo a pergunta transcendental: ‘Quem é Jesus?’ Pergunta transcendental, pois da atitude que se adote diante dela, da resposta que se lhe dê dependerá, portanto, a vida daquele que responde. Também a você continuamente e em todos os lugares que você frequenta o mundo está questionando: Quem é Jesus? Quem você acredita que é Jesus? O que é para você e para sua vida? Você deve responder com sua palavra clara e sem receios e com o testemunho de sua vida, que respalde suas palavras. Mais ainda: você deve viver e agir de tal forma que já fique inútil a pergunta, pois você está dando a resposta antes que lhe perguntem e a está dando respaldada na convincente força de sua vida. Jesus é o Cristo de Deus, o ungido do Pai para trazer ao mundo a salvação; portanto, será inútil esperar a salvação em outro que não seja Jesus Cristo; ‘porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos’ (Atos 4,12). Jesus Cristo é, pois, nossa esperança e o realizador dessa esperança; ele é a promessa e o realizador da promessa. Se você quiser chegar a descobrir, como Pedro, os segredos de Jesus Cristo e da missão de Jesus Cristo, é preciso que se ponha na disposição de ser iluminado pelo Espírito Santo, único que é capaz de descobrir às almas espirituais ‘qual seja a largura, o cumprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer a caridade de Cristo, que desafia todo conhecimento’ (Efésios 3,18-19)” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Quinta, 24 de setembro de 2026

(Ecl 1,2-11; Sl 89[90]; Lc 9,7-9) 25ª Semana do Tempo Comum.

“Então Herodes disse: ‘Eu mandei degolar João. Quem é esse homem sobre quem ouço falar essas coisas?’

E procurava ver Jesus” Lc 9,9.

“A perplexidade de Herodes tinha razão de ser. Quiçá o governante prepotente se sentisse ameaçado pelos grandes feitos de Jesus. Este se mostrava mais poderoso que o tetrarca romano, ao curar as doenças do povo e recuperar-lhe a alegria e a esperança de viver. Além disso, as multidões que se agrupavam em torno dele poderiam constituir-se num problema de segurança. E se resolvessem promover uma revolta? Todas as explicações dadas pelo povo para definir a identidade de Jesus eram descartadas por Herodes. Todas se baseavam na fé na ressurreição dos mortos, a qual o tetrarca rejeitava. Ele não acreditava que João, nem Elias, nem algum dos antigos profetas tivessem ressuscitado. Quanto a João, tinha absoluta certeza de tê-lo degolado. Daí seu desejo de avistar-se pessoalmente com Jesus. ‘Deseja vê-lo’. Com que finalidade? Para armar-lhe uma cilada, eliminando-o de forma premeditadamente perversa? Para ouvir da própria boca de Jesus uma definição convincente sobre a sua identidade? Para exigir dele a realização de algum milagre, a partir do qual pudesse tirar as suas conclusões? Para desmascará-lo como impostor? Não sabemos! Herodes só terá a chance de vê-lo por ocasião da paixão, quando lhe for apresentado por ser governador da Galileia, pátria de Jesus. Este, porém, se manterá calado, recusando-se a dirigir uma só palavra a quem era movido por má-fé. Herodes haverá de morrer sem saber, afinal, quem era Jesus de Nazaré. – Pai, diversamente dos inimigos de Jesus, quero conhecer a identidade e a missão de teu Filho, pois é por ele que me guiarei para ser fiel a ti” (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Quarta, 23 de setembro de 2026

(Pr 30,5-9; Sl 118[119]; Lc 9,1-6) 25ª Semana do Tempo Comum.

“... e enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os enfermos”. Lc 9,2.

“Os discípulos reunidos em volta de Jesus formam uma unidade. Receberam d’Ele a Palavra e agora não podem guardá-la só para si; pelo contrário, é tarefa deles semeá-la no mundo inteiro, para que produza fruto. O Mestre envia os Doze como Ele mesmo fora enviado pelo Pai, dá-lhes a autoridade sobre os demônios e, como sinal disso, o poder de curar as doenças. [Compreender a Palavra:] Os Apóstolos até agora acompanharam Jesus. No texto de hoje, pela primeira vez, estão sozinhos e devem compreender aquilo que viram que Ele fez. É o que sucederá depois da Ascensão, quando o Senhor estiver junto deles de um outro modo. Os Doze devem ir pelo mundo, privando-se daquilo que qualquer viajante normal deveria possuir: o bastão de viagem; a bolsa com provisões; o dinheiro; a roupa suplente. A sua única preocupação deve ser a missão; o Pai, a quem eles servem, providenciará o resto. De fato, mais tarde, terão de admitir que nada lhes faltou (cf. Lc 22,35). Os Apóstolos devem ir pelas casas e lá cumprir a sua missão. A casa deve tornar-se o centro da sua ação. Mas como Jesus fez, também eles não devem deter-se, mas espalhar a Boa Notícia noutro lugar, não devem perder tempo com quem não quer saber deles. Com as cidades que não quiserem acolhê-los, deverão comportar-se como os judeus quando, ao regressarem à sua terra vindos de um território pagão, ‘sacodem o pó dos seus pés’ (cf. v. 5): o pó dos lugares impuros não deve misturar-se com o da Terra Santa. E os Apóstolos partem, anunciam a Boa Notícia de que o tempo da salvação para todos já chegou. Como sinal disso, os doentes são curados” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Tempo Comum – Vol. II] – Paulus).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Terça, 22 de setembro de 2026

(Pr 21,1-6.10-13; Sl 118[119]; Lc 8,19-21) 25ª Semana do Tempo Comum.

“A Palavra de Deus é comprovada. Ele é um escudo para os que nele se abrigam” Pr 30,5

“O sábio passa a sua vida procurando a Palavra de Deus. Sabe que JWHW é Criador e, portanto, tudo no mundo deve espelhar a Sua ordem e a Sua justiça. O trecho de hoje enumera uma série de provérbios que dizem respeito, sem uma ordem precisa, às virtudes a praticar, que opõem o justo e o malvado. Um papel importante é dado à atenção ao pobre cujo grito, na Escritura, jamais deixa indiferente o coração de Deus. [Compreender a Palavra:] O discípulo do sábio deve aprender humildemente, todos os dias, a ter discernimento e a distinguir aquilo que é justo aos olhos de Deus. Para o homem sem discernimento, tudo está bem, porque no fundo ele pensa que é ele que estabelece o que é bem e o que é mal. Como de resto fez o primeiro homem, Adão: ‘Aos olhos do homem todos os caminhos parecem retos” (v.2a). Mas deve ser o Senhor a dizer se esses caminhos levam à vida ou à morte: ‘O Senhor é que pesa os corações’ (v. 2b). Há uma maneira concreta de o sábio demonstrar a sua religiosidade para com Deus, honrando o próximo fora do Templo: ‘Praticar a justiça e o direito vale mais do que o sacrifício aos olhos do Senhor’ (v. 3). Este novo culto inclui o abandono do caminho tortuoso do crime, agir com sinceridade para com o próximo, não desejar o mal dele, não ser arrogante” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Tempo Comum – Vol. II] – Paulus).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 21 de setembro de 2026

(Ef 4,1-7.11-13; Sl 18[19ª]; Mt 9,9-13) São Mateus, Apóstolo e Evangelista.

“Jesus viu um homem, chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos e disse-lhe: ‘Segue-me!’

Ele se levantou e seguiu a Jesus” Mt 9,9.

“Continuando com a série de descrições dos doze apóstolos que iniciamos há algumas semanas, hoje nos deteremos em Mateus. A bem verdade, delinear a sua figura é quase impossível, já que as notícias que temos sobre eles são poucas e fragmentárias. Em lugar de sua biografia, podemos traçar seu perfil, de acordo com o que nos conta o Evangelho. Ele sempre aparece na lista dos Doze escolhidos por Jesus (cf. Mt 10,3; Mc 3,18; Lc 6,15; At 1,13). Seu nome em hebreu significa ‘presente de Deus’. No primeiro Evangelho canônico, que leva a sua assinatura, aparece na lista dos Doze com um qualificativo muito concreto: ‘o cobrador de impostos’ (Mt 10,3). Ele é descrito como uma pessoa que, sentada em seu escritório de cobrador de impostos, é chamada por Jesus para que o siga: ‘Siga-me!’ Ele se levantou e seguiu Jesus’ (Mt 9,9). Marcos (cf. 2,13-17) e Lucas (cf. 5,27-30) também relatam esse chamado quando Mateus estava sentado em seu escritório de arrecadador de impostos, embora o chamem ‘Levi’. Para imaginar a cena descrita em Mateus 9,9 é suficiente recordar o magnífico quadro de Caravaggio, conservado em Roma, na igreja de São Luís dos Franceses. Dos Evangelhos desprende-se outro detalhe biográfico: na passagem que precede este relato do chamado conta-se de um milagre que Jesus realizou em Cafarnaum (cf. Mt 9,1-8; Mc 2,1-12) e alude-se que estava perto do mar da Galileia, quer dizer, do lago de Tiberíades (cf. Mc 2,13-14). Disto se pode deduzir que Mateus exercia a sua função de arrecadador em Cafarnaum, lugar ‘próximo ao mar’ (Mt 4,13), onde Jesus era hóspede habitual na casa de Pedro. Partindo desses escassos dados que se depreendem dos Evangelho, podemos já adiantar um par de reflexões. A primeira é que Jesus acolhe no grupo de seus íntimos um homem que, segundo as ideias em voga em Israel de sua época, era considerado um publicano pecador. Mateus, de fato, não só manejava dinheiro, que era considerado impuro por proceder de gente estranha ao povo de Deus, mas também colaborava com uma autoridade estrangeira odiosamente cobiçosa, que além do mais fixava os tributos de forma arbitrária. Por estes motivos, mais de uma vez os Evangelhos falam de ‘publicanos e pecadores’ (Mt 9,10; Lc 15,1), de ‘publicanos e prostitutas’ (Mt 21,31). Além do mais, veem nos publicanos um exemplo de mesquinhez (cf. Mt 5,46: amam só os que os amam) e mencionam um deles, Zaqueu, como ‘chefe dos cobradores de impostos e muito rico’ (Lc 19,21), enquanto a opinião popular os associava a ‘ladrões, desonestos e adúlteros’ (Lc 18,11). Sendo assim, há um primeiro dado que chama a atenção: Jesus não exclui de ninguém da sua amizade. Ao contrário, precisamente enquanto está à mesa na casa de Mateus-Levi, em resposta a alguém que se mostrava escandalizado pelo fato de que frequentava companhia pouco recomendáveis, pronuncia esta importante declaração: ‘As pessoas que têm saúde não precisam de médico, mas só os que estão doentes. Eu não vim para chamar os justos, e sim os pecadores’ (Mc 2,17)” (Bento XVI – Os Apóstolos e os primeiros discípulos de Jesus – Planeta).

Pe. João Bosco Vieira Leite

25º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Is 55,6-9; Sl 144[145]; Fl 1,20-24.27; Mt 20,1-16)*

1. Para preparar-nos a essa parábola que acabamos de escutar, a liturgia já nos adverte na 1ª leitura que os pensamentos divinos não são como os nossos; e o salmo nos lembra que sua grandeza não pode ser medida. Sim, grande, justo, bom e santo são palavras que faziam parte da oração de Jesus.  

2. Esta é uma das parábolas mais discutidas no Evangelho. Para os ouvintes de Jesus a cena é bastante familiar. No tempo da vindima era necessário contratar mais operários. O proprietário vai à praça para contratar desempregados. E aí acompanhamos um estranho desenrolar com relação ao pagamento dos que foram contratados primeiro, o combinado de um denário, e os demais até os últimos, que receberiam o que seria “justo”.

3. Eis a surpresa: os últimos recebem também um denário, como os primeiros. Estes, indignados, organizam uma delegação e vão protestar contra o patrão, arrastando consigo também os últimos chegados que não tinham nenhum motivo para protestar. O patrão se justifica com calma e conclui dizendo ao mais alvoraçado de todos: “estás com inveja, porque estou sendo bom?”

4. Jesus toma um episódio da vida diária e o transforma em Palavra de Deus: uma palavra em imagens. Com esse pagamento igual para todos, Jesus quer sublinhar algo diferente: a grande recompensa para os últimos! É por esse lado que se deve procurar a resposta. E por que age assim? Porque Ele é bom!

5. A justiça paga conforme o merecido, a bondade olha a necessidade. Os últimos contratados são culpáveis por terem ficado na praça ociosos esperando o patrão para contratá-los, em vez de eles o procurarem. Porém, o patrão, mais que vigiar sua culpa, olha para sua necessidade.

6. Se os últimos tivessem recebido o equivalente a uma hora de trabalho, voltariam para suas famílias com quase nada. O dono se compadece de sua pobreza e por isso manda pagar uma diária inteira. A parábola não descreve um ato arbitrário, mas o gesto de uma pessoa cheia de bondade, generosa e de fina generosidade com os pobres.

7. Deus é assim! – quis dizer Jesus; é tão bom que faz participar de seu Reino também os publicanos e pecadores. Mas o contraponto do pensamento humano é bastante evidenciado na parábola. Estes que murmuram representam os fariseus a quem não agrada o agir de Jesus, que imita o próprio Deus.

8. Assim compreendemos que a parábola nasce de uma situação que se criou ao redor de Jesus: justificar o seu agir e trazer à luz como Deus é, e de que é feito o ser humano.

9. A parábola, na realidade, se volta para a comunidade primitiva que resiste a dirigir-se aos não judeus e aos pagãos. São estes os convidados da última hora que agora se tornavam, de repente, herdeiros do Reino com os mesmos direitos. Lendo aos Atos dos Apóstolos, percebemos essa dificuldade que teve, à sua frente, a ação do apóstolo Paulo.

10. Também ao nosso tempo, Deus está dizendo que não aceita absolutamente, que alguém ponha limites à sua bondade e decida quem está com ele ou contra ele. Os protetores da religião não podem pretender ser também protetores de Deus, como em algumas situações, onde alguns se arvoram em decidir sozinhos quem pode ou não ter acesso a um superior.

11. A Palavra nos convida a uma autocrítica. Certamente já não chamamos publicanos e pagãos aos últimos. Eles têm outros nomes e, sem apercebermo-nos, os consideramos, às vezes, inimigos de Deus. A culpa disso não é certamente toda nossa, talvez seja mais de “outros” que dividem as pessoas em amigos e inimigos.

12. Os caminhos de Deus não são os nossos. Não se quer dizer com isso que devemos entende-lo por força; devemos somente adorá-lo e ser-lhe gratos por esses critérios, tão diferentes dos nossos. E aqui nos reunimos agradecidos e humildes como aqueles últimos chegados da parábola e que foram receber o que lhes era justo e voltaram para casa alegres por causa da generosidade do dono. O que recebemos é o próprio Jesus.

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa.  

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 19 de setembro de 2026

(1Cor 15,35-37.42-49; Sl 55[56]; Lc 8,4-15) 24ª Semana do Tempo Comum.

“A parábola quer dizer o seguinte: a semente é a Palavra de Deus” Lc 8,11.

“Temos a ventura de que a parábola, proposta pelo Senhor, foi nos explicada e interpretada por ele próprio. Não precisamos recorrer a lugares paralelos, nem ter presente os costumes daqueles tempos. Esta parábola, mais do que explicação, precisa pé de reflexão. O semeador é Deus que, abundantemente e com liberalidade, semeia a semente de sua palavra no coração do homem, que é a terra que a recebe. Deus semeia de muitos modos e com mão pródiga: inspirações íntimas, remorsos de consciência, sermões, livros escolhidos, conselhos prudentes, bons exemplos, palavra encorajadoras; como também Deus nos fala por meio das próprias contrariedades da vida e das próprias infelicidades. Parte da semente cai junto do caminho; é a palavra de Deus que cai em terreno endurecido, um coração sem fé e sem amor; falta a boa vontade; o que se tem é simplesmente um desejo vago, mas não uma vontade firme e decidida de dispor tudo, para que a semente da palavra de Deus produza seus frutos, seja fecunda. Outra parte da semente caiu entre os espinhos e sarças; isso acontece quando a palavra de Deus cai em corações superficiais; há neles algo como que uma disposição aparente, que os faz receber a palavra de Deus com alegria, mas é mais aparente que real; existe neles muita inconstância e muita superficialidade; falta-lhes a profundidade da reflexão e por isso correm afanosamente para tudo que é terreno e efêmero; a palavra de Deus não pode tampouco enraizar-se nesses corações e fecunda-los. Não faltam ainda aqueles que recebem a palavra de Deus e neles essa palavra fica sufocada pelas ervas e matagais; são aqueles que envolvidos pelos negócios materiais não têm outra preocupação senão o dinheiro, as comodidades, o prazer. Finalmente existem outros corações bem dispostos; neles a palavra de Deus produz frutos abundantes e bem desenvolvidos; neles a palavra de Deus converte-se em salvação e em vida, a palavra de Deus encarna-se em cada um de seus atos e circunstâncias, guiam-se pelas luzes e ditames da palavra de Deus. ‘A semente é a palavra de Deus’ (v. 11); mas essa semente precisa ser cultivada, cuidada, postas nas devidas condições climáticas e de unidade. Cuide, pois, da palavra de Deus, afim de que produza em você os devidos frutos de salvação e santificação. Crer e não mudar de vida, não produzir frutos de boas obras, indica falsidade na fé. A iniciativa vem de Deus; mas não atua de modo mágico; o homem é ‘alguém’ para Deus; é um sujeito em diálogo com ele, que pode abrir-se ou fechar-se para a palavra. Deus semeia sobre todos os campos.  Ele, que faz vir o sol sobre justos e injustos, não exclui ninguém do Reino. São os homens que se fecham ao amor” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

 

Sexta, 18 de setembro de 2026

(1Cor 15,12-20; Sl 16[17]; Lc 8,1-3) 24ª Domingo do Tempo Comum.   

“Jesus andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa-nova do Reino de Deus.

Os doze iam com ele” Lc 8,1.

“Lucas gosta da proposição ‘syn’, ‘com’. Estamos a caminho com Jesus, ele nos leva consigo no caminho da transformação. Jesus quer nos formar de acordo com a sua própria imagem. Lucas mostra isso sobretudo nos Atos dos Apóstolos. O tema do viajar caracteriza a atividade dos discípulos de Jesus. Os apóstolos viajam pelo império romano para levar adiante a mensagem de Jesus. Na força do espírito de Jesus, e repletos dele, eles levam a salvação de Deus aos homens. Se Jesus andou da Galileia até Jerusalém a fim de cumprir o seu destino e com isso as promessas de Deus, os discípulos de Jesus viajam de Jerusalém a Roma, a capital do Império romano. O centro do mundo é iluminado pela alegre mensagem de Jesus. A história de Jesus só se realiza plenamente quando o mundo inteiro estiver compenetrado pelo espírito de Jesus. A reação do povo aos discípulos de Jesus é semelhante à sua reação a Jesus. Todos têm a impressão de que nos discípulos o próprio Deus os visita. Quando Paulo, em Listra, cura um paralítico, o povo pensa que os deuses desceram em forma humana (At 14,11s). E quando Paulo sacode uma víbora que o mordeu e a joga no fogo sem ela lhe fazer mal, os nativos de Malta pensam: ‘É um deus!’ (At 28,6)” (Anselm Grün – Jesus, Modelo do ser humano – Loyola).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Quinta, 17 de setembro de 2026

(1Cor 15,1-11; Sl 117[118]; Lc 7,36-50) 24ª Semana do Tempo Comum.

“Então, os convidados começaram a pensar: ‘Quem é este que até perdoa pecados?

Mas Jesus disse à mulher: ‘Tua fé te salvou. Vai em paz!’” Lc 7,50.

“Lucas escreveu muita coisa sobre pecadores (cf. Lc 15), e mencionou muitas vezes o perdão dos pecados como o aspecto central da salvação (At 2,38). Isso, porém, não exprime uma imagem pessimista do ser humano. Em si, o ser humano não é ruim. Ele tem um núcleo bom. Frequentemente, porém, ele vive se desconectando consigo mesmo e com sua própria verdade. Pecador é aquele que não realiza a sua vida, que não acerta o alvo e, por isso, condena e rejeita a si mesmo. Quando muda de rumo e se deixa batizar em nome de Jesus, ele há de experimentar o perdão dos seus pecados, e de receber o Espírito Santo. Ele há de experimentar uma incondicional confirmação da sua existência, e dentro de si uma força que o preservará de sempre de novo cair nos mesmos padrões de uma vida errada. Essa é uma mensagem que os gregos sabiam apreciar muito bem. Para eles tratava-se, sempre de novo, da questão do caminho certo. Como encontrarei o meu caminho? Qual é o caminho que leva à vida? O pecado leva-nos por caminhos errados, não alcançamos a meta. O encontro com Jesus abre-nos um caminho em que nossa vida vai dar certo. No encontro com Jesus libertamo-nos dos fracassos da história da nossa vida, e ficamos repletos do Espírito Santo. O Espírito Santo nos torna capazes de viver de outra maneira, de viver segundo o modelo de vida de Jesus. Segundo o evangelho de Lucas, Jesus não expiou pela sua morte os nossos pecados, nem os limpou por ablução. Ele prometeu de uma maneira nova o perdão de Deus, confirmando-o e selando-o com a sua vida. Nisso consiste a Boa Nova de Lucas: o próprio Jesus nos abre os olhos, de sorte que podemos ver nós mesmos e o mundo de outra maneira. Nesse auto entendimento consiste a conversão, o novo pensar, a nova visão que Jesus nos intermediou. Não precisamos operar a nossa conversão pela nossa própria força para andarmos por outros caminhos, para agirmos de outra maneira, iluminados por essa nova visão. Não precisamos de um programa penoso de ajuda para a vida, como hoje é oferecida em numerosos livros. O próprio Espírito Santo nos impele para andarmos pelo ‘novo caminho’, o caminho para a verdadeira vida. Dará certo a vida daquele que consente em enveredar pelo caminho novo que Jesus abriu” (Anselm Grün – Jesus, Modelo do ser humano – Loyola).  

Pe. João Bosco Vieira Leite

 

Quarta, 16 de setembro de 2026

(1Cor 12,31—13,13; Sl 32[33]; Lc 7,31-35) 24ª Semana do Tempo Comum.

“Pois veio João Batista, que não comia nem bebia vinho, e vós dissestes: ‘Ele está com um demônio’” Lc 7,33.

“O mundo todo interpreta-o mal e distorcidamente. Para ele, tudo é mau e mesmo as próprias ações dos santos mal interpretadas, uma vez que quando o fato em si não só é bom, mas aparece como bom, suspeita-se pelo menos das intenções pelas quais se faz o ato bom. O evangelho pede-lhe que sempre pense bem de todos e que, quando não puder justificar o ato em si, deve pelos menos justificar as intenções com as quais se realizou o ato. Não deve você pensar mal de ninguém e nunca: porque ninguém o constituiu juiz de seu irmão; isso é algo que Deus se reserva para si mesmo e do qual não faz partícipe nenhuma criatura; porque, para julgar alguém, é preciso e é indispensável o conhecimento total e adequado tanto da pessoa que realiza o ato, quanto das intenções e motivos que a impulsionam para agir, como também o critério que se formou das coisas e, em particular, do fato realizado. E você nada disso pode saber nem conhecer. Portanto, a mais indispensável prudência exige de você que se abstenha de emitir qualquer julgamento sobre os atos de seu próximo. Se você não é capaz de julgar-se a si mesmo, porque desconhece toda a amplitude da responsabilidade que lhe compete, muito menos poderá conhecer a parte de responsabilidade que tem seu próximo nos atos que realiza” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Terça, 15 de setembro de 2026

(Hb 5,7-9; Sl 30[31; Jo 19,25-27) Bem-aventurada Virgem Maria das Dores.

“Perto da cruz de Jesus, estavam de pé a sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena”

Jo 19,25.

“Ontem celebramos a Cruz de Cristo, instrumento da nossa salvação, que nos revela em plenitude a misericórdia do nosso Deus. A Cruz é realmente o lugar onde se manifesta perfeitamente a compaixão de Deus pelo nosso mundo. Hoje, ao celebrarmos a memória de Nossa Senhora das Dores, contemplamos Maria que partilha a compaixão do Filho pelos pecadores. Como afirmava São Bernardo, a Mãe de Cristo entrou na Paixão do Filho através da sua compaixão (cf. Homilia do Domingo na Oitava da Assunção). Ao pé da Cruz cumpre-se a profecia de Simeão: o seu coração de Mãe é transpassado (cf. Lc 2,15) pelo suplício infligido ao Inocente, nascido da sua carne. Tal como Jesus chorou (cf. Jo 11,35), também Maria terá certamente chorado diante do corpo torturado do Filho. Todavia, a sua discrição impede-nos de medir o abismo da sua dor; a profundidade desta aflição é apenas sugerida pelo tradicional símbolo das sete espadas. Como sucedeu com seu Filho Jesus, é possível afirmar que este sofrimento levou-A também a Ela à perfeição (cf. Hb 2,10), de modo a torna-La capaz de acolher a nova missão espiritual que o Filho lhe confia imediatamente antes de ‘entregar o espírito’ (cf. Jo 19,30): tornar-se a Mãe de Cristo nos seus ombros. Naquela hora, através da figura do discípulo amado, Jesus apresenta cada um dos seus discípulos à Mãe dizendo-lhe: ‘Eis o teu filho’ (cf. Jo 19,26-27). Maria vive hoje na alegria e Glória da Ressurreição. As lágrimas derramadas ao pé da Cruz transformaram-se num serviço num sorriso que nada apagará, embora permaneça intacta a sua compaixão materna por nós. Atesta-o a intervenção da Virgem Maria em nosso socorro ao longo da História e não cessa de suscitar por Ela, no povo de Deus, uma confidência inabalável: a oração ‘Memorare’ (‘Lembrai-Vos’) exprime muito bem este sentimento. Maria ama cada um dos seus filhos, concentrando a sua atenção de modo particular naquele que, como o Filho d’Ela na hora da Paixão, se acham mergulhados no sofrimento; ama-os simplesmente porque são seus filhos, por Vontade de Cristo na Cruz” (Bento XVI – Um Caminho de Fé Antigo e sempre Novo – Vol. IV – Mokai).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 14 de setembro de 2026

(Nm 21,4-9; Sl 77[78]; Jo 3,13-17) Exaltação da Santa Cruz.

“Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto,

assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado” Jo 3,14.

“No Ano dedicado à Eucaristia, esta comemoração adquire um significado particular: ela convida-nos a meditar sobre o vínculo profundo e indissolúvel que une a Celebração Eucarística e o Mistério da Cruz. Com efeito, cada Santa Missa atualiza o Sacrifício redentor de Cristo. Até o Gólgota e à ‘hora’ da Morte na Cruz – escreve o amado Papa João Paulo II, na Encíclica ‘Ecclesia de Eucharistia’ – ‘se deixa transportar em espírito cada presbítero ao celebrar a Santa Missa, juntamente com a comunidade cristã que nela participa’ (n. 4). Portanto, a Eucaristia é o memorial de todo o Mistério Pascal: Paixão, Morte, descida à mansão dos mortos, Ressurreição e Ascensão ao Céu; e a Cruz é a manifestação enternecedora do ato de amor infinito, com o Filho de Deus salvou o homem e o mundo do pecado e da morte. Por isso, o Sinal da Cruz é o gesto fundamental da nossa oração, da prece do cristão. Fazer o Sinal da Cruz, como agora faremos com a Bênção, significa pronunciar um sinal visível e público Àquele que morreu por nós e que ressuscitou, ao Deus que na humildade e da debilidade do seu amor é o Onipotente, mais vigoroso que todo o poder e inteligência do mundo. Após a consagração na Santa Missa, a assembleia dos fiéis, consciente de se encontrar na Presença Real de Cristo crucificado e ressuscitado, assim aclama: ‘Anunciamos, Senhor, a vossa Morte e proclamamos a vossa Ressurreição. Vinde Senhor Jesus’. Com os olhos da fé, a Comunidade reconhece Jesus vivo, com os sinais da sua Paixão e, juntamente com Tomé, repleta de surpresa, pode repetir: ‘Meu Senhor e meu Deus!’ (Jo 20,28). A Eucaristia é o Mistério de Morte e de Glória, como a Cruz, que não constitui um acidente de percurso, mas a passagem através da qual Cristo entrou na sua Glória (cf. Lc 24) e reconciliou a humanidade inteira, derrotando toda a inimizade. Por isso, a liturgia convida-nos a rezar com esperança confiante. ‘Mane nobiscum Domine!’ Permanecei conosco, Senhor, que com a vossa santa Cruz remistes o mundo! Maria, presente no Calvário junto da Cruz, está igualmente presente, com a Igreja e como Mãe da Igreja, em cada uma das nossas Celebrações eucarísticas (cf. Carta Encíclica ‘Ecclesia de Eucharistia’, 57). Por isso, ninguém melhor que Ele pode ensinar-nos a compreender e viver com fé e amor a Santa Missa, unindo-nos ao Sacrifício redentor de Cristo. Quando recebemos a sagrada Comunhão, também nós, como Maria e a Ela unidos, nos estreitamos ao madeiro que Jesus, mediante o seu amor, transformou em instrumento de salvação, e pronunciamos o nosso ‘Amém’, o nosso ‘sim’ ao Amor crucificado e ressuscitado” (Bento XVI – Um Caminho de Fé Antigo e sempre Novo – Vol. IV – Mokai) 

Pe. João Bosco Vieira Leite

24º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Eclo 27,33—28,9; Sl 102[103]; Rm 14,7-9; Mt 18,21-35) *

1. No domingo anterior, a Palavra de Deus levou-nos a refletir sobre o dever da correção fraterna; hoje nos propõe o grande tema do perdão, como uma espécie de comentário ao pedido de perdão que fazemos ao rezar o Pai-Nosso.

2. Em torno do perdão gira toda a radicalidade evangélica. A pergunta de Pedro tem por base toda uma discussão presente no Antigo Testamento, como ilustra a 1ª leitura. E Pedro pensa estar sendo generoso em sua proposta, quando Jesus lhe responde de modo radical: perdoar sempre, também o inimigo, mesmo a quem continua a pagar o bem com o mal.

3. A parábola que se segue quer ilustrar que o ser humano é um grande devedor de Deus, a quem deve tudo, a começar do seu ser. Ao mesmo tempo salienta o pequeno crédito que alguém pode ter perante as outras pessoas. E mesmo assim, Deus é capaz de perdoar, o ser humano não!

4. E assim, somos levados a concluir que devemos perdoar porque Deus nos perdoou e para que Deus nos perdoe! Mas esta não é a única motivação. Se a tomarmos isoladamente, levaria a pensar numa forma de cálculo e de sutil egoísmo.

5. A motivação de Jesus é a misericórdia, um sentimento feito de compreensão, de identificação com o irmão, de solidariedade e de humildade.

6. A misericórdia nos ajuda a ver no irmão, especialmente quando ofende sem motivo, mais um infeliz do que uma pessoa má, ela nos faz pensar em nossa experiência (é quando passamos por dificuldades que somos mais amargos e agressivos com os outros); ajuda-nos a alargar o coração e a ser magnânimos. Se pecar é humano, como diziam os antigos, perdoar é ainda mais humano.

7. Misericórdia é palavra composta de duas raízes: miséria e coração; trata-se, com efeito, de um sentimento misto de piedade e de compaixão que nasce no coração humano vendo a miséria da condição humana. A misericórdia só acontece em relação ao ser humano. Também Deus é para conosco bom e misericordioso, lembra o salmo de nossa liturgia.

8. Paulo lembrava da necessidade do perdão para situações concretas da vida, especialmente na vida doméstica, convidando-nos a revestir-nos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência. Suportando-nos uns aos outros e perdoando-nos mutuamente (cf. Cl 13,12ss). E isso é fundamental no ambiente familiar.

9. Perdoar é indispensável para manter vivo e sadio um matrimônio, tão importante como amar-se. O perdão, quando é sincero, renova, torna-se ele mesmo fator de crescimento do próprio amor. Perdoar de verdade é um gesto cheio de nobreza, digno do ser humano e indispensável para viver juntos e em paz.

10. Mas atenção: perdoar não significa necessariamente renunciar à luta, quando se trata de injustiças continuadas que se caracterizam como prepotência e injustiça contra nós ou contra os irmãos. São dois sentimentos e atitudes que não se excluem; como não se excluem correção e perdão. Jesus durante a sua vida lutou e perdoou.

11. Mais importante que perdoar é, muitas vezes, pedir perdão. De outra forma cria a mentalidade, falsamente generosa, de quem tem sempre algo a perdoar.

12. Cuidado com certo intimismo: pensar que basta não odiar no coração, sem fazer nenhum gesto externo de perdão. Matar e fazer reviver o irmão, mas tudo em segredo. Não é isto que pretendia Jesus: o perdão que ele deseja é aquele que se manifesta concretamente, que leva à reconciliação: “Deixa tua oferta diante do altar...” (cf. Mt 5,23-24).

13. Nós somos, agora, aqueles que estão oferecendo seu dom sobre o altar. Para nós, portanto, é dirigida a Palavra: Vai reconciliar-te. Que esta Palavra, meditada em nossa assembleia de hoje, nos acompanhe ao voltarmos para casa e que a comunhão com o corpo de Cristo nos dê a força necessária para começar a praticá-la.

* Com base em texto de Raniero Cantalamessa.   

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 12 de setembro de 2026

(1Cor 10,14-22; Sl 115[116]; Lc 6,43-49) 23ª Semana do Tempo Comum.

“Não existe árvore boa que dê frutos ruins nem árvore ruim que dê frutos bons” Lc 6,43.

“Há, em Psicologia, um teste chamado Teste da Árvore, pelo qual o especialista pode detectar os traços básicos da personalidade do seu cliente. A exemplo dessa ciência, e até mesmo antes, muito antes, já tinha a religião o seu teste da árvore, testes cujos princípios Jesus estabeleceu: “... não há arvore boa que dê fruto mau, nem tampouco árvore má que dê fruto bom”. Se, então, o desenho da árvore, em Psicologia, determina o tipo de personalidade que temos, uma religião revela a espécie de fruto que vamos produzir. Como será, pois, o nosso desenho da árvore espiritual? Talvez nem o queiramos ver. Pelos rabiscos de nossos frutos (de mais ou menos para ruins) já temos uma ideia não muito animadora sobre ela: espinhosa, retorcida, ressecada. Dourar os frutos, espaná-los e poli-los bem – será que isso não daria à arvore um outro perfil? Vamos consultar o Mestre para ver o que ele diz: árvore boa dá fruto bom, árvore má dá fruto mau. Bom, então não tem jeito. Cada qual com sua árvore, e seja lá o que Deus quiser. Mas espera aí. O Mestre tem uma solução, solução essa que não passa pelas técnicas de feirantes sabidos, mas pela transformação genética de nossa árvore. Como ele o faz? Ele chama um tal de Espírito Santo, que, em duas etapas, às vezes dolorosas, a reprograma toda: 1º) arranca todas as suas raízes e galhos e retira também toda a sua seiva natural; 2º) implanta as raízes da fé e os galhos do perfeito conhecimento de Deus e ainda instila a seiva do amor. Pronto! Eis a nova árvore que vai produzir fruto bom. Para finalizar, só umas perguntinhas a mais: como estão os nossos frutos? Valeu o trabalho do Espírito Santo? Ou será que tudo ficou na mesma? – Ó Deus, fomos criados árvores sagradas e puras, mas, pela desobediência, nos transformamos em árvores más. Pelo teu Santo Espírito restabelecestes nossa posição original. Incentiva-nos a produzir os frutos da tua graça. Amém” (Martinho Lutero e Iracy Dourado Hoffmann – Graças a Deus [1995] – Vozes).   

Pe. João Bosco Vieira Leite 

Sexta, 11 de setembro de 2026

(1Cor 9,16-19.22-27; Sl 83[84]; Lc 6,39-42) 23ª Semana do Tempo Comum.

“Jesus contou uma parábola aos discípulos: ‘Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco?’”

Lc 6,39.

“Falta, muitas vezes, o senso de autocrítica às lideranças eclesiais. São incapazes de reconhecer suas fraquezas e limitações, e se arrogam o direito de ser juízes impiedosos da comunidade. Em geral, são mestres em reconhecer os defeitos alheios e subestimar as virtudes que encontram nos outros. Como é possível exercer bem a liderança nessas circunstâncias? Trata-se de uma situação semelhante à do cego que se predispõe a guiar outro cego. Consequência inevitável: ambos cairão no primeiro buraco que encontrarem. O bom líder tem agudo senso de autocrítica, sabendo detectar seus pontos positivos e seus pontos negativos. Não se recusa a deixar-se corrigir, pois se reconhece carente de ajuda. E quando deve censurar a falta de alguém, age com mansidão e misericórdia, sem querer usurpar o lugar que cabe a Deus. Por isto, está sempre pronto a perdoar e a contemporizar, tendo em vista ganhar para o Pai o irmão ou a irmã faltosos. Portanto, é preciso banir a hipocrisia do meio das lideranças eclesiais, quaisquer que sejam. Estas não podem aparentar o que não são, nem se servir da religião para acobertar suas mazelas. Quanto mais o líder for transparente tanto mais está capacitado para ajudar o próximo. E quanto mais estiver disposto a corrigir suas faltas pessoais, mais condições terá para corrigir as faltas alheias. – Pai, concede-me suficiente autocrítica que me predisponha a corrigir meu semelhante, sem incorrer na malícia dos hipócritas” (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Quinta, 10 de setembro de 2026

(1Cor 8,1-7.11-13; Sl 138[139]; Lc 6,27-38) 23ª Semana do Tempo Comum.

“Pecando, assim, contra os irmãos e ferindo a consciência deles, que é fraca, é contra Cristo que pecais” 1Cor 8,12.

“Entre os cristãos de Corinto não faltavam motivos de divisão. Um era dado pela questão que dizia respeito à permissividade de comer as carnes antes oferecidas aos ídolos e depois vendidas no mercado. Alguns cristãos pendiam para o sim, outros para o não, e todos aduziam os seus motivos: alguns sabiam que os ídolos não existiam e não governam o mundo e, portanto, comer a carne a eles imolada é insignificante sob o ponto de vista moral; outros pensavam que comer essa carne constituía recair na idolatria e, por conseguinte, viam nisso agir contra a consciência. [Compreender a Palavra:] Os princípios com os quais Paulo responde à pergunta acerca da possibilidade de comer ou não carnes imoladas aos ídolos: as ideias claras, mesmo no campo religioso, não bastam para a vida; o verdadeiro conhecimento de Deus e do homem nasce do amor e leva ao amor. A liberdade cristã não é autonomia abstrata e afirmação individualista do próprio saber, mas é capaz de viver com os outros, tendo em conta as suas exigências, os seus condicionalismos, a sua insuperável dignidade. Quantos acham que os ídolos não existem, porque ‘não há senão um único Deus, o Pai [...] e um só Senhor Jesus Cristo’ (cf. v. 5) raciocinam bem, mas esquecem que a identidade cristã consiste, antes de mais, na caridade: faltar à caridade para um cristão é um contrassenso. O próximo, mesmo se fraco, é sobretudo ‘um irmão por quem Cristo morreu’ (v. 11) e é sempre amado por Jesus por aquilo que é. Pecar contra um irmão, ferindo a sua consciência, é pecar ‘contra Cristo’ (v. 12): não é afirmar a liberdade, mas sim destruir a própria vida, regressar à situação de morte que caracteriza o paganismo” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Tempo Comum – Vol. II] – Paulus).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Quarta, 09 de setembro de 2026

(1Cor 7,25-31; Sl 44[45]; Lc 6,20-26) 23ª Semana do Tempo Comum.    

“Jesus, levantando os olhos para os seus discípulos, disse: ‘Bem-aventurados vós, os pobres,

porque vosso é o Reino de Deus!’” Lc 6,20.

“As palavras de Jesus dirigem-se os pobres que tem diante de si. Servindo-se da segunda pessoa do plural – vós –, seu discurso destina-se aos que são carentes de bens materiais, vindo até mesmo a passar fome; aos que choram, talvez porque tiveram seus direitos negados a sua dignidade aviltada; aos que são vítimas de calúnia, ódio e perseguição, devendo levar uma vida difícil de privação dos bens necessários para viver dignamente. Portanto, um grupo de pessoas carentes de palavras de esperança. As bem-aventuranças visam infundir ânimo e coragem a quem se encontra nessa situação de penúria. Sobretudo os pobres devem ter certeza de que Deus está do lado deles, e que o Reino lhes pertence. Deus mesmo haverá de saciá-los, consolá-los e ser para eles motivo de alegria. A outra face da moeda é representada pelos ricos, pelos fartos, pelos folgazões e pelos que estão preocupados com a fama, a qualquer preço. Estes também encontram-se diante de Jesus, e são o alvo das invectivas que lhe são lançadas com tanta veemência. É provável que fossem eles a causa da situação de carência dos demais, sem se darem conta. Por isso, são declarados malditos. Falta-lhes sensibilidade, pois em seus corações não há lugar para a misericórdia. Isto justifica a severidade com que serão tratados, se não se converterem urgentemente, fazendo-se atentos aos apelos dos necessitados. – Pai, faze-me solidário com os mais pobres deste mundo, e ensina-me a partilhar, de modo que chegue até eles a esperança e a alegria que Jesus veio nos trazer” (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

Pe. João Bosco Vieira Leite

 

Terça, 08 de setembro de 2026

(Mq 5,1-4; Sl 70[71; 12[13]; Mt 1,1-16.18-23) Natividade da Bem-aventurada Virgem Maria.

“Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo” Mt 1,16.

“A primeira vez em que aparece Maria no Evangelho de Mateus, é no fim da genealogia de Jesus: ‘Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo’ (1,16). Em Lucas, aparece pela primeira vez no relato da Anunciação do Senhor. Em Marcos e João, só mais tarde, durante o ministério público de Filho. Em todo caso, Maria só entra no Evangelho em vista de Jesus, como Mãe do Salvador. Embora se note a presença de Maria em muitas páginas dos Evangelhos, mormente de Lucas, é tão discreta e velada a ponto de desaparecer na do Filho. Perde-se e desaparece a vida de Maria na de Jesus. Ela viveu verdadeiramente oculta com Cristo em Deus. Viveu na sombra não só durante a infância, mas também depois, quando Mãe de Deus, até nos momentos de triunfo do Filho e até quando certa mulher, entusiasmada com a pregação de Jesus, ergueu a voz em meio à multidão gritando: ‘Feliz o seio que te trouxe!’ (Lc 11,27). A festa mariana celebrada hoje pela Liturgia é, pois, convite à vida oculta com Maria em Cristo, e com Cristo em Deus. Feliz quem Deus conduz através das circunstâncias, pelo caminho da humildade, da simplicidade, longe de tudo que brilha aos olhos humanos! Só tem de aderir ao plano divino, para entrar nas fileiras dos pobres de espírito a quem o reino dos céus foi prometido. Mas também os que se empenham, por dever, em grandes responsabilidades e estão colocados em evidência, por ofício, na sociedade ou na Igreja, são chamados a imitar a atitude de Maria. Cumpre aprendermos dela a agir de modo a poder servir aos irmãos sem alarde, sem nos fazer valer, sem nos arrogar direitos e privilégios, antes buscando eclipsar-nos, sobretudo quando já não é necessária nossa atividade. Quem aspira imitar Nossa Senhora há de ter ânsia de ocultar-se à sombra de Deus, convicto de que, se lhe foi concedido fazer alguma boa obra, foi dom divino e deve reverter em proveito do bem comum e da glória do Altíssimo” (Gabriel de Sta. Maria Madalena, OCD – Intimidade Divina – Loyola).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 07 de setembro de 2026

(1Cor 5,1-8; Sl 5; Lc 6,6-11) 23ª Semana do Tempo Comum.

“Os mestres da Lei e os fariseus o observavam, para verem se Jesus iria curá-lo em dia de sábado

e assim encontrarem motivo para acusa-lo” Lc 6,7.

“A observância estrita do descanso sabático era para os israelitas de primeiríssima importância; a isso acrescentaram enorme quantidade de prescrições práticas e de proibições que afetavam a observância estrita, uma vez que com elas paralisava-se não só a vida social do povo de Deus, mas ainda dificultava-se seriamente a vida familiar e pessoal dos israelitas piedosos. Jesus quer aliviar aquele jugo que os escribas e fariseus tinham imposto implacavelmente sobre a consciência do povo. Em várias ocasiões escolhe o dia de sábado para realizar as curas dos enfermos, uma vez que a tão humanitária ação era malvista pelos chefes do povo de Deus. Nessa circunstância de que nos fala o evangelho de hoje, você pode refletir sobre dois aspectos: primeiro: os escribas e fariseus ‘observavam’ (v. 7) para ver se surpreendiam Jesus em algo que pudessem criticar nele; já vê nisso a má disposição de espírito e as intenções distorcidas que mantinham contra Jesus; segundo: Jesus cura no sábado; para Jesus é mais importante o exercício da caridade que o cumprimento simplesmente exterior de um aspecto legal. Isso lhe ensina que em sua vida você deve dar importância à caridade; é a primeira das virtudes, a mais importante de todas, a que tem de dar vida e sentido a todos e a cada um dos seus atos; até mesmo os atos aparentemente bons, que você cumpre, se não os faz caridade, isto é, com amor a Deus e ao próximo, perdem a bondade aparente” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

23º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Ez 33,7-9; Sl 94[95]; Rm 13,8-10; Mt 18,15-20)*

1. A parte final do nosso Evangelho aponta para uma realidade que exige de nós um enorme ato de fé: a presença do Senhor, pelo simples fato de estarmos aqui reunidos em seu nome. Ele estará presente mediante a consagração eucarística, é certo, mas não é dessa presença que agora se trata.

2. Em cada um de nós Jesus se faz presente ao outro. É também uma presença real que devemos aprender a reconhecer e a transferir na vida cotidiana. A sua presença aqui também se dá pela Palavra, que exige de nós uma escuta atenta. Hoje Ele nos fala da correção, isto é, de como fazer para ganhar um irmão.

3. A correção, nos moldes do Evangelho é, talvez, a manifestação mais genuína do amor fraterno. Ela exclui qualquer desejo de vingança ou ostentação pessoal e é movida unicamente pelo desejo do bem do outro. E tudo começa no âmbito privado, nas relações interpessoais.

4. O termo ‘irmão’, aqui no âmbito comunitário, pode ser aplicado também à vida familiar, entre amigos, no ambiente onde passamos nossa vida cotidiana. Parece um mandamento fácil e agradável. O que existe de mais natural do que perceber as culpas dos outros? No entanto, se trata de uma das coisas mais difíceis e isto explica por que seja tão rara nos relacionamentos humanos a verdadeira correção fraterna.

5. Jesus não encoraja a caça aos defeitos alheios, a maledicência ou aquela propensão frequente de tornar públicos os defeitos do próximo, embora fingindo estar talvez hipocritamente triste pelo mal que produzem contra a virtude.

6. Trata-se dos teus olhos nos dele, e dizer-lhe abertamente o que te parece digno de reprovação, para que não proceda mais assim ou se esforce por corrigir-se. Agindo dessa forma, tu corres o risco de desagradá-lo, de talvez ver desmontada a tua correção, ou de ouvir dizer, por tua vez, o que ele pensa de ti. Não importa: se te ouves, ganhaste teu irmão...

7. A correção fraterna franca, respeitosa, sugerida pelo Evangelho, se praticada constantemente pelos cônjuges, poderia interromper na raiz aqueles perigosos caminhos de ressentimentos, de friezas e de vinganças que muitas vezes acabam levantando muros de separação, tornando estéreis os melhores casamentos.

8. O Evangelho prossegue dizendo que se a primeira tentativa neste âmbito não surte efeito deve ser a comunidade que deve se encarregar disso. E aqui a correção se torna pública. Estamos falando desse papel confiado por Cristo à sua Igreja, que pode chegar até mesmo à separação dos contumazes do seu meio. Aqui se aplica a mensagem da 1ª leitura.

9. Esse ser vigia, sentinela do mundo, é uma missão quase sobre-humana. A Igreja não pode, por isso, calar, também se muitos gostariam que se calasse. A denúncias das desordens, dos pecados, seja na vida social ou na individual, faz parte dos seus deveres e nenhuma intimidação pode impedir o exercício desse dever. Uma sentinela muda não serviria a Deus nem às pessoas.

10. Cada cristão deve esforçar-se para ser ele mesmo sentinela, isto é, em atitude de escuta da Palavra de Deus, para que possa discernir, sob a ação do Espírito Santo, o que é bom, justo, correto e de acordo com a vontade de Deus, e também a quem deve reconhecer a autoridade, ainda que isso possa gerar impopularidade.

11. Paulo, na 2ª leitura, indica um caminho, talvez único possível, para superar todo eventual conflito entre obediência e resistência, e que vale também para a correção individual entre irmãos: a caridade, o amor. Escutando Paulo, Santo Agostinho escreveu: “Ama e faze o que queres. Seja que cales, cales por amor, seja que fales, fala por amor; seja que corrijas, corrige por amor; seja que perdoes, perdoa por amor. Esteja em ti a raiz do amor, porque desta raiz não pode nascer outra coisa a não ser o bem”.

12. Peçamos por isso a Deus, que disse estar presente no meio de nós, para que nos ensine esta difícil forma de amor que sabe corrigir sem desencorajar e lutar sem ofender.    

* com base em texto de Raniero Cantalamessa.

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sábado, 05 de setembro de 2026

(1Cor 4,6-15; Sl 144[145]; Lc 6,1-5) 22ª Semana do Tempo Comum.

“E Jesus acrescentou: ‘O Filho do Homem é senhor também do sábado’” Lc 6,5.

“Os escribas e fariseus tinham acrescentado ao livro da Lei uma série de minuciosas observâncias e proibições que sobrecarregavam onerosamente a consciência dos piedosos israelitas. A humanidade sempre caiu no erro de considerar a lei, a técnica, a ordem, o poder mais importante que o próprio homem, como se o homem tivesse sido criado para as coisas e não as coisas para o homem. Mas Jesus não pensa assim; antes de mais nada, ele como verdadeiro Filho de Deus está acima de toda a lei acima de todo ordenamento. Ele é o senhor do sábado, o dono da lei, que não tem razão ser, senão nele, em sua divina vontade. Em segundo lugar, Deus criou todas as coisas para o homem, fazendo-o rei da criação, criou o homem para Cristo e Cristo é para Deus” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).   

Pe. João Bosco Vieira Leite

Sexta, 04 de setembro de 2026

(1Cor 4,1-5; Sl 36[37]; Lc 5,33-39) 22ª Semana do Tempo Comum.

“Os fariseus e o mestres da Lei disseram a Jesus: ‘Os discípulos de João, e também os discípulos dos fariseus, jejuam com frequência e fazem orações. Mas os teus discípulos comem e bebem’”

Lc 5,33.

“Desde tempos antigos, a riqueza do mistério pascal foi sendo explicada ao longo de todo o itinerário anual da liturgia da Igreja, a fim de permitir ao crente contemplar a Pessoa de Jesus em todas as fases da sua vida. Enquanto O celebramos, crucificado e ressuscitado, o caminho eclesial ajuda-nos a encontrar as disposições interiores mais aptas para acolhermos o dom da presença de Cristo. Os tempos fortes do Advento e da Quaresma pedem-nos vigilância e conversão dos pecados; o Natal e a Páscoa pedem-nos que nos alegremos pela vida nascida e redimida; o Tempo Comum ampara-nos na fadiga cotidiana, colocando-nos em contato com o ensino e a vida do Mestre. Estes tempos da graça estão já presentes no Evangelho e a discussão surge entre os discípulos de João Batista e os de Jesus justificam os tempos novos inaugurados pelo Nazareno. Se a procura humana é caracterizada por jejuns e penitências escolhidos pelo homem, com a presença de Deus no meio dos homens irrompe a alegria da festa. O relevo é colocado precisamente na festa de núpcias, e não nas fadigas que a vida matrimonial comporta. A sequela de Cristo é uma festa de núpcias e por isso os jejuns e as orações servem de preparação, de aprendizagem para gozar a festa eterna, quando o noivo voltar definitivamente. Falta por vezes, na vivência da vida cristã, a capacidade de gozar, a partir de agora, do bem, da presença de Cristo, da alegria da novidade trazida pelo Evangelho. Se a acusação de tristeza dirigida aos cristãos é verdadeira, então pecamos contra a alegria pelo noivo que celebra a festa conosco. Até a última página da Bíblia, o Apocalipse, contempla o fim dos tempos como o encontro entre os dois noivos. Devemos renovar na nossa vida espiritual o sentido da festa, o gosto pelo lazer, a alegria do encontro, não em prejuízo do trabalho, mas para conceder espaço àquelas dimensões que muitas vezes são sufocadas por múltiplas ocupações” (Giuseppe Casarin – Lecionário Comentado [Tempo Comum – Vol. II] – Paulus).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Quinta, 03 de setembro de 2026

(1Cor 3,18-23; Sl 23[24]; Lc 5,1-11) 22ª Semana do Tempo Comum.

“Jesus estava na margem do lago de Genesaré, e a multidão apertava-se ao seu redor

para ouvir a Palavra de Deus” LC 5,1.

“A cena da pesca milagrosa ilustra a vida missionária dos discípulos do Reino. Tudo começou com um encontro fortuito com Jesus. Comprimido pelas multidões ansiosas para ouvir a Palavra de Deus, o Mestre pediu a Simão um favor: leva-lo em sua barca um pouco para dentro do lago de Genesaré, não muito longe da margem, para que pudesse falar às multidões. Seu pedido foi prontamente atendido. Quando concluiu a pregação, deu a Simão uma ordem inesperada: conduzir o barco para águas mais profundas e lançar a rede. Simão tinha trabalhado, em vão, toda a noite, mas por obediência à ordem do Mestre, lançou novamente a rede. E disto resultou uma pesca espetacular. Entretanto, o fato mais notável foi Simão ter tido a chance de reconhecer Jesus como Messias. O espanto que se apoderou dele e de seus companheiros foi semelhante ao que, no Antigo Testamento, acontecia nas teofanias, quando pessoas achavam que iriam morrer, caso vissem a Deus. Simão reconheceu em Jesus a manifestação da divindade. E Jesus exortou-o a não ter medo, pois sua vida havia sido transformada. Doravante, teria outra preocupação, não mais com peixes, mas com pessoas humanas. Simão aceitou a tarefa de ser pescador de gente, e pôs a seguir Jesus. Começava para ele uma nova vida. – Pai, confirma minha vocação de pescador de pessoas humanas, e conduz-me para águas mais profundas onde se encontram os que mais carecem de meu amor” (Pe. Jaldemir Vitório, sj – O Evangelho nosso de Cada Dia [Ano A] - Paulinas).

Pe. João Bosco Vieira Leite


Quarta, 02 de setembro de 2026

(1Cor 3,1-9; Sl 32[33]; Lc 4,38-44) 22ª Semana do Tempo Comum.

“Ao pôr do sol, todos os que tinham doentes atingidos por diversos males os levaram a Jesus.

Jesus colocava as mãos em cada um deles e os curava” Lc 4,40.

“Jesus dedicou-se à cura dos enfermos e dos possessos; começou curando a sogra de Pedro e continuou curando numerosos enfermos, que o rodeavam suplicantes e não os curava em grupo, mas ‘impondo as mãos sobre cada um deles’, numa atitude de respeito para com a personalidade de cada enfermo. Os próprios possessos dos demônios também ficavam curados, uma vez que ‘de muitos saíam os demônios’ (v. 41) e assim ficavam curados da diabólica enfermidade. Pela presente passagem do evangelho, vemos que Jesus é o refúgio de todas as necessidades, o remédio de todos os enfermos, a calma para todos os angustiados; que nele, e somente nele, os enfermos de qualquer doença poderão encontrar de novo a saúde. Porém não limite essa saúde às enfermidades do corpo; também para as da alma Jesus tem o medicamento oportuno; daí que se você goza boa saúde em seu corpo, mas se encontra fraco na de seu espírito, você também necessita dele e também deve acorrer a ele com a singeleza e a confiança com a qual os enfermos rodeavam Jesus. Quando se sentem ‘enfermos de diversas doenças’: angústias que oprimem o coração ou atormentam o espírito... Dessa maneira, quando você se sentir angustiado por algum mal espiritual, recorra ao seu divino Médico, que tem os meios para podê-lo aliviar de seu mal; o próprio Jesus como médico bondoso nos convida a irmos a ele: ‘Vinde a mim vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei’ (Mateus 11,28). Santo Agostinho, depois de provar todas as fontes que lhe ofereciam para satisfazer sua sede de felicidade, não teve outro remédio senão confessar: ‘Senhor, fizeste nosso coração e o criastes para ti, de sorte que não encontre paz, mas encontra-se inquieto enquanto não descanse em ti’” (Alfonso Milagro – O Evangelho meditado para cada dia do ano – Ave-Maria).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Terça, 01 de setembro de 2026

(1Cor 2,10-16; Sl 144[145]; Lc 4,31-37) 22ª Semana do Tempo Comum.  

“Lucas descreve a libertação dos escravos durante a primeira cura depois de tudo o que Jesus fez e falou na sinagoga de Nazaré. Ele conta, então, que na sinagoga de Cafarnaum havia um ‘possuído por um demônio, um espírito impuro’” (Lc 4,31).

“A palavra ‘demônio’ significa um poder estranho, dominando alguém por meio de sofrimentos, opressão, degeneração, padrões neuróticos, obsessões, ideias fixas. O ser humano pode de tal maneira estar possuído por semelhantes forças ‘que não consegue mais, de forma alguma, ser ele mesmo, perdendo seu poder de falar, sua identidade, sua personalidade, e ficando completamente alheio a si mesmo e ao seu ambiente’ (Venetz, p. 67). Seu pensamento fica perturbado por preconceitos, amarguras, pavores, ciúmes. ‘Cura’ significa, para Lucas, que tal pessoa consegue novamente enxergar com toda a clareza, sendo libertada dos demônios que a escravizam” (Anselm Grün – Jesus, Modelo do ser humano – Loyola).

Pe. João Bosco Vieira Leite

Segunda, 31 de agosto de 2026

(1Cor 2,1-5; Sl 118[119]; Lc 4,16-30) 22ª Semana do Tempo Comum.

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamara libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista;

para libertar os oprimidos...” Lc 4,18.

“Onde Jesus proclama a boa nova da proximidade do Deus bondoso, todos sentem-se livres de sua culpa. Aí os pecadores criam coragem para chegar perto de Jesus, pedindo perdão. Aí eles se sentem incondicionalmente aceitos, apesar de suas culpas. É essa experiência que Lucas faz penetrar no coração dos seus leitores com maravilhosa narrativa da pecadora que teve a coragem de entrar na casa do fariseu, a fim de ungir os pés de Jesus (Lc 7,36-50). Onde Jesus aparece e atua, cria-se um espaço livre em que todos podem novamente respirar aliviados. Deve ser esse o sentido da imagem das roças deixadas sem cultivo. Jesus transmite a ideia de que não devemos continuamente trabalhar em cima de nós mesmos, de que devemos deixar a lavoura de nossa alma descansar também uma vez, na confiança de que Deus há de semear a boa semente. Então, pela graça de Deus, a terra há de render cem vezes mais” (Anselm Grün – Jesus, Modelo do ser humano – Loyola).    

Pe. João Bosco Vieira Leite

22º Domingo do Tempo Comum – Ano A

(Jr 20,7-9; Sl 62[63]; Rm 12,1-2; Mt 16,21-27) *

1. Nossa Liturgia da Palavra se abre com esse trecho do profeta Jeremias. Ele faz um desabafo diante de Deus que o envia a anunciar um tempo de sofrimento para um povo que não o escuta, pois estão acostumados com as palavras dos profetas que acariciam e embalam o povo com previsões de paz e segurança.

2. Nestas condições, o profeta, que fala realmente em nome de Deus, se torna objeto de ironia, a chacota de todos. Falar em nome de Deus se torna uma tarefa desgastante. Ele tenta escapar de tal missão. Mas o profeta não vai desistir, não pode desertar: Deus o seduziu. A Palavra de Deus entrou nele qual fogo devorador que o profeta não pode abafar.

3. Na 2ª leitura, Paulo exorta os cristãos a oferecer-se “em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. E assim chegamos ao Evangelho, onde Jesus nos diz: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. Quem quiser conservar a sua vida vai perde-la... O que adianta alguém ganhar o mundo inteiro se depois vai perder a própria alma?

4. Essas palavras de Cristo, tão austera da cruz, faz tremer as veias e os pulsos de nossa pobre natureza humana. “Renunciar a si mesmo” não são palavras que o nosso tempo goste de ouvir. Talvez fosse melhor ouvir sobre como combater as injustiças do mundo, do que combater e vencer a nós mesmos.

5. Como Jeremias, também nós pregadores gostaríamos de fugir dessa ingrata missão, aparentemente inútil, anunciar ao nosso tempo as palavras que eles não gostam e não querem ouvir. Porque também somos filhos desse mesmo tempo que não quer ouvir falar em cruz.

6. Mas não se trata de simplesmente anunciar a cruz, mas também o de fazer compreender o significado daquele anúncio de Jesus, qual o sentido ela tem para nós, para nossa experiência humana e para o nosso destino.

7. Vivemos numa civilização que recusa e combate a alienação de si mesmo e que propõe, ao invés, o valor supremo da pessoa, a própria realização. O trabalho, o tempo livre, a cultura, toda promoção e emancipação social, tudo é visto em função de uma autorrealização do ser humano. Ele quer vencer, não perder, tanto menos perder sua vida.

8. Enfim, a que somos convidados a renunciar? Não às nossas autênticas possiblidades e aos valores humanos, mas à parte doentia de nós mesmos, o inimigo de Deus e nosso, inimigo que mora em nossa carne: o ser humano egoísta, dominado pela ganância e pela concupiscência, que não é capaz de amar ninguém a não ser a si mesmo e isto ademais, de modo equivocado. O ‘homem velho’, como chama a Bíblia.

9. Dando um passo mais adiante: renúncia por quem e por qual motivo? “Por causa de mim”, diz Jesus, por amor a Deus. Por causa, portanto, de uma escolha, a escolha de Deus em lugar do nosso eu; por causa da esperança que Deus nos oferece além da morte: “que adianta ganhar o mundo inteiro...”.

10. Este caminho estreito que o Evangelho nos traça tem, portanto, Deus como sua meta e prêmio. Mas tem Deus também em seu início. Jesus, com efeito, inaugurou e percorreu pessoalmente este caminho e por isso ‘tomar a cruz’ significa agora ‘ir após ele’, colocar os pés em suas pegadas, segui-lo. Jesus fala da cruz dos discípulos, depois de falar da sua.

11. Ao terceiro dia ressuscitará e também seus discípulos vão ressuscitar. É este evento da morte e ressurreição do Salvador a fonte e o modelo do nosso perder-nos para reencontrar-nos, do nosso morrer para viver.

12. Este evento se repete agora diante dos nossos olhos no sacrifício da missa. Procuremos haurir desse acontecimento a coragem para segui-lo e o propósito de oferecer de verdade a nós “mesmos em sacrifício vivo a Deus”. Senhor, ensina-nos a perder-nos para reencontrar em vós a vida eterna.    

* com base em texto de Raniero Cantalamessa.    

Pe. João Bosco Vieira Leite